
Sociólogo.
Lúcio Carril
MINHA COMPANHEIRA DESCOBRIU O MUNDO
Seu coração conhecia a ternura. Ela só não sabia que existia um mundo em passo e descompasso. Nunca deixava que a tristeza lhe tomasse o sorriso. Sentia que havia algo a ser descoberto.
Viveu todos os minutos que a vida lhe exigiu. Resistiu, se angustiou, muitas vezes chorava sozinha, escondida na solidão, mas no fundo sabia que havia um mundo a ser conhecido.
Os anos foram passando. Estudou, conquistou diploma, teve filhos, foi a esposa que todo homem sonhou em ter. Mas lhe faltava o mundo. Não como metáfora e sim como realidade ainda desconhecida.
Naquele sorriso encantador havia uma certa angústia, pois faltava alguma coisa. Ela não sabia. Ninguém ao seu redor sabia. O incômodo era quase imperceptível, no entanto ele existia, calado. Ela não sabia que faltava conhecer o mundo.
O tempo passou. Novos desafios surgiram, implacáveis e ameaçadores. Ela não sabia, mas era o mundo lhe impondo razões até então não vividas. Não se intimidou. Se tornou uma tempestade. Agora era gente e natureza.
O mundo estava se abrindo, como uma porta que não existia aos seus olhos. Por trás, uma realidade desconhecida. Não o suficiente para amedrontá-la.
E assim minha companheira foi descobrindo o mundo, além daquela vida certa e quase definitiva. Ela conheceu a incerteza e o caos, descobriu que meter o pé na porta era gostoso, dava um prazer ainda não vivido.
Agora minha companheira caminha sobre o asfalto. O mundo que não conhecia lhe trouxe novas angústias, sofrimento e desespero. Mas é o mundo real, sem paredes nuas para se encostar. Ela cresceu na sua humanidade e seu sorriso é de quem está descobrindo o mundo das coisas.
Minha companheira descobriu as luzes, suas cores, reflexos e encantos. Ela descobriu as vozes das mulheres silenciadas pela opressão e se revoltou com isso. Descobriu o paradoxo, conheceu a indignação e o antagonismo.
Minha companheira se fez mais humana e mais bela. Agora seu sorriso é da completude, tem os traços de quem descobriu o mundo. Claro, lhe trouxe dor, porque conhecer o mundo causa dor, mas lá no fundo aquele sorriso é de satisfação por agora saber das coisas do mundo.
O coração da minha companheira continua cheio de ternura, mas agora ela descobriu o mundo e virou uma tempestade. Não se cala diante da opressão. Ao caminhar sobre folhas secas, ouve seu estalido e, sorrindo, lembra da valsa vienense.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 29.07.2026
COMUNICAÇÃO NA AMAZÔNIA: PECULIARIDADES E DESAFIOS
No Brasil, há 391 etnias e 295 línguas indígenas, com quase 475 mil falantes. A população indígena do país é de 1.694.836
Os dados são do Instituto Brasileiros de Geografia e Estatística (IBGE), no Censo Demográfico 2022 ─ Etnias e línguas indígenas.
A maioria dessas línguas são faladas por povos indígenas da Amazônia.
Em 2023, o estado do Amazonas reconheceu oficialmente 16 línguas indígenas como patrimônio cultural imaterial, tornando-as cooficiais, incluindo Nheengatu, Tukano, Baniwa e Yanomami.
Somente o estado do Amazonas tem 490. 935 pessoas indígenas. 149.080 vivem em territórios aldeados e 341.855 fora deles. A população indígena do Estado se divide em 259 etnias, com 168 línguas faladas.
O estado do Pará tem 222 etnias indígenas e 80.974 pessoas indígenas.
Segundo pesquisa realizada pela Universidade Federal do Pará, em 2021, no estado são faladas 34 línguas
.
A Amazônia Legal tem 868.419 indígenas.
A Amazônia abrange nove países da América do Sul, com quase 7 milhões de km². Cerca de 60% está dentro do território brasileiro.
Esses números são necessários para mostrar o tamanho do desafio em fazer comunicação na Amazônia.
Dados de 2025, do Atlas da Notícia, plataforma que estuda o deserto de informação midiática no Brasil, revelam que a região norte lidera em deserto de notícias no país.
42,9% do território não contam com cobertura jornalística local. Mesmo em locais com internet, há ausência de jornalismo profissional. Em muitos casos, as rádios ainda usam autofalantes em postes.
Os principais veículos de comunicação são sediados nas capitais e os que existem nos municípios menores divulgam notícias institucionais.
Em 2025, 93 veículos de comunicação entraram em inatividade na Amazônia, com destaque para o estado do Amazonas, com 28 veículos inativos.
Essa realidade tem facilitado os crimes ambientais, com falta de cobertura local e ausência de informações.
No Brasil, em 2017, 63,1% dos municípios não tinham cobertura de sinal de internet ou energia, segundo levantamento feito pelo Censo Atlas da Notícia, projeto do Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor). Em 2023, ainda eram 49%.
2.504 municípios não têm jornalismo local ativo, ou seja, 9 de cada 20 cidades brasileiras são desertos de notícias. São 20,7 milhões de pessoas que vivem nessas áreas.
É possível que na Amazônia a cobertura tenha melhorado, com programas oficiais de universalização da luz elétrica, mas o vazio de informação é uma realidade em muitas regiões e comunidades tradicionais, sejam elas indígenas, quilombolas, extrativistas ou ribeirinhas. A existência de redes sociais não diminuiu o deserto de notícias, já que muitos municípios não contam com profissionais de comunicação ativos.
Considerando que a informação passa a existir quando alguém dela se apropria e lhe dá significado, a diversidade linguística da Amazônia torna a região um campo desafiador para profissionais da comunicação e para o Estado brasileiro. A escrita é um meio valorativo que não determina toda comunicação/informação. Gestos, imagens, oralidade e outras várias manifestações podem criar uma relação de comunicação entre sujeitos.
Mas a comunicação/informação não se encerra em si mesmo. Além de ser uma necessidade de interação social, ela também é uma relação de poder.
A exclusão que cria o "deserto de informação midiática" e a manipulação da informação pode estar sendo usada dentro da Amazônia com o escopo de manter relações de poder verticalizadas, impedindo populações de terem acesso à informação de qualidade e criando campo fértil para as chamadas fake news.
O foco de facilitação criado pelo deserto de notícias é, justamente, a exploração ilegal da riquezas naturais da maior floresta tropical do mundo. A falta de informação e a desinformação se tornam instrumentos de dominação e proliferação dos crimes ambientais na região amazônica.
Há quem diga que o conceito de deserto de informação tem limitações epistemológicas, pois foi desenvolvido a partir de realidades urbanas, não aplicáveis à Amazônia, onde existe um outro ecossistema informativo.
Rádios comunitárias, igrejas, redes sociais, emissoras de TVs, organizações indígenas, aplicativos de mensagens compõem o universo da comunicação amazônica. Nesse caso, o fenômeno não poderia ser analisado com o uso de ferramentas teóricas aplicadas à mancha urbana.
Para aguçar a controvérsia.
Seria esse outro ecossistema comunicativo tão eficiente e rápido quanto o modelo que existe nas áreas urbanas? As comunidades indígenas, ribeirinhas, extrativistas e de agricultores ficariam fora, eternamente, do processo de desenvolvimento tecnológico da informação, fadados ao "sistema analógico"?
A velocidade da informação criada com o advento da internet e suas possibilidades de amplo alcance, inclusive em territórios isolados geograficamente, precisam ser considerados como direitos cidadãos. Não é possível defender dois mundos, um conectado e outro sem acesso à informação ou com informação precarizada ou manipulada.
Outro dia, conversando com o sociólogo e ativista ambiental, Adilson Vieira, ele me falou sobre a realidade das comunidades quilombolas do Maranhão. Visitou algumas e o choque com a falta de qualidade de vida dessa gente é inevitável. Falei que não se trata de caso isolado. Na Amazônia não é diferente.
A Amazônia Legal tem 2.494 comunidades quilombolas em 632 territórios, que abrangem uma área de 3,6 milhões de hectares. O Instituto Socioambiental (ISA) e a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas revelam que o número de territórios é 280% maior que o registrado oficialmente. Maranhão e Pará têm as maiores presenças.
Essas comunidades protegem 92% da vegetação nativa em suas áreas.
Essas comunidades têm necessidade de conectividade com o mundo veloz da informação, seja para troca de experiências ou para universalizar suas reivindicações de cidadania.
O isolamento de comunicação não ajuda em nada a Amazônia e o Brasil.
É óbvio que existe outro sistema de comunicação na Amazônia. A própria interação social entre comunidades facilita essa troca, no entanto, estamos falando de acesso à tecnologia da informação, que não pode ficar restrito às áreas urbanas. As comunidades tradicionais têm o direito de escolher.
É preciso expandir a infraestrutura de conectividade na região, levando-a às pequenas comunidades, dentro da floresta e às margens dos rios.
É preciso produzir informações em línguas indígenas, abordar temas regionais, fazer inclusão digital, através do uso crítico das tecnologias, apoiar agências de notícias e veículos de comunicação que produzem conteúdos amazônicos.
Esses mecanismos de inclusão, além da promoção da cidadania, ajudarão na implantação de políticas públicas e no combate à desinformação.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 23.07.2026
CARTA DE UM ANORMAL FELIZ A AMIGOS E AMIGAS ANORMAIS E FELIZES
"Tenho amigos para saber quem eu sou, pois vendo-os loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a normalidade é uma ilusão imbecil e estéril."
Sérgio Antunes de Freitas
Acordei pensando na gente. Pensando nas coisas que já fizemos, nas coisas que já passamos e não deixei de pensar nas coisas que ainda faremos juntos.
Sim, acordei com um sentimento de amizade, de amor e carinho mais fortes por você. Nunca me deixarei abater pela maledicência, pelo preconceito e até mesmo pela inveja da nossa relação.
"A normalidade é uma ilusão imbecil e estéril".
Nós nunca seremos normais, enquadrados num sistema mesquinho de vida. Você nunca será normal, pois se assim fosse você já teria perdido a dignidade e o amor próprio.
Acordei mais disposto a te amar e amar todos meus amigos e amigas que não são normais. Acordei com os olhos mais abertos para a vida e a mente mais arejada para entender a minha existência como algo anormal, fora dos padrões dos que se acham normais e querem impor sua forma de ver o mundo.
Que todos os imbecis se lasquem que eu e você continuaremos juntos.
Beijos. E vamos logo beber e cantar a esperança.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 21.07.2026

SOBRE A AMEAÇA DE FECHAMENTO DO BAR DO ARMANDO, EM MANAUS
Inicio este texto dizendo que a sociologia não fulaniza e nem trata de problemas isolados. As ciências sociais tratam de fenômenos sociais. Quando um problema surge, ele só deve receber a atenção da sociologia se ocorrer coletivamente no campo social, cultural e histórico.
Sobre o fechamento do tradicional Bar do Armando, em Manaus, à ciência que estuda a sociedade interessa saber da memória da cidade e os impactos que o encerramento de espaços coletivos causam na vida cultural e na história dessa cidade e do seu povo.
É óbvio que os atores devem estar presentes na análise, mas não fulano A ou B e sim as instituições. Não interessa se o diretor, dono, curador é de direita, de esquerda, brasileiro ou japonês.
Bar é um espaço cultural porque é coletivo, é de frequência coletiva, sociabilidade, circulam ideias e faz parte da memória da cidade. Ele não existe apenas num único lugar, cidade ou país. Ele se define culturalmente de acordo com cada sociedade. Mesmo um boteco na periferia tem esse perfil se ele atravessou o tempo naquele lugar.
As cidades vêm perdendo seus espaços culturais e de memória. Prédios seculares são derrubados para dar lugar a verdadeiros monstrengos arquitetônicos. Espaços coletivos de convivência e desenvolvimento cultural são fechados pela ganância de grupos econômicos ou instituições.
No caso do Bar do Armando, a igreja católica é a proprietária do prédio. Não somente desse prédio, mas de vários outros no entorno do templo de São Sebastião, uma região de alto valor imobiliário.
A ganância da instituição é secular e não causa estranheza em querer fechar um espaço cultural e de memória para ganhar mais dinheiro. A história da igreja católica carimba essa conduta. Sua riqueza foi construída com pilhagem e mortes de centenas de povos. Quem nunca leu um livro de história, deve, pelo menos, ter visto um filme sobre As Cruzadas.
Em nome de Deus, pilhou, roubou, matou
.
Em nome de Deus, hoje vive da especulação imobiliária e seu monarca absoluto vive numa sede que ostenta riqueza e jogo financeiro milionário. Livros de vaticanistas revelam que naquele Reino a ganância se impõe.
É sobre esses dois sujeitos que devemos tratar, objetivamente, e não ficar fulanizando um problema coletivo.
É a memória de Manaus que está sofrendo ataque de uma instituição com histórico de saque e destruição. Foi assim que fecharam os cinemas de Manaus e seus prédios foram derrubados, dando lugar a monstrengos da arquitetura. Foi assim que destruíram teatros, bares, casas de espetáculos, bibliotecas, livrarias, etc. É assim que destroem um povo.
Se não é uma instituição religiosa, é um banco, uma grande empresa estrangeira ou um milionário ignorante. No final, é o poder econômico e político que não respeita a memória do povo e termina por impor sua ganância.
Quem não lembra do prédio do Teatro Oficina, que o bilionário Sílvio Santos queria tomar?. Zé Celso Martinez estava errado em lutar? Felizmente, o estado de São Paulo desapropriou o terreno e o teatro ficará lá.
É disso que estamos falando.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 17.07.2026
O QUE TIROU MARCELO RAMOS DA DISPUTA ELEITORAL PELO SENADO
A direção nacional do PT repete com Marcelo Ramos o que fez com Praciano.
Em 2018, Praciano seria eleito senador, mas foi jogado para escanteio. Agora, Marcelo iria disputar o senado com grande possibilidade de eleição. Novamente, a direção nacional do partido enterrou esse projeto.
O PT do Amazonas vem tendo muito problema com a direção nacional.
Teve um ano que o deputado Sinésio Campos foi escolhido para ser candidato a prefeito de Manaus. Foi tirado na marra pela direção nacional. O ex-senador João Pedro foi eleito pelo partido para ser vice na chapa de Eduardo Braga. Foi tirado na marra pela presidente nacional do PT.
Não se trata de posição estratégica do jogo político-eleitoral. O que existe nisso é um enorme preconceito com a Amazônia. O olhar da direção nacional do partido, majoritariamente composta por gente do sudeste (leia-se, São Paulo) é de bandeirantes.
Os dirigentes ainda pensam que podem entrar, capturar indígenas e mantê-los sob cativeiro. A Amazônia e os povos que aqui vivem ainda sofrem com a prática colonialista do sul. Não se trata de uma visão regionalista, mas de história.
A direção nacional do PT é colonialista, quando se trata da Amazônia. Não ouve a militância, não respeita as decisões da instância partidária estadual. O Amazonas é apenas uma moeda de troca.
Quanto à pressão política do senador Eduardo Braga para tirar Marcelo da disputa eleitoral, já era de se esperar.
Não existe justificativa eleitoral, já que serão eleitos dos senadores este ano. Marcelo não tiraria voto de Eduardo. A pressão do senador de direita tem viés político e ideológico.
Marcelo é um quadro político preparadíssimo. Um dos melhores do Amazonas e do Brasil. É jovem. Tem grande capacidade de articulação e de se comunicar com o povo. Mesmo sem mandato ou cargo público, vinha crescendo nas pesquisas de opinião. Seria um nome com viabilidade eleitoral.
A perseguição do Eduardo Braga para cassar a candidatura do Marcelo Ramos é ideológica.
Marcelo é do campo de esquerda e o senador de direita, que votou pela cassação da presidente Dilma, teme sua ascensão. Marcelo não tem história suja e apresentaria para a sociedade uma possibilidade da ação política com ética e honestidade. Isso incomoda quem faz política pensando no seu bolso. No bolso de quem é roubado para encher o bolso de quem rouba dinheiro público.
A ação traiçoeira de Eduardo Braga para tirar Marcelo Ramos da disputa eleitoral pode ir além do viés ideológico. Pode ter acordo sujo para beneficiar uma candidatura da extrema direita. Desse indivíduo tudo é possível. Ele não tem qualidades humanas como ética, empatia e moral.
Felizmente, temos outros nomes do campo democrático e popular para votar para o senado. O voto consciente jamais será dado a quem tem história sórdida e rasteja na lama podre da desonestidade.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 15.07.2026
O GATO QUE ME FEZ MAIS HUMANO
Meu gatinho partiu.
Partiu, não sem me fazer mais humano.
Sim. Nós não nascemos seres humanos. Nós nos construimos seres humanos, pois somos seres biológicos e culturais.
Sem humanidade, aqueles valores intrínsecos aos seres humanos e adquiridos no convívio social, seríamos apenas seres vivos, como um vegetal ou um inseto.
Mendigato, ou apenas Mendi, viveu 10 anos conosco. Era muito carinhoso, amável e sossegado. Também era valente. Protegia o território dele.
Me ensinou muito. Todos meus gatinhos me ensinam muito a construir minha humanidade.
Fui uma criança que maltratava gatos, assim como quase toda garotada maltratava animais. Fui crescendo e aprendi a amar outros seres humanos, respeitá-los, lutar pela felicidade de todos.
E foi justamente do maior amor que temos, os filhos e filhas, que aprendi a amar os animais.
María Júlia resolveu adotar uma gatinha, a Mel. Um ano depois, o vizinho do lado também adotou um gatinho. Só que não o alimentava e ele vinha comer a ração da Mel. Logo passamos a chamá-lo de Mendigato. Ele foi ficando, o vizinho mudou e o Mendi ficou com a gente.
O mundo tem melhorado no tratamento dos pets. Na minha infância não era assim, principalmente, na minha classe social. Mas hoje é um bom sinal de desenvolvimento da humanidade.
Mendi partiu, mas deixou uma herança de mais amor e respeito pelos seres vivos. Todo animalzinho que criamos nos deixa essa herança. Se não nos tornamos mais humanos, não foram eles que falharam, fomos nós que nos embrutecemos.
Se amas um bichinho, és capaz de fazer do amor uma resistência à toda maldade do mundo.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 12.07.2026
O RACISMO DE ESTADO CONTINUA MATANDO A POPULAÇÃO NEGRA
Doze policiais invadem uma escola para intimidar diretora e professores, em São Paulo. Motivo: aula de história e cultura afro-brasileira.
Policiais militares invadem um centro religioso de matriz africana, no Amazonas, e apreendem objetos litúrgicos, sem mandado e sem autoridade para a ação arbitrária.
Essa prática nefasta tem nome: racismo de Estado.
O conceito de racismo de Estado foi criado pelo sociólogo francês Michel Foucault, que aponta a discriminação racial como tecnologia de poder, dividindo a sociedade entre aqueles que serão protegidos e aqueles que serão excluídos. O critério racial determinado pelo Estado escolhe quem deve viver e quem deve morrer ou ser deixado vulnerável à morte.
O racismo de Estado atirou milhões de negros e negras à condições precárias de vida, à marginalização e expostos a todo tipo de violência. Isso tem raízes históricas, que remonta o período pós-escravidão, quando o Estado não criou política pública de inclusão, acesso à terra, moradia, educação e saúde à população recém-liberta. Pelo contrário, o Código Penal de 1890 criou o crime de vadiagem e criminalizou a capoeira para punir o povo negro.
O resultado desse racismo estrutural dentro do Estado brasileiro é a eliminação física da população negra e o genocídio da sua juventude. O aparato policial tem servido como mecanismo de extermínio, com a leniência do poder judiciário e o silêncio da sociedade.
A Rede de Observatórios da Segurança lançou nesta quarta-feira (1) a sétima edição anual do relatório “Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã”, estudo que monitora dados de letalidade policial fornecidos pelas secretarias de segurança de nove estados — Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pará, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo — para revelar as desigualdades cometidas contra a população negra.
Em 2025, houve um aumento de 6,4% da letalidade policial, em relação ao ano anterior. Foram 4.330 mortes somadas nos nove estados monitorados. 86,3%, ou 3.104 pessoas, eram negras. Jovens de até 29 anos representam 64,8% do total de mortos (2.804 vítimas). Quase todos, homens moradores da periferia, morros e favelas.
Em sete anos, foram 28.799 mortes de jovens negros.
O Amazonas aparece no estudo com a maior proporção de vítimas negras, lamentavelmente.
Em 2025, foram 43 mortes decorrentes de intervenção policial. 96% da vítimas foram pessoas negras.
Um fato que nos chama atenção é a ausência de reconhecimento pela Secretaria de Segurança do Amazonas de vítimas indígenas, num estado onde 12,6% da população se autodeclara indígena.
A agência de notícias Alma Preta destaca neste primeiro de julho, em matéria especial sobre o tema.
"Outro aspecto relevante é a interiorização da violência policial. As mortes se espalharam de 10 para 16 municípios, e o interior passou a concentrar 62,8% dos casos, enquanto a capital Manaus respondeu por 37,2% das vítimas."
"O município de Coari, sozinho, concentrou 16,3% das mortes do estado, embora reúna apenas 1,6% da população. As vítimas são majoritariamente jovens, e a Polícia Militar foi responsável por 75% das ocorrências."
Como é possível perceber, o aumento da letalidade policial no interior do Amazonas acompanha o crescimento do crime organizado no estado. Sob o manto do "combate às drogas", o Estado aplica seu filtro de suspeição sobre a população negra e periférica.
E o sistema prisional?
Este opera como mecanismo de controle social, onde a cor e a classe social determinam o rigor da punição e do aprisionamento.
Dois terços da população prisional brasileira são de negros e pardos. São jovens de baixa escolaridade, acusados de tráfico varejista de drogas.
O sistema de justiça criminal e o aparato policial são os principais executores do racismo de Estado. Eles são responsáveis pelo extermínio físico e social da população negra. A operações policiais nas periferias do país focam nas pessoas de pele negra, assim como há seletividade penal no encarceramento dessa gente. Na hora de tipificar o crime, pesa a cor da pele.
O filósofo camaronês Achille Mbembe classifica essa prática do racismo estrutural de necropolítica, quando o Estado define quem pode viver e quem pode morrer. A periferia virou zona de exceção e a "bala perdida" naturalização da morte de civis, principalmente negros, jovens negros.
Enquanto ocorre esse extermínio do povo pobre e negro nas periferias do Brasil, no Congresso Nacional repousam leis e regulamentações para acabar com o perfilamento racial nas abordagens policiais e punir com rigor o racismo nos estádios de futebol. Até mesmo o uso de câmeras corporais pela polícia é um desafio diante da força do racismo de Estado.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 06.07.2026
O CORPO COMO POESIA
A alma não campeia solitária na arte de poemar e o corpo se tornou fonte de inspiração para as mais profundas divagações do espírito poético.
As prisões que submetem o corpo à útil docilidade encontraram na poesia uma forma de fuga e resistência . Vigiar e punir para dominar não inspirou o poeta. Foi na beleza do ser que ele galgou montanhas e passeou entre jardins para expressar os movimentos que encantam.
"Teu corpo claro e perfeito,
– Teu corpo de maravilha,
Quero possuí-lo no leito
Estreito da redondilha...
Teu corpo é tudo o que cheira...
Rosa... flor de laranjeira..."
Nos presenteou Manuel Bandeira.
Mas o poeta também encontrou no corpo as palavras para sua fina ironia.
Quintana ironizou, brincou, filosofou...
"O milagre não é dar vida ao corpo extinto,
Ou luz ao cego, ou eloquência ao mudo...
Nem mudar água pura em vinho tinto...
Milagre é acreditarem nisso tudo!"
O corpo está presente na história, nas imolações cruéis da opressão religiosa, nas modelagens das fábricas de montagem, no jugo misógino, mas a poesia foi sua redentora.
Drummond foi profundo e entrelaçou o corpo a alma.
"A metafísica do corpo se entremostra
nas imagens. A alma do corpo
modula em cada fragmento sua música
de esferas e de essências
além da simples carne e simples unhas.
Em cada silêncio do corpo identifica-se
a linha do sentido universal
que à forma breve e transitiva imprime
a solene marca dos deuses
e do sonho."
Cabelos, mãos, bocas, olhos, movimentos, o andar, a respiração, os mais sensíveis gestos de amor, o poeta observou e fez do corpo uma constelação inspiradora.
Escreveu Fernando Pessoa
"As tuas mãos terminam em segredo.
Os teus olhos são negros e macios
Cristo na cruz os teus seios (?) engulos
E o teu perfil princesa no degredo..."
E foi Arnaldo Antunes que perambulou pela breve anatomia do corpo.
"O corpo existe e pode ser pego.
É suficientemente opaco para que se possa vê-lo.
Se ficar olhando anos você pode ver crescer o cabelo.
O corpo existe porque foi feito.
Por isso tem um buraco no meio.
O corpo existe, dado que exala cheiro.
E em cada extremidade existe um dedo.
O corpo se cortado espirra um líquido vermelho.
O corpo tem alguém como recheio."
E o corpo feminino deixou de ser objeto e a poesia o descobriu na sua plenitude, sem o desejo que vulgariza, apenas como valor de quem ama e pode ser amada.
Neruda:
"Corpo de mulher, brancas colinas, brancas coxas,
pareces-te ao mundo em tua atitude de entrega.
O meu corpo de camponês selvagem te escava
e faz com que do fundo salte o filho da terra."
O poeta libertou o corpo ao lhe dar alma, espírito e vida, sem a docilização amarga que pune e oprime.
O corpo se fez liberdade na poesia.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 26.06.2026
QUANDO O MACHISMO VIRA DOENÇA DA ALMA
Um salto e um sonho de voo. O momento de plena liberdade superou o medo e tudo que ela queria era sentir seu corpo mergulhado no nada por alguns instantes. Depois, um balançar seguro, um pêndulo e a gravidade, apenas.
O que seria uma breve aventura juvenil se tornou um mergulho sem volta. O sonho se destruiu na irresponsabilidade de quem deveria garantir segurança.
Mas tão lamentável quanto a morte de uma mulher jovem foram as manifestações de desrespeito e selvageria nas redes sociais. Por dias, necrófilos se revezaram violando aquele corpo feminino sem vida.
Mensagens foram postadas, sem o menor recato, manifestando desejo macabro de consumo do corpo daquela moça que sonhava voar. Tudo que os necrófilos viam era o objeto da sua volúpia doentia. Não era um corpo feminino inerte, vítima do imponderável. Era um corpo a ser consumido, sem reação da vítima, que agora já não tinha vida.
O desejo sombrio de prazer sexual pelo cadáver, manifesto publicamente por uma horda de psicopatas, violou o corpo não apenas da jovem moça. Profanou o sagrado e destroçou toda existência humana. O altruísmo foi atirado no abismo da degenerescência.
A violação, por redes sociais, do corpo morto é uma prática que junta tecnologia da comunicação e total ausência de limite ético, moral e, até mesmo, humano. Quando necrófilos se utilizam da comunicação de massa para manifestarem seus desejos lúgubres, algo muito grave está ocorrendo na humanidade.
A objetificação da mulher se manifesta não mais em círculos sociais. Agora seu corpo está sendo violado e violentado em rede mundial, sem o menor escrúpulo e com total falta de natureza humana. O machismo estrutural não apenas agride, oprime e mata. Agora, violenta abertamente a mulher morta.
É o nível mais perverso e inumano criado pelo sistema patriarcal. Não é exceção. É a precipitação da conduta misógina e machista. Não existe mais alma nesses indivíduos rastejantes. São seres sem essência, sem amor próprio, sem qualquer resquício de compaixão.
O machismo que mata, também estupra o corpo feminino morto. E o ato de extrema violência é publicado com manifesto de regozijo e pretensa autoafirmação. Não existe mais alma nesse indivíduo. A doença machista chegou ao seu estado terminal.
Se trata de uma enfermidade social, agravada pela insistência em objetificar a mulher. É o fundo de um poço sem água, sem vida, sem oxigênio, repleto de lama fétida.
Minha solidariedade a todas mulheres. Sei que a violência não as intimidará. Pelo contrário, a luta vai continuar. A luta emancipatória das mulheres é uma luta pela humanidade e pelos melhores valores humanos.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 20.06.2026
A MARCHA CONTRA JESUS E A BLASFÊMIA DOS FARISEUS
Religião sempre teve a ver com política, apesar do Estado reivindicar sua laicidade nos tempos modernos.
O catolicismo foi base ideológica do sistema feudal por mais de mil anos e a igreja católica acumulou riqueza nesse período, chegando a ser a maior proprietária de terras na idade média; quando terra era poder.
Em nome de Deus e de Jesus a Igreja torturou, matou e saqueou.
Com o desenvolvimento do capitalismo, uma outra doutrina religiosa passou a servir aos novos interesses políticos e econômicos. No início, o movimento foi chamado de protestantismo.
A agiotagem e a poupança de dinheiro deixaram de ser coisa do demo e passaram a ser abençoadas pelas orações de pastores. O evangelho foi revisto para atender a nova realidade econômica.
A religião é isso. É uma base ideológica do poder. E como o poder tem sua face nefasta e autoritária, a doutrina é vendida por falsos profetas aos novos fariseus, uma horda de hipócritas que passa longe dos ensinamentos cristãos.
Falo em estrutura de pensamento e em instituição hierarquizada, social e politicamente organizada. Ou seja, em doutrina e igreja.
Essa história, no entanto, não tem só um lado. Dentro da igreja, ou das igrejas, há resistência de homens e mulheres imbuídos do verdadeiro espírito cristão de solidariedade e fraternidade. O problema está a preponderância de falsos pastores, que aprofundaram a instrumentalização da religião como objeto de cobiça e poder.
É isso que está acontecendo no Brasil com o chamado neopentecostalismo.
Essa corrente doutrinária praticamente sepultou o cristianismo enquanto religião dos pobres e se abriu para o vil metal, adquirido através do poder dos exploradores do povo. São pastores fariseus guiando um rebanho de incautos em oposição ao ministério de Jesus Cristo.
Não há um só resquício dos princípios de fraternidade, justiça e solidariedade que orientam o cristianismo nessa corrente evangélica. Seus seguidores são manipulados como um rebanho bovino, levados ao extremo da indignidade quando são postos a serviço da mais hedionda política, aquela que engana e massacra o povo.
Me solidarizo com os bons cristãos, que lamentam tão abjeta blasfêmia contra seu Deus e clamo para que estejam sempre ao lado dos mais necessitados.
Jesus Cristo nunca esteve caminhando ao lado dos opressores e por isso foi vítima deles, mas não se deixou dominar ou enganar.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 13.06.2026
O QUINTA-COLUNA
Traidor, espião, informante, inimigo da própria pátria, infiltrado.
Esses são alguns dos sinônimos que designam um quinta-coluna.
O termo foi criado durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), quando quatro colunas militares do General Franco marchavam para cercar Madrid e o general Emílio Mola, comandante das forças franquistas, disse que contava com uma quinta coluna dentro da cidade.
Se referia aos sabotadores infiltrados entre os republicanos. Espanhóis que apoiavam o inimigo. Francisco Franco ficou no poder por 36 anos, com apoio dos quintas-colunas.
No Brasil, traidores, delatores e agentes infiltrados ficaram conhecidos na história por seus atos infames.
O mais simbólico deles foi Joaquim Silvério dos Reis, que em 1789 delatou Tiradentes e os planos da Inconfidência Mineira ao sabujo do rei de Portugal em Minas Gerais e governador da província, Visconde de Barbacena.
Silvério dosr Reis traiu o movimento libertário mineiro em troca de benefícios pessoais, muito parecido com uma família conhecida no Brasil de hoje.
Outra figura perversa foi aquele que ficou conhecido como Cabo Anselmo, um militar infiltrado na luta de resistência à ditadura militar de 1964.
Cabo Anselmo foi responsável por dezenas de assassinatos cruéis de militantes de esquerda pela ditadura. Em 1973, sua companheira, Soledad Barrett Viedma, grávida do traidor, foi presa, barbaramente torturada e morta pelos militares, junto com o filho que tinha no ventre. Foi Cabo Anselmo quem a delatou.
Hoje, o nome do traidor da pátria, delator, agente de país estrangeiro e quinta-coluna atende pelo nome de Bolsonaro. Pode ser o pai, preso por tentativa de golpe e plano para assassinar o presidente eleito, ou pode ser um filho, tanto o que atende por nome Flávio , como Eduardo.
Flávio Bolsonaro é um velho conhecido das tramas contra o regime repúblicano. Entende-se aqui república na origem latina da palavra: "coisa pública" ou "coisa do povo".
Esse personagem pérfido não tem o menor apreço pelo sentido público do exercício de um mandato concedido pelo povo.
Como deputado estadual do Rio de Janeiro, empregou parentes de milicianos no seu gabinete e condecorou líderes do crime organizado. Em meio aos acordos, instituiu um mecanismo de desvio de dinheiro público, que ficou conhecido e comprovado como Rachadinha.
Mais recentemente, como senador da república, juntamente com seu irmão, Eduardo, se dedica à tramoias contra o Brasil, em conluio com o presidente dos Estados Unidos da América, o fascista Donald Trump.
Pedido de taxações absurdas contra exportações brasileiras e promessa de entrega das riquezas nacionais caso seja eleito presidente são algumas das ações empreendidas pelo herdeiro de Joaquim Silvério dos Reis.
Mas como diz minha companheira Carla Sarrazin, a fruta não cai longe do pé.
Flávio Bolsonaro é filho de um conhecido terrorista, que está preso na papuda, em Brasília. Seu pai tentou explodir quartéis do exército quando era militar e seus adeptos atentaram contra os poderes da república, inclusive chegando a planejar atentado contra aeroportos e contra a vida de autoridades da república.
O sociólogo Aldenor Ferreira, em artigo publicado recentemente, defende a criminalização do que ficou conhecido no Brasil como bolsonarismo. As razões apresentadas são claras: "o movimento se consolidou como uma estrutura permanente de ataque à democracia, à soberania nacional, às instituições republicanas, à ciência e à própria ideia de verdade objetiva."
Enquanto o último desses traidores não estiver trancafiado numa prisão de segurança máxima, o povo brasileiro precisa isolá-los do convívio republicano. São traidores da pátria e do povo.
Traidor, espião, informante, inimigo da própria pátria, infiltrado.
Esses são alguns dos sinônimos que designam um quinta-coluna.
O termo foi criado durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), quando quatro colunas militares do General Franco marchavam para cercar Madrid e o general Emílio Mola, comandante das forças franquistas, disse que contava com uma quinta coluna dentro da cidade.
Se referia aos sabotadores infiltrados entre os republicanos. Espanhóis que apoiavam o inimigo. Francisco Franco ficou no poder por 36 anos, com apoio dos quintas-colunas.
No Brasil, traidores, delatores e agentes infiltrados ficaram conhecidos na história por seus atos infames.
O mais simbólico deles foi Joaquim Silvério dos Reis, que em 1789 delatou Tiradentes e os planos da Inconfidência Mineira ao sabujo do rei de Portugal em Minas Gerais e governador da província, Visconde de Barbacena.
Silvério dos Reis traiu o movimento libertário mineiro em troca de benefícios pessoais, muito parecido com uma família conhecida no Brasil de hoje.
Outra figura perversa foi aquele que ficou conhecido como Cabo Anselmo, um militar infiltrado na luta de resistência à ditadura militar de 1964.
Cabo Anselmo foi responsável por dezenas de assassinatos cruéis de militantes de esquerda pela ditadura. Em 1973, sua companheira, Soledad Barrett Viedma, grávida do traidor, foi presa, barbaramente torturada e morta pelos militares, junto com o filho que tinha no ventre. Foi Cabo Anselmo quem a delatou.
Hoje, o nome do traidor da pátria, delator, agente de país estrangeiro e quinta-coluna atende pelo nome de Bolsonaro. Pode ser o pai, preso por tentativa de golpe e plano para assassinar o presidente eleito, ou pode ser um filho, tanto o que atende por nome Flávio , como Eduardo.
Flávio Bolsonaro é um velho conhecido das tramas contra o regime repúblicano. Entende-se aqui república na origem latina da palavra: "coisa pública" ou "coisa do povo".
Esse personagem pérfido não tem o menor apreço pelo sentido público do exercício de um mandato concedido pelo povo.
Como deputado estadual do Rio de Janeiro, empregou parentes de milicianos no seu gabinete e condecorou líderes do crime organizado. Em meio aos acordos, instituiu um mecanismo de desvio de dinheiro público, que ficou conhecido e comprovado como Rachadinha.
Mais recentemente, como senador da república, juntamente com seu irmão, Eduardo, se dedica à tramoias contra o Brasil, em conluio com o presidente dos Estados Unidos da América, o fascista Donald Trump.
Pedido de taxações absurdas contra exportações brasileiras e promessa de entrega das riquezas nacionais caso seja eleito presidente são algumas das ações empreendidas pelo herdeiro de Joaquim Silvério dos Reis.
Mas como diz minha companheira Carla Sarrazin, a fruta não cai longe do pé.
Flávio Bolsonaro é filho de um conhecido terrorista, que está preso na papuda, em Brasília. Seu pai tentou explodir quartéis do exército quando era militar e seus adeptos atentaram contra os poderes da república, inclusive chegando a planejar atentado contra aeroportos e contra a vida de autoridades da república.
O sociólogo Aldenor Ferreira, em artigo publicado recentemente, defende a criminalização do que ficou conhecido no Brasil como bolsonarismo. As razões apresentadas são claras: "o movimento se consolidou como uma estrutura permanente de ataque à democracia, à soberania nacional, às instituições republicanas, à ciência e à própria ideia de verdade objetiva."
Enquanto o último desses traidores não estiver trancafiado numa prisão de segurança máxima, o povo brasileiro precisa isolá-los do convívio republicano. São traidores da pátria e do povo.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 06.06.2026
O QUE ESTÁ POR TRÁS DO PRECONCEITO CONTRA O BOLSA-FAMÍLIA?
Você certamente já ouviu falar em aporofobia.
Trata-se de um neologismo criado pela filósofa espanhola Adela Cortina e significa aversão ou rejeição aos pobres.
Na Espanha, aporofobia é considerado crime de ódio.
No Brasil, é um instrumento de poder usado pela elite prepotente - aquela sem o menor refinamento de conduta e acostumada a usar dinheiro público para aumentar sua riqueza. Em português direto, é gente rica de grana e pobre de espírito.
A hostilidade ao estrato social em situação de vulnerabilidade é herança do período pós-escravidão, quando milhares de famílias negras foram jogadas fora da terra e espremidas em áreas urbanas, criando bolsões de excluídos e miseráveis.
A elite branca da Casa Grande continuou em seu feudo, sem o trabalho escravo e tendo que pagar com comida e reles trocados serviços para manter sua vida de privilégios.
O Estado brasileiro cumpriu sua função de proteger os latifúndios dos escravocratas, adquiridos pela pilhagem de terras públicas. Os escravizados passaram a ser trabalhadores livres, mas o Estado os via também com aversão. O Estado era aporófobo.
Os herdeiros dessa elite escravocrata estão concentrados hoje nos centros econômicos do país, tipo Faria Lima (toda semana a polícia federal está lá, prendendo criminosos). A terra não é mais o bem do poder político e econômico. Agora vivem da especulação financeira, da exploração da força de trabalho do trabalhador, do agronegócio, mas continuam sendo beneficiados pelo Estado, através de créditos subsidiados e isenções fiscais.
É essa corja despudorada que ataca o Programa Bolsa Família e seus beneficiários.
A Receita Federal aponta que entre incentivos e renúncias fiscais, as grandes corporações de negócio são beneficiadas em cerca de 900 bilhões de reais por ano. Isso é cinco vezes o que se gasta com Bolsa-família. A diferença é que os 900 bilhões atendem meia-dúzia de milionários do agronegócio e donos de grandes empresas e os 158 bilhões gastos com o Programa Bolsa-família atendem 20 milhões de famílias.
Essa corja que forma a elite nojenta da economia brasileira deveria se envergonhar de atacar gente que vive em situação de extrema pobreza. Eles, os que recebem benefícios de 900 bilhões de reais, são os responsáveis pelo Brasil ter uma das maiores desigualdades sociais do mundo.
E são mentirosos.
É mentira que o bolsa-família tire o sonho de uma vida melhor de quem recebe o benefício.
Em 2024, 75% das novas vagas de emprego com carteira assinada foram ocupadas por beneficiários do programa.
No primeiro bimestre deste ano, foram 56,1%.
E sabem por que essas vagas de emprego são preenchidas por quem recebe o bolsa-família?
Porque a busca por dignidade humana é intransferível e inadiável. O bolsa-família existe para dar o minino de condições de vida à família que não tem nada. Mas essa família continuará buscando emprego, casa própria, lazer, saúde e melhor educação para seus filhos.
O preconceito e a hostilidade da elite rica com o uso de dinheiro público contra o povo que vive em dificuldade financeira e vulnerabilidade social é um escárnio contra a humanidade. Em vez de manifestar ódio, deveria investir um pouco em ações sociais.
O problema dessa gente mesquinha é que eles têm muito, querem mais e não querem que ninguém tenha nada. São desumanos, covardes e gananciosos aos extremo.
Cuidado. Um dia a cada cai.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 30.05.2026
PARA ENTENDER O PT
O PT é tão conhecido no Brasil quanto a Amazônia. Pesquisas revelam que é o partido com maior simpatia da população. Mesmo quem não gosta do PT, tem ele na boca.
O PT não é um partido de definição ideológica, como foram os partidos comunistas ou como são algumas correntes trotskistas. O PT é um partido classista. Ele tem um lado de classe. Mas considera que essa classe social é heterogênea na sua composição.
O PT é uma experiência política singular no mundo e no campo teórico tem base em pensadores europeus clássicos, ao fazer unidade na diversidade.
Mesmo nos partidos comunistas no mundo havia conflito de concepção e construção partidária. O Partido Comunista Italiano, por exemplo, foi palco de profundos debates sobre o que ficou conhecido como eurocomunismo.
O PT não é um santuário ideológico ou político. É um partido da diversidade, com militantes e dirigentes de linha liberal, social-democrata, trotskista, comunista, neoliberal e de outras correntes que engrossam o caldo democrático da sociedade.
Agora, o indivíduo não tem unidade ou unanimidade na própria família dele e vem defender um partido maçônico, com rituais e doutrina seguidos deliberadamente.
Quem não gostar de determinada conduta política de dirigente ou militante petista, que venha para o debate interno, pois é nesse debate que o PT constrói sua unidade programática e de ação.
O PT governa o Brasil pela quinta vez. Ou seja, é uma experiência que já deu certo. Não é uma aventura ou um movimento. É uma organização do campo da esquerda que ousou se construir na pluralidade e foi abraçado pelo povo brasileiro. Nunca antes uma agremiação de esquerda tinha governado o país.
No PT não tem centralismo democrático. Não é essa a constituição organizativa do partido. Mas quando os partidos comunistas se organizaram nesse princípio, o do centralismo democrático, indivíduos também condenavam o modelo. Ora, o que existe é muita gente querendo posar de puro, enquanto coça o pé na frente do computador.
Sobre as tendências que fertilizam o PT, não são problemas. São riqueza política e exemplo de democracia. São esses grupos de pensamento que enxertam a vida partidária.
Não existe nenhum partido com tanta pluralidade de ideias.
Sobre condutas políticas de petistas, há profunda discussão interna e estão no campo da democracia do partido. Tem militante e dirigente mais à esquerda e tem gente que não faz o combate ideológico, mas tem uma clara militância de classe, em favor dos trabalhadores, do povo do interior, das minorias sociais, da cultura, etc.
É assim o PT. Unidade sim, mas na diversidade e não no autoritarismo.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 04.06.2026
A LUTA PELA NOSSA HUMANIDADE
Refiro-me aos valores imprescindíveis para construção de uma sociedade fraterna, solidária e justa.
Não tem sido fácil a construção da nossa humanidade. Continuamos cedendo à barbárie e aquilo chamado de processo civilizatório vive sob as pancadas das guerras, do racismo, do preconceito, da destruição do meio ambiente e da violência generalizada.
Temos no mundo, hoje, entre 60 e 120 conflitos armados, segundo dados da ONU e organismos internacionais. 673 milhões de pessoas passam fome no planeta. Há genocídios de jovens e negros em muitos países, incluindo o Brasil, onde um jovem é assassinato a cada 20 minutos. O trabalho escravo ainda é uma realidade, mesmo que ilegal. O feminicídio e a violência contra a mulher continuam encontrando guarida em muitas sociedades.
Enfim, cadê nossa tão almejada humanidade? Cadê nossos valores humanos de amor, justiça e tolerância?
Tenho acompanhado aqui no Brasil as campanhas em defesa da vida, em particular aquelas que deram cores aos meses do ano. Tenho visto o empenho do movimento feminista e da sociedade civil organizada no combate ao feminicídio. Louvo as campanhas de educação no trânsito. Defendo as jurisprudências de condenação das mais variadas formas de preconceito aprovadas na suprema corte.
O problema é que tudo isso tem se mostrado inócuo diante do crescimento das várias formas de violência. Não se trata apenas de uma questão política. O que está em jogo é a civilização ou a barbárie. E o retorno à barbárie tem milhões de defensores distribuídos por todas as classes e segmentos sociais.
O que fazer, então, para defender os melhores valores do ser humano?
É preciso, de imediato, não permitir o retorno do monstro e fazer uma opção clara e corajosa pela nossa humanidade. Quatro anos de negação da cultura e dos valores humanos mostraram do que é capaz a extrema direita. É imprescindível dar continuidade ao projeto civilizatório que o Brasil vive, em respeito, inclusive, às novas gerações, aos nossos filhos, netos e bisnetos.
O processo de contestação da barbárie e de reafirmação da cultura passa inexoravelmente pela construção de um país que valorize jovens e crianças.
É na educação que vamos extirpar das relações sociais o feminicídio, o racismo, o preconceito e todas as mazelas que impedem o ser humano de construir sua humanidade. Isso será possível com a humanização do processo educativo, através das disciplinas responsáveis pela reflexão crítica do mundo e das relações entre as pessoas; da missão humana na construção do amor, do bem e da felicidade.
O investimento em educação não pode ter teto. Dele depende o futuro. Mas a educação precisa fazer do ser humano um ser do amor e não da guerra e da intolerância.
É necessário derrotar a barbárie mais uma vez e edificar uma sociedade onde a arte, em toda sua dimensão, e a ciência sejam partes intrínsecas de uma nova educação, humanizante e libertadora.
O próximo ciclo, após derrotar os arautos das trevas, deverá incentivar a abertura de bibliotecas, teatros, centros culturais e garantir tempo de lazer e dedicação do trabalhador à sua família e a si mesmo. Escolas deverão abrir no fim de semana para reunir a comunidade com cursos de formação, debates, atividades lúdicas.
Todas os meios humanizantes e de desenvolvimento humano devem ser incentivados.
A construção da nossa humanidade é inadiável, para não mais permitir que jardins sejam pisoteados pela violência e seres humanos vivam a rastejar na ignorância e na ignomínia.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 19.05.2026
A FORÇA DA MULHER-MÃE: DEPOIMENTO DE UM FILHO
Comecei a conhecer as coisas do mundo muito cedo, ainda adolescente. É um momento terrível, que não teria volta. A partir dali a indignação dominou minha vida. O conhecimento das causas da aflição humana é implacável.
Mas esse conhecimento e percepção do mundo, aquilo que chamamos de consciência crítica, não me fez um ser humano melhor de um dia para o outro. Demorou para eu compreender que aquela descoberta deveria servir de instrumento para mudança do meu eu, que o mundo deveria começar a melhorar a partir de mim. Que eu deveria ser a primeira partícula transformadora.
Perdi muito tempo para reconhecer a força da minha mãe. Perdi muito tempo para compreender que aquela mulher precisava ser cuidada, abraçada e amada todos os dias, como ela fazia com seus quatro filhos menores.
Papai era carpinteiro e ganhava um salário de miséria trabalhando na Companhia de Aeroportos da Aeronáutica (Comara), onde se aposentou. Fim do mês, ele pegava a grana e jogava nas mãos da mamãe. E ela tinha que dar o jeito para fazer render. Fazia milagre, mas não conseguia multiplicar dinheiro.
Nos últimos dias do mês, a sub-alimentação era inevitável. Sentíamos isso no corpo. Ovos e farinha nos mantinham vivos, porém, ainda famintos. Mesmo quando tinha peixe cozido, para fazer render com o pirão, a reclamação das crianças estava presente.
Hoje, penso no sofrimento da minha mãe. Na angústia que a destroçava, sem poder chorar, demonstrar fraqueza, porque aí o desespero dos filhos seria pior. Ela brincava quando a gente perguntava o que iria comer: pastel de vento, respondia.
Mesmo adulto, não consegui retribuir o amor da minha mãe, tampouco herdei a força daquela mulher, cabocla do rio madeira. Sinto não tê-la abraçado mais, ter estado mais com ela, ao seu lado. Ter dado a atenção que ela nos deu.
A consciência que construí desde cedo não me fez um ser de amor desde jovem. As mazelas da pobreza, sem o necessário para viver com dignidade, arranharam minha existência. Me tiraram o tempo de amar, porque quando se tem fome, o tempo é de pensar em comer e não no amor. A necessidade da existência física põe a alma de repouso.
Tenho boas lembranças da mulher que foi minha mãe.
Quando fomos morar num bairro sem eletricidade, em Manaus, ela contava histórias pra gente antes de dormir. Histórias de boto, do Curupira, do irmão dela que foi encantado pela mãe d'água durante um temporal e tantas outras das lendas amazônicas. Ela contava com a crença de uma mulher nascida na floresta.
Poxa, que pena que eu não dei mais amor pra minha mãe. Agora ela já se foi. Ficaram as boas lembranças e um sentimento forte e doloroso por hoje entender todo sofrimento que ela passou, sem reclamar, chorando sozinha dentro do quarto, lamentando não poder dar mais aos filhos.
Mãe, a senhora nos deu tudo, sim. Tudo que podia dar. Obrigado. Só mais uma coisa: também aprendi a amar com a força do seu amor. Tenta certeza, a senhora existe em mim.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 08.05.2026
A ESCALA 6X1 E AS MULHERES NO TRABALHO
Não tem sido nada fácil a vida da mulher no mundo dito civilizado. Desde os primeiros períodos da história, marcados pela propriedade e pelo acúmulo de bens além do necessário para a existência, a mulher vem sendo objeto de exploração extrema, seja no trabalho formal ou cumprindo tarefas impostas por um sistema social dominado por homens brancos.
Me refiro a essa condição no marco da propriedade privada, seja pela apropriação da terra ou dos meios de produção, porque em sociedades antigas a mulher tinha papel reconhecido no grupo social, com divisão de trabalho socialmente estabelecida, através de acordo tácito para manter a sobrevivência do grupo.
Com o desenvolvimento dos meios de produção e o início do capitalismo, não bastava a exploração extrema do homem. O preconceito que vinha de séculos serviu de base para incorporação da mulher no processo produtivo das fábricas e nas lavouras, com a finalidade de alcançar maior ganho com mais produtividade e menores remunerações.
Esse processo de exploração não incorporou apenas as mulheres, mas, inclusive, crianças, em jornadas de trabalho extenuantes, que solapavam as vidas das trabalhadoras e dos trabalhadores em poucas décadas de existência. Jornadas que chegavam a 14 horas de trabalho ou mais. E à mulher, já lhe era atribuída a dupla jornada, com trabalhos domésticos e a criação dos filhos.
Com as revoluções industriais que ocorreram em todo processo de desenvolvimento do capitalismo, a classe trabalhadora conquistou jornada de trabalho menor, com direito a descanso semanal e, posteriormente, férias remuneradas. A mulher passou a ter licença-maternidade e o direito de ter filho deixou de ser motivo para demissão sumária ou ameaça contrária à gravidez pelo patrão.
Mas como o capitalismo é um sistema essencialmente de exploração, logo foi elaborado um outro mecanismo para usar o trabalho da mulher de forma depreciativa, criando salário diferenciado para o exercício da mesma função e do mesmo labor na produção. A mulher passou a ganhar salário menor, mesmo em situação na qual tenha melhor desempenho do que o homem.
No Brasil, presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei nº 14.611/2023 em 3 de julho de 2023, que garante a igualdade salarial e de critérios remuneratórios entre mulheres e homens na mesma função.
Dados recentes revelam que a mulher ganha 21,3% menos do que o homem no exercício da mesma função e as mulheres negras ganham menos ainda. Isso porque o patriarcado não é somente machista, é racista.
Veja você que somente na segunda década do século XXI é que o Brasil reconheceu a necessidade de ter uma lei para amparar o direito da mulher a salário igual ao do homem no exercício da mesma função. E isso ocorreu sob o protesto da extrema direita brasileira, a mesma corrente política que é contra os direitos das mulheres em todos os níveis.
Foi o mesmo presidente Lula que enviou ao Congresso Nacional, neste mês de abril, projeto de lei com urgência constitucional para extinguir a escala 6X1.
A escala 6X1 é desumana e perpetua a exploração extrema às mulheres.
O caminho a ser trilhado para efetivação da lei de igualdade salarial entre homens e mulheres será pedregoso, mas agora é lei e lutar com a lei a favor é sempre melhor.
O passo seguinte é a aprovação do fim da escala 6X1. Não será fácil diante de um Congresso Nacional dominado pelos patrões do agronegócio e das grandes empresas.
Assim como não queriam o fim da jornada de 14 horas, o fim do trabalho infantil, férias remuneradas, licença-maternidade, hora extra paga, décimo-terceiro e outros direitos trabalhistas, também não querem a escala 5X2.
A escala 6X1 é extenuante, principalmente para mulheres, que continuam tendo que cumprir dupla jornada de trabalho. O único dia de folga termina sendo o dia de mais trabalho, com os cuidados domésticos.
A escala 6X1 é destruidora da família.
Esse grupo social primordial acaba se desestruturando por falta de coexistência e pelo estresse extremo. O único dia de folga se transforma num momento de mais fadiga, sem que as relações que mantêm o grupo familiar possam ser vividas.
O fim da escala 6X1 é uma exigência de humanidade. Não é possível que em pleno século XXI ainda tenhamos condições extenuantes de trabalho, erigidas pela ganância e pela exploração desumana.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 29.04.2026
A ARTE E A NECESSÁRIA RESISTÊNCIA DOS ARTISTAS À EXTREMA DIREITA
“Chega um tempo em que as nuvens não te reconhecem”.
O poeta e amigo Aníbal Beça tinha razão neste verso do poema Constatação.
Como reconhecer o artista como parte ativa da violência, se na história sempre foi resistência ?
Mesmo quando “podaram seus momentos /Desviaram seu destino”, lá estava ele, com sua verve humanística a bradar com a garra de um Capitão Vitorino, do Fogo Morto de José Lins do Rego.
Será se existe um ser que não aprendeu com a Mãe, de Gorki, que a consciência das coisas do mundo pode brotar do amor? ou que temos cheiro sim, e não somos o assassino frio de O Perfume, de Patrick Suskind ?
Ora, a arte não se concilia com a violência, tampouco se torna sua cúmplice. Qualquer tentativa em contrário é uma excrecência condenável e repugnante.
Tem muito artista da Amazônia que não se reconhece na sua arte e nela pisa com a força dos coturnos e dos fuzis, esquecendo a herança literária de um Inglês de Souza, de um Paes Loureiro, a forte presença crítica de Milton Hatoum ou chega a despertar para um Satori, de Luiz Bacellar.
Ah, um satori para mexer com a alma expurgada do artista da guerra.
Melhor seria se fosse um Artista da Fome kafkiano.
Tem muito artista da minha terra a bater continência para Capitão do Mato. Que horror!!!
Que diabo de artista que não vê cultura na Amazônia e aplaude o etnocídio e o genocídio não lhe incomoda? seria um artista ou um ser em plena metamorfose de Franz Kafka, se tornando um inseto asqueroso?
Mas o que nos acalenta é saber que há resistência. Que temos arte e artistas prontos para defender a cultura e todas as boas conquistas da humanidade. Nunca se curvaram e não se curvarão diante da barbárie.
O tempo exige posição, posição firme contra o retrocesso civilizatório. O olhar deve ser para o futuro. No passado, aprendemos com o que não devia ter existido e no presente nos fizemos imprescindíveis para designar o amanhã.
Fiquemos com a Poesia Palestina de Combate
"Aqui
sobre vossos peitos
persistimos
como uma muralha
famintos
nus
provocadores
declamando poemas"
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 23.04.2026
A ARTE E A NECESSÁRIA RESISTÊNCIA DOS ARTISTAS À EXTREMA DIREITA
“Chega um tempo em que as nuvens não te reconhecem”.
O poeta e amigo Aníbal Beça tinha razão neste verso do poema Constatação.
Como reconhecer o artista como parte ativa da violência, se na história sempre foi resistência ?
Mesmo quando “podaram seus momentos /Desviaram seu destino”, lá estava ele, com sua verve humanística a bradar com a garra de um Capitão Vitorino, do Fogo Morto de José Lins do Rego.
Será se existe um ser que não aprendeu com a Mãe, de Gorki, que a consciência das coisas do mundo pode brotar do amor? ou que temos cheiro sim, e não somos o assassino frio de O Perfume, de Patrick Suskind ?
Ora, a arte não se concilia com a violência, tampouco se torna sua cúmplice. Qualquer tentativa em contrário é uma excrecência condenável e repugnante.
Tem muito artista da Amazônia que não se reconhece na sua arte e nela pisa com a força dos coturnos e dos fuzis, esquecendo a herança literária de um Inglês de Souza, de um Paes Loureiro, a forte presença crítica de Milton Hatoum ou chega a despertar para um Satori, de Luiz Bacellar.
Ah, um satori para mexer com a alma expurgada do artista da guerra.
Melhor seria se fosse um Artista da Fome kafkiano.
Tem muito artista da minha terra a bater continência para Capitão do Mato. Que horror!!!
Que diabo de artista que não vê cultura na Amazônia e aplaude o etnocídio e o genocídio não lhe incomoda? seria um artista ou um ser em plena metamorfose de Franz Kafka, se tornando um inseto asqueroso?
Mas o que nos acalenta é saber que há resistência. Que temos arte e artistas prontos para defender a cultura e todas as boas conquistas da humanidade. Nunca se curvaram e não se curvarão diante da barbárie.
O tempo exige posição, posição firme contra o retrocesso civilizatório. O olhar deve ser para o futuro. No passado, aprendemos com o que não devia ter existido e no presente nos fizemos imprescindíveis para designar o amanhã.
Fiquemos com a Poesia Palestina de Combate
"Aqui
sobre vossos peitos
persistimos
como uma muralha
famintos
nus
provocadores
declamando poemas"
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 23.04.2026
NÃO EXISTE BOLSONARISMO
Vejo a mídia burguesa (patronal) se esforçando para consolidar uma ideia de bolsonarismo no Brasil. Só não consegue conceituar o que seria essa linha do pensamento político e social.
Não consegue porque não existe.
Bolsonaro é um estúpido, imbecil, mentecapto. Ele, seus filhos e seus acólitos são incapazes de desenvolver uma corrente de pensamento ou até mesmo um raciocínio logico. Só sabem dar coice e espalhar mentira criada pela realidade paralela na qual vivem.
Não existe bolsonarismo.
O que existe é um segmento tacanho da elite brasileira que sequer chegou ao capitalismo. São as velhas oligarquias agrárias que instalaram seu legado na Faria Lima e na Fiesp. São grosseiras e violentas. Ainda se lambuzam com a ideia do coronelismo na cabeça.
Querem fazer do Brasil um país que atenda seus interesses, mas num contexto de exploração similar ao da escravidão, tempo vivido por seus avós. Daí você vê gente dentro da Fiesp defendendo o fim dos direitos trabalhistas, da aposentadoria e do direito de organização sindical.
É essa canalha cheia de grana e pobre de espírito que apoia a família Bolsonaro. Apoia porque se trata da incarnação do novo coronel de barranco. Ele e seu filho sabujo são a própria personagem desse instituto de séculos passados: cafonas, violentos, misóginos, racistas, ignorantes e imorais.
Em síntese: se existe uma corrente de pensamento que nega o processo civilizatório é a extrema-direita origináriia do escravagismo e da matança de indígenas. Essa gente está espalhada pelo Brasil e tem sua matriz nos grandes centros urbanos e no chamado agronegócio. É uma cambada de pistoleiros.
Bolsonaro já foi derrotado pelo operário. Só não foi derrotado em 2018 porque os fantoches da guerra híbrida lhe garantiram a vitória com a prisão injusta e ilegal do Lula. O que temos que sepultar agora é essa elite nojenta, retrógrada, que impede o Brasil de crescer. Ela e seus cães de guerra.
A luta sempre foi de classe. Os incautos que me perdoem. Bolsonarismo é invenção de gente sem leitura da história.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 16.04.2026
DESVIO E RESPONSABILIDADE DO ELEITOR
Ano de eleição.
Lá vem um indivíduo reclamar dos políticos e da política. Já sei que votou na última eleição e se decepcionou. Pode até mesmo ter vendido o voto ou emprestado a um candidato que lhe prometeu alguma coisa pessoal após a eleição.
O eleitor é parte indissociável da eleição, assim como o candidato, o partido, o voto, a lei eleitoral e o órgão de Estado responsável pelo pleito. Todos formam o sistema eleitoral e são imprescindíveis para a democracia. Não podem existir sozinhos, pois precisam de interação e interconexão para dar sentido à sua existência.
Mas se há um desses institutos com maior peso é o eleitor, enquanto indivíduo autônomo e responsável pela legitimação democrática de toda eleição. É da escolha dele que se edifica a representação.
O problema é que esse sujeito coletivo não se reconhece como força motriz do processo eleitoral e transforma sua participação num negócio de vantagem e desvantagem individuais, sem ver na política uma saída coletiva para suas expectativas. Assim, o eleitor se torna um átomo sem reconhecimento dos seus prótons e elétrons.
Seria o eleitor um algoz dele mesmo na democracia? Claro que não.
A história política do Brasil não proporcionou a criação de um eleitorado consciente da sua força. Aqui a democracia foi vilipendiada por golpes e mais golpes. Nunca chegou sequer à adolescência. Ainda na sua primeira infância foi violentada por interesses da chamada elite econômica e política. As oligarquias nunca deixaram a democracia amadurecer.
Sem democracia não é possível ter um povo que reconheça sua força. E tudo vira um negócio, como nos tempos dos coronéis de barranco que tratavam as famílias de seus empregados como gado marcado. O voto fazia parte do emprego e da esmola.
Esse eleitorado persiste. É ele que não reconhece na política o preço do pão e da carne e considera todo político um desonesto dissociado do seu voto, havendo assim uma relação promíscua que faz do voto apenas uma oportunidade de troca individual, seja ela uma oferta de arma liberada ou uma cesta de alimentos.
O eleitor de hoje é resultado de um processo histórico autoritário, que não permitiu que a democracia formasse uma massa crítica de cidadãos e cidadãs. A chamada politicagem nasce daí e não do candidato ou do político, isoladamente. Até porque mesmo que não se vejam assim, interagem numa interconexão alienada e alienante.
Obviamente, o fôlego democrático no qual vivemos é um passo importante para criar uma massa crítica de eleitores cidadãos e cidadãs. Cada eleição realizada com critérios de equidade e equilíbrio na disputa abre caminho para construção de uma história da democracia no país, sem desvios e plenamente consolidada.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 09 .04.2026
DEMOCRACIA, ELEIÇÃO E NOVA CORRELAÇÃO DE FORÇA
A democracia é um regime frágil.
A democracia representativa é ainda mais frágil.
Trata-se de um regime político superficial, isolado, desvinculado de relações com a economia, com o campo social e cultural.
Me refiro, obviamente, à democracia enquanto objeto da ciência política e ás suas inter-relações hierarquizadas com outras ciências e correntes de pensamento. A questão do poder se tornou um campo atomizado, disposto à dominação e não à construção coletiva.
A história de que tudo é política se transformou num fardo para a própria política, que não buscou se desenvolver teoricamente ou procurar criar forma que acompanhasse a complexidade das relações humanas e sociais.
A democracia se funda na existência do eleitor, de uma legislação eleitoral, de partidos políticos e seus agentes diretos, na liberdade de organização, manifestação e expressão. Essas são as diferenças que se chocam com o fascismo, o regime da antidemocracia.
Em países como o Brasil, o regime democrático não criou raízes. A república brasileira foi formada por golpes, inclusive sua própria instauração. Os partidos políticos, os mais antigos, viveram na ilegalidade e na clandestinidade. A liberdade de organização, por ser esparsa, não fortaleceu a sociedade civil e as liberdades políticas, inclusive a de expressão, impossibilitou a construção da cidadania, pois viveram sob sufocamento.
Em países como os Estados Unidos, cuja independência data de apenas 250 anos, a democracia sofreu um desvio histórico, virando um monstrengo. Há 170 anos, dois partidos de uma mesma corrente política governam o país, em eleição presidencial feita de forma indireta.
No continente europeu, em muitos países cuja história política foi construída no regime democrático, após períodos intercalados de guerras, a democracia ganhou força no sistema parlamentarista, mas ainda assusta com dura repressão às manifestações públicas e populares. O braço armado do Estado não reconhece a democracia. O próprio Estado é um engodo no regime democrático.
O Brasil terá eleições gerais este ano. Há pouco tempo, viveu uma experiência neofascista, que se tornou uma ameaça diária, com fortes tentáculos no parlamento, no judiciário e noutras instituições públicas, além, claro, da mídia corporativa historicamente identificada com o fascismo.
Os governos petistas fizeram grandes diferenças nas políticas sociais e econômicas e projetaram os direitos civis para o campo da ação real. Resgataram grupos sociais e étnicos discriminados e os colocaram no campo da cidadania, garantindo direitos que a cultura reivindica há décadas.
Já no campo político, as gestões petistas não avançaram um centímetro, além de garantir o que está prescrito na democracia representativa, como eleição, partidos e liberdade de organização. A democracia continua fragilizada, sem participação social e sem perspectiva de criar uma cultura democrática no país dos golpes.
Nem mesmo os instrumentos participativos criados na constituição liberal de 1988 foram usados. Não há consulta popular de massa. O campo de construção do governo é o da negociação e do fisiologismo. A chamada correlação de força nunca será alterada dentro dos marcos da democracia representativa, sem que seja experimentada e fortalecida a participação popular.
Vamos para as eleições de 2026 com a ameaça viva do fascismo. Esse aceno fatal será definitivamente afastado quando a sociedade civil for fortalecida através dos mecanismos de intervenção no Estado.
O Brasil, e nenhuma democracia no mundo, poderá garantir sequer direitos elementares enquanto não houver um novo projeto de democracia, cujo regime dialogue diretamente com a economia, com a sociedade, com a ciência e com a cultura. Democracia tem que trazer na sua essência justiça social, participação popular direta, tecnologias de inclusão e amplo direito de expressão e manifestação.
A luta contra o fascismo já deveria ter sido superada se governos comprometidos com a democracia ousassem largar do caudilhismo, da vaidade e da velha política e jogar o poder político para a sociedade civil.
A democracia não pode continuar servindo ao fortalecimento do Estado. Esse modelo precisa ser superado.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 25.03.2026
DESVIO E RESPONSABILIDADE DO ELEITOR
Ano de eleição.
Lá vem um indivíduo reclamar dos políticos e da política. Já sei que votou na última eleição e se decepcionou. Pode até mesmo ter vendido o voto ou emprestado a um candidato que lhe prometeu alguma coisa pessoal após a eleição.
O eleitor é parte indissociável da eleição, assim como o candidato, o partido, o voto, a lei eleitoral e o órgão de Estado responsável pelo pleito. Todos formam o sistema eleitoral e são imprescindíveis para a democracia. Não podem existir sozinhos, pois precisam de interação e interconexão para dar sentido à sua existência.
Mas se há um desses institutos com maior peso é o eleitor, enquanto indivíduo autônomo e responsável pela legitimação democrática de toda eleição. É da escolha dele que se edifica a representação.
O problema é que esse sujeito coletivo não se reconhece como força motriz do processo eleitoral e transforma sua participação num negócio de vantagem e desvantagem individuais, sem ver na política uma saída coletiva para suas expectativas. Assim, o eleitor se torna um átomo sem reconhecimento dos seus prótons e elétrons.
Seria o eleitor um algoz dele mesmo na democracia? Claro que não.
A história política do Brasil não proporcionou a criação de um eleitorado consciente da sua força. Aqui a democracia foi vilipendiada por golpes e mais golpes. Nunca chegou sequer à adolescência. Ainda na sua primeira infância foi violentada por interesses da chamada elite econômica e política. As oligarquias nunca deixaram a democracia amadurecer.
Sem democracia não é possível ter um povo que reconheça sua força. E tudo vira um negócio, como nos tempos dos coronéis de barranco que tratavam as famílias de seus empregados como gado marcado. O voto fazia parte do emprego e da esmola.
Esse eleitorado persiste. É ele que não reconhece na política o preço do pão e da carne e considera todo político um desonesto dissociado do seu voto, havendo assim uma relação promíscua que faz do voto apenas uma oportunidade de troca individual, seja ela uma oferta de arma liberada ou uma cesta de alimentos.
O eleitor de hoje é resultado de um processo histórico autoritário, que não permitiu que a democracia formasse uma massa crítica de cidadãos e cidadãs. A chamada politicagem nasce daí e não do candidato ou do político, isoladamente. Até porque mesmo que não se vejam assim, interagem numa interconexão alienada e alienante.
Obviamente, o fôlego democrático no qual vivemos é um passo importante para criar uma massa crítica de eleitores cidadãos e cidadãs. Cada eleição realizada com critérios de equidade e equilíbrio na disputa abre caminho para construção de uma história da democracia no país, sem desvios e plenamente consolidada.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 09 .04.2026
UM VILÃO DA GUERRA E DOS CRIMES CONTRA A DEMOCRACIA E A HUMANIDADE
É preciso ter lado. Tenho repetido isso. Sempre estaremos do lado da paz; não só da paz entre nações. Queremos a paz social, sem a injustiça e a miséria que destroem vidas.
Num mundo de profundas desigualdades sociais e de antagonismos de classes é preciso ter lado. Ou você opta pelo poder do opressor ou apoia quem os enfrenta.
Os Estados Unidos representam o terror no mundo. Deixaram 500 mil civis mortos na Síria, criaram uma farsa e destruíram o Iraque, um dia soltaram bombas no Japão e 250 mil homens, mulheres, crianças, idosos viraram cinzas. Para ficar em poucos e nefastos exemplos.
Aqui no nosso continente latinoamericano, os Estados Unidos bancaram golpes de Estado sangrentos e até hoje organizam ataques à democracia, com a chamada guerra híbrida.
Se tem um país responsável pelos dramas da injustiça e pela tristeza das mortes por política no mundo chama-se EUA.
É preciso ter lado.
E o lado não pode ser de quem mantém e enriquece às custas de uma ordem mundial que coloca de um lado países pobres e de outro, países ricos, com total exploração dos países pobres, reproduzindo aquilo que acontece na luta de classes nas nações.
A nova Divisão Internacional do Trabalho só mudou os instrumentos na era digital, mas a estrutura opressiva e desigual continua a mesma.
É preciso sim desafiar o domínio norteamericano. E qualquer um que o faça estará no sentido contrário de uma ordem construída com sangue dos povos de todo o mundo.
O poder dos EUA tem cheiro de sangue dos povos das Américas e da África.
Sou contra a guerra. Mas é bom lembrar que quem sempre ganhou com conflitos armados foram os Estados Unidos, desde a primeira guerra mundial. Não por acaso, sua liquidez financeira foi adquirida com a venda de armas e alimentos para uma Europa destruída. Não tardou para colocar o mundo em crise com o baque de 1929.
Depois da Guerra Fria, a expectativa do mundo era pelo fim da OTAN, braço armado dos Estados Unidos. O que fez o Tio Sam? Transformou a organização em um instrumento expansionista, à procura de insumos e mercado consumidor.
O imperialismo não para.
É bom lembrar mais uma vez que o conflito Rússia/Ucrânia foi causado pelo imperialismo americano, ao tentar manobras para colocar a Ucrânia na OTAN. É provocação demais querer fazer base militar na fronteira da Rússia.
À Rússia, sobrou a alternativa de responder à ofensiva expansionista dos Estados Unidos atacando a Ucrânia, país que tem um governo subserviente ao domínio americano. É lamentável. Muita gente inocente continua morrendo.
Mas é preciso enfrentar a opressão do Tio Sam e inaugurar um movimento que mexa na forma e no conteúdo da ordem mundial vigente. Os EUA e a Europa não podem continuar dizendo ao mundo qual o modelo político e econômico que deve seguir, perenizando a opressão e a exploração.
O mundo não pode continuar sendo um celeiro dos países ricos. Os continentes com maioria de países pobres, vítimas da colonização e do roubo que originou a acumulação do capital, precisam de uma reparação histórica.
Mas isso não vai acontecer na atual ordem. Daí todo desafio e enfrentamento ao imperialismo norteamericano ser um momento para discutir a forma na qual o mundo está estruturado.
Lamento a guerra, mas sei quem faz a guerra e quem dela enriqueceu. Tenho lado. E meu lado nunca será a do opressor.
Luto por uma paz com justiça e não uma paz fincada no horror da miséria e do genocídio.
E para concluir, é bom lembrar que o Brasil não vive na paz. Aqui enfrentamos a guerra do racismo, do preconceito, do feminicídio e do genocídio contra negros e jovens.
Não se constrói a paz sobre a estrutura da injustiça, sobre os crimes contra as mulheres e em cima da profunda desigualdade social.
A paz que queremos e lutamos é a da justiça social, do respeito ao ser humano, da tolerância religiosa e da democracia.
O ataque de Israel e dos EUA ao Irã é a repetição dos horrores que esses dois países promovem no mundo, rasgando o direito internacional, agredindo a soberania das nações e promovendo a matança de civis.
O Estado sionista jogou bomba numa escola de meninas. Matou mais de 150 crianças. É assim que essa corja faz o seu banquete.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 15.03.2026
XENOFOBIA E NEOFASCISMO
O assunto não é novo, mas me foi suscitado pelo discurso tacanho do prefeito de Manaus ao anunciar sua pré-candidatura ao governo do Amazonas.
Na fala, o prefeito rejeita os "forasteiros" que se tornaram governadores e prefeitos no estado, dizendo que agora quem terá que governar será um amazonense. Falou para enaltecer seu nome, num resgate pueril de velhas campanhas eleitorais, quando os comícios eram feitos à luz de lamparina.
Mas o discurso xenófobo não foi feito por acaso. Ele vem na esteira do neofascismo europeu, apesar do prefeito não ser dado à leitura nem mesmo do antigo almanaque capivarol.
O fascismo clássico surgiu após a Primeira Guerra Mundial, na crista das crises econômicas e no temor ao socialismo na Europa. Alcançou grandes massas com a bandeira do nacionalismo expansionista, combate à democracia, militarismo, racismo biológico, censura e supressão de direitos civis.
Após o mundo ter vivido os horrores do nazismo e do fascismo, a Guerra Fria ter acabado e as revoluções tecnológicas terem criado outros mecanismos de dominação de massa, o autoritarismo tomou outra forma, assumindo novas estratégias de aglutinação popular.
A ameaça agora é externa. São os imigrantes e as minorias étnicas. O nacionalismo não é mais cívico e sim étnico-cultural. Surgiu assim um neofascismo identitário.
O neofascismo tem na xenofobia uma base ideológica, fundada no conflito entre o interno e o externo, sendo este o inimigo a ser combatido. Esse discurso mobiliza muita gente, massas inteiras dos mais diferentes grupos sociais. Quem tira o emprego é o imigrante e não a crise econômica causada pela concentração de renda e desigualdade social. O imigrante é o causador da insegurança e de todos os males da sociedade e não governos incompetentes.
O político neofascista atribui ao imigrante o fracasso causado pelas contradições inerentes à história social de cada país. Ele ataca direitos sociais e o inimigo interno é o sindicato, a associação profissional e as profissões de fé diferente da sua. Não por acaso, a base doutrinária do neofascismo no Brasil é o neopentecostalismo.
Diferente dos nazistas e seus alto-falantes em cada esquina de rua da Alemanha dos nos 30 e 40 do século XX, o neofascista tem hoje as redes sociais e os algoritmos como armas de mobilização de massa. Mas continua fiel aos princípios clássicos do fascismo, espalhando medo, ressentimento e ódio. A violência é simbólica, daí os imigrantes, os homoafetivos, as minorias étnico-culturais e as religiões de outras matrizes que não seja a sua serem alvos de perseguição do seu governo.
Mas assim como o fascismo, o neofascismo tem uma barreira civilizatória: a democracia.
A xenofobia e todos os discursos e práticas de sustentação do neofascismo tendem ao isolamento político e social na proporção que a democracia se fortalece. O sentido de pertencimento deve ser nacional e humanístico, nunca de exclusão e de propagação do ódio. No planeta terra, somos todos seres humanos e o bem-comum é uma busca sem fronteira.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 25.02.2026
A CONCRETUDE DA DIGNIDADE
A dignidade é concreta. Ela envolveu o espírito a partir da cultura. Seu simbolismo é real.
Pode ter nascido de um exemplo do pai, da mãe, do irmão. Também pode ter sua origem no amigo, no indivíduo admirado, na mulher amada.
Ela não é natural, nem puramente moral; surgiu das relações humanas e está imbricada em todos valores construídos.
É maior do que todos os outros, pois não existe amor, honra, lealdade, raiva, vingança, sem dignidade. Ela impõe limites nas ações e resguarda a autoestima.
Não ter dignidade também é cultural. Toda manifestação infame é também indigna; todo sentimento pequeno se fez da indignidade.
Ser digno é ter na alma o perfume suave de uma flor de cerejeira; é ser terno como um soneto de amor de Neruda; é ser forte como um aroma de jasmim.
A dignidade está em cada gesto, em cada olhar do mundo e tem a força transformadora. É preciso ser digno para mudar.
Os indignos costumam morrer rastejando na lama, sem nunca achar a água límpida da dignidade.
É preciso ser digno para construir o amor e a felicidade. É preciso ser digno para amar o outro e o outro também tem que buscar a dignidade para amar o outro.
Somente o ser digno se indigna com a miséria e com a injustiça. Os indignos a constroem.
É com dignidade que sigo minha vida.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 19.02.2026
UM PARTIDO QUE NASCEU PARA INCOMODAR
O PT incomoda sim, porque não nasceu para agradar.
A direita se retorce, se contorce, dá golpe, chafurda na lama, come bosta, mas não consegue acabar com o PT.
Também puderas, esse partido controverso foi criado no ombro sofrido dos trabalhadores, na alma negra de Zumbi e Dandara, na ternura dos homoafetivos, no sonho de igualdade dos bons cristãos, na luta corajosa das feministas e no pensamento reflexivo e engajado dos intelectuais.
Ninguém destrói uma fortaleza criada para resistir à opressão. Ela tem matéria e espírito.
Não haverá pólvora nem canhões para derrubar tanto arrojo.
Que se mordam os pseudos-revolucionários, prontos para destilar seu trauma contra a pluralidade política que dá cor ao PT. O dogmatismo é incompatível com a diversidade.
Estão por aí, rastejando na hipocrisia, procurando um culpado para sua covardia.
O PT faz política num estado criado pela burguesia e por ela dominado. Não é fácil enfrentar o poder num país dominado pela ideologia do opressor. Mas o partido segue firme na luta, com suas idiossincrasias, deslizes, contradições e paradoxos.
Quem quiser unanimidade que se torne burro ou se asile na tenda da estupidez.
Este partido faz 46 anos. Tem erros? Quem não tem aos 46 anos. Mas tenha uma certeza: não é o erro da covardia e da omissão.
São 46 anos à procura de uma cara para o Brasil, que tenha olhares ternos, respire democracia, coma todos os dias e no sorriso da criança saciada a gente encontre o motivo para construir o socialismo.
O PT incomoda muito.
É a primeira vez na história do Brasil que um partido de esquerda governa o país. E o maior incômodo é um operário ser presidente por três vezes e estar caminhando para o quarto mandato.
Esse fato histórico incomoda as elites, os medíocres e os dogmáticos. Como é bom incomodar essa tríade do atraso.
O PT continua sua caminhada. Não tem trilha ruim que o impeça de caminhar. Quem nasceu para transformar o Brasil, seguirá firme na sua missão.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 11.02.2026
PACTO CONTRA O FEMINICÍDIO - O CLAMOR DE UM HOMEM
Vergonha e indignação é o que define meu sentimento ao me dirigir aos homens do meu estado e do meu país.
A cada seis horas uma mulher é morta no Brasil apenas por ser mulher. De 2015 a 2025, foram 13 mil mulheres assassinadas apenas por serem mulheres.
Em 2025, 3,7 milhões de mulheres sofreram algum tipo de violência doméstica ou familiar. 71% das agressões ocorreram na presença de crianças. 1.479 mulheres foram mortas no ano passado.
8 de cada 10 mulheres são vítimas de feminicídio cometido por seus parceiros ou ex-parceiros.
Conheço as origens de toda essa violência, mas não reconheço o agressor como vítima da estrutura ideologizante da sociedade brasileira. Cresci na resistência e sei que podemos vencer essa ferida aberta.
Seres humanos é o que somos, com capacidade cognitiva, com sentimento, cheios de esperança, capazes de amar com toda a beleza que o amor tem na sua essência.
Não podemos continuar sendo derrotados pela desumanidade.
Se não tem mais amor, sai fora, entra num entendimento sobre a criação dos filhos. Se não tem filhos, vai cuidar da tua vida e deixa a mulher em paz. Deixa de ser um paspalho.
Nós não somos donos de ninguém e sentir ter a posse de outro ser humano é uma vergonha, é nojento, é asqueroso. Ser humano nasce para ser livre e feliz.
Se amamos nossa companheira, vamos abraçá-la. É tão gostoso se envolver no corpo de quem amamos. É tão gostoso beijar, conversar sobre as dificuldades da vida, sobre os filhos, dividir sonhos e esperanças.
Não é bonito o desamor, o desrespeito, a opressão. Esses sentimentos nos tornam seres feios, carcomidos pela violência e pela desumanidade.
Vamos lá. Vamos criar um pacto com nós mesmos de construção de um mundo melhor.
Vamos mostrar ao mundo que homens e mulheres caminharão juntos em todas as estações do ano. Que tomaremos banhos de chuva no inverno amazônico e no verão, nos banharemos juntos no Encontro das Águas.
Não vamos mais permitir que as brincadeiras machistas estimulem o desrespeito. Não vamos deixar passar despercebida a agressão daquele conhecido contra sua companheira.
Lutar por justiça também faz bem para uma vida feliz.
Nós podemos sim construir um mundo de mais respeito e amor. Somos homens e homens não desrespeitam mulheres. Qualquer conduta noutro sentido, é um desvio humanitário.
Temos que ter vergonha apenas daquilo que desumaniza. Não temos que ter vergonha de amar e respeitar. Nós podemos sim nos construir como seres humanos melhores.
Escrevo essas linhas com as tintas da honestidade. Sei que não é fácil desconstruir a cultura machista, mas é possível derrotá-la e derrotar o mal é muito legal.
Vamos lá, moçada. Vamos dar as mãos e fazer do feminicídio e da violência contra a mulher uma ferida do passado. Vamos construir a felicidade, juntos.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 05.02.2026
A CRISE DA VERDADE
Não é de hoje que se tenta sepultar tudo que incomoda as estruturas dominantes. Em 1989, o filósofo nipo-estadunidense Francis Fukuyama sentenciou o fim da história, após a queda do muro de Berlim. Ou seja, de Heráclito a aqueles dias de convulsão, o que mantinha a história era um muro e as partes antagônicas que viviam nos lados opostos.
Antes dessa sentença adoidada do pensador neoconservador, surgiu, após a Segunda Guerra Mundial, a história da sociedade pós-moderna ou pós-modernidade, disparando contra as utopias e a ciência. A modernidade nem chegou ao seu voo pleno e alguns apressados acharam de entender que as novas tecnologias e as novas formas de consumo, de vida, etc., anunciavam o fim de um tempo que não tinha terminado.
O certo é que a história continua e as contradições originais da modernidade também.
Nessa onda de sepultamento da história que não acabou, surge no século XXI a pós-verdade.
Não se trata de um movimento cultural, intelectual ou social. É um movimento político que ameaça o conhecimento construído em séculos de existência das sociedades.
A tese da pós-verdade se sustenta na negação da verdade e não num movimento no sentido posterior à verdade. Tem ganhado campo na era da comunicação de massa instrumentalizada pela internet, redes sociais e outras mídias digitais. Sua base principal é a substituição dos fatos pelas narrativas.
Trata-se de manipulação da informação, negando aquilo que é real e criando uma versão emotiva e espetacular daquilo que interessa aos atores que dominam os meios de propagação. Não é uma mentira, é algo mais destruidor, distante do campo moral, mas totalmente sem ética e sentimento de responsabilidade pelos prejuízos que pode causar.
O negacionismo dos fatos e do real leva à criação de uma realidade paralela, distópica e delirante. A ciência deixa de existir como verdade e quem assume é a voz do pastor da igreja evangélica e do político que precisa impor sua narrativa para se eleger. Isso cria uma massa de indivíduos alienados, seguidores crédulos no que lhe foi imposto não como mentira, mas como negação da verdade.
Fake news, movimento contra vacinas, preconceito, a criação e divulgação de dados estatísticos falsos para sustentar versões fantasiosas são alguns dos adereços que decoram ações voltadas para alimentar crenças e emoções. O que era real já não importa. O conhecimento não importa mais. Um estado de transe parece tomar conta de quem recebe a mensagem e uma outra realidade é criada.
Nesse processo de criação do caos há embutido a negação de tudo que foi acumulado no processo de desenvolvimento do ser humano. A cultura, a ciência, o Estado laico, as religiões voltadas à espiritualização da fé, a política como meio para atender demandas populares, tudo isso passou a ser objeto de combate daquilo que é chamado de pós-verdade.
Do fim das utopias da pós-modernidade, chegamos ao século XXI com a ameaça real de um movimento que nega o real e manipula a realidade para destruir todo conhecimento acumulado pela humanidade. Com a supressão da verdade, a liberdade também vai embora.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 29.01.2026
UMA DEMOCRACIA DE ARAQUE
Cresci ouvindo a conversa de que os Estados Unidos são a maior democracia do mundo. Não demorou para que eu deixasse de acreditar em Papai Noel e descobrir que a democracia americana é uma falácia.
Como pode numa democracia o presidente da república ser eleito por um colégio eleitoral e o candidato mais votado pelo povo ficar de fora?
Nos EUA, a desproporção do peso de voto entre um estado e outro pode levar o candidato mais votado a ficar sem o mandato de presidente.
Foi o que houve com Hillary Clinton, que em 2016 teve 3 milhões de votos a mais do que Trump e, mesmo assim, o fascista virou presidente. A razão desse absurdo está na composição do colégio eleitoral, formado de quatro em quatro anos. O voto de um cidadão da Califórnia vale 64 vezes menos que de um cidadão de Dakota do Sul.
Mas a farsa da democracia estadunidense não fica por aí.
Há mais de 170 anos que apenas dois partidos de direita disputam as eleições presidenciais nos Estados Unidos: democratas e republicanos. Existem outros partidos, mas o sistema de eleição de delegados para formar o colégio que elegerá o presidente impossibilita a participação dessas agremiações. O voto é por maioria simples e num único turno. O partido que tiver um voto a mais do que os outros, leva todos os delegados. Essa regra ocorre em 48 dos 50 estados americanos, mais a capital Washington, D.C.
E a campanha?
Aí vem outra farsa antidemocrática.
O financiamento privado de campanha é ilimitado. A suprema corte americana entendeu que dinheiro era uma forma de liberdade de expressão e não poderia ser limitado. Na última eleição presidencial, estima-se que cada candidato gastou um bilhão de dólares. São criados comitês de arrecadação, os quais não são obrigados a revelar os nomes dos doadores. Claro, quem emprega grana numa campanha quer retorno quando o candidato ganhar, mas isso não é ilegal e nem é visto como porta aberta para corrupção.
São muitos os pontos que indicam que a democracia estadunidense é uma farsa montada e vendida ao mundo como exemplo.
Em 2025, Donald Trump mandou invadir universidades e prender mais de 2.000 estudantes que protestavam contra o genocídio do povo palestino. A invasão de instituições de ensino ocorre com frequência nas ditaduras. Prisões políticas, espancamentos e destruição do patrimônio público também são marcas de regimes autoritários.
E o estado de direito?
A constituição dos Estados Unidos que vigora até hoje é a de 1787, mas recebeu nesses mais de dois séculos 27 emendas, a última foi sobre os salários dos congressistas, em 1992.
O problema do estado democrático de direito americano é a fragilidade do judiciário diante de governos autoritários como o de Donald Trump. O mundo tem assistido nos dias de hoje a uma avalanche de desrespeito aos direitos civis e humanos no país. Uma milícia para perseguir imigrantes foi criada e age fora da lei, invadindo residências sem mandado judicial, matando, espancando e prendendo estrangeiros que não cometeram crime e estão em processo de legalização da sua permanência no país.
A milícia, chamada de ICE, atua com a mesma violência da Gestapo nazista e a suprema corte americana continua silente, como que concordando com as atrocidades. O mesmo ocorreu com a deportação de presos para El Salvador, sem autorização do judiciário e quando houve manifestação, não foi cumprida.
Não precisa garimpar informações sobre a fragilidade das leis nos EUA. Basta lembrar que não existe justiça eleitoral, que criminoso condenado pode governar o país, como no caso de Trump, condenado por estupro em 2023 e que tem mais de 20 acusações pelo mesmo crime, já tentou um golpe de Estado e mesmo assim assumiu a presidência do país. Não estamos falando de democracia, mas de um regime distópico, que acolhe e protege criminosos e fecha os olhos para os crimes.
Esse Estado, que se diz democrático e a maior democracia do mundo, já invadiu mais de uma centena de países, matou presidentes, cometeu assassinatos, jogou bombas sobre centenas de milhares de civis, roubou e ainda rouba riquezas de outras nações, comete todo tipo de atrocidades, com atitudes bárbaras e desumanas. Estados Unidos são muita coisa, mas não uma democracia.
Democracia é um regime de participação e cidadania, com inclusão de minorias, respeito aos direitos civis, políticos e humanos. A democracia está vinculada à modernidade e aos processos de desenvolvimento social. É parte intrínseca dos Estados modernos e sua substituição por regimes autoritários é um desvio na história. Os EUA criaram um sistema político que não pode ser chamado de democrático, pois não é um valor universal e sim um instrumento de poder e opressão.
A democracia estadunidense é uma farsa.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 25.01.2026
A QUEDA DE UM IMPÉRIO
Não sei se viverei os próximos anos, mas me sinto regozijado por está vendo a queda de um império. É Um caminho inexorável da história.
Com o fim da Guerra Fria, os Estados Unidos se tornaram absolutos em todo ocidente e mesmo no oriente, já que os países desenvolvidos daquele lado do mundo passaram a rezar na cartilha econômica do Tio Sam.
O sistema econômico mundial, lastreado pelo dólar, começou a ser desenhado e implantado com os Acordos de Bretton Woods, em 1944, ganhando supremacia em 1971, com o dólar deixando de ser convertido em ouro e passando a ser uma moeda fiduciária (a moeda funciona como um banco).
Claro, a força econômica dos Estados Unidos começou no fim do século XIX, com os ventos da Revolução Industrial, mas foi na Segunda Guerra Mundial que o país ganhou poder econômico, vendendo armas e agiotando países envolvidos no conflito.
A superpotência unipolar emergiu em 1991, com a desagregação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e o fim da Guerra Fria. A partir daí, os Estados Unidos viraram xerifes do mundo, sem qualquer contestação real.
Como a história não segue uma trilha linear, não demorou para o mundo se reconfigurar num breve espaço de tempo.
O império americano está desmoronando cedo demais. Em poucos mais de um século - contando do final do século XIX - os Estados Unidos deixarão de ser a única potência econômica e tecnológica do mundo. Uma ninharia de tempo em comparação com os 15 séculos de domínio do Império Romano.
A recente agressão contra a Venezuela não está direcionada à pilhagem da maior reserva de petróleo do mundo. Os Estados Unidos são o maior produtor mundial do produto, apesar de ganhar muita grana importando petróleo por um preço e vendendo o excedente por um valor muito maior.
A invasão ao país irmão está dentro da mesma lógica que levou os EUA a invadirem o Iraque e a Líbia e matarem seus líderes. Eles, os Estados Unidos, precisam que o petróleo explorado e produzido no mundo seja negociado em dólar, ou seja, dentro do seu sistema monetário.
Cada dólar movimentado no planeta retorna para o país e fortalece sua economia. Sem as operações com a moeda americana, os Estados Unidos mergulham em crise, com recessão e inflação alta. Cada 0,1% a mais na inflação da maior economia do mundo representa desemprego e descontrole no preço dos alimentos.
O Iraque e a Líbia quiseram criar moedas próprias para comercialização do seu petróleo. O resultado já sabemos. Sadam e Gaddafi foram mortos e seus países destruídos pela guerra e pela miséria.
A Venezuela não pensou em criar moeda própria, mas estava negociando seu petróleo em yuan, moeda chinesa, e em rublo, moeda russa. Pronto. Foi o suficiente para os gringos desesperados repetirem o que fizeram na Líbia e no Iraque. Não mataram Maduro, mas o sequestraram e o meteram numa prisão fétida dos EUA.
A ressurreição da Doutrina Monroe pelo neonazista Donald Trump cumpre o mesmo papel hoje de quando foi criada. Em 1823, foi um recado para a Santa Aliança (Prússia, Áustria, Rússia) e ao império britânico para não se intrometerem na América, pois o continente pertencia aos americanos - leia-se, Estados Unidos.
Esse ato de desespero não encontra guarida nos dias de hoje, mesmo se impondo pela força. Claro, Trump deverá expandir a agressão norte-americana aos países da América Latina e chegará até à Groelândia, mas nada impedirá o que já está em curso: a queda da supremacia unipolar dos Estados Unidos.
O mundo já vem apresentando bons sinais de multipolaridade. A própria agressão à Venezuela mostrou isso, com Estados nacionais de todos os continentes condenando o desrespeito à soberania do país, coisa que não aconteceu em outras invasões americanas.
O sistema monetário dos Estados Unidos já não é o único no mundo. Os BRICs têm um banco fortíssimo, bem administrado pela presidente Dilma Rousseff, e caminham para criação de uma moeda. Os gringos do norte não podem invadir a China, a Índia, a África do Sul, a Rússia e outros países que compõem o bloco.
Trump é um bom agente para acelerar essa queda. Ele é estupido, beligerante e capaz de levar outros países para o novo sistema monetário, econômico e político que surge no planeta.
Como é possível perceber, os Estados Unidos nunca se preocuparam com democracia e bem-estar social. O imperialismo é ladrão, saqueador, opressor e perverso. Sua queda é inevitável.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 10.01.2026
2026 E A LUTA ENTRE A CIVILIZAÇÃO E A BARBÁRIE
Há um debate antigo nas ciências sociais sobre o marco que separou barbárie e civilização. Alguns autores afirmam ser o uso do fogo; outros, a proibição do incesto. Há, ainda, aqueles que consideram a evolução tecnológica, enfatizando não um marco, mas um processo.
O certo é que vivemos em evolução e involução quando se trata de história. Mas há um processo de desenvolvimento irrefreável, como a tecnologia e os acordos tácitos de civilização, que compreendem normas coletivas de convivência e organização social.
Não é possível aceitar o retorno da barbárie como padrão de convivência ou negação de tudo que foi conquistado pelo processo civilizatório.
As relações sociais e políticas não podem se nortear pela recusa do conhecimento adquirido em milhares de anos, que nos fez chegar aqui com um mínimo de tolerância e respeito à diversidade. A modernidade não é a fase posterior à idade das trevas. Ela é resultado do acúmulo de experiências de vida e da história da humanidade.
É um horror ter chegado ao século XXI com parte da sociedade defendendo a barbárie e dela fazendo seu mote de vida.
Que inferno é esse que essa peste camusiana está querendo nos meter?
Não acredito em inferno, mas me inspiro na Divina Comédia de Dante para indicar o Sétimo círculo – Vale do Flegetonte àqueles que insistem em nos fazer voltar às trevas.
Estamos começando 2026, século XXI, e há uma forte campanha pelo retorno à barbárie, com hordas de negacionistas combatendo a ciência e ameaçando se impor pela violência. A primeira vítima escolhida é justamente a ciência, essa senhora de meia idade que já sofreu horrores nas mãos da Santa Inquisição.
Eis que surgem agora novos perseguidores, saídos das catacumbas do protestantismo neopentecostal e das masmorras da ignorância.
Nessa reaparição dos corneteiros das trevas o foco é o conhecimento, novamente. Mais além, está sob ameaça a civilização e tudo que o ser humano alcançou na sua existência. Pode não ser muito, mas não podemos abrir mão da nossa história.
É preciso segurar os bárbaros e devolvê-los ao planeta da sua existência quadrada. Aqui o mundo é redondo e gira.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 03.01.2026
SOLIDARIEDADE OU FINGIMENTO? UMA CRÔNICA DE NATAL
Minha mãe tinha grande vivacidade para identificar "gente fingida", aquela que mostra ser o que não é.
Fingimento é o nome popular da hipocrisia. Mas provoca mais incômodo. Mamãe sabia disso e não pensava duas vezes em chamar um hipócrita de fingido ou uma hipócrita de fingida. Acho que minha velha nem conhecia o adjetivo hipócrita.
Este mês de dezembro bem que poderia ser o mês do fingimento, representado pela cor cinza.
A gente fingida, que passa o ano sem fazer um gesto de solidariedade, se veste até de Papai ou Mamãe Noel para fingir ser o que não é.
A solidariedade não pode ser confundida com fingimento. Ela é mais do que um substantivo abstrato. É uma ação humana que não tem dia para ser praticada. Tem espírito e alma.
Sabe aquele empresário que defende o livre mercado, vai ao culto ou à igreja toda semana, dá uma cesta básica precária ao seu funcionário no fim de ano, fatura horrores de lucro, mas paga um salário de miséria para seus trabalhadores?
Pois é, esse indivíduo não tem um pingo de solidariedade, de respeito pelo ser humano. No mínimo, é um fingido,
É um falso cristão, que desconhece ou renega o profeta Mateus.
"A distribuição generosa da riqueza para atender à necessidade dos outros não obtém a vida eterna por mérito, mas demonstra que a esperança do cristão rico foi removida da “instabilidade da riqueza” e depositada em Deus, que nos dá com abundância (v. 17)."
A solidariedade é magnânima, é bonita, enobrece o ser humano e não pode ser uma peça de um único ato. É uma conduta, uma escolha de vida, uma forma de construção da humanidade. É o reconhecimento da existência do outro.
O natal é uma festa cristã que não abriga a maldade.
É preciso ter na solidariedade uma busca permanente de construção da bondade e não um momento de purgação. Os pecadores que procurem purgar seus pecados na mudança de conduta e não tentando enganar seu próprio Deus.
Que todos os meses do ano seja de solidariedade e não de fingimento.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 26.12.2025
MUITO CUIDADO. ESTAMOS EM CAMPANHA
É preciso ficar de olhos bem abertos. A campanha eleitoral para presidente da república já começou. Não existe fogo amigo e todo deslize individual será atribuído ao coletivo.
Os golpistas, fascistas e seus asseclas são muito bons em criar versão mentirosa ou farsa para desgastar os democratas, as instituições, os progressistas e, principalmente, o Lula, que dispara em todas as pesquisas de opinião.
Ontem, por exemplo, o senadores Renan Calheiros, figura de reputação nada ilibada, e Alessandro Vieira, lavajatista de carteirinha, usaram a tribuna do senado para denunciar um grande acordo envolvendo a base bolsonarista daquela casa, o ministro do STF, Alexandre de Moraes, e o governo Lula, para aprovar a redução de pena para os golpistas de 8 de janeiro (PL da dosimetria).
Uma denúncia sem prova, uma versão sem qualquer base histórica ou fundada em experiência recente. E vindo de dois políticos com histórico de se envolver com o que não presta e com tramóias, como a lavajato.
Imagine você se o ministro Alexandre de Moraes iria se envolver em trama para reduzir pena de golpista. Logo ele, o terror dessa corja.
Imagine você se Lula iria fazer acordo para reduzir pena ou anistiar criminosos que tramaram sua morte, o fim da democracia e a instauração de um estado de obscurantismo.
Bastou um deslize do líder do governo no senado, Jaques Wagner, para formação de versão mentirosa, sem qualquer comprovação, apenas elucubrações com fins eleitorais.
Sim, fins eleitorais.
A campanha já começou. Agora, qualquer deslize de um será atribuída ao Lula.
Bastou Lula e Alexandre de Moraes estarem juntos, trocando gentileza num evento, o que é normal na relação institucional entre agentes públicos, para ser criada uma versão mentirosa de acordo para aprovar redução de pena para golpistas.
Isso é campanha. E campanha contra o Lula.
Bastou a esquerda, os movimentos sociais, os democratas e progressistas saírem às ruas no domingo passado para se criar uma trama desgastando o governo Lula e o STF.
Lula, Alexandre de Moraes, STF, PT e partidos de esquerda, jamais negociariam para atenuar punição para os criminosos de 8 de janeiro. Não esqueça quem é Alexandre de Moraes nesse processo.
A campanha já começou e temos um lado, o lado da democracia. Quem se aliar ao discurso do outro lado estará fazendo a campanha dos golpistas.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 19.12.2025
A ZONA FRANCA DE MANAUS SOB A ÓTICA DOS PATRÕES
O patronato nem esperou o temporal de domingo passado para retrucar meu artigo sobre as disparidades entre o faturamento do distrito industrial e a pobreza imperante na capital do Amazonas. Tratou de entrar na microeconomia e na negação dos números para tentar camuflar o óbvio.
Como estamos tratando de concepção, dispenso a fulanização, pois a ideia de um empresário (capitalista) reflete o pensamento dominante do sistema econômico. Para sair do debate sobre a relação capital/trabalho, a escolha é e sempre foi pelo caminho da lamúria com os gastos com salários, os custos de operação, a logística, etc. Uma conversa pequena para não encarar a questão fundamental.
Um desses empresários chega a dizer que a média salarial do PIM é de 3.400 reais e esse valor "situa-se entre os setores que melhor remuneram na economia amazonense". Uma comparação rasa, tendo como referência a mais-valia absoluta, como aquela que domina o comércio varejista de Manaus. Pouco mais de dois salários mínimos como sinal de "bom pagamento" é a cara da exploração exacerbada e cínica.
Ainda no artigo publicado pelo patrão, para tentar justificar o "boom" no faturamento do PIM em 2025 e a injustificável pobreza de mais de 60% da população manauara, o problema social é jogado para a política. Não acho que seja por ignorância, mas se trata de um recurso discursivo para encobrir a desigualdade provocada por relações profundas de exploração do trabalhador do distrito industrial e de outros ramos da economia amazonense.
O problema é econômico. Isso está na economia clássica, desde Adam Smith. O empresário sabe disso. Está na relação capital/trabalho, no lucro excessivo obtido a partir da força de trabalho do operário e de todo trabalhador. A política é um aporte do sistema econômico, pronto para lhe oferecer benesses, incentivos e isenções fiscais. Na visão capitalista clássica é assim, mas o sistema não foi criado para se manter imutável. O capital tem que ter outras funções, que não seja a da busca tresloucada pelo lucro, senão "um dia a cada cai".
Outro empresário, este do ramo da manipulação digital de dados, enveredou pelo caminho que já percorre há décadas e que lhe rendeu fortuna: Negar as estatísticas e manipular os números.
Não fui eu que disse que Manaus tem o pior rendimento familiar per capita entre todas as capitais do Brasil, foi o IBGE e com farta divulgação pela mídia. Também não fui eu que disse que Manaus tem a 4ª e a 7ª maiores favelas do país, foi o Censo 2022 do IBGE. Cidade de Deus/Alfredo Nascimento tem 55.851 moradores e a Comunidade São Lucas tem 53.674 moradores. A Rocinha, no Rio de Janeiro, é a maior do Brasil, com 72.021 moradores. Não sou eu que tenho o hábito de deformar estatísticas.
Os resultados do Censo 2022, do IBGE, continuam sendo publicados. Não é exclusividade minha conhecer os números, mas não me venham negar os dados, numa tentativa pueril de camuflar um problema que é resultado da extrema desigualdade social no país, provocada pela concentração de renda. Sei que faturamento não é lucro, mas não me venham dizer que dos 200 bilhões faturados pelas empresas do distrito industrial de Manaus, poucas centenas de patrões não vão embolsar pelo menos 10% desse valor, ou seja, 20 bilhões de reais.
A ótica do patronato é aquela de que emprego é dádiva do empresariado e não um recurso para lhe gerar lucro. A oferta de 130 mil empregos, com salário médio de 3.400 reais, e o faturamento de mais de 200 bilhões de reais das empresas é a prova de que o trabalhador fica apenas com o valor de duas ou três horas trabalhadas por dia. O restante das horas (5,6 horas) vira lucro para o dono da indústria. Isso é exploração extrema. Bem que o trabalhador poderia receber um salário por mais horas trabalhadas, numa jornada 5x2, no mínimo.
Concluo, agradecendo as inúmeras mensagens, comentários em redes sociais, ligações que recebi me parabenizando pelo texto corajoso de meter o dedo na ferida, já que políticos, acadêmicos e líderes sindicais permanecem calados, sem discutir qual modelo econômico pode gerar mais qualidade de vida para nossa gente. Do jeito que está, o Polo Industrial de Manaus apenas reproduz pobreza.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 12.12.2025
ZONA FRANCA DE MANAUS É UM MODELO REPRODUTOR DE POBREZA
O chamado Polo Industrial de Manaus bateu recorde de faturamento este ano. De janeiro a outubro, alcançou a soma de 189,53 bilhões de reais ou 33,93
bilhões de dólares, gerando 131,227 empregos, entre efetivos, temporários e terceirizados. Até o fim do ano, o faturamento deverá passar dos 200 bilhões de reais.
A Suframa comemora. Os empresários comemoram, o governo do estado comemora. O prefeito de Manaus, que adora fazer festa com o dinheiro alheio, comemora no Caribe.
Manaus não tem muito o que comemorar.
A média salarial do Distrito Industrial é de pouco mais de dois salários mínimos (R$ 3.685,68). 58,51% dos contratados diretamente pelas empresas do PIM recebem até dois salários mínimos, ou seja, 3.036 reais. Essa massa cresceu este ano, em relação a 2024. Foi de 56,51% para 58,51%, segundo a Suframa.
O Polo Industrial de Manaus gasta entre 4% a 7% do seu faturamento com salários dos trabalhadores. Os recordes de ganhos das empresas não representam nada de melhoria salarial para aqueles que produzem a riqueza.
Nesse quadro de profunda exploração, Manaus aparece como a concubina espoliada pelo rufião que chegou no zepelim gigante.
Manaus tem o pior rendimento familiar per capita entre todas as capitais do Brasil (R$ 1.502) Esse indicador revela a média de renda por pessoa e o seu poder de compra. Tem o segundo menor rendimento médio do trabalho. Caiu de R$ 2.904 em 2023 para R$ 2.684 em 2024. A taxa de desocupação é de 10,3%, maior do que a nacional.
Os números são da Síntese de Indicadores Sociais (SIS) do IBGE.
A nossa vilipendiada Manaus, onde as multinacionais faturam mais de 200 bilhões de reais por ano, tem a quarta maior favela do Brasil, a Cidade de Deus, com mais de 55 mil habitantes.
A taxa de pobreza aqui é de 62,3%.
Das 400 mil moradias em favelas, 55.692 não têm ligação de água. 40,1% dos moradores dessas comunidades se declararam pretos, 35,5% brancos e 37,1% pardos.
Defender o modelo zona franca de Manaus sem debater essas desigualdades é jogar o problema para debaixo do tapete. É cínico. Não é possível tratar empregos como migalhas, enquanto uma elite se refestela na grana às custas do trabalho alheio.
0 modelo não passa das 130 mil vagas de trabalho, mas seus lucros exorbitam todo ano, enquanto o povo manauara sofre com insegurança alimentar, morando em locais insalubres ou pendurados em barrancos, morrendo a cada chuva.
Já passou da hora de dar mais responsabilidade social para as empresas do distrito industrial. Com a palavra o futuro governador do estado, pois o atual não tem condições morais e nem compromisso para defender a nossa gente.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 27.11.2025
CONFESSO QUE VIVI
"Assim como se desencadeiam o frio, a chuva e o barro das ruas, quer dizer, o insolente e arrasador inverno do sul da América, o verão também chegava a estas regiões, amarelo e abrasador."
O poeta Pablo Neruda nos fala da Arte da Chuva, em Confesso que Vivi, livro autobiográfico, publicado após sua morte. Fala da sua infância, da verve poética, do partido comunista chileno, do golpe em Salvador Allende e conta muitas histórias.
"Passaram-se alguns anos desde que ingressei no partido... Estou contente... Os comunistas formam uma boa família... Têm a pele curtida e o coração moderado... Por toda parte recebem golpes... Golpes exclusivos para eles... Vivam os espíritas, os monarquistas, os anormais, os criminosos de todas as espécies... Viva a filosofia com muita fumaça e pouco fogo... Viva o cão que ladra e que morde, vivam os astrólogos libidinosos, viva a pornografia, viva o cinismo, viva o camarão, viva todo o mundo, menos os comunis..."
Cá estou, relembrando minhas leituras de adolescente. Me veio à lembrança como um "insolente e arrasador inverno do Sul da América" o Confesso que Vivi do Pablo. Confieso que he vivido.
O sentimento não é por acaso.
Na minha adolescência, vivi e combati a ditadura, nos seus estertores, mas ainda torturando e matando, como na OAB e no Riocentro. Vivi o Partido Comunista, o brasileiro, e aprendi que os "comunistas formam uma boa familia... Têm a pele curtida e o coração moderado".
Vivi a redemocratização, fui estudante das belas caminhadas e da coragem de enfrentar a repressão, com a altivez de todo revolucionário. Vivi o renascimento dos direitos políticos arrancados pela ditadura militar e fui para a rua defender meus sonhos, agora respirando democracia.
Vivi para ver uma das maiores revoluções tecnológicas da nossa história e mergulhei como um adolescente na descoberta das novas formas de comunicação. A Globo já não estava sozinha. Agora o mundo poderia ouvir a voz de um morador da favela de Manaus.
Quando pensei que tinha vivido cem anos e a solidão não tinha me abrasado, vivi a presença nefasta do fascismo. Novamente, peguei a bandeira da democracia e fui para as ruas. Mas a luta se tornou mais intensa e passou a ser também pela vida. Chorei, sofri as perdas de tanta gente amada.
Confesso que a dor de viver foi terrível.
Mas nunca me desfiz dos meus sonhos e, mais uma vez, a democracia raiou, agora com a tristeza e a saudade dos amigos e amigas que partiram na pandemia.
Confesso que nunca pensei em desistir.
confesso que vivi para ver golpistas caminharem para a cadeia como traidores caminhavam para o cadafalso.
Eles estão na cadeia.
A democracia venceu.
Confesso que continuo vivendo, com as lágrimas da indignação e o espírito dos que partiram. Neruda vive, todos vivem na derrota da corja golpista.
O verão chegou abrasador nessa parte da América.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 27.11.2025
A COP 30 E A ESPERANÇA QUE VEM DA LUTA
Enquanto escrevo estas linhas aqui do meio da floresta amazônica, a COP 30 ainda não concluiu os acordos de Estado para salvar o planeta terra. Os burocratas, encarregados da missão, devem entrar pelo fim de semana, num esforço hercúleo para acertar o verbo que vai virar letra morta.
A COP 30 é um embuste necessário para manter viva a responsabilidade da política nas decisões que podem salvar o planeta e as vidas que nele existem. Mas na ordem mundial predominante a desordem é que alimenta a crise climática. Não podemos esperar muito, ou quase nada, dessa balbúrdia chamada capitalismo.
Nem mesmo o tímido Acordo de Paris foi implementado.
Em fevereiro deste ano venceu o prazo para os países apresentarem as NDCs ( Contribuições Nacionalmente Determinadas). 80% não entregaram as metas para redução de emissões para a próxima década.
O financiamento climático de 100 bilhões de dólares por ano para os países em desenvolvimento fazerem adaptação e mitigação não foram cumpridos pelos países ricos e maiores poluidores.
A transição de combustíveis fósseis também virou cinza. Países como o Brasil insistem na exploração predatória dessa fonte suja de energia. A descarbonização só existe no papel e no discurso.
Os fundos ambientais não são menos enganosos.
Tem fundo para tudo que é gosto. Tem Fundo Amazônia, tem Fundo Nacional para Repartição de Benefícios e agora o Brasil propôs mais um: Fundo Florestas Tropicais Para Sempre.
Até hoje, os dois primeiros fundos criaram um buraco sem fundo de cargos de confiança no ministério do meio ambiente e o fundo proposto por Lula é mais um agrado ao capital, para continuar tratando a floresta como um ativo financeiro, como denunciou em artigo o sociólogo e ativista ambiental Adilson Vieira.
E onde se meteu a esperança, esta senhora que alimenta nossos sonhos e utopias?
Ela esteve presente na Cúpula dos Povos na COP 30 e reuniu 70 mil militantes de 60 países, representando povos originários e tradicionais, feministas, indígenas, população em situação de rua, povos de terreiro, quilombolas, lgbtqiapn+, extrativistas, sindicalistas, trabalhadores da cidade e do campo.
A Cúpula dos Povos ocorreu no período de 12 a 16 de novembro, em Belém, e apresentou um documento à COP 30, em forma de declaração, e não contou conversa. Na sua primeira linha apontou a origem do problema: O modo de produção capitalista é a causa principal da crise climática crescente.
E saiu revelando os sujeitos da crise que põe em risco todas as vidas no planeta: as empresas transnacionais com a cumplicidade do Norte Global, a privatização, mercantilização e financeirização dos bens comuns e o fracasso do modelo de multilateralismo.
A esperança para o planeta está na luta social e não na política de Estado.
É na luta social que está o enfrentamento às causas da crise climática no mundo e as soluções sem a ganância do mercado financeiro, está o protagonismo dos povos e o respeito aos saberes ancestrais como forma harmônica de vida, está o combate ao racismo, ao machismo e a toda forma de opressão.
Não existe saída para o planeta que não seja pela superação das desigualdades sociais e a distribuição da riqueza produzida pelos trabalhadores. É aqui que a esperança se encontra.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 21.11.2025
SOBRE A LUTA REAL E A POSIÇÃO DOS INTELECTUAIS
Sou marxista-leninista, logo tenho na luta de classes uma referência fundamental dos conflitos sociais. Aprendi a analisar a realidade tendo como base o materialismo histórico e com o materialismo dialético dialogar com a história.
Este instrumental teórico e metodológico não me tira a perspectiva de entender o jogo político ou levar a me esconder no discurso puramente ideológico, para não ter uma posição política de enfrentamento com os agentes da classe dominante, como vem fazendo uma cambada de intelectuais do campo da esquerda.
É muito fácil tomar posição ideológica e se esquivar da definição política, como se os agentes políticos não constituíssem um sujeito coletivo. Na verdade, o discurso ideológico sem posição política - aquele que fala da burguesia, mas não fala o nome do burguês, com receio de retaliação - vem servindo de instrumento de intelectuais e militantes covardes, trânsfugas do embate real.
O materialismo histórico e dialético é um instrumento de luta e não de covardia. Precisamos entender a ação dos sujeitos políticos, suas alianças, seus movimentos, para compreender a luta de classes como força motriz da história.
Na Divisão Internacional do Trabalho, a conquista de regimes democráticos e de governos populares serve à luta de resistência contra aqueles países que se desenvolveram economicamente às custas da acumulação primitiva: dos saques e crimes contra a humanidade.
A classe trabalhadora ou o proletariado, como escrito em 1848, comemora cada conquista política e dela faz um instrumento de luta contra a opressão da classe dominante.
Não está na política a transformação social, mas é nela que os sujeitos ideológicos se expressam e tomam forma. Não necessariamente o agente tem que ser deste lado da história, mas no momento que sua ação fortalece nossa luta ele é um aliado.
A luta de classes é real e não uma fantasia idílica dos medrosos e oportunistas. Nos últimos anos, o que mais tem aparecido é pseudointelectual tentando justificar seu desalento ou sua deserção da história. Nenhuma surpresa. O mundo tem dessas coisas.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 14.11.2025
ALIENAÇÃO E DESUMANIDADE
Tenho procurado entender as razões que levam uma considerada parte da população à manifestações grosseiras de desumanidade e barbárie. A busca desse entendimento não se trata de inquietação isolada, pois tenho lido inúmeros artigos de indignação com a brutalidade de como a vida vem perdendo valor para muita gente.
Podemos reconhecer essa desumanidade partindo de Marx, que atribui à separação do trabalhador do produto do seu trabalho e, por consequência, de si mesmo, o distanciamento da sua própria essência humana, pois se transforma em meio de produção, vira parte da máquina.
Para Marx, o indivíduo se humaniza nas relações sociais, mas para isso precisa estar livre para criar e transformar a natureza, através do trabalho, em benefício da sociedade.
No capitalismo, o que o indivíduo produz vira mercadoria, que gera lucro para o dono da fábrica e o trabalhador sequer tem acesso àquilo que produziu. O que era para humanizar, desumaniza..
Conheço bem essa teoria da alienação marxiana, porém, não vejo como suficiente para explicar a desumanidade que grassa em expressivos segmentos sociais.
Fui até Rousseau e concordo que o ser humano não nasce ruim. Que é a sociedade que o torna desumano, divorciado dos valores naturais de autopreservação e de compaixão. O indivíduo deixa de sentir e desenvolve uma conduta de competição, buscando superioridade diante do seu semelhante.
O filósofo iluminista, que criticava o desenvolvimento da civilização e defendia a estabilidade social a partir de um contrato entre os indivíduos, aponta a compaixão, a busca do bem comum, a igualdade e a liberdade como princípios de resgate da humanidade.
Nesse diálogo dicotômico com Marx e Rousseau, vejo dois indicativos para superação da barbárie que ainda permeia o tecido da sociedade.
É preciso combater a exploração econômica do trabalhador e torná-lo mais próximo do produto do seu trabalho.
A melhoria de vida, a partir do desenvolvimento de relações sociais mais equilibradas e com menores índices de desigualdades, pode reduzir a brutalidade de estratos sociais que não se reconhecem na sua humanidade.
Obviamente que isso é um paliativo, pois enquanto o trabalhador for tratado como máquina, sua luta contra a desumanização será improfícua.
Mas a desumanização não está presente apenas no trabalhador. Ela está em homens e mulheres que estão formalmente fora do mercado de trabalho, ou seja, fora da economia.
A desumanidade está sendo construída fora das relações de produção. Ela passou a ser produto ideológico dentro de igrejas, escolas, universidades, grupo informais e virtuais. A alienação virou instrumento de dominação política.
A perda dos valores da compaixão, do respeito ao outro, da igualdade e do bem comum está sendo promovida em toda sociedade, como indicava Rousseau. A luta, portanto, não é somente contra a relações de exploração capitalista. Ela deve ser travada dentro de todos os campos, conforme definição de Pierre Bourdieu.
A desumanidade se transformou em objeto da hegemonia política. É nela que a extrema direita e sua doutrina neopentecostal repousam suas expectativas de domínio.
Isso é uma ameaça a tudo que conquistamos como cultura, ciência, razão e convivência social. É um retorno às relações de brutalidade extrema como forma de poder.
Precisamos combater essa crise de humanidade provocada pelo desejo incontido de poder político a qualquer custo.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 05.11.2025
SESSENTEI
É verdade, cheguei aos 60 anos. Não me pergunte como vivi tanto, mas posso te dizer o que vivi.
Corri, brinquei, briguei, amei, e antes de chegar a fazer besteira, me conscientizei. Mesmo assim, errei.
Errei e continuo errando. Para alguns, é erro, para outros, é resistência em aceitar o que é imposto. Para mim, é a procura de acertar, sempre coletivamente.
Vivi a fome, a exclusão, a indiferença. Nada me fez ruim. Mas já fiz maldade. Só que elas foram tão pequenas. No entanto, me incomodam.
Cheguei aos 60 tendo os melhores amigos que alguém pode ter. Tenho duas filhas que me orgulham. Tenho uma companheira que me faz conjugar o verbo amar todos os dias.
Cheguei aos 60 anos sem recalques. Apenas uns traumas que me tornam humano. Me acomodo nessa convivência.
Muito obrigado, amigos, amigas, filhas, meu amor. Não vou desistir de ser o homem que pensei em ser.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 02.11.2025
A DANÇA DOS MORTOS
Vai começar a dança dos mortos, não mais embalada por Frédéric Chopin. Agora o ritmo é a toada da indiferença e da desigualdade.
Um morto pra cá, dez pra lá.
Um morto pra cá, trinta pra lá
Nenhum morto pra cá, 64 pra lá.
Dancem, dancem, senhores e senhoras. No ritmo da dança, mais mortos cairão morro a baixo.
Nenhum morto pra cá, 64 pra lá.
Negros, negras, pobres e policiais têm prioridades no motivo da dança.
Enquanto isso, um bonecão se refestela de vinhos e drogas no Copacabana Palace, admirando sua Barbie feita de bosta de ouro.
A dança não pode parar.
O moço vestindo um terno Hermenegildo Zegna tem preferência para empurrar cinco dezenas de jovens de cima do morro.
É só dançar: nenhum pra cá, cinquenta pra lá.
Agora é a hora do governador.
Calma. Ele se engasgou com pedaços de gente durante seu banquete antropofágico. Mas logo poderá dançar a morte de outras dezenas.
Que agora toquem o terceiro movimento da Sonata para piano Nº 2 em si bemol menor, Op. 35, de Frédéric Chopin.
É a vez daquela senhora de vestido Chanel tirar para dançar o senhor vestindo terno William Westmancott.
Dancem agora as mortes de 700 milhões de famintos no mundo. Dancem também pelas crianças que morrem de fome na África.
Dancem, dancem, as mortes não podem parar.
Teremos marcha fúnebre e toadas da morte por toda noite. O governador já autorizou novas operações nos morros e favelas.
Dancem agora pelas mulheres e crianças palestinas mortas pelos sionistas israelenses. Aquele senhor sionista pode tirar aquela dama nazista para dançar.
Enquanto isso, no Amazonas, o governador dança um carimbó comemorando os últimos mortos pelos linchamentos públicos que se repetem toda semana.
Dancem, dancem, mas dancem muito, pois um dia o morro vai descer e a dança será embalada por 64 pra cá, nenhum pra lá.
Dancem, bebam seus vinhos caros e vistam seus trapos de marcas. Essa festa não vai durar a vida toda.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 30.10.2025
O MUNDO DOS DOIDOS E O REENCONTRO COM AS COISAS DA VIDA
Quando eu era menino, tinha um medo danado de ficar doido. Esse temor foi diminuindo com as conversas da minha mãe de que a principal causa da loucura era o estudo excessivo.
Naquele tempo eu já não tinha qualquer disciplina para o estudo. Passei longe de ser o melhor aluno nas poucas séries que estudei.
Minha mãe e as vizinhas conversavam sobre conhecidos que tinham pirado de tanto estudar. Para confirmar a estória, davam como exemplo o Rui Doido, um senhor que andava pelas ruas do Beco do Macedo, bairro onde cresci, com uma pilha de jornais debaixo do braço.
-sabe o que foi aquilo com o Rui? Foi estudar muito. Passava a noite estudando, até que um dia ficou bilé.
Não tinha como não acreditar.
O cara tinha pirado mesmo de tanto estudar. A prova era o apego pela leitura. Mesmo depois dos parafusos da sua cabeça terem afrouxados, ele não largava aqueles jornais.
Eu respirava aliviado. Não ficaria louco.
O tempo foi passando e só me tornei chato. Mas um chato tolerável. Não estudei o suficiente para entrar no mundo dos loucos.
Hoje, sei os motivos da vinculação dos estudos com a loucura. Não é loucura. É um tipo de chatice antissocial.
Geralmente, quem se dedica a estudar com rigor e disciplina termina por se distanciar do seu grupo social, seja através de uma linguagem rebuscada ou pela mudança de hábitos. Isso não é loucura, mas bem que poderia ser.
No meio do povo, quando o indivíduo se isola do grupo, mesmo que seja por lambança, é logo chamado de doido. A palavra mais comunicativa e comum a todos é esta: doido. E tem seus derivados: bilé, parafuso solto, tonto, miolo mole, e outros.
Minha mãe e nossas vizinhas não estavam totalmente erradas. Esse negócio de estudar nos leva a alguns sacrifícios e um deles é ficar doido, vendo números e causas em tudo, analisando comportamentos, combatendo condutas e sempre querendo entender o mundo. É uma chatice louca.
Mas nem tudo pode ser assim.
Podemos compreender e explicar as coisas usando uma linguagem popular para encontrar interlocutores e não ficar falando somente para nossos botões.
Podemos reencontrar nossa identidade cultural, voltando a frequentar nossos grupos sociais, com mais empatia, tolerância e disposição freireana para aprender.
Precisamos da nossa cultura de classe para continuar conhecendo e compreendendo o mundo e as coisas e nos tornarmos menos doidos.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 23.10.2025
UMA MULHER NO STF
Antes que os machistas de plantão venham falar, adianto que me refiro à mulher tomando como referência o conceito de Simone de Beauvoir, no seu livro O Segundo Sexo, resumido no seguinte postulado: Ninguém nasce mulher, torna-se mulher.
Me refiro, portanto, às mulheres que construíram e constroem sua identidade no compromisso social e histórico com a justiça e a igualdade. Não cabe aqui a mulher que não se reconhece como mulher e reproduz a opressão e o preconceito social e cultural
Li o currículo de 13 mulheres cogitadas para assumir a vaga deixada pelo ministro Luís Roberto Barroso no Superior Tribunal Federal. São profissionais de reconhecido saber jurídico e todas têm inserção em alguma frente de combate ao racismo, à misoginia ou algum outro tipo de preconceito e violência social.
E por que o presidente Lula deve indicar uma mulher para o STF?
Primeiro, porque são mulheres preparadas para assumir o cargo. Segundo, para reafirmar o compromisso do seu governo de combater as desigualdades, o que ele já vem fazendo.
A indicação de uma mulher ao STF seria mais um passo para fazer uma correção histórica numa corte machista, que em 134 anos de existência só teve três nomeações femininas. Não teve e não tem mais mulheres na sua composição porque elas são excluídas justamente por serem mulheres. Não existe outro motivo.
E as três mulheres nomeadas foram nas últimas três décadas. Uma indicação do FHC, uma do Lula e outra da Dilma. Ou seja, por um século, a suprema corte brasileira teve somente homens.
Na busca por justiça e igualdade, se tem um jurista e uma jurista preparados
para assumir uma vaga no STF, o critério de desempate deve ser o de gênero, até se chegar a paridade na corte.
Lula tem a obrigação histórica de insistir na correção dessa injustiça com as mulheres brasileiras. O próprio Conselho Nacional de Justiça estabeleceu normas para garantir paridade na segunda instância dos tribunais, onde as mulheres representarem menos de 40% dos desembargadores.
O critério de gênero é legítimo. Ele busca corrigir desigualdade e exclusão históricas. As mulheres sofrem até hoje toda carga machista de uma sociedade construída sob os ditames do patriarcado. É inadmissível que um governo popular não confronte o preconceito dentro do próprio Estado. Lula tem confrontado, mas a suprema corte continua sendo uma casamata do patriarcado.
O Suprema Corte, enquanto Estado brasileiro, deveria se envergonhar de por mais de um séculos de existência ter tido apenas três mulheres como ministras. É tempo de corrigir isso. Por mais mulheres nos tribunais.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 17.10.2025
OS TRIBUNAIS DE JUSTIÇA E A REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA NA AMAZÔNIA
A Corregedoria Nacional de Justiça do Conselho Nacional de Justiça (CN-CNJ) publicou, em abril de 2023, o Provimento 144/2023, estabelecendo, no âmbito do poder judiciário, o Programa Permanente de Regularização Fundiária na Amazônia Legal e
instituindo a Semana Nacional de Regularização Fundiária.
O documento põe as Corregedorias estaduais e os registradores de imóveis (cartórios) numa condição ativa no processo de regularização fundiária nos nove estados da Amazônia.
O Provimento 144/2023 é um documento histórico no âmbito do judiciário e orienta as Corregedorias dos Tribunais de Justiça para uma ação articulada com as instituições públicas, a fim de garantir justiça social e ambiental no processo de regularização fundiária na região. Deixa claro que essa articulação deve envolver os movimentos sociais, a sociedade civil organizada e entidades públicas e privadas para formulação de propostas de gestão fundiária, que garanta inclusão social e defesa do meio ambiente.
O Provimento enfatiza ainda o respeito aos povos originários e a necessidade de uma governança fundiária que garanta acesso à terra, proteção ambiental e justiça social.
Pois bem. Vamos ver agora onde está o gargalo na execução do Provimento 144/2023.
As Corregedorias de Justiça dos Tribunais de Justiça da Amazônia resolveram dar um cangapé no Provimento e não estão empenhadas na solução dos problemas fundiários da região.
Em 2024, foram 55 mil títulos de propriedade emitidos na Amazônia por órgãos federal e estadual de terras, em articulação com as Corregedorias de Justiça. O Amazonas ficou em primeiro lugar, com mais de 18 mil títulos.
O problema é que esses 55 mil documentos de propriedade são, quase na sua totalidade, de áreas urbanas (REURB), onde não existe conflito fundiário, insegurança jurídica, tampouco políticas públicas para os beneficiados.
É pura enrolação.
Titular áreas urbanas em cidades do interior dos estados amazônicos e nada é a mesma coisa. Sequer ajuda o meio ambiente. Não existe ameaças às essas famílias.
O problema fundiário está na zona rural. É lá que tem grilagem, desmatamento, assassinatos por conflito de terras, expulsão de agricultores, ribeirinhos, extrativistas das suas terras tradicionais. É lá que indígenas e quilombolas são perseguidos e suas terras vivem sob ameaça de invasão e são invadidas.
Os governos estaduais não entram em áreas de conflitos fundiários porque não há interesse em defender a propriedade dos pequenos agricultores e as comunidades tradicionais. As Corregedorias de Justiça não combatem grilagem de terra porque não querem sair da sua zona de conforto e se dedicam a enviar para o CNJ números de regularização fundiária que, na verdade, não correspondem ao mérito do Provimento 144/2023.
O atual presidente do TJ-AM quando era corregedor foi ao sul do Amazonas e constatou tudo que é crime, inclusive a ação de cartórios na grilagem de terras. Interveio em alguns deles.
Mais nada foi feito e o crime continua imperando no sul do estado.
Sobre articulação com movimentos sociais e sociedade civil organizada, esquece. A Corregedoria não participa de nenhum evento sobre o tema e se resume a organizar a semana do solo seguro, uma vez por ano. Foi criado um comitê composto por um desembargador e vários juízes para tocar o programa, mas falta boa vontade e compromisso. Nem mesmo os processos de usucapião foram tirados da gaveta, nos casos em que não há solução extrajudicial.
Ainda há tempo para melhorar a atuação dos tribunais de justiça na defesa da terra, do meio ambiente e da nossa gente. É só colocar em prática o Provimento 144/2023.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 09.10.2025
A RESISTÊNCIA DAS MULHERES AO FASCISMO
Já faz alguns anos que me chama atenção a atuação de mulheres em defesa do fascismo no Brasil. A extrema direita fez ressurgir esse fenômeno político vergonhoso da história. Não são mulheres ligadas a grupos religiosos ou mesmo a uma organização civil neofascista ou neonazista. Emergiram de outras condições.
Algumas têm a atuação fascista herdada de alguém da família, geralmente um militar simpático à ditadura ou formado sob a ótica do extermínio e apagamento de tudo que é vinculado à democracia. Outras, sem origens conhecidas, talvez sejam motivadas por traumas de infância ou são vitimas da psicologia de massa do fascismo, um pensamento sempre presente na ideologia dominante.
Não me refiro à massa de mulheres ideologizadas pelo neopentecostalismo ou por outro mecanismo de dominação e subserviência. Essas são vítimas e merecem todo respeito e tolerância. As que me causam estranheza são aquelas com mandatos, outras chamadas influencers, uma categoria disfuncional surgida no mundo digital.
Me causam estranheza porque a história das mulheres no combate ao fascismo é heróica e exemplar.
Na Itália, durante a ascensão de Mussolini, as mulheres resistiram às políticas de dominação dos seus corpos pelos programas de natalidades, que exigiam retorno às suas casas para trabalhos domésticos e reprodução humana, como se fossem máquinas de parir. Elas continuaram nos seus postos de trabalho, buscando cidadania e respeito.
Durante a segunda guerra mundial, após a invasão nazista, as mulheres italianas fizeram a resistência. 35 mil faziam parte das formações de combate, 20 mil atuavam no apoio e 75 mil se juntaram aos Grupos de Defesa das Mulheres, organizações pioneiras do feminismo na Itália.
Mais de 4.600 foram presas, torturadas e condenadas nos tribunais fascistas. 1.890 foram deportadas para a Alemanha. 683 foram baleadas ou mortas em combate. Os dados são da Associação Nacional Italiana de Partidários - ANPI.
A posição feminina de resistência não foi somente uma luta pela democracia. Elas lutavam contra o machismo, um elemento de dominação muito forte e característico do fascismo. Mussolini, por exemplo, era um conquistador bizarro e estuprador. Para ele, sempre estava "pintando um clima" com menores de idade.
Hoje, temos autores que classificam o mecanismo patriarcal de controle e opressão da mulher como "fascismo de gênero". Trata-se de um fascismo social, cuja atuação se dá pela assimetria entre homens e mulheres, que reproduz a exclusão e a subjugação feminina.
Como sabemos, o fascismo é um regime de violência, escudado em bandeiras chauvinistas e de escolha de um inimigo comum. Seu patriotismo é desfigurado pela defesa de grupo e do anseio por poder. Não tem nada a ver com a defesa da pátria. Nem mesmo os militares fascistas são patriotas.
A atuação de mulheres fascistas é uma excrescência política, pois viola seus direitos sociais e humanos. A mulher fascista não se autorreconhece como mulher ao defender um sistema de pensamento que busca aniquilá-la social e culturalmente.
Sigamos firmes com a mulheres em defesa da democracia e da vida. Elas são muitas no Brasil democrático e seguem o exemplo das companheiras italianas e de todas que lutam em todo o mundo.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 02.10.2025
BR-319: UM NOVO ACENO PARA UM VELHO SONHO
A sabedoria popular costuma dizer que a esperança é a última que morre. Na minha singela interpretação, digo: mas morre.
É nesse dilema que vivemos quando o assunto é a pavimentação do trecho do meio da rodovia federal BR-319, inaugurada em 1976, fechada em 1988 e reaberta em 2015.
Não faz muito tempo, a ministra do meio ambiente, Marina Silva, anunciou a criação de um grupo interministerial para coordenar um estudo sobre a viabilidade da estrada e apresentar direções sustentáveis para a sua trafegabilidade.
Não quero dar uma de rasga-mortalha, aquela coruja que ao gritar anuncia a morte, mas quando não se quer fazer uma coisa, é só inventar um estudo ou a criação de um grupo. Quando são os dois juntos, é embromação na certa.
Já foram gastos cerca de 111,5 milhões de reais em estudos sobre a flora, fauna, arqueologia e epidemiologia em área afetada pela 319. Só na parte ambiental, o Denit diz que em dez anos foram gastos 80 milhões de reais em estudos para realização das obras. Essa grana toda incluiu um EIA-RIMA, documento exigido para licenciamento dos trabalhos de pavimentação.
Cadê esses estudos? Não valem mais nada? E a responsabilidade administrativa de quem gastou 200 milhões de reais em estudos que não serviram para nada ou não trouxeram resultado?
Não acredito que a BR-319 venha a ter trafegabilidade digna até ano que vem. Só os novos estudos deverão durar oito meses. Este mês foi publicado no Diário Oficial da União a contratação de uma empresa para iniciar os estudos, porém, o tempo não para.
Na semana passada, o senador Omar Aziz conduziu uma caravana pela BR, para ver se perto as dificuldades enfrentadas pelas populações que moram no entorno da estrada e o sufoco dos motoristas que por ali trafegam. Com certeza, apenas confirmou o estado de abandono, com ausência de serviços públicos básicos e situação propícia para o domínio de todo tipo de crime.
Na contramão dos anseios dos povos do Amazonas e Roraima está um grupo reduzido de pseudo-ambientalistas, que defendem teses superadas como a do santuário ecológico para se contrapor à recuperação da BR-319. São teorias trazidas dos Estados Unidos, que resultaram em dramas sociais perversos na Amazônia. Defender o isolamento do Amazonas do restante do país em nome da preservação ambiental é um equívoco profundo.
A dignidade humana e os direitos humanos de bem viver exigem o reconhecimento de 4,6 milhões de brasileiros que querem a saída e a entrada terrestre dos seus estados. Que o Estado brasileiro garanta sustentabilidade ambiental e dê segurança às populações que moram no entorno da rodovia. Hoje, somente o crime organizado está por lá.
Têm estudos sobrando. O que falta é vontade política. Que o ministério do meio ambiente faça o seu trabalho e apresente, com brevidade, um plano de proteção da fauna e da flora do entorno da 319 e outros ministérios, das áreas social e de segurança, também apresentem seus planos de atendimento às populações locais, inclusive de combate à grilagem e ao desmatamento. Bora trabalhar. Nossa gente paga impostos. Somos brasileiros.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 23.09.2025
TEM COISA ERRADA NO PLANALTO
Como sociólogo e comunista, admiro profundamente o presidente Lula. Trata-se de uma liderança mundial de inteligência incomparável. Outro dia o ouvi dizer: “quem quiser ajudar meu governo, critique, reclame e reivindique.”
Foi um recado claro aos bajuladores.
Seguindo essa linha crítica, faço algumas considerações.
Nesta semana, Lula esteve em Manaus para uma agenda sobre segurança pública envolvendo os países da Amazônia. Até aí, nada a questionar. O que me pareceu estranho foi o presidente vir à cidade com uma programação única, como se o governo não tivesse mais nada a apresentar.
Passei dez anos como gestor nos governos Lula e Dilma e sei como funcionam o cerimonial e a forma de governar que construímos.
A Secretaria-Geral da Presidência é a responsável por organizar a agenda do presidente nos estados. Hoje, não está cumprindo esse papel. Tudo virou um grande caos.
Lula chegaria a Manaus na terça-feira, dia 9. Na segunda, conversei com a direção do PT e até com uma companheira da equipe precursora da Presidência da República. Ninguém sabia que haveria reunião com os movimentos sociais na UFAM.
Tudo bem, fui lá. Mas o que vi foi um horror. Uma falta de respeito provocada pela desorganização. O auditório comportava apenas 150 pessoas, mas a coordenação (?) enviou 500 pessoas, entre estudantes, professores e representantes de movimentos sociais, para uma fila de credenciamento que não resultou em nada.
Fiquei estarrecido.
Essa é a nossa base: gente que sustenta o governo, que se mobiliza para eleger Lula, combater o fascismo e defender a democracia. Vi professores da UFAM serem desprestigiados dentro da própria universidade.
E não se trata de um fato isolado: isso vem se repetindo em todo o Brasil. O próprio Planalto tem contribuído, ainda que involuntariamente, para desgastar a popularidade de Lula e enfraquecer seu vínculo histórico com a militância. Não é má-fé, é incompetência, fruto do vício de gabinete.
Lula não pode visitar um estado sem uma agenda robusta, articulando vários ministérios. Precisa anunciar medidas em áreas como saúde, educação, agricultura e políticas sociais. Precisa, também, reunir-se com a militância do PT e com os movimentos sociais. É assim que o PT sempre foi.
A Secretaria-Geral da Presidência tem se mostrado ineficiente nessa articulação. O cerimonial chega ao estado, não escuta ninguém e não organiza nada. Isso expõe Lula a riscos e fragiliza o governo.
Isso precisa mudar. Tem que melhorar. Essa não é – nem pode ser – a prática de um governo petista.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 11.09.2025
AMAZÔNIA, UMA OUTRA CONCEPÇÃO É POSSÍVEL
Uma mudança de postura em todos os níveis do governo, dos cientistas e instituições públicas em relação à Amazônia resultaria de uma outra concepção, que não fosse aquela da velha política econômica produtivista e exploradora.
A Amazônia é um espaço de vida que reúne centenas de povos e milhares de comunidades. Temos cerca de 180 povos indígenas e mais de mil comunidades quilombolas, segundo a Nova Cartografia Social. São 27,8 milhões de habitantes (IBGE, 2022), distribuídos em 775 municípios, numa área que abrange 60% do território nacional.
Essa diversidade étnica e populacional reproduz conhecimentos seculares. Não é correto se referir à Amazônia como uma mancha de potencial econômico, pronta para virar geleia nas mãos do capital internacional ou das suas concubinas nacionais e ignorar outras riquezas que consideramos importantes.
A Amazônia é um espaço de vida.
A Amazônia é um espaço onde nascemos, vivemos e criamos nossos filhos, filhas, netos, netas, bisnetos e bisnetas, homens e mulheres da floresta. É aqui que nos construímos gente, seres humanos com uma cultura arraigada em costumes e tradições herdadas de milhões de ancestrais espalhados pelas várzeas, matas e beira de rios, antes que a colonização chegasse e cumprisse sua missão genocida.
Qualquer projeto para nossa região tem que priorizar essa visão cultural e social, do contrário reproduzirá desigualdade e destruição de valores humanos construídos por séculos.
No meio dessa mata vista pela janela do avião ou de fotografias tiradas por satélites têm seringueiros, povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, pescadores e pescadoras artesanais, agricultores familiares, piaçabeiros, peconheiros e muitos outros.
Mesmo diante de tanta riqueza cultural e diversidade social, a Amazônia tem o menor rendimento médio do Brasil.
Todos os projetos nacionais implantados ou que tentaram implantar na nossa região foram de exploração econômica e nenhum de desenvolvimento social e valorização cultural. Desde a primeira pisada do colonizador até o ataque brutal do capital só destruição foi feita.
Nós, povos da Amazônia, das cidades, dos rios e da floresta, queremos que aqui se implante políticas públicas estruturantes, com sentido humano, social e cultural. Que nossas riquezas naturais sirvam de proteção ao ambiente que vivemos e não para a ganância do capital.
Nossa gente da floresta ainda vive na perspectiva da solidariedade e não do lucro. É possível desenvolver a Amazônia sem destruí-la, basta respeitar nossos modos de vida.
Esperamos que o governo Lula e os governos estaduais tenham sensibilidade e compromisso com os nossos povos e com o meio ambiente e saiam do discurso vazio e demagógico, usando nossa região apenas como cartão de visita.
Aqui têm brasileiros e brasileiras que merecem um olhar sério e não de oferta da Amazônia para o capital nacional e internacional.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 04.09.2025
UM ALERTA AO POVO DE BEM (I)
Desde o século XIX que tem gente anunciando o fim da história. Hegel sentenciou que o liberalismo era o auge da humanidade e o prenúncio do fim dos processos históricos. No século XX, Francis Fukuyana comemorou o triunfo do capitalismo e da democracia liberal, após a queda do Muro de Berlim e a desagregação da União Soviética.
O certo é que estamos vivos e enquanto houver vida ninguém tomará dois banhos no mesmo rio.
A história continua e tem no antagonismo de classes sua força motriz. O mundo não pode acabar enquanto houver tanta desigualdade e injustiça. Anunciar o fim da história é anunciar o fim do mundo, o fim de todo movimento, da física, da política, das ciências humanas e sociais.
Como estamos vivos e a luta continua, quero chamar atenção das almas sonhadoras e persistentes no projeto de uma sociedade justa e igualitária para umas questões que me afligem.
1 - O STF é parte de um Estado classista, que existe para defender os interesses da classe dominante. A justiça é classista. O fato da suprema corte está cumprindo sua missão constitucional não pode servir de cortina de fumaça para encobrir seu papel histórico. Alexandre de Moraes tem sido um ministro honrado e comprometido com a constituição, mas ele não é do nosso lado, do lado dos excluídos. Não se espante quando ele estiver nos ferrando.
2 - A Globo e toda mídia patronal são golpistas e servem somente aos seus interesses. Se um dia elas foram contra o golpe, isso não as torna menos sórdidas. A mídia corporativa é um aparelho ideológico de Estado e o Estado é burguês.
3 - Nossos aliados políticos são apenas aliados. Eles não compõem nosso bloco histórico que almeja por transformação social. Hoje estão com a gente, mas amanhã estão com nossos inimigos. Foi assim com o centrão e foi assim em toda história política do mundo. Não podemos nos iludir e defender essa gente como se fosse parte da nossa vida de militante.
4 - Nossas composições eleitorais não são de classe. Elas apenas correspondem a um momento político. Talvez aqui resida o equívoco da esquerda em não criar um bloco histórico que lute pelo socialismo e por uma democracia participativa. Então, não se apaixone pelos candidatos de fora, nem por nossos aliados eventuais.
5 - Putin não é de esquerda (ele é de direita) e a Rússia deixou de ser socialista início dos anos 1990. A Rússia desde lá é capitalista, daí Fukuyana ter anunciado o triunfo do capitalismo e da democracia liberal, e Putin foi eleito pela força dos "oligarcas", uma elite formada por milionários e bilionários russos. Claro, entre Rússia e EUA, estamos com a Rússia, porque ela faz parte dos BRICs e enfrenta o império americano. Mas não faça defesa apaixonada de Putin e da Rússia.
Esses alertas servem apenas para quem tem o olhar histórico da luta política e social, quem sabe que a história não acabou e que o capitalismo não é o melhor sistema para embalar nossos sonhos de justiça e solidariedade. Fica a primeira dica.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 28.08.2025
A DIMENSÃO DO PRECONCEITO
Estamos acostumados a ver e tratar o preconceito na sua restrita e explícita ação. É homofóbica a manifestação grosseira. É misógina e/ou machista as ações criminosas e opressivas e no preconceito racial nos indignamos com o discurso e a prática da Casa Grande.
Mas o preconceito existe de forma mais profunda e estruturada. Ele elimina o outro, seja através da imposição da sua verdade, pelo desejo de se sentir superior ou pelo interesse de poder. O preconceituoso é autoritário e o preconceito está entranhado no tecido social.
O preconceito está presente no cientista que se acha o dono da verdade e que vê na sua verdade uma verdade superior às demais verdades do mundo. Ele, o preconceito, é escroto e não é um desvio que afeta apenas os ignorantes.
Ele é um instrumento de poder.
O preconceito é opressivo e não é uma ação espontânea. Ele é uma ideologia construída, uma forma e um conteúdo que buscam a imposição pela desqualificação do outro.
Ninguém nasce racista, homofóbico ou misógino. Isso tudo é construído e pode se manifestar de várias maneiras. Não se trata de uma prática esporádica, mas de uma conduta. Às vezes, o indivíduo nem sabe que está sendo preconceituoso, mas está. Ele nem sabe que está sendo racista, mas está. É estrutural.
O preconceito não deve ser combatido apenas com a punição legal. Ele deve ser enfrentado nas escolas, nas famílias e em toda sociedade como uma vergonha para a humanidade e para qualquer ser humano. É preciso mostrar como ele se manifesta e oprime.
O preconceito é uma ideologia e não somente um desvio de caráter.
O machista é um preconceituoso que envergonha a condição humana. O homofóbico também, mas por vezes é um traumatizado que reprime sua sexualidade. O machista pode ser um homem que tem inveja da feminilidade da sua companheira e a discrimina por isso.
Eles foram ensinados a reprimir suas pulsões e essa autorrepressão vira opressão ao outro.
Tem muita coisa por trás do preconceito e do preconceituoso. O combate a essa conduta deve se dar na autorreflexão, na busca por se libertar da maldade construída por quem quer manter a humanidade na mesquinharia.
Mesmo o preconceito se tratando de construção ideológica da classe dominante, imposta à classe dominada, ele não pode ser combatido apenas no campo objetivo.
No diálogo com a subjetividade, o indivíduo pode se reconstruir como ser sensível, terno e humano, sem se deixar oprimir pela espada infame da subjugação e da humilhação.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 14.08.2025
É PRECISO AMAR PARA TRANSFORMAR O MUNDO
Não é incomum o debate que envolve a reflexão sobre a existência da emoção em processos reivindicados pelo pensamento racional. A complexidade do pensamento exige essa discussão. Não é mais possível criar uma dicotomia como se fosse um conflito entre o bem e o mal.
Na verdade, essa fragmentação razão/emoção tem seu ápice na modernidade, com a ciência querendo o título de domínio de uma suposta racionalidade instrumental e objetiva.
O pensamento que dominaria a verdade e a colocaria a serviço do desenvolvimento humano foi instrumentalizado para gerar e justificar a dominação de novos impérios e nova classe social. O que era pra libertar, oprimiu dolosamente.
A razão da era moderna foi logo abrindo os braços para uma guerra mundial e para a criação de potências imperialistas dispostas a tudo para ampliar seu alcance. O mundo ocidental fez da nova verdade a sua religião e a ciência passou a se proteger no alpendre da igreja comteana.
Ora, com uma razão instrumental que apenas mudou de sujeitos é inexorável trazer à tona o justo desejo da paixão e de todas emoções capazes de iluminar o ser. A fragmentação razão/emoção não se justifica sem causar constrangimento.
Precisamos desafiar as velhas formas de pensar e abrir espaço para a construção de outros diálogos, capazes de criar novas expectativas de vida.
A emoção não pode ficar sob o manto da irracionalidade, se a razão foi incapaz de recriar o ser humano. É preciso tratar a paixão, o amor, a felicidade, o desejo como partes intrínsecas do pensamento moderno e de uma nova cosmovisão.
A sociologia já se desprendeu desse caminho pedregoso da razão pura e mergulhou no estudo da estética, não só como princípio da arte, mas fundamentalmente em referências às emoções.
Não é possível estudar a sociedade sem considerar os indivíduos e suas construções como seres sensíveis. A sociedade é construída da razão e da emoção. Ainda bem. Imagina um mundo somente da razão. Não seríamos gente, mas máquina, tal qual tenta nos fazer o capitalismo.
Para transformar o mundo, é preciso potencializar todas as emoções potencialmente transformadoras do ser.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 03.08.2025
A PACIFICAÇÃO DOS MORTOS
O Brasil está dividido há séculos, desde o primeiro momento da chegada dos colonizadores.
Como poderia haver pacificação quando saqueadores europeus chegaram na Terra das Palmeiras empunhando arcabuzes e espadas, matando em nome de Deus e em nome do rei.
Do lado daqui, milhões de indígenas. Do lado de lá, expedições à procura de riqueza para roubar.
Nunca foi pacífico. Eles sempre mataram e roubaram.
Não pode haver pacificação entre grileiros, que se apropriaram de terras públicas, quase todas as terras disponíveis, e agricultores que produziam para seu sustento, da sua família e do Brasil, numa sobra de áreas permitidas pelo Estado oligárquico.
Hoje, a propalada pacificação da extrema direita brasileira, aquela apelidada de bolsonarista, é a pacificação dos mortos.
É aquela do "não use máscara e encha os cemitérios" de um lado e seus agentes públicos corruptos negociando o aumento de um real em cada dose de vacina, para enriquecerem às custas da vida de 700 mil brasileiros e as famílias das vítimas, que sofrem as perdas dos seus entes até hoje.
Como pode haver pacificação entre quem mata e quem morre?
O Brasil tem uma das maiores desigualdades sociais do mundo. Somente cinco bilionários acumulam fortuna equivalente aos salários de 100 milhões de brasileiros juntos.
Como pode haver pacificação entre quem trabalha seis dias na semana e não tem suas necessidades de vida supridas e meia-dúzia de exploradores, donos de bancos e indústrias, que não produzem nada e se apropriam da riqueza produzida pelo trabalhador?
Não existe pacificação entre a vítima e o carrasco.
Não pode haver pacificação entre os que defendem o fascismo, essa corrente política que adora a tortura e a morte, e os que defendem o respeito mútuo, o voto popular, o pluralismo partidário e a tolerância.
Fascista é um ser das trevas. Ele é incompatível com a civilização. Atua na democracia para derrubar a democracia e instaurar o obscurantismo.
Não pode haver pacificação entre o racista, o misógino, o homofóbico e as vítimas mortas pelo preconceito por eles defendido.
Não é possível haver pacificação entre aquele que morre e aquele que mata ou apoia o crime.
O Brasil continuará dividido até não existir mais tanta maldade de um lado e tanto sofrimento de outro. Enquanto uns tiverem tudo e outros não tiverem nada. Enquanto uns se apropriarem do trabalho de muitos para ficarem milionários e os muitos trabalharem sem direito a quase nada.
O Brasil continuará dividido enquanto existirem falsos cristãos, que fogem aos desígnios do seu Deus e seguem o caminho do capeta, enquanto outros cristãos querem apenas a bondade como construção da humanidade.
Não haverá pacificação entre o Brasil dos brasileiros e os traidores da pátria.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 27.07.2025
A PACIFICAÇÃO DOS MORTOS
O Brasil está dividido há séculos, desde o primeiro momento da chegada dos colonizadores.
Como poderia haver pacificação quando saqueadores europeus chegaram na Terra das Palmeiras empunhando arcabuzes e espadas, matando em nome de Deus e em nome do rei.
Do lado daqui, milhões de indígenas. Do lado de lá, expedições à procura de riqueza para roubar.
Nunca foi pacífico. Eles sempre mataram e roubaram.
Não pode haver pacificação entre grileiros, que se apropriaram de terras públicas, quase todas as terras disponíveis, e agricultores que produziam para seu sustento, da sua família e do Brasil, numa sobra de áreas permitidas pelo Estado oligárquico.
Hoje, a propalada pacificação da extrema direita brasileira, aquela apelidada de bolsonarista, é a pacificação dos mortos.
É aquela do "não use máscara e encha os cemitérios" de um lado e seus agentes públicos corruptos negociando o aumento de um real em cada dose de vacina, para enriquecerem às custas da vida de 700 mil brasileiros e as famílias das vítimas, que sofrem as perdas dos seus entes até hoje.
Como pode haver pacificação entre quem mata e quem morre?
O Brasil tem uma das maiores desigualdades sociais do mundo. Somente cinco bilionários acumulam fortuna equivalente aos salários de 100 milhões de brasileiros juntos.
Como pode haver pacificação entre quem trabalha seis dias na semana e não tem suas necessidades de vida supridas e meia-dúzia de exploradores, donos de bancos e indústrias, que não produzem nada e se apropriam da riqueza produzida pelo trabalhador?
Não existe pacificação entre a vítima e o carrasco.
Não pode haver pacificação entre os que defendem o fascismo, essa corrente política que adora a tortura e a morte, e os que defendem o respeito mútuo, o voto popular, o pluralismo partidário e a tolerância.
Fascista é um ser das trevas. Ele é incompatível com a civilização. Atua na democracia para derrubar a democracia e instaurar o obscurantismo.
Não pode haver pacificação entre o racista, o misógino, o homofóbico e as vítimas mortas pelo preconceito por eles defendido.
Não é possível haver pacificação entre aquele que morre e aquele que mata ou apoia o crime.
O Brasil continuará dividido até não existir mais tanta maldade de um lado e tanto sofrimento de outro. Enquanto uns tiverem tudo e outros não tiverem nada. Enquanto uns se apropriarem do trabalho de muitos para ficarem milionários e os muitos trabalharem sem direito a quase nada.
O Brasil continuará dividido enquanto existirem falsos cristãos, que fogem aos desígnios do seu Deus e seguem o caminho do capeta, enquanto outros cristãos querem apenas a bondade como construção da humanidade.
Não haverá pacificação entre o Brasil dos brasileiros e os traidores da pátria.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 25.07.2025
A MORTE FELIZ DO ANALFABETO POLÍTICO
Ter consciência das coisas do mundo nos faz sofrer. Ao olhar determinada realidade identificamos logo os sujeitos e as causas do problema, passando a questionar em seguida os meios que poderiam levar à superação daquela situação; uma chatice que persegue quem aprendeu a analisar o que vê.
Feliz mesmo é o alienado, que sorri diante da sua desgraça, achando que é obra divina ou resultado da sua incapacidade de fazer. Brecht chamava esses seres metafísicos de "analfabetos políticos", justamente aqueles que não sabem que o preço do pão e da carne é obra humana e não resultado de uma lei atemporal.
Ao não saber das coisas do mundo, o alienado aceita tudo com resignação e não sofre além daquilo que não satisfaz suas necessidades materiais de vida.
Tenho refletido se é verdade que o alienado quer manter seu estado de letargia mental para não sofrer e assim seguir sua vida feliz como é. Talvez seja uma autodefesa seu distanciamento da consciência crítica. Penso assim em razão da insistência de muitos desses seres estranhos em não aceitar informação ou uma explicação da realidade.
Nem falo de uma reflexão dialética, mas somente de um raciocínio simples das relações políticas e sociais.
Basta você começar a explicar as causas de um problema que o incauto pula, foge ou simplesmente ignora. Ele não quer saber das coisas do mundo.
Fico eu aqui no meu sofrimento e na minha chatice reflexiva, enquanto outros seres acenam e sorriem para sua exploração e seu explorador.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 13.07.2025
O BOI DE PARINTINS, A AMAZÔNIA E SEUS INIMIGOS
Encerrou nesse domingo passado o Festival de Parintins, uma expressão artística e cultural no meio da floresta amazônica, criado e desenvolvido pelo povo caboclo da ilha e incorporado por uma massa de brincantes e admiradores do folclore popular.
O festival é único no mundo, porque mergulha na ancestralidade dos povos da floresta, buscando representar suas lendas, mitos e lutas. É uma ópera a céu aberto, como no antigo teatro grego. Mas na sua arena passam histórias de resistência dos muitos povos que viveram na Amazônia e outros que até hoje vivem.
Depois que o Boi de Parintins ganhou fama nacional, alguns personagem contrastante da festa passaram a ser vistos no bumbódromo. São visitantes ilustres do festival, uma cambada de gente declaradamente inimiga do meio ambiente. Essa horda chega na festa como estrela, autoridade, e torce pelos bois, que encenam a beleza e a história dos povos que aqui moram e resistem.
Adormece nossa indignação. Não houve, e não há, manifestação contra os facínoras que projetam destruir a Amazônia. Eles chegam impunes na ilha, como se o brado da cultura popular e o clamor por justiça nos enredos dos Bois não os tivessem como alvos.
Vira tudo uma grande farsa, quando essa corja é recebida com a hospitalidade que temos pela gente de bem que nos visita. Farsa porque não se trata de gente de bem. São inimigos da vida e de tudo que ela produz de belo na natureza.
A festa é bonita. A mensagem da festa é clara, profunda e forte. O Festival de Parintins é um grito da Amazônia pelo respeito aos povos que nela habitam. Seus inimigos desrespeitam nossa gente quando chegam nos seus jatinhos, bebem, transam e sorriem enquanto planejam a destruição de tudo que existe aqui como patrimônio natural.
Não chegam em aviões. Surgem nos seus zepelins gigantes, como na música de Chico Buarque. Eles vêm, se lambuzam a noite inteira e partem impunemente.
O Festival de Parintins é uma manifestação folclórica de resistência cultural da Amazônia. Não é picadeiro de político pilantra, que vota no congresso nacional contra o meio ambiente e os povos indígenas. É muita cara de pau essa corja aparecer na nossa festa. São penetras indesejáveis.
Escrevo com a indignação de um caboclo. Vi figuras nefastas chegando em Parintins e sendo comemoradas. Sei que o Festival é para todos que apreciam a cultura popular, mas não posso deixar de protestar contra os que zombam da nossa luta com suas presenças sórdidas.
O Boi de Parintins é um grito da Amazônia contra a destruição da floresta e a dizimação dos seus povos. Os inimigos da natureza não são bem-vindos. Eles que procurem outras freguesias.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 02.07.2025
MOTOS, MOTOCICLISTAS E BURACOS EM MANAUS
Acordo nesta segunda-feira com a trágica notícia da morte de uma mulher grávida, vítima de acidente de moto numa das principais avenidas de Manaus. Seu marido, o condutor, perdeu o equilíbrio do veículo após passar por um buraco. Morreu a mãe e o bebê, prestes a nascer.
Infelizmente, não se trata de um caso isolado.
Manaus virou um caos em acidente envolvendo motociclistas. Em 2024, das 309 mortes no trânsito, 158 foram motociclistas, segundo o Instituto Municipal de Mobilidade Urbana (IMMU). Um aumento de 32% em relação ao ano anterior.
O Departamento Estadual de Trânsito do Amazonas (DETRAN-m) anunciou que em abril deste ano Manaus atingiu
1.004.021 veículos registrados. Desse total, 455.608 são automóveis e 337.464 são motocicletas. São 2,27 habitantes por veículo. No ano 2000, eram 8,3 Hab./Veic.
Esses números revelam a dimensão de um caos no trânsito de Manaus quando sabemos que apenas 2% da frota são para transporte coletivo e 93% são para transporte privado, que atende a menor parte da população.
Com um sistema de transporte público deficitário, que nunca melhora, aumentou o número de motos fazendo esse serviço, mas também aumentou o número de acidentes. Entre 2020 e 2024, foram 1.228 mortes de motociclistas em todo o estado, o que representou 54% dos óbitos por acidentes terrestres no Amazonas. Desse total, 60,9% foram em Manaus.
É certo que houve um crescimento de acidentes com vítimas fatais no trânsito em todo o país, segundo o Atlas da Violência do IPEA, divulgado este ano. Em 2023, foi registrado um aumento de 2,5% em relação ao ano anterior. Já especificamente com acidentes envolvendo motocicletas, a alta foi de 12,5%. O Amazonas ficou em 5ª posição, com 57,3% dos óbitos causados por acidentes envolvendo motocicletas.
E os custos para o país e para a sociedade?
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em países com renda como a do Brasil, os custos com acidentes de trânsito podem variar entre 3% a 5% do PIB. Somente com internações de motociclistas, as despesas do SUS ultrapassaram 2,4 bilhões de reais entre 2014 e 2024.
Entre os meses de janeiro e novembro de 2024, o custo com as internações de motociclistas acidentados no SUS foi de R$ 233,3 milhões. Foram 148.797 motociclistas internados no sistema de saúde público, em decorrência de acidentes em todo o Brasil.
O custo médio de um paciente acidentado para o SUS é em torno de 60 mil reais/mês, incluindo internações, cirurgias e reabilitação.
Estamos falando de um problema de profunda gravidade social. Tanto os acidentes que deixam as vítimas sequeladas como as mortes afetam milhares de familias. A Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet) calcula que para cada paciente hospitalizado, outras quatros pessoas são impactadas.
E os buracos do prefeito?
Como se não bastasse o sistema caótico de transporte coletivo com uma das maiores tarifas do país, o sistema viário de Manaus não suporta tanto veículos. O crescimento da cidade não foi planejado e os gestores que passaram pela prefeitura sequer sabem o que é planejamento. Há um acúmulo de estupidez e descaso.
Manaus terá este ano um orçamento de 10,5 bilhões de reais. Somam-se a esse valor, os mais de 4 bilhões de empréstimos feitos pela gestão do atual prefeito. É dinheiro saindo pelo ralo. Pelo ralo mesmo, porque não tem dado nem para tapar os buracos das principais vias da capital, o que tem provocando aumento dos acidentes, principalmente com motocicletas. Acidentes com vítimas fatais e muita gente internada nos hospitais públicos.
São quase 15 bilhões de reais para execução neste ano, considerando orçamento e empréstimos. Como que Manaus continua um caos no transporte coletivo, nas vias de trânsito, com calçadas quebradas, faltando remédios nos postos de saúde, etc.? Não há explicação plausível.
Em relação ao trânsito, principalmente sobre o transporte de motocicletas, a prefeitura de Manaus precisa elaborar uma política para tratar do problema. Não dá pra ficar fazendo de conta que está tudo bem, enquanto pessoas morrem ou ficam por meses hospitalizadas, outras tantas com sequelas pelo resto da vida.
É preciso reunir com empresas que usam o serviço de entrega com motos e elaborar um plano para melhorar a educação de trânsito dos condutores. É preciso criar um plano de melhoria das vias de Manaus, sem embromação e mentiras. É preciso inserir no currículo das escolas da Semed a educação no trânsito. Essas escolas atendem crianças e nelas é possível criar uma cidade mais cidadã, com respeito ao outro.
Na Espanha foi feito isso e houve uma redução de 60% dos acidentes. São medidas a médio e longo prazos, planejadas, mas necessárias. É fundamental o olhar para a educação das novas gerações.
É preciso fazer muitas coisas, inclusive uma gestão pública mais responsável e humana. Manaus agradece.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 26.06.2025
AS ADEGAS E O PRECONCEITO SOCIAL
Foi apenas no ano passado que tive conhecimento das chamadas Adegas, em Manaus. Tratam-se de encontros festivos de jovens, com música alta, dança, bebidas alcoólicas e sociabilização entre grupos.
São jovens da periferia, sem espaços de lazer, cultura e esporte onde moram, que resolveram criar um ambiente de descontração a custos baixos, com músicas tocadas em potentes caixas de som, venda de cervejas a preços promocionais e onde também podem levar suas batidas em garrafas de pets, preparadas em grupo antes das festas.
Não tardou para o movimento sofrer discriminação, com grande parte da mídia manauara fazendo uma campanha para criminalizar esses encontros, criando estigma como espaço de violência, consumo de drogas e poluição sonora.
Não é a primeira vez que um movimento espontâneo da juventude sofre preconceito embalado por profissionais despreparados, que usam os meios de comunicação para propagarem suas frustrações pessoais ou mesmo sua hipocrisia velada.
As raves sofreram essa perseguição.
Com luzes fortes, batidas estridentes da música eletrônica, dança interativa, as raves eram- e são - espaços de expressão artísticas e de sociabilidade entre grupos e tribos urbanas. No entanto, suas festas foram duramente reprimidas, mesmo ocorrendo em galpões abandonados e lugares afastados. O estigma para a repressão era o mesmo: uso de drogas.
Hoje, as raves são promovidas até mesmo por empresas de eventos e seguem como espaço jovem.
As Adegas, assim como as Raves, surgiram da ausência do Estado nas periferias das grandes cidades, onde não há espaço de lazer, não existem centros culturais, as políticas públicas de promoção cultural não chegam, as escolas permanecem fechadas no fim de semana, com seus ginásios esportivos e salas sem acesso para a comunidade. Enfim, não tem para onde escapar no fim de semana e sair do cotidiano massacrante.
As Adegas, assim como as Raves, são espaços de transgressão, de liberdade, de fuga do estresse diário imposto pela carência social. Lá, os jovens bebem, dançam, ouvem as músicas da sua geração, interagem com outros jovens e outros grupos de bairros diferentes. É o momento de dar um tempo para as regras sociais que lhes consomem e pouco oferecem de bom.
As posições que tentam estigmatizar as Adegas são as mesmas que protegem os territórios elitizados de Manaus, onde as drogas correm soltas, a violência é praticada com sadismo, mulheres são estupradas e surradas por homens drogados e sórdidos. Para esses lugares, nenhuma campanha da mídia para intervenção policial, para fechamento dos bares nos quais se cometem assassinatos e agressões. É muita hipocrisia e pouco profissionalismo.
As Adegas apenas reproduzem a vida como ela é na periferia. Lá, digo, aqui, pois escrevo este texto na minha casa, no bairro da redenção, área favelizada na zona centro-oeste de Manaus, no sábado e no domingo, o trabalhador abre o porta-malas do seu calhambeque e põe seu potente som para tocar. Um vizinho põe a churrasqueira e o outro já aparece com a caipirinha. Pronto, a Adega está montada.
Deixem nossa gente ser feliz. Deixem nossos jovens construírem seus espaços de descontração. Se o Estado está preocupado com as drogas e uma violência esporádica, que se ponha a serviço dessa juventude, sem preconceito, apenas cumprindo seu papel institucional. A juventude não quer cacetete e balas, quer política pública de inclusão social e respeito.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 14.06.2025
PELA BR-319, CONTRA O PL DA DEVASTAÇÃO
Semana passada, o Brasil presenciou uma das mais grotescas cenas protagonizadas no senado federal, tendo como atores dois senadores canastrões, um do estado de Rondônia e outro do Amazonas, contra a ministra do meio ambiente, Marina Silva. Apesar de envolver três políticos da região norte, o foco foi o Planeta Terra.
O motivo do debate foi em torno da pavimentação da BR 319, rodovia que liga o Amazonas ao restante do Brasil, mas por trás da posição não revelada dos senadores estava a defesa de setores econômicos contrários à sustentabilidade ambiental e, até mesmo, interesse particular, como no caso do senador Plínio Valério, do Amazonas.
Plínio Valério já foi denunciado por tentar licença para explorar ouro em Terras Indígenas, no município de São Gabriel da Cachoeira. Em 1983, ele entrou com cinco pedidos no órgão federal responsável. Todos foram rejeitados. O senador tucano, que já foi da ARENA, partido de sustentação política da ditadura militar, também é conhecido por possuir área na RDS tupé, em Manaus, onde aluga para turistas, atividade proibida por lei.
A BR 319 é só uma cortina de fumaça.
O foco central é o PL 2159/2021, em tramitação no Congresso Nacional, conhecido como PL da devastação, que acaba com o licenciamento ambiental, ameaça os ecossistemas e as populações tradicionais e põe em risco o Brasil e o planeta.
Mas e a BR 319? Ela será beneficiada pelo fim do licenciamento?
A BR 319 está com seu entorno todo protegido, com áreas destinadas para reforma agrária e unidades de conservação. Ainda no primeiro governo Lula, se iniciou o processo de proteção das áreas pertencentes à União, com a decretação de uma ALAP - Área de Limite Administrativo Provisório, e, posteriormente, foi feita sua destinação, a partir de audiências públicas e reuniões da câmara técnica criada em Brasília.
O que falta é a presença do Estado Brasileiro para proteger essas áreas, de acordo com a Constituição Federal. As três esferas do executivo têm responsabilidades, inclusive o ministério do meio ambiente, que tem obrigação de criar um plano de proteção das Unidades de Proteção, da floresta e dos recursos hídricos. O MMA tem que coordenar essa ação e deixar de querer terceirizar o problema para os buracos, lamas e pontes caídas.
Marina Silva não pode ser o bode expiatório contrário à BR 319, mas hoje ela é a ministra do meio ambiente. É bom lembrar que foi durante seu exercício no MMA, de 2003 a 2008, que o entorno da rodovia foi blindado e se iniciou o processo de construção do EIA/RIMA para pavimentação da estrada.
Marina não é inimiga do Amazonas. Essa missão é do senador Plínio Valério e seu espírito de destruição do meio ambiente e de todos valores morais, éticos e de boa educação.
A BR 319 não pode servir de cortina de fumaça para os inimigos do meio ambiente, assim como Marina Silva não pode se eximir da responsabilidade de construir políticas de proteção ambiental da rodovia. A estrada já existe há 50 anos e hoje é uma rodovia federal sem lei, pela ausência do Estado.
Grileiros, madeireiros ilegais e outros criminosos viraram senhores feudais das terras tradicionalmente ocupadas por indígenas, ribeirinhos, agricultores familiares, extrativistas e outros povos da floresta.
Na esteira desse problema e facilitando a ação do crime na BR, está o terrorismo ambiental contra a rodovia, com a criação fake news como a de que a pavimentação da estrada vai acabar com a vida no planeta, a partir da abertura de um corredor para novas pandemias ou que o fim dos buracos, lama e pontes caídas acabarão com a economia no sul do país.
Tem um malfazejo fazendo isso e recebendo apoio da mídia corporativa, que também tem interesse no isolamento terrestre do Amazonas e na ação impune do crime organizado na Amazônia.
A BR 319 é um direito do povo do Amazonas, mas queremos preservação ambiental e segurança para nossos povos. O Estado brasileiro tem essa obrigação constitucional.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 03.06.2025
A VIOLÊNCIA SIMBÓLICA CONTRA A MULHER
As Nações Unidas definem a violência contra as mulheres como "qualquer ato de violência de gênero que resulte ou possa resultar em danos ou sofrimentos físicos, sexuais ou mentais para as mulheres, inclusive ameaças de tais atos, coação ou privação arbitrária de liberdade, seja em vida pública ou privada".
A violência simbólica contra a mulher é a mais comum e o amparo legal para combatê-la é tênue, já que se manifesta pela imposição de valores morais, culturais e sociais. Ela ocorre e se reproduz naquilo que Althusser chama de Aparelho Ideológico de Estado, se incrustando no tecido social, sem que se apresente como uma violência, porque não é física.
A violência simbólica termina por se tornar a base cultural da violência física. Ela começa tirando da mulher seu lugar de fala, impondo o silêncio dos mortos. Para isso, o uso de valores morais, religiosos e culturais sustenta a submissão, o escárnio e a exclusão. Existe um tempo estruturado para a subjugação física, através da violência extrema e até mesmo da morte.
Essa violência, a simbólica, é a mais perniciosa, porque é ideológica e envolve o espírito das vítimas, afetando seu estado psicológico. Não ocorre por acaso. É um projeto de poder. Nem sempre foi assim. A subjugação da mulher se tornou realidade nas sociedades divididas em classes sociais, com uma classe oprimindo a outra, ou seja, ricos explorando e subjugando quem produz a riqueza.
Nas sociedades antigas, quando não havia a produção de excedente a partir das exploração do trabalho do outro, mulher e homem tinham funções sociais distribuídas de forma harmoniosa, para garantir a existência da família e do grupo social.
Na nossa sociedade, desde o surgimento das primeiras organizações daquilo que viria a se configurar como Estado, a opressão da mulher se tornou objeto de poder, seja do homem ou da classe social dominante. Isso criou uma estrutura social, cultural, política e ideológica, com valores, crenças, padrões estéticos, linguagens e supremacia racial para manter a dominação social e patriarcal.
Para quem quiser entender com profundidade a violência simbólica, sugiro a leitura de Pierre Bourdieu, sociólogo francês que desenvolveu o conceito.
E por que resolvi abordar esse tema hoje?
Me chamou muito a atenção nos últimos dias os ataques sofridos pela primeira dama do Brasil, a socióloga Janja Lula da Silva, pela mídia corporativa e pelos machistas e pelas machistas de plantão nas redes sociais. A manifestação da violência simbólica se abateu sobre a mulher Janja de forma sistêmica, impactante, preconceituosa e sórdida.
Como se trata de uma violência escondida sob o manto da moral e dos bons costumes, o patriarcado logo se tornou especialista em protocolo diplomático. Jornalistas, homens e mulheres, passaram dias atacando a primeira dama porque ela emitiu uma opinião - e tomou uma posição - ao presidente chinês sobre a desordem das mídias virtuais.
Nesse caso, houve a intenção de condenar uma interlocutora de qualidade, lhe tirar a palavra e colocá-la numa condução decorativa, de um lado, e por outro, porque ela incomodou a indústria de mentiras que usa o espaço virtual para criar uma realidade paralela. Janja não se intimidou, como deve ser com toda mulher que luta pela emancipação feminina.
No centro de toda ação, o protocolo reivindicado foi o do patriarcado e da dominação política e ideológica. Esse está no sangue da sociedade machista, misógina e opressora. O protocolo diplomático foi apenas uma cortina de hipocrisia para esconder a violência de gênero.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 25.05.2025
A CRISE DA DEMOCRACIA REPRESENTATIVA
Poderia ser risível se não fosse um escárnio a câmara federal aumentar o número de deputados federais e, por conseguinte, as assembleias estaduais aumentarem suas bancadas. Justamente num momento de crise acentuada da democracia liberal no mundo.
Sim, a crise da democracia representativa liberal está posta há mais de um século. O modelo iniciou em meados do século XVII na Inglaterra, com a Revolução Gloriosa e a imposição de limites ao absolutismo, criando uma monarquia parlamentarista, e se espalhou pelo século XVIII, através do pensamento iluminista e a Revolução Francesa.
Chegou ao século XX com a força de uma formiga, carregando um peso maior do que supunha aguentar. Não demorou para fazer eclodir governos autoritários na Europa. No final da segunda década desse século, seu parceiro, o liberalismo econômico, pariu a Grande Depressão nos Estados Unidos, país conhecido como referência da democracia liberal.
A democracia representativa tem se mostrado frágil para garantir direitos coletivos. Foi importante para substituir as autocracias monárquicas, mas vem se apresentando como o problema causal da exclusão social e limitação dos direitos individuais e coletivos, imposto por instituições colapsadas na sua capacidade de representação.
O sociólogo espanhol Manuel Castells, no livro Ruptura: a crise da democracia liberal, resume com clareza essa crise, ao revelar que a democracia liberal criou um distanciamento entre governos e cidadãos. As eleições não têm sido suficientes para aprofundar a representação, pois os representantes terminam por constituir um grupo de interesses divorciado dos interesses dos seus representados:
"A política se profissionaliza, e os políticos se tornam um grupo social que defende seus interesses comuns acima dos interesses daqueles que eles dizem representarem”.
Isso ficou claro nos últimos anos no parlamento brasileiro. Deputados criaram instrumentos de ocultação do uso do recurso público, através do "orçamento secreto" e "emendas pix", agravando o sistema representativo na proporção que votavam contra zerar impostos da cesta básica e pela retirada de direitos sociais conquistados nas últimas décadas.
A população tem se mostrado alheia ao processo eleitoral, como se o voto popular não fosse o responsável pela escolha dos seus representantes. Não existe um sentimento de pertencimento com a coisa pública. Essa descrença tem proporcionado a ascensão de governos autoritários no mundo, sob a bandeira da não-política.
Somam-se a isso, partidos políticos frágeis e um judiciário classista, composto por castas e enclausurado na vaidade dos seus agentes públicos.
Aqui no Brasil, a democracia liberal está levando o país a uma grave crise política, com dois lados opostos se engalfinhando como numa disputa entre o bem e o mal. De um lado, o liberalismo econômico e seu anseio de ter o Estado transformado em empresa, e de outro, segmentos políticos e sociais lutando para garantir direitos democráticos de um sistema em crise.
O mundo só vai sair do século XVIII quando começar a usar os novos recursos tecnológicos para construir uma democracia de participação direta do cidadão. A democracia participativa é uma exigência política e civilizatória dos nossos tempos. O poder à sociedade civil é o único caminho capaz de consolidar a democracia, impedir governos autoritários e garantir direitos políticos e sociais que assegurem participação do cidadão e da cidadã e bem-estar social.
Temos todos os instrumentos que possibilitam a democracia direta e no caso do Brasil, a Constituição de 1988 garantiu a participação popular nos destinos da nação. Infelizmente, até hoje apenas um plebiscito foi feito para ouvir o povo brasileiro sobre o sistema político. Temos as bases legais para avançar na consolidação de um regime político que ouça o povo, fortaleça as instituições e diminua a representação.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 14.05.2025
TRABALHO E DIGNIDADE
Vamos falar de trabalho neste mês do trabalhador.
Desde criança que ouvimos dizer que o trabalho dignifica o homem. Pois lhes digo: o trabalho não dignifica o homem nem a mulher.
O que dá dignidade ao ser humano é viver honestamente. É a conduta moral e ética de como o indivíduo constrói sua vida é que lhe dá dignidade.
O trabalho se mostrou um bem dadivoso enquanto o homem e a mulher o utilizaram para conseguir sua sobrevivência na natureza.
Mas quando apareceram uns espertalhões e começaram a se apropriar de mais coisas do que precisavam, o trabalho virou o único meio de fazer crescer a ganância. Logo se inventou a escravidão.
Depois, quando era dispendioso manter escravos, inventaram o salário e mandaram o dono da força de trabalho se virar com uma quantia insignificante, geradora de fome e miséria.
Até hoje, o trabalhador só ganha por duas horas das oito que trabalha. As seis horas do seu suor vira lucro para o patrão, dono da empresa. E das duas horas pagas o trabalhador ainda tem que comprar o objeto que ele produziu.
Você já ouviu falar em mercado?
O mercado que a mídia fala não é o local onde a gente compra a comida. É a reunião daqueles que se apropriam das seis horas da tua força de trabalho.
O mercado só olha para uma coisa: o lucro. E esse lucro ele consegue explorando o trabalho do trabalhador.
Como barrar isto, essa ganância desenfreada daquele que vive do teu trabalho?
No mundo onde eles mandam, só a organização do trabalhador pode fazer o enfrentamento à exploração. Não por acaso, quando os trabalhadores se dispersam a exploração aumenta, o salário é congelado, a comida fica cara, o preço do gás leva parte significativa do dinheiro da alimentação.
Outra forma de enfrentar o capital e não deixar que o mercado dite as normas da economia é eleger um governo que fique ao lado dos trabalhadores e garanta uma melhor distribuição de renda.
Se houver organização dos trabalhadores e um governo popular, mais dignidade para todos existirá.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 06.05.2025
QUEM DIRIA, O ANTICOMUNISMO NÃO DEIXA O SONHO COMUNISTA MORRER
Vivi como militante os últimos dez anos da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, do Muro de Berlim e da Guerra Fria.
Falei aos meus botões, caminhando pelo Igarapé de Manaus no início dos anos 90: a propaganda anticomunista agora perde o sentido. Não há mais ameaça.
E assim os anos se passaram.
Continuei comunista, fui para universidade e virei um sociólogo comunista nascido e criado no meio da floresta amazônica. Um boto vermelho.
Vi e ajudei renascer a democracia no Brasil. Ainda andei sentindo o cacetete da ditadura, suas celas fétidas e o cheiro de enxofre dos seus agentes. Sobrevivi, ao contrário de muitos dos meus e minhas camaradas.
Pois bem. Já me sentia solitário e esquecido na minha utopia marxista, quando vejo ressurgir um macarthismo em pleno século 21, mais de trinta anos após a queda do Muro, e aqui no Brasil, país que já tinha enterrado Plínio Salgado e seu integralismo tupiniquim.
Desta vez a máquina anticomunista não é a velha imprensa marrom das cinco velhas famílias tradicionais, mas os meios criados pelas novas tecnologias da informação e da comunicação. Agora, a notícia ganhou mais rapidez e eficiência.
Nas minhas aulas de sociologia da comunicação com o mestre Ricardo Parente aprendi a perceber o sentido ideológico da comunicação. A partir dali fui dialogar com a semiótica para entender signos e significados nos textos jornalísticos.
Hoje, pouco importa a beleza do texto para quem coordena uma fábrica de fake News a devorar mentes e o vazio que nela existe.
Se o meio é outro, não podemos dizer o mesmo dos produtos. Mentiras, ódio e poder dão vida ao velho anticomunismo macarthista e integralista da Guerra Fria.
Mesmo as produções jornalísticas perderam seu estilo sutil de ideologizar através de um título ou das entrelinhas da matéria. Agora tudo é propaganda direta, cínica e, muitas vezes, mentirosa.
O anticomunismo voltou com o mesmo vigor dos velhos tempos, mas num trem-bala ou montado num satélite ou em ondas eletromagnéticas.
Ao comunismo não foi dado sequer um breve descanso na história. Ele está vivo nos nossos sonhos, nas nossas lutas e nas mentes insanas dos estúpidos.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 01.05.2025
GLAUBER FICA
O Conselho de Ética da Câmara Federal perdeu a ética e se transformou num conselho inquisitorial. Sim, nos mesmos moldes do medievalismo, quando a verdade era queimada em fogueiras acesas pela ignomínia.
A condenação do deputado Glauber Braga nesse fórum é uma afronta à democracia e ao próprio processo civilizatório. É uma perseguição medieval para calar quem discorda, quem se opõe à corrupção e ao reacionarismo.
Glauber não cometeu crime.
O criminoso é o Chiquinho Brazão, que até hoje, mesmo preso, continua deputado federal e ganhando salário pago com os impostos do povo. Esse bandido os deputados bolsonaristas do Conselho de Ética protegem, assim como defendem a anistia para centenas de criminosos.
O ataque contra o deputado Glauber Braga é um ataque contra a democracia e um retrocesso às trevas. É estarrecedora a posição despudorada da bancada da extrema direita na câmara. Seus deputados perderam o pouco que tinham de dignidade ao condenar uma vítima.
Glauber reagiu à violência do grupelho fascista MBL como qualquer outro ser humano honrado reagiria. Teve o nome da sua mãe enxovalhado pela indignidade dessa turba, quando a senhora padecia num leito hospitalar. Somente gente sem humanidade pode considerar a reação do Glauber uma agressão.
Uma possível cassação do deputado Glauber Braga será uma desonra para a Câmara Federal, uma casa desgastada pela instrumentalização irresponsável daqueles que ainda se nomeiam bolsonaristas.
A sociedade civil e todos os democratas deste país precisam proteger o mandato do Glauber. A perseguição por ele sofrida é uma orquestração dos patronos e dos beneficiados pelo esquema do orçamento secreto e das emendas-pix. É isso. Glauber denunciou e tirou o caviar da boca dessa canalha.
Glauber fica. A democracia fica.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 16.04.2025
A QUESTÃO DEMOCRÁTICA
Com a ascensão da extrema direita no mundo, a democracia voltou a entrar na ordem do dia. Mesmo tendo chegado ao poder através do voto, essa corrente política e ideológica insiste em posições autoritárias e excludentes. Não se impõe na maioria dos Estados nacionais, mas ameaça boa parte do mundo ocidental, até mesmo em países com tradição democrática.
Essa ameaça desperta um debate inevitável: o que é a democracia nos dias atuais?
A extrema direita atua no campo democrático, mas combate esse regime. Trata-se de uma contradição fundamental, sem uma explicação coerente, apenas fundada numa compreensão tacanha de disputa do poder.
A democracia foi criada num estado de minoria. Escravos e mulheres não votavam. A maioria era composta de cidadãos, aqueles que tinham bens. Ou seja, essa maioria era uma minoria elitizada.
No Brasil, as mulheres só tiveram direito de votar a partir de 1933. Antes disso, negros e negras libertos também não votavam, impedidos pela Lei Saraiva, que limitava o voto a quem era alfabetizado.
A democracia começou torta, desde a Grécia escravagista. Até hoje é instrumento retórico, puxado pelo interesse da minoria dominante, como naquela Grécia antiga, onde a cidadania era reconhecida apenas para quem tinha bens.
A democracia hoje, desde seu primeiro respiro no mundo moderno, se tornou um afago da classe dominante aos anseios libertários da classe dominada. Você vota e tudo se resolve na representação, naquele que você votou.
Isso é ultrapassado. A democracia precisa ser repensada. A eleição deve ser um instrumento de inclusão e não de exclusão de parte que constitui a sociedade e a própria população.
A democracia hoje não pode ser a democracia grega da escravidão. Ela tem que incluir todos e todas, sem distinção de cor, raça, credo, sexualidade, estrato social, posição política e ideológica.
Tomemos como exemplo o país de Trump, capitão-mor da extrema direita.
Dá pra dizer que a democracia dos Estados Unidos é uma democracia? Sim, dá. Mas não é modelo de democracia. Lá tem racismo oficial, tem eleição indireta para presidente, tem compra de votos, tem apenas dois partidos que disputam a eleição há 170 anos. E tem gente que diz que é a maior democracia do mundo.
Não. Democracia é inclusão, hoje. Não é mais uma democracia censitária. Aquilo foi no início. Se tem país que ainda mantém esse modelo, não é mais democracia. Avançamos. Os modelos de inclusão podem ser através de comitês populares, colegiados, territórios eleitorais, etc.
A democracia representativa é uma fraude. A sociedade precisa ser empoderada e se tornar força política. Não precisamos de modelos. Precisamos construir meios para continuar desenvolvendo a sociedade e a civilização.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 13.04.2025
UM RASTRO DE SANGUE, INCOMPETÊNCIA E CORRUPÇÃO
A extrema direita se divide em dois segmentos fundamentais. Tem uma massa de ignorantes, que não sabe o que é uma ditadura, e uma turba de malfeitores, que sabe o que foi a ditadura militar e vê nela possibilidade de eliminação do outro e de ganhos desonestos sem punição.
Vejamos os indicadores que mostram a tragédia política, social e econômica da ditadura militar.
Em 1984, a inflação era de 223%.
A dívida externa saltou de 3,6 bilhões em 1964 para 93 bilhões em 1984.
O analfabetismo entre pessoas de 10 a 14 anos era de 19% em 1983.
A educação e a cultura eram engessadas pela famigerada Lei de Segurança Nacional, levando o ensino a um processo cruel de distanciamento da realidade e as escolas ao sucateamento.
A corrupção aumentou e escândalos como da Coroa/Brastel e da Transamazônica se tornaram conhecidos da população, mesmo com a imprensa censurada.
Não menos escandalosos foram os atentados terroristas no Riocentro e na sede da OAB, matando dona Lídia, servidora da Ordem, e os militares terroristas.
Centenas de brasileiros foram torturados, mortos e sequelados nos porões da ditadura. Figura como Brilhante Ustra, herói do traste inelegível, empregava os métodos mais cruéis de tortura, massacrando mulheres e até mesmo crianças.
Em resumo: só uma mente perversa, que odeia o Brasil e a democracia, é capaz de defender um período tão trágico e desumano.
Aproveito para dizer que nada justifica o apoio ou a defesa da ditadura militar. Nem mesmo os ignorantes de plantão têm esse direito.
Negar a tortura e os crimes militares é tão nefasto quanto os atos em si. Ignorância não pode ser sinônimo de perversidade.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 01.04.2025
PLÍNIO VALÉRIO E A VIOLÊNCIA CONSTRUÍDA
O que leva um homem a sentir o desejo de enforcar uma mulher que não lhe oferece qualquer perigo? Seria esse desejo macabro um sinal de psicopatia?
Não sou psicólogo nem psiquiatra, mas a sociologia me permite fazer uma imersão na história para tentar entender o comportamento violento do indivíduo na sociedade, fundamentalmente aquela conduta desagregadora e sem empatia.
Na antiguidade, indivíduos com condutas agressivas e profanas eram considerados possuídos pelo demônio. Assim, sua cura poderia ser alcançada pelo exorcismo. Foi a partir do século XIX que estudiosos da medicina passaram a entender a crueldade não como loucura, mas como perturbação mental caracterizada por padrões comportamentais e afetivos.
Feita essa contextualização científica, não me permito entrar no campo da psiquiatria. Passo a tratar da visão sociológica sobre a violência ou o desejo revelado de esganar um opositor político.
O senador Plínio Valério não se tornou um facínora de uma hora pra outra. Ele tem lastro. Primeiro, é filho da oligarquia latifundiária do Alto Juruá, no Amazonas, aquele segmento social e econômico que construiu seu poder oprimindo o caboclo, tomando suas terras e sugando seu sangue. Ele cresceu nesse ambiente de violência.
Já crescido, foi da juventude da ARENA, partido de sustentação da ditadura militar. Ou seja, Plínio nunca defendeu a democracia e foi um agente do autoritarismo.
Em tempos recentes, foi eleito senador, na onda fascista que tomou conta do Brasil por quatro anos e ainda resiste sob o manto de tudo que não presta. Viu na ascensão da extrema direita uma nova oportunidade de um Brasil mergulhado no obscurantismo. Novamente, abraçou esse projeto, porque tem uma história de vida impregnada pela violência.
Ter vontade de enforcar uma mulher negra, fisicamente frágil, defensora da natureza não se trata de um deslize do discurso, mas de uma conduta. Plínio apoiou a ditadura militar, logo apoiou a tortura, as prisões ilegais, os assassinatos cometidos pelo regime. Quando viu Bolsonaro defender o sádico Brilhante Ustra, se regozijou.
Em resumo, Plínio Valério não é um psicopata. Pode até mesmo apresentar alguns sintomas do transtorno, mas sua violência foi construída no ódio de classe, na opressão dos mais fracos, no desejo macabro de matar, enforcar, bater, humilhar. Ele, Bolsonaro e outros tantos são da mesma laia e representam uma ameaça permanente à civilização.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 23.03.2025
A MALDADE ALÉM DO BEM E DO MAL
A humanidade não se divide entre o bem e o mal. Este maniqueísmo tem sua origem na religião, apesar do sentimento ser anterior; mas só se estrutura a partir da ideia de deus e diabo como entidades metafísicas determinantes nas condutas humanas.
O bem já serviu, e ainda serve, à prática do mal. Saquear, matar, mentir, enganar já foram feitos em nome de um bem superior. A igreja católica que o diga. Hoje, o evangelismo cristão é a nova doutrina objeto da manipulação defraudada.
Fora das estruturas religiosas, ou além delas, o indivíduo vem se refestelando com suas maldades. O faz, também, em nome do bem. Mas aí repousa uma iniquidade mais perigosa, pois não tem foco no poder, como o faz a religião, e sim na formação de um caráter desviante, sórdido e abominável.
Ele defende a vingança, por exemplo, como sentimento e prática aceitáveis socialmente. Defende a morte não como parte de um ciclo natural da vida, mas como solução de um ou vários problemas. Olha o outro com um preconceito dizimador: não se contenta com a exclusão; quer seu extermínio físico.
Este indivíduo superou a ideia do bem e do mal ao eliminar a linha que os separavam. Ele não quer saber se está fazendo o bem ou o mal. Basta para ele a satisfação pessoal de superioridade do seu pensamento. É uma nova prova inconteste que a humanidade guarda surpresas que transpõem velhas estruturas.
O problema é que essa superação é a da volta às trevas ou a criação de uma nova escuridão.
Um autoritarismo intrínseco, construído por uma cultura autoritária que remonta os primórdios da história, envolvendo suas mais diversas formas de dominação, vem caracterizando novos indivíduos, suas personalidades e seus caracteres.
O autoritarismo exacerbado não está no campo maniqueísta do bem e do mal. Ele está além e só quer saber do seu triunfo enquanto forma e prática dominantes.
É nesta perspectiva que encontramos nas esquinas, becos e vielas indivíduos defendendo a pena de morte, o racismo, o preconceito, a opressão da mulher pelo homem e outras atrocidades.
É claro que algumas estruturas dominantes, como doutrinas religiosas, políticas e filosóficas reforçam esse espírito dizimador, mas o que me amedronta é seu caráter autônomo: o indivíduo passou a ser sozinho uma estrutura de opressão.
Como resistir a isto? somente a partir de uma prática inversa, onde a democracia e a justiça se tornem bens culturais e humanísticos.
Não precisamos do bem e do mal, mas de valores que ajudem a construir uma nova humanidade, fundada no respeito ao outro, na solidariedade e no amor.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 14.03.2025
AINDA ESTOU AQUI
Nestes primeiros meses de 2025, completo 45 anos de militância política e social.
Eu ainda era um garoto de 14 anos quando a moçada do Diretório Universitário da Universidade do Amazonas, hoje DCE da UFAM, foi à minha escola, Nossa Senhora das Graças, no Beco do Macedo, convidar para uma reunião de mobilização da campanha pela meia passagem.
Pronto. A partir daquela primeira reunião nunca mais larguei da luta social. Entrei para o Partido Comunista Brasileiro, PCB, e ali iniciei minha formação política.
Ainda perdurava a ditadura militar, com início da abertura, anistia, volta dos exilados e direito de organização. Surgia o Partido dos Trabalhadores e a luta pela democracia era intensa, com a retomada dos sindicatos sob intervenção do Estado e/ou sob o domínio de dirigentes pelegos.
Em 1981, na luta pelo Passe Único, a polícia da ditadura, no governo José Lindoso, reprimiu violentamente nossa manifestação na Praça São Sebastião, invadiu o templo católico, onde nos refugiamos, e nos espancou sem dó. Ainda um garoto de 15 anos e com muitos outros e outras da minha idade fomos levados para a DOPS e ali submetidos a agressões e humilhação.
A luta nunca foi fácil.
Outras prisões vieram.
Fiz parte da comissão de reconstrução da UESA e me tornei líder estudantil secundarista. Fui coordenador da Juventude Comunista do Partidão por muitos anos. Participei de associação, comunitária, sendo fundador do Bairro Tancredo Neves. Estive presente em todas as lutas pela redemocratização do país aqui em Manaus.
Na campanha pelas eleições diretas, ainda com 18/19 anos, dircursei no ato histórico na Praça do Congresso, representando o ainda ilegal PCB, ao lado de Ulisses Guimarães, Franco Montoro, Dante de Oliveira, Tancredo Neves e outros políticos nacionais.
Foram muitas as lutas. Aos 59 anos, me orgulho do que o movimento social me transformou. Nunca fiz do conhecimento um instrumento divorciado da minha construção como ser humano. Se defendo a revolução, é de amor, de paixão, de solidariedade, de fraternidade e de igualdade que estou falando e esses valores devem fazer parte da minha vida. Foi e será sempre assim.
Muitos companheiros foram ficando na caminhada. Alguns partiram definitivamente da vida e outros pularam para o outro lado. Mas continuo aqui, vivo, romântico, utópico e sem abrir um centímetro dos meus sonhos por uma sociedade justa e igualitária.
Muitos companheiros continuam vivos, e na luta. São meus camaradas, irmãos e irmãs de coração. Como dizia Neruda, formamos uma boa família, temos a pele curtida e o coração moderado.
A luta social me fez mais humano. Minha lágrimas continuam presentes, derramadas pela alegria ou pela indignação. Nunca pensei em me resignar a nada. É da luta que estou falando. É da luta por um mundo melhor que me alimento todos os dias.
Quando eu já tinha como certo que o Brasil não mais correria o risco de um retrocesso político, o fascismo chegou novamente ameaçando a democracia. Derrotamos o fascismo e garantimos a democracia. No entanto, a ameaça persiste. Ou seja, a luta sempre será necessária e enquanto eu estiver vivo, meu braço erguido nas ruas, a tinta implacável saída das minhas mãos e minha voz continuarão servindo ao sonho de todos e todas que lutam por justiça social.
Obrigado aos meus companheiros e companheiras que tanto me ensinaram e continuam me ensinando a ser melhor. Seus braços entrelaçados aos meus servem de oxigênio para respirar e para continuar lutando.
Como dizia Nestor Nascimento, A LUTA CONTINUA.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 09.03.2025
A RAZÃO DA PRIMAVERA
É verdade, sou um romântico. E não pretendo abrir mão disso que considero uma qualidade humana.
Escrevo em resposta àqueles que pensam estar desqualificando meu discurso me chamando de romântico.
O fazem tendo como medida a velha ideia do domínio absoluto da razão, esta senhora dizimadora de sonhos e beleza humana.
Cresci ouvindo essa conversa de que devemos nos instrumentalizar da racionalidade para acertar as coisas; que está na razão o recurso da verdade e o aproveitamento da experiência. E que tudo que fugir ao raciocínio lógico é temerário e de consequência duvidosa.
Aí fui crescendo e procurando dialogar com as várias razões que nos cercam. Na ciência, desfiz minhas crenças religiosas. Na filosofia, vi a força do ethos. Na religião, descobri a positividade dos dogmas. E mesmo no senso comum extraí algum tipo de razão instrumental.
Quando achei que tinha descoberto uma forma de entender e mudar o mundo descobri que todas as razões, e até mesmo a mais soberba delas, foram e são as responsáveis pela construção do mundo que temos, desamparado de ternura e de romantismo.
A razão não só profanou mentes e convicções, como destruiu possiblidades de diálogo com valores humanos imprescindíveis para edificação de uma humanidade desenvolvida e plena.
Foi com a razão que se fizeram duas guerras mundiais e no seu berço se viu a opressão persistir. Foi na razão que a bomba atômica caiu sobre Hiroshima e Nagasaki. Foi em nome da razão que a opressão do capital prosperou, arrancando a carne de idosos e crianças.
Não. Não é essa a razão que um dia iluminou pensadores e chegou a nutrir a esperança de um mundo mais fraterno.
Sigo romântico, sim, com muito orgulho e vontade de mudança, mas não me venha dizer que a razão que você defende nos fez melhor ou socializou bens e qualidade de vida.
Se houver uma razão de vida e esperança, que ela seja a da primavera.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 03.03.2025
O PROCESSO DE ELEIÇÕES DIRETAS DO PT
Sei que o PT dá um nó na cabeça de muita gente. É difícil compreender um partido tão diverso de ideias e gente com perfil diferenciado diante da história da esquerda no mundo, protagonizada pelos partidos comunistas com orientação dominada pelo pensamento marxista-leninista.
O PT é hoje o que, mais ou menos, preconizava o Partido Comunista Italiano, que defendia uma organização heterodoxa, com muito pluralismo de ideias e unidade de ação, o que ficou conhecido como unidade na diversidade. O PCI logo foi acusado de querer criar um "eurocomunismo" ou um pensamento fora do dogmatismo dominante.
Décadas depois desse debate, aqui no Brasil, um país com pouca história democrática e vivendo sob uma ditadura, foi criado o Partido dos Trabalhadores, com uma estrela como símbolo e não uma foice e um martelo. 45 anos passados e o PT está governando o país pela quinta vez.
Pois não é que os eurocomunistas estavam certos, inclusive naquilo que defendiam como transição democrática e hegemonia da sociedade civil.
Estamos longe da hegemonia, mas o PT se tornou um dos maiores partidos de esquerda do mundo. É um projeto político de partido que deu certo, com um vasto espectro de pensamento, inclusive ideológico, que inclui na sua composição segmentos sociais diferenciados, mas representativos da sociedade.
O PT E O PED
É esse partido que dia 6 de julho deste ano realizará eleições diretas entre seus 1,7 milhão de filiados, para eleger todos seus dirigentes, em todo o país.
O PED - Processo de Eleições Diretas do PT foi aprovado no seu 2⁰ Congresso, em 1999, e em 2001 foi posto em prática, mobilizando centenas de milhares de filiados e militantes. Antes disso, as eleições eram colegiadas, em encontros com delegados eleitos em instâncias partidárias.
Em 2005, quando os opositores do PT diziam que o partido ia acabar, 315 mil filiados e filiadas votaram no PED. Em 2013, depois das manifestações de junho, que emparedaram o governo Dilma, foram 420 mil votantes.
O Processo de Eleições Diretas do PT se tornou um projeto ousado de mobilização e de participação dos seus filiados e um modelo único no mundo, dentre os partidos de massa. Representou o rompimento com o método tradicional de eleição e incorporou milhares de militantes e filiados na definição do partido como organização política estratégica.
Ainda tem falhas no processo, obviamente, mas sua implementação é fundamental para o crescimento e a consolidação do PT como partido de massa e alternativa de poder popular. As eleições do partido, além de diretas, têm critérios de participação. Tem paridade de gênero, tem cotas e a disputa proporciona um momento de debate sobre concepções políticas.
O diretório nacional do PT tomou a decisão acertada em garantir eleições diretas em todos os níveis para o partido. O PED tinha sofrido alteração há alguns anos e somente as direções municipais eram eleitas pelo voto direito dos seus filiados e filiadas. Dia 17 de fevereiro passado, por ampla maioria, os dirigentes aprovaram a volta do PED em seu formato original.
O PT dá um grande exemplo para o Brasil e para o mundo, ao valorizar o voto universal. O PED, por essência, é inovador e inclusivo.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 21.02.2025
O PROBLEMA DA COMUNICAÇÃO DO GOVERNO LULA
Desde o início do governo Lula que sua base de apoio - a esquerda e setores progressistas - externa descontentamento com a falta de divulgação das ações do governo e/ou como vem se dando a sua forma de se comunicar com a população.
Pegaram o Paulo Pimenta, ex- titular da Secretaria de Comunicação, para Judas, ou para pato, lhe atribuindo ineficiência e, até mesmo, incompetência. No seu lugar foi colocado o marqueteiro da campanha do Lula em 2022, Sidônio Palmeira.
No ofício de sociólogo, não acho correto atribuir um problema grande a uma pessoa ou mesmo a um grupo, quando este é a parte de um todo mais complexo. É possível até melhorar a ação mexendo numa peça ou noutra, mas o problema persistirá.
No meu singelo entendimento o governo tem um problema de gestão e não de comunicação.
O governo federal tem hoje cerca de 28 mil cargos comissionados, distribuídos por todo território nacional e fora do país. Diferentemente dos governos passados do Lula, esse exército de confiança tem pouca mobilidade, sem recursos para viagens e diárias.
Esses agentes públicos ficam de mãos atadas e pernas acorrentadas nas sedes dos seus órgãos, ou seja, nas capitais, sem poder se articular com o público-alvo das suas ações. Tem muito dirigente de órgão que viaja a trabalho com combustível pago do seu bolso ou no seu próprio carro.
Sem a mobilidade do gestor público, as ações do governo federal que chegam aos municípios são apropriadas pelo prefeito e pelo governador. Essa ausência também facilita as notícias falsas, geralmente disseminadas pela oposição, muito eficiente nessa conduta.
Outro problema de comunicação, causado pela falta de gestão, é a ineficiência dos ministérios. Seus ministros não têm criatividade e parecem desconhecer a capilaridade das suas pastas. É muita política e pouca ação. Esse povo do centrão é um atraso para qualquer administração e os gestores de esquerda também não ajudam. Falta ousadia, criatividade, vontade de caminhar.
Outro fator que está amarrando a gestão de ponta do governo Lula é a impossibilidade do dirigente de nomear seu staff, sua equipe, ficando refém dos funcionários da casa, que cumprem sua carga horária e tchau. Fico imaginando eu dirigir uma instituição e não poder levar comigo meu chefe de gabinete, meu diretor financeiro, meus assessores. É melhor nem aceitar uma bomba dessa.
Diante dessa realidade, pode colocar o melhor de todos os marqueteiros ou o melhor dos profissionais de comunicação que o governo continuará com dificuldade de fazer chegar suas ações como suas ações até à população.
Por fim, como se não bastassem tantas amarras, o gestor federal nos estados não tem sequer um jornalista para divulgar suas ações e toda e qualquer divulgação tem que passar por Brasília. Ou seja, você mesmo escreve um release, manda para a secretaria de comunicação e depois de um mês tem autorização para divulgar. Aí já viu, né.
E agora por fim mesmo, a Secretaria de Comunicação do governo Lula tem que trabalhar com as mídias regionais. É ela que chega na ponta. Ficar jogando fortunas para a Globo, CNN, Band e SBT não ajuda muito. Essa cambada é do mal.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 16.02.2025
O PT EM MANAUS E A DERROTA DA DIALÉTICA
Quando pensei nesse título, lembrei da tese de Leandro Konder, posteriormente transformada em livro.
Nele, o filósofo marxista indica as limitações que recepcionaram as ideias de Marx no Brasil, como a influência anarquista, o próprio stalinismo e a iniciante formação de uma classe operária.
Mas quem sou eu para tentar desvendar a negação da dialética que o PT assumiu em Manaus e suas peripécias pelo mundo distópico. Quero apenas indicar alguns problemas conjunturais.
O PT realiza desde 2001 o PED - Processo de Eleições Diretas, como resolução do seu II Congresso, ocorrido em novembro de 1999. No PED, todas as direções do partido são eleitas pelo voto dos seus filiados com mais de um ano de filiação.
Vejamos um pequeno trecho da resolução do II Congresso.
"Eleições diretas para presidente e direções partidárias em todos os níveis, a partir do ano de 2001.
... Em todas as instâncias partidárias deve ser desenvolvido intenso debate
político durante os 30 dias que antecedem as datas dessas votações. Os Encontros e Congressos devem ser precedidos obrigatoriamente de atividades político- culturais; debates, seminários e conferências, publicitadas e abertas a todos."
Pois bem. Este ano teremos as eleições para eleger todos os dirigentes do PT, de Uarini à grande São Paulo, de Eirunepé a Belo Horizonte. Será dia 6 de julho, com cerca de 1,7 milhão de filiados aptos a votar.
Aqui em Manaus, o processo tem seguido por caminho desviante.
O PED foi criado como mecanismo de mobilização e fortalecimento do PT. Por sinal, é o único grande partido no mundo que elege seus dirigentes pelo voto direto dos filiados.
Acontece que aquela resolução congressual, que criou o programa, falava em intensos debates, seminários, atividades políticos-culturais, conferências, que deveriam preceder as eleições.
Isso tudo como parte do processo de fortalecimento do partido.
O PED é um processo interno do PT. Nele deve ser debatido o partido, suas táticas e estratégias, tudo de acordo com as normas estabelecidas.
Aqui em Manaus, esse processo dialético foi derrotado antes das eleições e sem qualquer causa objetiva, como aquelas apresentadas por Leandro Konder.
O PED foi atirado na rua pela janela do partido e caiu no colo da direita, da extrema direita e dos inimigos do PT. O que era pra ser interno virou notícia negativa na mídia corporativa, nas tintas borradas de blogueiros e nas línguas necrosadas de influenciadores.
As disputas internas no partido saíram do ambiente interno, do debate de ideias, do conflito que faz crescer, para aporrinhar o povo e a sociedade manauara, logo essa gente que tanto precisa de política e não de baixaria.
Sim, a dialética está derrotada diante de dirigentes que não reconhecem a importância do conflito no processo de construção e o transformam em instrumento de autodestruição.
Concluo sugerindo que militantes e dirigentes tragam o PED de volta para o ambiente interno do partido e dele façam um momento de reflexão sobre o PT, tracem táticas e estratégias para superar dificuldades.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 25.01.2025
MINHA CASA MINHA VIDA, MORADIA SEGURA PARA QUEM PRECISA, JÁ
Moro no bairro da redenção, em Manaus, onde houve na madrugada de domingo, 19, um desbarrancamento que matou duas pessoas - pai e sua filhinha de 8 anos.
Redenção tem cerca de 4 mil casas, muitas delas em área de risco. O bairro todo tem acidentes geográficos, ou seja, tem um relevo diferenciado, com muitos barrancos e baixadas.
Mas foi aqui que milhares de famílias encontraram um lote para construir suas casas, desde a década de 1970, quando o bairro foi fundado.
A tragédia ocorrida, com duas mortes e outros feridos, foi anunciada. Infelizmente, outras virão, não só aqui, mas noutros bairros, já que Manaus é a capital do Brasil com mais áreas de risco.
Sugiro à prefeitura de Manaus que priorize no Programa Minha Casa Minha Vida essas famílias que moram em áreas inseguras.
Tem muita gente "sorteada" no programa que não precisa. Mora dois meses e aluga ou vende.
É preciso ter mais critério nesse "sorteio".
As famílias que moram em áreas de risco devem ter prioridade, sem necessidade de sorteio. A condição de vida delas corresponde ao objetivo do Programa.
Se o prefeito David Almeida, no final desse mandato que iniciou agora, conseguir dar segurança de moradia para nossa gente que mora em locais insalubres e de risco, terá feito a grande obra social da sua gestão.
Vamos lá, prefeito. Faça um esforço e pense naqueles que precisam. As moradias do Minha Casa Minha Vida já estão em construção e outras serão construídas com recursos federais.
Tem dinheiro, dá pra fazer.
Ninguém está precisando de parque de concreto. Nosso povo precisa de casas de concreto em áreas seguras.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 21.01.2025
ZUCKERBERG, O VILÃO DA INFÂMIA E DO ÓDIO
Zukcerberg não é apenas o senhor das big techs do século XXI. Ele é um Lord Voldemort à procura de destruir a verdade.
Na semana passada, Mark Zuckerberg anunciou como nova política da sua empresa, a Meta, controladora do Facebook, Instagram e WhatsApp, o encerramento do programa de verificação de notícias falsas e a redução do controle contra discurso de ódio.
Com essa medida, passa a formar dupla com Elon Musk, o bilionário infame que acha que é o Coringa, e se alia ao recém-condenado e eleito presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A turma de vilões está formada.
Tudo poderia parecer um filme de aventura ou ficção, com personagens satíricos, pueris e admirados por milhões de espectadores, se não fosse real e ameaçador.
As redes sociais tomaram conta da vida dos indivíduos, em razão da necessidade humana de comunicação. Com elas, a comunicação tirou o interlocutor da condição de passividade e passou a ser sujeito ativo, em diálogos reais, seja com outro indivíduo ou com um robô, criado e programado por outro indivíduo.
Não é possível voltar atrás nessa relação dinâmica, mas é preciso ter um controle sobre sua política.
Permitir que as big techs determinem que as redes sociais sejam espaços virtuais de promoção de ódio, crimes e mentiras é decretar o fim do processo civilizatório e a instauração de uma nova barbárie, com o uso da Inteligência Artificial.
A infâmia que regula o caráter dos Lord Voldemort das big techs e seus comensais da morte de extrema direita não pode se tornar uma política de domínio das redes sociais e da comunicação de massa. Isso seria o fim do pouco de respeito e tolerância que a humanidade construiu.
O que está em jogo não é a liberdade de expressão, mas o fim dela, com o domínio absoluto de meia-dúzia de bilionários metidos a Lex Luthor. A liberdade de expressão é um valor da democracia e não espaço de promoção do terror e da desinformação.
Permitir a mentira, a disseminação do ódio e a propaganda a favor do crime para aumentar engajamento e o capital da sua empresa revela o risco que a ganância dos donos das big techs representa para a humanidade.
No Brasil, a extrema direita vem impedindo a tramitação do marco regulatório da internet no Congresso Nacional, pois é das fake news que ela vive e engana o povo brasileiro, mas a sociedade civil precisa se mobilizar e garantir a liberdade de expressão como valor da democracia e não do capital.
Lúcio Carril
Sociólogo
Artigo Publicado em 15.01.2025
OS AMANTES E AS AMANTES NA LITERATURA, NA HISTÓRIA E NA HIPOCRISIA
As amantes agora foram tiradas do seu sossego milenar pelas reações de algumas almas puras à fala do presidente Lula, que usou como exemplo essas personagens da história e da literatura universal para falar do seu amor pela democracia.
O olhar moralista, e sempre hipócrita, deforma toda realidade, lhe tirando beleza, poesia e inteligência. Consegue ver erro até mesmo naquele que ama.
Mas o que seria da literatura sem uma Anna Keriênina e sua paixão proibida pelo conde Vrónski, personagens de Liev Tolstói, cuja obra trata de drama familiar, casamento e a decadência da aristocracia russa na segunda metade do século XIX.
No mesmo período histórico, Flaubert inquietou a sociedade parisiense com Madame Bovary, o que lhe rendeu um processo por ofensa à moral e à religião. A infeliz Emma não via possibilidades de vida no seu casamento e procura nos amantes o afago não encontrado no marido.
Na sua defesa perante o tribunal, a frase famosa do escritor realista: Emma Bovary c'est moi" (Emma Bovary sou eu).
Todos nós somos um pouco Emma Bovary, nem sempre nas possibilidades de um outro amor, mas na busca pela felicidade romantizada na literatura, que tanto alimentou seus sonhos.
A literatura nunca virou as costas para a realidade, bem diferente das instituições morais e religiosas, sempre alertas para a defesa dos bons costumes, apesar das suas práticas inconfessáveis.
E foi assim que Machado de Assis nos apresentou Capitu e as dúvidas de Bentinho, compartilhadas por nós, leitores, até hoje.
A vida continua seguindo e nossos encontros com a história também não são furtivos, como aquele e aquela amante revelados nos belos romances.
Frida Kahlo e Trotsky se tornaram amantes.
William Shakespeare e o figurinista William Hart foram apaixonados, mesmo com o autor casado com a atriz Anne Hathaway, com quem teve um filho.
Rainha Victoria e a Princesa Diana não foram as únicas realezas a ficarem famosas. Seus amantes também viraram personagens históricos.
Barbara Villiers se tornou, em 1660, amante do rei Carlos II de Inglaterra e teve destacada atuação no seu reinado, fazendo parte do Conselho Real.
Agnés Sorel saiu de dama de companhia da esposa de Carlos VII para ser sua amante, em 1444. Tiveram três filhas.
Madame de Pompadour encantou Luís XV, que nomeou o marido da amante embaixador nos cafundós do judas.
E assim literatura e história foram se encontrando em castelos, bailes, cidades e vilas, revelando ao mundo que o impossível existe fora dos lençóis da hipocrisia e do falso purismo.
Tanto na literatura como na história, homens e mulheres escolheram uma vida além do casamento. Isso é real. Ainda que alguns insistam em defender apenas vida depois da morte, o que é improvável.
O presidente Lula apenas viajou no tempo da história e da literatura ao colocar no seu discurso uma personagem presente nos belos dramas e romances da vida.
Lúcio Carril
Sociólogo.
Artigo Publicado em 10.01.2025
DEPOIS DE FINACIAR A TENTATIVA DE GOLPE, O AGRO TENTA AGORA O RIDÍCULO
Depois de Bolsonaro, se tornou comum gente envolvida com a polícia falar em disputar eleição. Claro, essa laia está sempre à procura de um jeito para se livrar da cadeia ou da publicidade negativa.
Não causou estranheza quando nesta semana o cantor sertanejo Gusttavo Lima disse que pretende ser candidato a presidente da república. Nada mais comum, depois de um Pablo Marçal e outros da corja, espalhados pelo país.
Gusttavo Lima tem protagonizado a mídia nacional não somente pela sua música de baixo sentimento, mas pelo seu envolvimento com o crime organizado, o que lhe resultou em dois indiciamentos por lavagem de dinheiro e associação criminosa.
Sua ligação nefasta com o que é errado não se limita ao crime organizado. Ele tem ligações profundas com o agronegócio brasileiro.
Seguindo a linha do seu guru político, Bolsonaro, declarou de no dia de ontem, 03, que " o Agro não aguenta mais pagar impostos". Uma mentira deslavada.
O Agro brasileiro tem subsídio anual de 400 bilhões de reais e ainda financia bancadas de deputados e senadores para ampliar esse benefício nada patriótico.
O agronegócio brasileiro atua de forma criminosa contra o meio ambiente e despeja sobre a cabeça de crianças, jovens e idosos toneladas de venenos agrícolas, lhes causando câncer e outras doenças letais.
Gusttavo Lima é mais um dos seus fantoches para protagonizar o noticiário nacional com a defesa dos seus interesses. O cantor se serve a isso porque também precisa esconder seus crimes.
Essa junção da música de baixo sentimento com o agronegócio é uma ação planejada. Não é de hoje que ruralistas bancam cantores de um pseudo sertanejo para tecer loas à sua cultura de destruição ambiental sob o manto da grande produção de alimentos e geração de riqueza.
Esse ritmo musical que Gusttavo Lima representa não tem lastro no sertanejo raiz do Brasil, nascido da cultura dos nossos povos tradicionais. Ele foi criado em estúdios financiados pelos mesmos ruralistas que financiaram a tentativa de golpe de Estado, recentemente.
Esta união é a do crime e tem como meta tirar o Brasil do caminho da democracia e do crescimento. O agronegócio não conseguiu dar o golpe e agora mete nosso país no ridículo ao lançar um indivíduo totalmente desqualificado e envilvido com o crime para disputar a presidência da república. Não passarão.
Lúcio Carril
Sociólogo.
Artigo Publicado em 06.01.2025
