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Ronald Péres

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Brigitte Bardot

A bela, excêntrica e polêmica deusa que amava os animais

Por Ronald Péres

“Brigitte Bardot

Você conquistou o mundo

Com sua beleza sem tintas

Com pintas sem truques

Brigitte Bardot

Você inspirou poetas

O mano Caetano

O brother Bob Dylan, etcétera.

Brigitte Bardot

Você é bonita demais

Você cativou os homens

E agora

Pede liberdade para os animais

Brigitte Bardot

Você é um amor

É o nosso disco voador”

 

(Péricles Cavalcanti)

              

PARTE I – O INDESTRUTÍVEL MITO SEXUAL

​           Somente há cerca de duas semanas tomei conhecimento dos singelos versos acima, que servem de letra a uma bela canção composta pelo poeta Péricles Cavalcanti na década de 1980 como homenagem a  Brigitte Bardot, a icônica estrela de cinema francesa dos anos 50/60, morta em 28 de dezembro de 2025, aos 91 anos, na bela e sofisticada cidade litorânea de Saint-Tropez, na paradisíaca Riviera francesa, por ela celebrizada e por ela escolhida como seu retiro espiritual na Terra e, agora, como lugar de repouso eterno de seus despojos. Brigitte, o “rosto” da França em sua época. A deusa linda, loura, livre e leve. O símbolo sexual de uma geração e a musa de devotos poetas. A mulher amada pelos homens e amante dos animais. O ser humano idiossincrático e polêmico, com suas virtudes e seus defeitos. A pessoa real por trás do mito idealizado.

   

           A notícia da passagem de Bardot foi a “cereja amarga” que fechou um ano marcado por imensas perdas na seara cinematográfica, no qual o mundo também se despediu dos ídolos norte-americanos Gene Hackman, Robert Redford e Diane Keaton e da diva italiana Claudia Cardinale; astros e estrelas tão emblemáticos quanto a atriz francesa, e que brilharam nos écrans contemporaneamente ou em época imediatamente posterior a ela. À exceção de Cardinale, uma estrela de cinema forjada à moda antiga, tal como Brigitte, os demais nomes acima mencionados são frutos de outro momento da “sétima arte”, mais próximo dos nossos dias, ou, melhor dizendo, da informalidade da cultura do nosso tempo, no qual os ídolos da tela (e da mídia, de modo geral) se parecem – ou tentam parecer-se, pelo menos – com as chamadas “pessoas comuns”, do tipo ‘the girl (ou the boy) next door’, como dizem os americanos. Uma expressão idiomática que busca definir alguém como sendo “a garota (ou rapaz) da porta ao lado”, em termos de simplicidade de sua aparência física, assim como de sua atitude social. Hackman era assim, com sua cara impassível, que tanto o habilitava a papéis de espião, policial, advogado, operário ou motorista de táxi, por exemplo. Diane, a eterna musa de Woody Allen, com seu visual clean, andrógino e exótico de estudante universitária “maluca beleza”, nem se fala. Redford, embora muito bonito e dono de um biótipo convencional e classicamente wasp (branco, louro, anglo-saxão e protestante), também fazia o gênero “gente como a gente” (e às vezes disfarçava bem nesse quesito). Todos eram, ao fim e ao cabo, frutos do despojamento e da “contracultura” dos sixties, que moldou a persona artística de cada um deles, assim como de Jane Fonda, Dustin Hoffman, Jack Nicholson, Al Pacino, Robert de Niro e Meryl Streep, seus talentosos colegas de geração.

           Já em relação a Bardot e Cardinale a história era um pouco diferente. Estas jamais foram “mulheres comuns”, ao menos do ponto de vista da imagem involuntária que projetaram de si mesmas. Pelo contrário, eram duas “deusas” gigantescas, duas “tigresas” das telas, uma loura e outra morena, e que jamais – nem por sonho! – poderiam ser enquadradas na categoria do tipo ‘the girl next door’. Donas, ambas, de uma beleza natural, do tipo “cara lavada”, eram divas à moda europeia, sem o glitter, a máquina publicitária e o aparato hollywoodiano que cercavam Ava Gardner, Marilyn Monroe, Elizabeth Taylor e Kim Novak; todas elas tratadas e encaradas por seus agentes, diretores e fãs como estrelas de cinema full time, dentro e fora das telas, aqueles eternamente “velando” para que as imagens e condutas destas últimas se mantivessem sempre condizentes com seu nível de grandeza estelar. 

            Essas elucubrações me transportam quatro décadas no tempo, até o ano de 1985, quando eu e meu irmão Roger, dois adolescentes ainda, nos iniciávamos na descoberta do universo da “sétima arte”, uma paixão de ambos até hoje, em grande parte motivada pelo apreço cinematográfico e pela vasta cultura geral de nossos pais, e também pelo advento da era do videocassete, que permitiu à nossa geração o contato fácil e instantâneo com dezenas de excelentes filmes produzidos na era de ouro do cinema norte-americano e europeu, títulos estes protoganizados por atores e atrizes lendários, muitos deles ainda vivos e atuantes àquela altura. Além do audiovisual doméstico, outro fator que muito contribuiu para nosso fascínio foi uma coleção de revistas chamada “Astros & Estrelas”, lançada pela Editora Nova Cultural, e que, como o próprio nome já entrega, abordava em cada de seus fascículos a vida e a obra de um grande nome do cinema mundial. Lembro bem da ansiedade que ficávamos a cada semana para que chegasse logo a manhã de sábado, dia em que papai, religiosamente, ia até a Praça do Congresso para se abastecer de revistas e livros na banca do Antônio, um sujeito de cor negra, extremamente “boa-praça”, que tinha no velho Jefferson um de seus clientes mais assíduos, e com quem não dispensava pelo menos uns vinte minutos de prosa enquanto negociava suas publicações. “Olha aqui o que guardei especialmente pro senhor, doutor!”, “Leve mais essa revista pros meninos. Eles vão gostar!” E “os meninos” – leia-se, eu e meus irmãos – não se faziam de rogados, claro, enchendo a sacola da semana, que nunca era inferior a umas quatro ou cinco revistas, fora as encomendas habituais de mamãe, as clássicas revistas femininas Cláudia, Desfile e Casa & Jardim.

       

            Bem, isto foi apenas um break nostálgico e de cunho absolutamente íntimo e pessoal. Vamos voltar ao tema principal desta crônica, ou seja, La Bardot. O fato é que, a partir da leitura semanal de Astros & Estrelas, nosso conhecimento a respeito dos grandes ídolos do passado se ampliou por completo. Garbo, Gable, Dietrich, Bogart, Errol Flynn, Bette Davis, Tyrone Power, Rita Hayworth, Gary Cooper, Ingrid Bergman... Todos os grandes “medalhões” do cinema, enfim; os quais se tornaram, de uma hora para outra, nossos “velhos conhecidos e melhores amigos de infância” (ou de adolescência, como queiram). De repente, não mais que de repente, deles passávamos a querer saber de tudo e mais um pouco: data de nascimento e morte, início de carreira, filmografia, parceiros de cena, nomes dos namorados e cônjuges, escândalos e fofocas... Idolatria total e completa!

             Nessa vibe cinéfila, tão emulados estávamos, eu e Roger, com os semideuses e semideusas gerados pela velha Hollywood, envoltos em toda aquela aura de magia e glamour, que ficamos um tanto decepcionados quando Astros & Estrelas, já em sua fase final, começou a abordar a vida de certos atores das décadas de 50/60 que - a nosso juízo, já relativamente amadurecido, e, portanto, bastante crítico - não considerávamos à altura de figurar no panteão cinematográfico eleito pela revista. Esse sentimento de frustração se deu, particularmente, no caso do fascículo que homenageava a hoje quase esquecida Jayne Mansfield, uma starlet loura, curvilínea e de busto desproporcionalmente avantajado, lançada pela Fox para fazer frente a Marilyn Monroe, mas que, tão canastrona que era, jamais estrelou um filme sequer que prestasse e que pudesse ser exibido nem ao menos numa prosaica Sessão da Tarde da Globo. Ora bolas, pensamos nós com nossos botões, quem era, afinal, essa Jayne Mansfield “das couves”, para ser colocada no mesmo nível de uma Grace Kelly? Martelo batido, a loura peituda rifada ficou, e rifada está, até hoje, de nosso panteão particular... (risos).

          Todavia, a bem da verdade, ela não foi a única, naquela época, a sofrer a rejeição dos juvenis irmãos Péres. Num grau menos extremado, lembro bem que implicamos também com outras divas: Sophia Loren (por causa de sua boca enorme e suas tetas igualmente descomunais), Jane Fonda (por conta de seu estilo low profile e seu jeito antiestrela de ser), e, last but not least, torcemos o nariz também para as duas divas “de cara lavada” que, coincidentemente, nos deixaram há pouco: Claudia Cardinale e Brigitte Bardot. Também, era querer um pouco demais de dois adolescentes que mal haviam sido apresentados a estrelas de aparência quase divina, de ar misterioso, olhares lânguidos e traços nórdicos ou anglo-saxões; dois meninos que não tinham ainda plena capacidade de perceber que aqueles duas mulheres - uma com seu ar de menina levada da breca e sua cabeleira loura, farta e cacheada; e a outra com sua pele morena e suas feições de traços mediterrâneos - representavam, na verdade, a transição para outro tipo de diva, mais despojada, mais natural, mais “comum”, no melhor sentido da expressão. Bardot, a despeito de seu corpo exuberante e de sua sensualidade latente, era o protótipo da garota francesa dos anos 50, do tipo mignon de moça de classe média que podia ser encontrada passeando nas ruas de Paris ou bronzeando-se numa praia de Nice ou de Cannes. Cardinale, idem, era linda com seu sorriso espontâneo e seu ar brejeiro e catita, que em nada diferia de qualquer jovem romana ou napolitana de sua idade e de seu extrato social. Pode-se dizer que, com sua beleza “raiz”, digamos assim, fora dos standards americanos, elas foram as primeiras superstars da era moderna do cinema, e, com sua postura, pavimentaram o caminho para outras divas “naturais” que surgiram depois delas na cena europeia, como Vanessa Redgrave, Julie Christie, Jacqueline Bisset, Isabelle Adjani, Laura Antonelli e Ornella Mutti, para citar apenas as de maior destaque. Não por acaso, é curioso constatar, em retrospecto, o fato de que ambas as beldades europeias, tão sinérgicas em suas respectivas figuras públicas, tenham sido: 1) reveladas ao cinema quase que ao mesmo tempo (Brigitte em 1956 e Claudia em 1960), 2) brilhado intensamente na mesma década (os anos 60), 3) trabalhado com os maiores cineastas e atores europeus de sua época, 4) homenageadas na mesma letra de música por Caetano Veloso (Alegria, Alegria; de 1967), 5) reunidas num mesmo filme no auge da carreira de ambas (em As Petroleiras, de 1971), e partido deste planeta no mesmo ano, com uma diferença de apenas três meses uma da outra. Bardot e Cardinale. Cardinale e Bardot. Cara e Coroa. Verso e anverso do mesmo bonito medalhão de uma era de ouro do cinema.

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              É muito difícil, quase impossível, mesmo, para uma pessoa, nos dias atuais, com a “overdose” de sexo disponível urbe et orbe, aquilatar o impacto que Brigitte Bardot – ou, melhor dizendo, que o sex appeal de Bardot - causou nas plateias do mundo inteiro ao aparecer, no apogeu de seus 22 anos, completamente despida (ainda que sem o apelo barato do nu frontal) no filme ... E Deus Criou a Mulher (... Et Dieu Créa la Femme), produzido e dirigido por seu então marido, Roger Vadim, e lançado em 1956, com grande estardalhaço de crítica e de público. Apesar de já entrado em mais de sua metade, o século XX ainda experimentava, em sua cultura midiática (a literatura, a música, a fotografia, o rádio, o cinema e a nascente televisão), quase que as mesmas restrições impostas durante a chamada “Era Vitoriana” (ou seja, o século XIX) no tocante à exposição e descrição do corpo humano, assim como da sexualidade de homens e mulheres, em seus múltiplos aspectos. No caso do cinema, um entretenimento de massa, a “censura do pudor” era bastante rigorosa, especialmente nos EUA, onde vigorava desde 1933 o chamado Código Hayes, uma espécie de cartilha de conduta dirigida a produtores, diretores e atores que simplesmente bania das telas alusões explícitas ou mesmo veladas a certos assuntos tidos como tabu. Além da vedação à nudez, eram também tidos como proibidos temas como virgindade, sedução (defloramento), estupro, homossexualidade e desejo carnal entre adolescentes ou entre pessoas maduras. E, mesmo nas estórias envolvendo adultério (um tema habitual de nove entre dez folhetins românticos) não podia haver qualquer cena que denotasse que os amantes tivessem tido “colóquios amorosos” clandestinos e fortuitos em garçonnières ou hotéis de frequência suspeita. Nem pensar. O sexo, para grande parte da hipócrita sociedade americana, deveria continuar sendo abordado como aquilo que é na sua essência semântica: apenas um gênero, e nada mais.

          Se tal postura era assim na América, não era muito diferente na Europa. Certamente devido à forte influência ainda exercida pelas igrejas cristãs (Católica, nos países mediterrâneos; Anglicana, na Grã-Bretanha; e Luterana, nas nações do centro e do norte do continente), a cinematografia europeia, mesmo sem a existência oficial de um código de censura similar ao norte-americano, era também bastante tímida em relação à abordagem de temas relacionados à sexualidade humana. Para ter uma ideia de quão estigmatizadas eram tais temáticas, a primeira (e, durante, muitos anos, a única) cena de nu feminino nas telas europeias foi aquela retratada no filme tcheco Êxtase (1933), de Gustav Molander, no qual uma jovem atriz austríaca de 19 anos chamada Hedy Kiesler (ninguém menos que a futura estrela Hedy Lamarr), aparecia, ao longe, correndo nua pelos  campos, tal e qual uma ninfa da mitologia grega, durante uns poucos segundos. Para as plateias de hoje, seria uma cena quase pueril, senão mesmo boba. Mas, na época, foi um escândalo!

            Então, diante desse verdadeiro “cinto de castidade” cinematográfico, pode-se bem avaliar, mesmo com o distanciamento de sete décadas, a “bomba” que foi o impacto da visão de Brigitte Bardot completamente nua naquela histórica película do final dos anos 50. É uma cena rápida, de poucos segundos na tela, na qual sua personagem, Juliette, uma garota comum, que andava descalça e serelepe pelas vielas da pacata vila piscatória de Saint-Tropez (cenário do filme), aparece tal como Eva veio ao mundo, deitada languidamente de bruços, com a cabeleira revolta, o bumbum empinado e as lindas pernas entrecruzadas no ar, banhando-se ao sol da Riviera no gramado de sua residência, protegida dos olhares curiosos dos vizinhos apenas por um lençol branco estendido no varal. Uma privacidade de fantasia, já que, nesse momento, os olhares cúpidos de espectadores voyeurs nas plateias de cinema do mundo inteiro estão voltados para o seu esplêndido derrière e para seu par de seios perfeitamente empinados, todos morrendo de inveja da personagem vivida pelo alemão Curd Jurgens, o “coroa” rico e bonitão que cobiça ardentemente a ninfeta, disputando os seus favores com o jovem bacana, charmoso e provinciano vivido por Jean Louis Trintignant.

         No filme italiano Cinema Paradiso, de 1989 - um emocionante clássico moderno dirigido por Giuseppe Tornatore, e que tem como pano de fundo de sua estória uma grande homenagem ao cinema enquanto entretenimento e enquanto arte – há uma passagem icônica, extremamente revedora deste momento, no qual o “terremoto” Bardot abalou profundamente os alicerces da (falsa) moral até então vigente nas telas: em uma pequena e provinciana cidade siciliana, a fictícia Giancaldo, os habitantes (homens, em sua maioria) lotam a sala escura do único cinema do lugar para assistir à estreia de ...E Deus Criou a Mulher, todos naturalmente ansiosos, claro, para conferir in loco a volúpia da nova estrela francesa, que era o assunto do momento em todos os jornais e revistas. Em determinado trecho do “filme dentro do filme” (ou seja, na cena em que Brigitte finalmente aparece nua), a câmera, após enfocar os rostos lascivos de alguns espectadores, entre machos rudes e velhos “babões” (muitos deles devidamente “vigiados” por suas matronas e megeras esposas), corta para uma fileira composta por um grupo de adolescentes púberes, na faixa entre 13 e 15 anos, que, masturbam-se freneticamente, sem desgrudar os  olhos do corpo desnudo e perfeito daquela moderna Helena de Troia. Uma cena que, conquanto risível à primeira vista, é assaz demonstrativa do frisson – ou, melhor dizendo, do tesão derramado (literalmente) - que brotou de tantos onanistas nos cinemas mundo afora, inclusive, não tenho a menor dúvida, na penumbra das discretas galerias dos nossos saudosos Guarany e Polytheama.

        

         Pode-se dizer que a fugaz nudez de Brigitte naquele clássico do cinema, advinda de sua sexualidade espontânea, sem afetações e sem qualquer laivo de pornografia ou vulgaridade, obrou tanto ou até mais pela emancipação da mulher no pós-guerra do que todas as páginas reunidas de O Segundo Sexo, a grande “Bíblia” do feminismo, escrito em 1949 por sua conterrânea, a filósofa Simone de Beauvoir; ou todos os sutiãs e demais adereços tipicamente feminis queimados nas ruas de Atlantic City em 1968 pelo Women´s Liberation Movement. Brigitte, pelo menos nessa época, não precisou de discursos ou palavras de ordem para dar o seu recado direto: o seu corpo era sua única e exclusiva propriedade, e ela fazia dele o que bem quisesse, inclusive torná-lo instrumento habitual de seu ofício, sem pudores nem temores. Uma máxima que os atores de teatro aprendem desde sempre, mas que aos seus homólogos (e, sobretudo, às suas homólogas) no cinema vinha sendo deliberadamente negado desde o surgimento do cinema como uma distinta expressão artística, na virada do século XIX para o XX. Assim é que, se por um lado, as tetas e as ancas expostas de Brigitte provocavam profanas ereções e poluções masculinas, é verdade também que, num outro viés, tornaram-se uma “bandeira” para uma infinidade de mulheres ocidentais que buscavam liberar-se em todos os sentidos da ancestral opressão masculina, um ícone tão emblemático e tão apreciável quanto o torso da Vênus de Milo ou a pintura da Maja Desnuda, de Goya, expostas nos corredores do Louvre e do Prado. Um simbolismo que se confirmaria anos mais tarde, quando o belo rosto de Bardot, arrematado por seus carnudos e voluptuosos lábios, foi eleito pelo governo francês como a efígie ideal para compor o busto oficial de Marianne, a figura feminina que representa a República Francesa. Outra chancela de sua grandeza enquanto ícone libertário feminino/feminista veio da boca da própria Simone de Beauvoir, que, por ocasião de uma entrevista, teceu o seguinte comentário elogioso sobre sua famosa compatriota: "Anda descalça, ignora deliberadamente as roupas sofisticadas, as joias, os perfumes, a maquiagem, todos os artifícios (...) Faz o que lhe dá vontade e é isso que perturba"

     

             Nessa época, Bardot conjugava em sua figura todos os arquétipos: a menina, a mulher, a livre, a doida, a pura, a puta, a heroína e a quase santa (no sentido icônico do termo). Ela, tal como o mítico Prometeu, ousou ir além, e, ao fazê-lo, transcendeu sua condição de reles mortal, ao roubar para si o fogo proibido do sexo e reacendê-lo em altas labaredas na pira orgástica armada diante de seu próprio altar e perante sua seita profana de milhões de devotos seguidores. Depois dela, vieram outras, muitas outras mais, no cinema e fora dele, todas elas suas discípulas e herdeiras, ainda que inconfessas. Mas Brigitte foi a primeira, a precursora dessa grande “virada de chave” da caretice. E esse mérito ninguém lhe tira.  

 

 Brigitte Bardot e Jean Louis Trintignant em cena do filme ...E Deus Criou a Mulher

(1956), de Roger Vadim

 

 

 

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Crédito das imagens: Rede Mundial de Computadores.  

      

Artigo publicado em 13.12.2025

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Martinho de Luna Alencar, prefeito de Manaus entre dezembro de 1902 e novembro de 1903, o homem que, às custas do Erário amazonense mandou edificar o célebre Palacete das Lágrimas. Fotografia pertencente ao acervo da Prefeitura Municipal. 

O Palacete das Lágrimas

A verdadeira história por trás da polêmica mansão de Luna Alencar

Por Ronald Péres

PARTE III – DA LAMA DE LUNA NASCE UM LÍRIO... EM FORMA DE UM POÉTICO EPÍTETO!  

           Menos de uma semana depois, em 28 de maio de 1903, o destemido periódico, no seu habitual tom mordaz, noticiava, enfim, a mudança do nababo Luna Alencar para a sua mal falada mansão da Rua 7 de Dezembro, profusamente iluminada a luz elétrica, sob os olhares de admiração dos passantes que diante dela se detinham, embasbacados por sua beleza e, evidentemente, pela rapidez com que fora erguida por seu proprietário. Uma nota curta, porém histórica, na qual, pela primeira vez, o epíteto “Palacete de Lágrimas” é associado publicamente à polêmica construção:                           

“Mudou-se ontem para o seu rico e faustoso palacete da Rua 7 de Dezembro o Sr. Dr. Luna Alencar, superintendente municipal desta capital. Tivemos ocasião de ver, embora ao longe, a deslumbrante iluminação do custoso palácio, que o povo tem denominado o ‘Palacete das Lágrimas’. Nada deixa a desejar.”  

  
Passados quase um século e um quarto de tais acontecimentos, é de se perguntar, sob um viés retrospectivo de todo este imbroglio político-edilício: tal epíteto pejorativo teria evolvido mesmo da criatividade e da jocosidade popular? Ou seria fruto, na verdade, da pena afiada e irônica de Adriano Pimentel, na busca incansável de fustigar seus todo-poderosos desafetos Luna e Silvério? Não temos como asseverar com cem por cento de certeza. O apelido, que, desde o início, caiu na boca do povo, tanto pode ter derivado de uma conveniente “aderência”, digamos assim, quanto de um sagaz slogan cunhado por Pimentel ali, de improviso, no entusiasmo da escrita, de sorte a arrematar sob um título - eufônico e, ao mesmo tempo, de efeito sobre os leitores - as anteriores denúncias do Quo Vadis?, relacionadas ao escandaloso caso. 

              

           Uma vez cunhada “oficialmente”, a alcunha seria “fermentada”  nas edições seguintes do matutino, sempre evocada sob o manto da sátira e do deboche, como não poderia ser diferente. Assim se infere da seguinte nota, na qual é reproduzido um fictício diálogo travado entre dois vereadores manauaras acerca do luxuoso palacete do “chefe” (o prefeito); um deles, um homem honrado, pasmado diante de tanta ostentação; e o outro, um corrupto, cinicamente replicando (e reprovando) a “ingenuidade” de seu interlocutor: 

Na Intendência

“- Já visitaste o chefe na sua nova residência?

- Já fui duas vezes cumprir esse dever, mas não tive coragem de entrar.

- Não tiveste coragem?! Como explicas isso?...

- Tive receio de manchar a escadaria com o pó dos sapatos. Aquilo é tão deslumbrante que a gente não se atreve a entrar descalço.

- Pois descalço é que ali não poderás penetrar.

- Não digo descalço, mas queria entrar de meias, deixando o sapato à porta.

- E porque não o fizeste?

- Receando que me levassem os sapatos. Havia na ocasião muita gente em frente do palacete admirando a iluminação e fazendo comentários que muito me aborreceram.

- Comentários?!

- Sim... Diziam que o nosso chefe abusou da boa fé do povo, que a argamassa do belo edifício foi feita com o suor alheio, e que, por isso, este se ficou chamando o ‘Palacete das Lágrimas’.  

 

- Ora, bolas... Eles que digam o que quiserem; o chefe não está ligando. Tolo seria ele se não tratasse de se arrumar enquanto o Braz é ‘tesoureiro’.

- Eu não penso assim; prefiro viver em casa alugada a morar em palácio com um tal apelido.

- Pois fica com as tuas teorias, com elas não mandarás ao açougue, fique certo. A época é quem chega, e ninguém é culpado de que haja loucos que falem de probidade e queiram imitar Catão.

- Não abraço as tuas ideias; tenho filhos, e não desejo que eles sejam apontados como filhos de um réprobo...

- Deixe de asnices! Por isso é que vives com a barriga presa ao espinhaço e botas rotas!

- Prefiro que assim seja, contanto que eu viva em paz com a minha consciência.

- E ainda me falas de consciência... Se consciência houvesse, há muito o nosso chefe já teria rolado desta casa para a rua. Mas, o que se vê? Ele continua ‘grudado’, como a ostra ao rochedo, dispõe do prestígio do chefe do partido dominante e traz manietado o governo. (...)”

(Quo Vadis?, Edição nº 161, de 31 de maio de 1903)

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          ... E ainda esta outra tira jornalística, fazendo troça da pose enfatiotada e esnobe do odiado superintendente, cujo retrato – num atestado explícito de doentia vaidade - se encontrava exposto à visitação pública num conhecido estabelecimento comercial (seria, talvez, a origem remota do apelido “jabuti de colete”, aposto sobre sua pessoa, e evocado por Mário Ypiranga em sua crônica?): 

 

 

Retrato Luna

“Ontem de manhã, quando começou a circular o ‘Quo Vadis?”, todas as pessoas que o liam foram se dirigindo em verdadeira romaria para o estabelecimento ‘Porta Larga’, à Rua Municipal, onde se ostenta, a óleo e em tamanho maior do natural, a simpática efígie do abusado capitalista Dr. Luna Alencar. Foram numerosos e muito espirituosos os comentários que ali se fizeram a respeito da ampla sobrecasaca preta do hábil superintendente municipal, da cor azulada dos seus mimosos olhos e da enorme papada com que o pintor quis ampliar e engalanar a grave fisionomia do feliz proprietário do ‘Palacete das Lágrimas’.” 

(Quo Vadis?, Edição nº 167, de 7 de junho de 1903)

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              Devido a esses constantes ataques, os quais, evidentemente,  atraíram a ira e o ódio de Nery, Luna et caterva contra o jornal de Adriano Pimentel, não há de ter sido surpresa para ninguém na cidade de Manaus a notícia que circulou de boca em boca na noite de 7 de junho de 1903, dando conta de que o aguerrido Quo Vadis? tivera sua redação e suas oficinas, localizadas à Avenida Eduardo Ribeiro, “empasteladas” e incendiadas criminosamente, durante o assalto noturno de uma súcia armada e munida de latas de querosene. Uma prática nefanda e contumaz em todo o país, e que no Amazonas já vinha de algum tempo, com casos análogos ocorridos durante todos os governos republicanos pretéritos: Eduardo Ribeiro, Fileto Pires e Ramalho Júnior. Governos estes que haviam sido, um a um, “dissecados” em todos os seus pecados pela pena arguta e afiada de Adriano Pimentel, numa brilhante série de extensos, didáticos e minuciosos editoriais do Quo Vadis?, publicados em fascículos periódicos sob a epígrafe de As Administrações do Amazonas; artigos estes que hoje constituem páginas preciosas para o estudo da História do Amazonas naquele período, de tão detalhados e bem escritos que são, mas que, na época, hão de ter, literalmente, servido de combustível para a “fogueira das paixões” de ódios e rancores que iria, simbolicamente, imolar Pimentel naquela noite, na bárbara pira de intolerância e vingança armada por seus inimigos em plena Avenida Eduardo Ribeiro.   

           Rumores que circularam fortemente à época apontavam para os nomes de Adolpho Lisboa e Raphael Machado, dois dos “cães de guarda” de Silvério Nery (tanto no sentido da fidelidade quanto da ferocidade), como sendo os mentores e coordenadores do atentado, perpetrado sob as “vistas grossas” da Polícia e da Justiça. Os mesmos “ilibados” senhores que, segundo testemunhas oculares presentes à Avenida naquela noite fatídica, ceavam e “celebravam a vida”, despreocupadamente, numa das mesas do elegante Hotel-Restaurant Français (situado na esquina da Rua Saldanha Marinho, a poucos metros da redação do Quo Vadis?), enquanto o jornal de Adriano Pimentel, desafeto comum de ambos, era reduzido a entulhos e cinzas...

 

            Porém, para desgosto de Nery, um sujeito vaidoso, que, apesar de seus muitos “esqueletos no armário”, era extremamente cioso de sua imagem pública fora das fronteiras do Amazonas, o ato ignominioso executado por sua corja reverberou na Imprensa nacional. Em um longo editorial de desagravo ao seu homólogo amazonense, o jornal carioca O Paiz, um dos mais importantes da então capital federal, abriu suas páginas (e seu verbo) para exaltar o honroso papel do Quo Vadis?, de solitário combatente em face da violência física e moral que medrava na política amazonense; ao mesmo tempo que não mediu palavras para denunciar o bárbaro crime e os desmandos da “ditadura branca” de Silvério Nery:  

“O ‘Quo Vadis?’ era um jornal de circulação vasta, inteligentemente feito, redigido com audácia, e gozava de merecidas simpatias populares. A administração dilapidadora do sr. Nery foi nessa folha analisada, ato por ato, com uma bravura, uma verdade e uma indignação que valeram aos intrépidos redatores do ‘Quo Vadis?’ o aplauso e o reconhecimento de todo o Estado, há muito tempo habituado ao ‘amém’ imbecil, interesseiro ou poltrão dos mastins literários do governador. O sr. Nery aguardava com paciência, na sua preocupação de parecer que garantia a liberdade de Imprensa, o ensejo favorável para dar o golpe ao jornal que assim afrontava o seu poder e escarnecia a sua moralidade. (...) O empastelamento não bastava, porque dentro de um mês ou dois o jornal podia de novo funcionar, e a eliminação de um dos redatores não resolveria o incidente, porque não faltaria quem se arriscasse a continuar a sua obra, fiado na indignação que o primeiro atentado produziria. Lembrou-se então o sr. Nery do incêndio, como meio de exterminar aquele reduto temeroso da dignidade popular, afrontada pelo seu despudor e pela sua intolerância. Não ficaria pedra sobre pedra, e tão cedo não se ouviria nas ruas de Manaus o pregão dos garotos anunciando o título pitoresco, jovial, provocador, do valente periódico, que por tantos meses enfrentara a ditadura do sr. Nery, (...).        

Está em escombros o edifício do ‘Quo Vadis?’. Por algum tempo, as labaredas avermelharam um ponto do céu escuro, avisando a toda a gente em Manaus o risco que se corre em verberar a improbidade de um ditador, e, com certeza, o sr. Nery, ao ver que as chamas se alastravam, subiam, num sôfrego anseio de destruição, considerava-se dono onipotente dessa terra infeliz,e pensava no efeito que esse incêndio produziria no espírito assombrado e transido de pavor da população, que o odeia. Sim, tão cedo ninguém o importunará com a censura dos seus atos, ninguém lhe pedirá contas dos seus negócios, ninguém o exprobará pelas suas corrupções.

(O Paiz, Rio de Janeiro, 10 de junho de 1903)

 

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            Foi uma desgraça, de fato, e que ia muito além da depredação física do prédio de um jornal e de seu aparato técnico. Calar a voz de um veículo do perfil do Quo Vadis? representava uma insuportável asfixia para os cidadãos amazonenses, privados de respirar o rarefeito ar de liberdade que aquele quixotesco periódico ventilava sobre a oprimida Manaus daqueles dias. O destemido Pimentel, todavia, não era homem de se deixar vergar facilmente. Em 26 de setembro de 1903, pouco mais de três meses depois do perverso sinistro, o Quo Vadis?, realocado às pressas num prédio da Rua Marquês de Santa Cruz, voltava a circular nas ruas, com a mesma combatividade e com mesma veemência de antes, denunciando tudo e todos, doesse a quem doesse. Prova disso é que, na edição de 1º de outubro ele volta à carga contra o infame Luna Alencar, desta feita de maneira bem original e criativa ao urdir, em puro tom de farsa, uma estória bizarra, passada na Rússia asiática, numa imaginária cidade chamada Manaoff, capital de uma igualmente fictícia e remota província chamada Amazonskii, governada por um arrogante estarrosta (senhor feudal) de nome Lunoff, que a pretexto de erguer o seu palácio particular, não se peja de surrupiar blocos de mármore destinados à reforma de uma igreja pelo clérigo local, o Pope Anteroff. A insinuação, para qualquer leitor de mediana inteligência, era óbvia, e fazia eco a uma suspeita que, uma vez comprovada, seria “o escândalo dentro do escândalo”: a de que Luna Alencar, na sua desmedida ambição, mesquinhez e falta de escrúpulos, teria desviado para o seu Palacete das Lágrimas mármores importados que deveriam ter sido utilizados no acabamento da nova Igreja dos Remédios (também projetada pelo italiano Filinto Santoro), obra esta que se encontrava sob a gestão do zeloso e respeitável pároco daquele templo, Monsenhor Antero de Lima, outro emigrado dos sertões cearenses, assim como Luna, mas, ao contrário deste, um homem de um caráter retilíneo e ilibado.

       

            A narrativa construída pelo Quo Vadis?, aludindo a tais “personagens” da vida real, é deveras saborosa, e merece ser transcrita na íntegra:

 

 

Pedras sobre Pedras

“De um jornal publicado na cidade de Manaoff, do Amazonskii departament da Rússia asiática, extraímos a seguinte interessante notícia:

 

Haviam sido compradas pelo ‘estarrosta’ daquela cidade, para serem aplicadas em obras de utilidade pública, algumas pedras de mármore. Viu-as, casualmente, o Pope Anteroff, e, empenhado, como andava, na reconstrução da ‘Tserkow dos echnei bojei matery’, com o maior interesse, solicitou-as de Lunoff, estarrosta de Manaoff nesta ocasião, a fim de aproveitá-las nas obras da Tserkow.

 

Negou-se formalmente a satisfazer esse pedido o estarrosta da cidade, justificando a recusa sob o fundamento de que eram aquelas pedras destinadas a obras de embelezamento da capital do Amazonskii departament. Retirou-se, descontente e contrariado, o diligente e caridoso Pope Anteroff. Grande foi, porém, o seu desapontamento quando, passados alguns dias, soube e teve ensejo de verificar ‘de visu’ que as ditas pedras de mármore haviam sido aproveitadas na ornamentação do Palácio das Lágrimas, de propriedade particular do estarrosta.

 

Ao chefe supremo do departament levou o bom Anteroff a sua queixa contra Lunoff, expondo com indignação o ocorrido,e Silverioff prometeu fazer castigar Lunoff com o rigor merecido. À última hora, porém, corria nos círculos bem informados de Manaoff que o ex-estarrosta Lunoff, dadas certas alterações do funcionalismo público, em recompensa de sua ‘viveza’, seria nomeado chefe de segurança do Amazonskii departament.”

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           Da sátira em forma de prosa para a sátira em forma de poesia. No dia 4 de outubro, em outra investida pesada contra o “Nerysmo”, o Quo Vadis? fez circular um poema jocoso, inserido em sua tradicional  coluna em versos intitulada Solfejos, que vinha sempre “assinada” por  alguém que se intitulava simplesmente “Um Quovadista” (talvez o próprio Adriano Pimentel, com toda a certeza). Nesta seção específica o jornal dava-se ao luxo de abusar do bom humor, “deitando a lenha” - de forma bem irreverente e fazendo uso dos mais diversos e criativos pseudônimos - em cima dos poderosos e dos escândalos por eles protagonizados; escândalos estes já bem sopesados pelo jornal em seus editoriais e, portanto, familiares aos leitores, que não deviam ter qualquer dificuldade em compreender as mensagens cifradas embutidas nos tais versículos.​

          Desta feita, o jornal fazia troça de sua própria desgraça ao abrir  gozadas estrofes dos Solfejos com a referência ao incêndio ateado pelo “Nero amazonense” (um óbvio trocadilho do nome do degenerado imperador da Roma antiga com o sobrenome Nery), ao mesmo tempo em que não perdia a oportunidade de, mais uma vez, fustigar Luna Alencar, fazendo uma alusão aberta ao “festim diabólico” que este, num ato de acintoso descaramento, havia promovido em seu palacete naquela mesma noite fatídica, à guisa de desforra contra o incômodo matutino, que tanto o agravara. Assim diziam os versos da irônica trova, construída com muita verve e inteligência, um retrato do alto nível do jornalismo praticado naqueles dias:

 

Solfejos

Pelo Nero amazonense

O ‘Quo Vadis?’ Foi queimado

Reassumindo o seu posto

Pelas classes apoiado.

Foi brutal o atentado!

O ‘Governitz’ repinpou-se

Quando o fogo propagou-se;

O ‘Branquinho’ do Amazonas

Tocou flauta, tomou monas,

Quando viu tudo arrasado!

 

Naquela noite tremenda

Do incêndio pavoroso,

No Palacete das Lágrimas

Bateu palmas um leproso

Deu banquete pomposo,

Reuniu os ratoneiros,

Saudou aos ‘petroleiros’,

Mostrou-se desafogado;

Supôs não ser mais cantado

O seu caráter nojoso.

O jornalismo brioso

Da capital federal,

A Imprensa dos estados

Também a de Portugal

Agiram, disseram mal,

Deste governo insensato

Que mandou com aparato,

Destruir por desalmados

Três prédios bem-acabados

E um correto jornal!

 

‘Governitz’ praticou

Essa negra e vil ação,

Julgando que morreria

O jornal da oposição.

Pensava na maldição

Deste povo massacrado?

Seu desdouro foi lavrado.

Todo homem decoroso,

Qualifica de asqueroso

O ato do ‘Barezão’.

 

Um Quovadista

              Infelizmente, aqueles eram tempos em que imperava a “lei do mais forte”. E ai de quem contra ela se insurgisse! A despeito de todo o seu denodo e espírito de resistência, o bravo Quo Vadis? não iria muito longe, encerrando sua combativa trajetória em 20 de março de 1904, dia em que circulou pela última vez, em razão de uma nova investida “nerysta” feita contra o jornal, desta feita pela via de uma ação judicial que resultou no fechamento definitivo daquele periódico. Adriano Pimentel, certamente desgostoso diante do novo revés, e sentindo-se, quiçá, sem forças para “remar contra a maré” àquela altura da vida (era já quase um homem velho), não mais se envolveu com a atividade jornalística. Passados alguns meses, em setembro de 1904, rumou para o Acre, então recém-elevado à condição de território federal, a fim de assumir o cargo de Secretário de Terras Públicas e Colonização do Departamento do Alto Juruá (um dos três distritos daquele território), a convite de seu amigo e colega de armas, General Thaumaturgo de Azevedo, ex-governador do Amazonas (1891-1892) e prefeito daquele departamento acreano. Em julho de 1905 estava de volta a Manaus, enfrentando graves problemas de saúde, o que  certamente contribuiu para sua decisão de retornar de vez à sua cidade natal, Santarém, no Pará, aonde viria a falecer, em 20 de julho de 1907, sendo ali sepultado com as homenagens devidas a um justo filho da terra. Seu honrado nome seria posteriormente perpetuado pela “Pérola do Tapajós”, batizando uma de suas principais avenidas. Perdeu a batalha, mas, ao fim e ao cabo, ganhou a guerra sob o prisma da posteridade, pois, através das páginas de seu valoroso Quo Vadis?, deixou um legado indelével na história da Imprensa no Amazonas, pelo seu destemor em enfrentar os poderosos, à maneira de “Davi contra Golias”, numa época em que poucos ousavam sequer ensaiar em fazê-lo. 

           Já Martinho de Luna Alencar, o corrupto e deslumbrado “Jabuti de Colete”, levou a melhor sobre o seu desafeto, mesmo tendo sido exonerado do posto de superintendente municipal em 13 de novembro daquele mesmo ano de 1903, certamente sem deixar muita saudade nos munícipes do tempo de sua breve passagem à frente da Prefeitura. Afinal de contas, um tipo com seu perfil há de ter desagradado e perseguido a muitas outras pessoas, além do velho e turrão Adriano Pimentel. De qualquer forma, não sairia de mãos abanando, já que, dois meses antes de sua saída do cargo, já havia alcançado a sua grande meta, ao ver deferida sua nomeação de juiz, pela Corte estadual, mais uma vez graças às “artes e manhas” de seu mentor e avalista político, o capo Silvério Nery, sempre pronto a premiar seus fiéis e servis vassalos com os favores da “Viúva” – leia-se, o Estado, para aqueles que não possuem familiaridade com o jargão administrativo. Investido das vestes talares, primeiro como julgador de primeira entrância e depois como desembargador, o emigrante carreirista viveria ainda por muitos anos, até 1945. Num livre exercício de imaginação, podemos quase vê-lo hoje assim como o descreveu Mário Ypiranga Monteiro: arrogante, pomposo e pedante, sendo bajulado por uns e aturado por outros, passeando a pé ou de bonde pelas tranquilas ruas da Manaus de antanho, de bengala de castão de ouro em punho e terno branco de linho sob sua honorável toga de magistrado, tal e qual a “mulher de César”. Ou, seria melhor dizer, tal e qual um “sepulcro caiado”? A analogia fica a gosto do freguês. Os caminhos da vida nem sempre são justos. Já o julgamento da História, tenham certeza, pesa a sua balança na medida certa, tal e qual a deusa Têmis... 

            E quanto ao mal afamado Palacete das Lágrimas? Bem, já demos notícia de seus tristes e derradeiros dias, vitimado muito mais pela incúria dos contemporâneos do que por qualquer eventual maldição sobre ele lançada por Adriano Pimentel ou por quaisquer dos presumíveis inimigos de Luna Alencar. Que, por sinal, dele só desfrutou por uma década, ao que tudo indica, posto que, em dezembro de 1913, em plena crise da débâcle da borracha, o imóvel era ofertado em aluguel pelo argentário cearense, ávido em “passá-lo nos cobres” a fim de aumentar seu saldo bancário em tempos de “vacas magras”. Alugou o palacete e, com as algibeiras abarrotadas, foi gozar a vida “à la gordaça”, embarcando em janeiro de 1914 para um viagem de férias ao Caribe e aos Estados Unidos pelo vapor inglês Christopher, da Booth Line. Quanto tempo terá durado essa farra perdulária? Como diriam os antigos:“Dinheiro mal adquirido não rende...” 

******************

        Olhando em retrospecto toda essa triste história, não podemos deixar de lamentar o melancólico destino do belo palacete da Avenida Joaquim Nabuco, que, afinal de contas, não merecia pagar pelos pecados de seu infame construtor; assim como Manaus, tampouco, merecia ter sido espoliada de tão valioso patrimônio arquitetônico e histórico. É uma pena que assim tenha se passado. Fico a imaginar, hoje em dia, o emblemático casarão, inteiramente restaurado, abrigando um charmoso restaurante ou hotel-boutique, com sua desabonadora verdade (e até mesmo as suas lendas, por que não?), impressa em quadros dispostos em suas paredes. Teria sido uma excelente revanche da História contra o crápula que o mandou erigir. Seria uma espécie de releitura, às avessas, da famosa frase “Morre o homem, fica a obra!” - que, no caso, foi muito bem feita, apesar dos pesares. Como devem permanecer também, ad perpetuam rei memoriam (“para perene lembrança das coisas”, em linguagem jurídica), os vestígios do opróbrio, da desonra, da canalhice, da patifaria...

P. S.: Inspirado pelo profundo amor que devoto às Letras, e pela excelência redacional desse grande e olvidado jornalista, Adriano Xavier d´Oliveira Pimentel (a cuja memória o Amazonas ainda está a dever a devida homenagem), atrevi-me a versejar este ligeiro soneto, que tem por mote o tema central abordado na presente crônica, ao mesmo tempo em que busca emular o estilo irônico e elegante que marcou a trajetória do bravo Quo Vadis?. 

 

Solar das Lágrimas

​                        

                                                                 Ronald Péres

Casa de esquina, morte ou ruína!

Morada edificada sobre inconfessa fortuna.

Palacete amaldiçoado, mansão de triste sina,

Solar das Lágrimas, maculado pelo estigma de Luna.

 

Impressa em cada tijolo, a ruína da decência,

De ética e da moral de um ímprobo superintendente.  

Gravada em cada pedra, a marca da prepotência, 

Da ganância e do despudor de um vulgar terra-tenente. 

 

‘Quo Vadis’, Amazonas?

Fustigava em seu jornal o velho militar Pimentel,

Que, armado com sua inteligência, despiu-se de suas dragonas

Para afrontar os poderosos, numa luta sem quartel.

 

Eleva tuas preces, Manaus!

E pede a Deus para te livrar de outra sorte maldita,

Da cupidez dos Silvérios, dos Lunas e de tantos ladrões.

 

Verte tuas lágrimas, Manaus!

Menos pelos teus casarões e mais por tua própria desdita,

De ser madrasta de teus filhos e prostituta de notórios rufiões.  

 

 

 

 

                O Solar das Lágrimas na década de 1960, com sua bela fachada já apresentando nítidos sinais de decadência. FONTE: Acervo particular do autor

      

Artigo publicado em 13.12.2025

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Folha de rosto do jornal oposicionista Quo Vadis?, que circulou em Manaus entre novembro de 1902 e março de 1904.  

O Palacete das Lágrimas

A verdadeira história por trás da polêmica mansão de Luna Alencar

Por Ronald Péres

PARTE II – ADRIANO PIMENTEL E SEU AGUERRIDO JORNAL QUO VADIS?: A ‘PEDRA NO SAPATO” DE NERY, LUNA ‘ET CATERVA’   

           Fundado em 19 de novembro de 1902, o Quo Vadis? foi um periódico que teve uma curtíssima trajetória, de apenas um ano e quatro meses, mas que marcaria época na Imprensa amazonense pela contundência e profundidade de seus editoriais, de linha francamente oposicionista ao governo de Silvério Nery, aos seus aliados e às políticas públicas (e privadas) praticadas por aquele todo-poderoso chefe político, alçado à condição de líder inconteste da política local desde a morte – súbita, misteriosa, suspeita e mal explicada - de seu maior rival, o ex-governador Eduardo Ribeiro, alcunhado de “Pensador”, encontrado enforcado, numa aparente cena de suicídio, em sua chácara, na Estrada de Flores (atual Avenida Constantino Nery), em 14 de outubro de 1900. A partir daí, Nery, já alçado à cátedra governamental desde julho daquele ano, passou a dar as cartas livremente no Estado, sob o beneplácito de um séquito de áulicos e de uma Imprensa “chapa branca”, intimidada, a tecer loas para o governante-mor e para seus sequazes, e a dizer amém para todo e qualquer ato emanado do Paço da Liberdade, então sede do governo estadual. Era assim em Manaus, como era assim no país inteiro, no tempo do Brasil dos “coronéis”: no velho estilo do “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. E todos obedeciam. Ou quase todos, pois, aqui e acolá, vozes públicas, altivas e dissonantes, ousavam se levantar contra a “mordaça invisível” imposta erga omnes aos jornalistas brasileiros. Vozes como a do bravo Quo Vadis?, a solitária andorinha que fez verão na senda jornalística da Manaus dos 1900´s.        

  
           A folha era comandada pelo jornalista paraense Adriano Xavier d´Oliveira Pimentel, graduado como engenheiro do Exército, ex-combatente da Guerra do Paraguai (1865-1870) e ex-deputado pela antiga Província do Amazonas, na década de 1880. Um homem aviltado em seus brios de militar pela ingerência que Silvério Nery (também oriundo da caserna) tivera contra si numa questão antiga, que remontava a um episódio do qual Adriano fora partícipe enquanto comandante à frente de tropas durante a Revolta Federalista do Rio Grande do Sul (1894). Passados alguns anos, a querela pessoal entre ambos foi vertida, de certa forma, para as páginas do jornal de propriedade de Pimentel, que já dizia a que vinha a partir de seu sugestivo dístico, evocando o título do romance histórico escrito pelo polonês Henryk Simkiewicz (um best seller nas livrarias do mundo inteiro, desde seu lançamento, em 1895), ao mesmo tempo em que fazia um trocadilho com a inquirição latina Quo Vadis? (“Para onde vais?”, na tradução para o português), numa clara e provocativa alusão aos rumos sombrios percorridos pelo Estado do Amazonas com Nery à frente de sua gestão. Foi assim, imbuído do munus de ser um legítimo “órgão de interesses populares” (o subtítulo do jornal), que o Quo Vadis? tornou-se o “farol do Amazonas”, permanentemente aceso e vigilante, a lançar luz sobre todos e quaisquer fatos e movimentos políticos maculados da mais leve suspeita de improbidade administrativa, praticados pelo governador e por seus correligionários, principalmente aqueles que envolvessem flagrantes “atentados” ao Erário, como foi o caso de um vultoso e obscuro empréstimo externo, no valor de 1.500.000 libras esterlinas, contraído pelo governo do Estado junto a um banco de Nova York; e da edição de uma lei urdida ao arrepio das normas jurídicas, que subtraía recursos do Tesouro   na ordem de 3.000 contos de réis – uma fábula, para os padrões monetários da época! – reservados por lei à dotação orçamentária dos municípios. Ao mesmo tempo, criticava duramente outras posturas de Nery, que, embora legais, eram reprováveis, como era o caso de suas frequentes viagens à Europa e consequentes ausências do cargo, deixando a gestão do Estado entregue, por semanas, à “Guarda Pretoriana” que o servia fielmente, composta por membros de sua família e por outros fiéis “cães de guarda” que ocupavam postos-chave em sua administração, sendo alguns dos mais próximos o empresário José Maranhão (seu cunhado), os militares Raphael Machado (seu concunhado), Adolpho Lisboa e Affonso de Carvalho; e os advogados Porfírio Nogueira e... Martinho de Luna Alencar! Ele mesmo, o ambicioso e bem relacionado emigrante cearense...   

              

           Estando sob a condição de superintendente municipal desde dezembro de 1902, e pelo fato de ser um dos mais notórios “satélites” de Silvério Nery, não é de estranhar que Luna Alencar tenha logo se tornado um dos alvos favoritos do Quo Vadis? em sua pugna incansável em prol da  moralidade e da transparência da coisa pública. E muito mais caiu aquele sob os holofotes de Adriano Pimentel no momento que, nem bem havia  assentado na cadeira de prefeito (remunerado, portanto, com um salário digno, mas não fabuloso, de servidor público), começou a “abrir suas asas” já na primeira hora, mandando edificar uma mansão milionária, digna de um legítimo “barão da borracha”, à vista de toda Manaus. Empreitada de monta, feita “a toque de caixa” e sem economia de materiais nobres, que, obviamente, numa cidade de pouco mais de cinquenta mil habitantes, logo atraiu a natural curiosidade de todos que diante dela passavam. Curiosidade que gera mexericos, que gera outros mexericos, até virar, literalmente, assunto de jornal. E foi assim que, aproveitando-se dos rumores populares que ecoavam em toda a cidade, o Quo Vadis?, fazendo jus à sua linha editorial explicitamente oposicionista, não poupou papel e tinta para trazer à tona o ato de descarada improbidade perpetrado por Luna Alencar, atacando frontalmente o alcaide através de uma série de artigos virulentos publicados ao longo do mês de maio de 1903, nos quais denunciava a má gestão do superintendente à frente da Municipalidade, mediante a malversação dos recursos públicos em prol da construção de sua suntuosa morada. Longos e explícitos libelos acusatórios, ora tecidos com fina ironia, ora verbalizados sem meias palavras pelo Quo Vadis?, em seus extensos editoriais de primeira página, que volta e meia traziam à tona o indecoroso “Caso do Palacete”, fazendo dele um verdadeiro “cavalo de batalha” ao abordar e reavivar o assunto de forma insistente, como que emulado pelo espírito perseverante do tribuno Catão, na Roma antiga, com sua célebre frase ‘Delenda Carthago est’. Os destemidos artigos de Adriano Pimentel são deveras eloquentes e brilhantes, tanto do ponto de vista redacional quanto jornalístico. E falam por si: 

“(...) De maior relevância é a questão, que desejamos ver esclarecida e ventilada, de que vamos tratar no interesse dos créditos da administração e da reputação daqueles a quem está confiada a gestão dos negócios do município desta capital. Formamos e continuaremos a formar o melhor juízo sobre a honorabilidade do atual superintendente municipal, o Dr. Luna Alencar, estimado e recomendado em nosso meio pelos nobres e distintos predicados que tem manifestado no decorrer de sua vida pública e privada, como dotes morais inestimáveis de espírito e de coração.

A vida do homem público, porém, não pertence a uma determinada individualidade; é de domínio público, e sobre a sua honorabilidade, como sobre a honra da mulher de César, não pode nem deve pairar a menor suspeita. Era bem pobre o Dr. Luna Alencar quando assumiu a superintendência dos negócios do município, fato esse que não empana de modo algum o brilho do seu merecimento, nem o faz descer do elevando conceito em que sempre o tivemos. Passados poucos meses de administração municipal, o doutor superintendente manda construir, de conta própria, na Rua 7 de Dezembro, um palacete de sua propriedade particular, avaliado em muitas dezenas de contos de réis, que, depois de concluído e mobiliado com luxo igual ao da ornamentação, não custará menos de cem contos de réis. O povo murmura, o transeunte para e admira as belas fachadas do rico edifício em construção e todos perguntam: - ‘De onde veio o dinheiro para tão dispendiosa obra?’

Igual pergunta fazemos nós, não como um murmúrio confuso e abafado de vozes maldizentes, mas do alto do nosso posto na Imprensa, com a altivez nobre e digna com que falamos ao povo e defendemos os interesses da sociedade. O povo tem o direito de conhecer do fato e o doutor superintendente a obrigação de explicá-lo, legitimando-o em todas as circunstâncias e pormenores. Não se trata de um fato da vida privada, mas de um acontecimento que se prende intimamente à administração e reflete a conduta de um funcionário público de alta categoria.”

(Quo Vadis?, Edição nº 142, de 9 de maio de 1903)

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“(...) Que o Dr. Luna Alencar vive no Amazonas há 16 anos; que, na qualidade de funcionário público, e por meio de licenças com vencimentos, conseguiu formar-se em Direito no ano de 1894; que, não podendo fazer carreira na advocacia, sujeitou-se a exercer os cargos de promotor público e de prefeito da segurança; são fatos que todos conhecem, assim como é geralmente conhecida a honorabilidade do seu nobre caráter. O que, porém, ninguém pode explicar, e todos têm o direito de saber, é como e com que fundos está o atual superintendente do município mandando edificar o rico palacete da Rua 7 de Dezembro, em via de conclusão.”

 

(Quo Vadis?, Edição nº 144, de 12 de maio de 1903)

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“(...) Tudo como d´antes: o palacete em continuação de construção e o silêncio profundo sobre as fontes legítimas dos meios para cobrir as respectivas despesas. (...) Pois, nós apontamos um fato extraordinário, que parece escandaloso e imoral da edificação de uma obra dispendiosíssima, superior aos recursos naturais de que pode dispor quem a está mandando executar, o superintendente dos negócios do município. (...) Pois, o fato que indicamos, de todos conhecido, inexplicável e não legitimado até hoje, se continuar a permanecer velado e oculto, não constituirá elemento seguro de veemente suspeita de um crime?

Nada nos cumpre provar acerca de desvios de dinheiro do município. Ao doutor superintendente é a quem cabe o rigoroso dever de vir a justificar-se, provando à toda luz a correção da sua conduta nesta questão, a fim de que nenhuma dúvida possa haver sobre a moralidade da sua administração. (...) O Dr. Luna Alencar já devera ter vindo mostrar, verba por verba, que as despesas da construção do seu palacete da Rua 7 de Dezembro têm sido feitas com os recursos próprios, havidos regular e honestamente.”

(Quo Vadis?, Edição nº 147, de 16 de maio de 1903)

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“(...) Não quis o Dr. Luna Alencar corresponder à nossa justa expectativa, e, repudiando os exemplos renegando os ensinamentos que rememoramos, oferecidos em iguais condições por homens eminentes do país, mandou cuspir sobre nós a baba nojosa do insulto, da injúria e da calúnia, na estólita pretensão de sufocar a justa indignação pública, que a enormidade do escândalo provocou; mas, sobre a procedência e legitimidade das fontes de onde vão saindo os meios necessários à construção dispendiosa do bem arquitetado palacete, de propriedade particular do rico e feliz donatário do município, fez-se o silêncio dos atos inconfessáveis, a escuridão em que o réprobo oculta o crime, como se fosse possível manter escondida nas trevas do embuste a verdade de um fato real, público e notório.

(...)

A redação do ‘Quo Vadis?’ não se arreceia das ameaças burlescas dos assalariados defensores do governo, não fala por meias palavras, nem se oculta nas sombras da imputabilidade equívoca; profere, em tom bem alto e claro, as suas acusações contra os desmandos da autoridade e assume plena responsabilidade moral e legal dos seus dizeres. Pode, portanto, o superintendente municipal chamar-nos a juízo quando lhe aprouver, pois que nos tribunais judiciários do nosso país trataremos de elucidar os atos duvidosos, os erros e os crimes da administração pública, com a mesma independência, energia e justiça com que o temos feito e faremos, perante a opinião da tribuna da Imprensa.”

(Quo Vadis?, Edição nº 149, de 19 de maio de 1903)

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            Finalmente, em sua edição de número 153, publicada em 23 de maio de 1903, o Quo Vadis? deu a “machadada” final no caso, atacando Luna e Silvério ao mesmo tempo, sob o contundente editorial epigrafado

         Um esquife que passa

 

“Está lavrada a sentença final!

O Dr. Martinho de Luna Alencar, superintendente do município desta capital, proferiu ontem a última palavra na questão, por nós agitada na Imprensa, da escandalosa edificação do aparatoso e rico palacete da Rua 7 de Dezembro, feita a expensas particulares de quem não pôde as fontes legítimas dos cabedais empregados naquela obra suntuária. A declaração que o Dr. Luna Alencar mandou publicar nas colunas oficiais do órgão do governo é a confissão formal do delito, é a condenação soleníssima do gestor dos negócios do município na aplicação dolosa dos dinheiros do contribuinte.

(...) O Dr. Luna Alencar lavrou de próprio punho a sua condenação, apagou os precedentes honrosos de sua vida, escreveu o seu nome, até aqui considerado e respeitado, no grande rol dos assaltadores dos cofres públicos. É mais um esquife que passa, levando amortalhada nos farrapos das bambinelas de um palacete encantado a reputação de quem supuséramos ser um homem de bem.

 

O exemplo vem de cima, a corrupção é contagiosa como a peste negra, e a gafeira do mal se inocula no organismo social pelas injeções de ambições desordenadas, despertadas pela imitação, na aquisição da riqueza material sem trabalho. O governador do estado construiu nesta capital dois magníficos palácios, suntuosamente preparados para a residência de verão e de inverno do ‘nababo’ amazonense. O donatário do município, açulada a cobiça pelo exemplo do ‘senhor’, quis também possuir um palacete de luxo para nele ostentar a grandeza da sua posição, a opulência da sua fortuna, o requinte do seu bom gosto artístico. (...) Procedeu atiladamente o nosso superintendente, na qualidade de funcionário de confiança do governo, seguindo-lhe as pegadas no exercício do cargo. Para tal governador, tal superintendente. O coronel Silvério Nery foi quem escreveu a partitura da ópera em representação, é o maestro que dirige a orquestra. O Dr. Luna Alencar, como bom artista e fiel executor, obedece apenas à batuta do inspirado regente. O povo, simples comparsa, assiste à representação e paga todas as despesas. É o pobre e mísero carneiro, cuja tosquia vão fazendo até arrancar-lhe as carnes.

Dia virá, porém, em que o povo, como o camelo sobrecarregado em excesso, se erguerá, e então ao Dr. Luna Alencar não aproveitará a desculpa de haver sido um submisso executor de ordens, um fiel observador do programa governamental, um aproveitado discípulo de tão abalizado professor de moral administrativa. Sobre o seu nome individual, que será o melhor patrimônio de seus filhos, pesará a responsabilidade dos seus atos, no melhor aproveitamento legítimo dos recursos do município, na boa aplicação das contribuições arrecadadas.

E quando o investigador paciente, percorrendo a Rua 7 de Dezembro, na pesquisa dos elementos necessários à organização histórica desta fase da nossa vida, parar estupefato diante das ricas fachadas do palacete do Dr. Luna Alencar, uma só exclamação lhe sairá dos lábios: ‘Com que meios foi feita esta obra monumental, quando dos apontamentos que tenho consta que o seu proprietário fora um funcionário medíocre, um advogado sem clientela, um cidadão modesto na pobreza dos bens da fortuna?’

E então, diligente e perspicaz na elucidação da verdade, fará atentamente a comparação dos apontamentos do seu ‘rapport’ de historiógrafo com os adornos e festões das belas fachadas expostas à sua contemplação, e, em seguida, da descrição detalhada do edifício estudado, conjuntamente, com a administração municipal do Amazonas no ano da graça de mil novecentos e três, fechará o seu estudo, lançando em sua carteira esta simples nota, para ser registrada na História: ‘Mais um esquife que passa!’

       

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P. S.: Continua na Parte III. Fotografias extraídas da Rede Mundial de Computadores.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Silvério Nery (1858-1934), governador do Amazonas no quadriênio 1900-1904.

      

Artigo publicado em 16.11.2025

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O Palacete das Lágrimas

A verdadeira história por trás da polêmica mansão de Luna
Alencar

Por Ronald Péres

PARTE I – O MISTÉRIO EM TORNO DE UM CASARÃO
DECADENTE

           Quem atualmente transita, a pé ou de carro, pelo início da Avenida Joaquim Nabuco, no trecho situado entre a orla do Rio Negro e a Avenida Sete de Setembro, depara-se com um medonho cenário de decadência urbana, que impera naquela via já há algumas décadas. Um panorama decrépito, caracterizado pela desertificação comercial e residencial, pela ruína ou degradação da maior parte de suas edificações e pela prática ostensiva de crimes de todo gênero, o consumo de entorpecentes, da mendicância e da prostituição. Tudo perpetrado a céu aberto, sob o olhar indiferente dos passantes e da complacência das autoridades. “O horror, o horror...”, parafraseando a célebre interjeição de espanto e desalento diante da miséria e do caos absoluto, frase esta celebrizada pela personagem Coronel Kurtz no romance O Coração das Trevas (1902), do inglês Joseph Conrad; e reverberada décadas depois pelo seu alter ego cinematográfico, vivido por Marlon Brando no filme Apocalipse Now (1979), de Francis Ford Coppola.

  
           É deveras natural, portanto, que o hodierno cidadão não faça a mais vaga ideia do que aquela artéria significou um dia para a paisagem e para sociologia manauara: uma avenida bela, extensa, bem aberta, cortada por linhas de bondes, arborizada em vários de seus trechos por frondosas mangueiras e oitizeiros, e habitada durante gerações por algumas das famílias mais antigas desta terra. Clãs que residiam, em sua maioria, nas velhas casas de um ou dois pavimentos construídas por competentes mestres de obras portugueses entre a última década do século XIX e a primeira do século XX, sob a direção de engenheiros e arquitetos igualmente competentes em seu mister. Casas belas, projetadas para “durar uma vida”, com alvenaria feita à base de pedras rústicas regionais (arenito do Rio Negro) e tijolos de quatro furos, cobertas por telhas importadas, vindas da cidade francesa de Marselha ou da famosa Fábrica de Palença, perto de Lisboa; dotadas de porões habitáveis, cômodos amplos (com pé direito alto, de cerca de cinco metros entre o assoalho e o forro), assoalhos de acapu e pau-amarelo, imponentes janelas em arco pleno ou verga reta vazadas por vidros policromados e fachadas ricamente lavradas numa profusão de ornamentos típicos do chamado “ecletismo arquitetônico”: sacadas de ferro fundido, frisos e frontões esculpidos em moldes de gesso, e platibandas encimadas por jarros e pinhas decorativas e estatuetas de louça do Porto. Casarões que, não por acaso, logo ganhavam do povo o epíteto de palacetes, os “pequenos palácios” erigidos pela deslumbrada burguesia enriquecida durante o frenético e efêmero ciclo econômico da borracha, responsável pela “febre construtiva” que moldou a face de Manaus no espaço de apenas um quarto de século, entre 1890 e 1914. Uma burguesia que tinha por pater familiae senhores de alta expressão social: seringalistas, aviadores (atravessadores de gêneros entre a capital e o interior), comerciantes de alto escalão, políticos, magistrados e profissionais liberais (advogados, engenheiros e médicos). Pessoas que, evidentemente, possuíam fontes de recursos próprios capazes de justificar o elevado padrão de suas belas vivendas, casas de estrutura complexa, que levavam cerca de um a dois anos para serem entregues pelos empreiteiros contratados para erguê-las e finalizar o seu acabamento, em todos os seus ricos detalhes. Casas, muitas delas, arruinadas pela voragem do tempo ou consumidas pelo súbito “progresso” trazido pela Zona Franca, a partir dos anos 1970.     

              

        O objeto do presente artigo versa justamente sobre uma desses vetustos e desaparecidos casarões, não por acaso um dos mais evocados na crônica histórica citadina, seja pela sua beleza, seja pelas lendas envolvendo o nome do cidadão que o mandou edificar, há mais de um século. Refiro-me ao célebre Palacete das Lágrimas (ou Solar das Lágrimas, a depender do “gosto do freguês” pelo vernáculo pátrio), uma velha mansão outrora existente à esquina da Avenida Joaquim Nabuco com a Rua Quintino Bocayuva, bem no coração do antigo bairro dos Remédios. Lembro-me bem dela, como se a estivesse vendo agora, pois, durante quatro anos, pude contemplá-la quase todos os dias, ao percorrer a pé o curto trajeto que separava a casa de minha avó materna, à Rua Lima Bacury, até o Grupo Escolar Nilo Peçanha, onde cursei minhas primeiras letras. Mesmo sendo apenas uma criança, ficava fascinado pela aura misteriosa que envolvia aquela propriedade, já bastante mal cuidada àquela época (meados dos anos 70), com as janelas apodrecidas e a tinta das paredes, pintada de verde-bandeira, desgastada pelas chuvas. Abrigava, àquela altura, uma estalagem de quinta categoria, o Hotel Jangada, um “mafuá”, inclassificável sob qualquer critério de hotelaria, que servia de pouso para hippies, mochileiros, passageiros de recreios e casais de poucos recursos em busca de tórridas emoções. Como sou um esteta, ou seja, uma pessoa que aprecia o belo acima de tudo, fazia “vista grossa” para toda aquela decadência e me concentrava apenas em admirar a bela e harmônica volumetria de sua fachada, caracterizada pelo porão alto, pelas muitas janelas com balcões de ferro abertas para ambas as ruas (sete para a Quintino Bocayuva, uma para a esquina e quatro para a Joaquim Nabuco) e pela ornamentada platibanda, arrematada por dois frontões curvos, similares ao do Teatro Amazonas, com os tímpanos preenchidos por florões. Detalhes que davam o tom de nobreza urbana ao belo solar, imponente já à primeira vista, a despeito do estado semiarruinado em que se encontrava. Pelo lado da Joaquim Nabuco, junto ao portão de entrada, um gradil de ferro permitia ao passante entrever o alpendre que conduzia à sala principal, bem como um terreno usado como quintal, situado num nível abaixo da casa e acessível por uma pequena escada; terreno este sombreado por velhas árvores frutíferas e que, um dia, no passado distante, havia de ter abrigado uma horta ou um lindo jardim, cultivados com esmero pela dona da casa. Mais abaixo, aberto para a ladeira da Quintino Bocayuva, um discreto portão de madeira escondia uma garagem que, no passado, deve ter servido de guarida à sege particular do proprietário original, no tempo em que carruagens cruzavam as ruas pavimentadas de pedras. Vizinho do casarão, erguia-se (ergue-se ainda, pois lá esta de pé, graças a Deus) um belo chalet, pintado de cor-de-rosa, casa igualmente centenária, pertencente, há muitas décadas, à família Sadala, de origem sírio-libanesa. Juntas, coladas uma à outra, as duas antigas moradas formavam um lindo par no cenário daquela via ancestral, a antiga Rua da Glória dos tempos da Província, atualmente tão relegada pela Municipalidade e pelos munícipes, e revertida à condição mais abjeta possível, em termos sociais.

           Passados alguns anos, um belo dia – ou, melhor dizendo, um triste dia – o Palacete das Lágrimas veio abaixo, demolido a marretadas, sem dó nem piedade, sem “choro nem vela”, como se costuma dizer, numa tarde de verão de 1987. Eu, mais uma vez, fui testemunha dessa boçalidade, pois passava de carro pela Joaquim Nabuco, saindo de minha  aula vespertina na Faculdade de Direito, à Praça dos Remédios. Fiquei penalizado, evidentemente. Era mais um golpe desferido contra Manaus, apenas três anos depois da lamentada demolição do Cine Guarany. Os jornais locais abriram manchetes espetaculosas, buscando culpados e criticando o descaso das autoridades com o patrimônio histórico; os colunistas sociais, escandalizados, deram suas notinhas de praxe; os intelectuais, indignados, publicaram seus artigos de tom saudosista, e... Nada mais! Como diz o ditado, “Inês é morta!”. Para usar um trocadilho inevitável neste caso, lágrimas de nada adiantam. O solar desapareceu de vez, não apenas da paisagem urbana, como também da memória da cidade, que dele praticamente se esqueceu, certamente devido à quase total ausência de imagens e de referências a seu respeito. A desgraça dentro da desgraça. Para a História, pior que a destruição física dos vestígios de eras passadas, é a destruição da narrativa, do registro e da lembrança.

    

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               “Casa de esquina, morte ou ruína!”. Este era um adágio popular repetido pelos antigos manauaras, fruto de uma superstição qualquer, evidentemente (e, como toda superstição, com algum fundo de verdade, talvez), que costumava associar as moradas localizadas em chanfros de ruas a acontecimentos nefastos na vida das famílias que neles habitavam ou a espécie de maldição, que, passadas algumas gerações, terminava por levar à ruína e ao perecimento das próprias casas. Claro que isto não procede de maneira alguma. É só observar o número de casas vetustas e belas, localizadas nos “cantos” do centro histórico de nossa cidade, que ainda subsistem intactas, sem jamais terem se arruinado e sem qualquer desgraça registrada no passado de seus moradores, até onde se saiba. Vide o caso dos antigos palacetes Francisco da Costa Fernandes (Rua Barroso com 24 de Maio), J. G. Araújo (Praça de São Sebastião), Mattos Areosa (Monsenhor Coutinho com Tapajós), Affonso de Carvalho (Ferreira Penna com Ramos Ferreira) e de outras vivendas menos ilustres. Porém, aqui e acolá, tal provérbio - que o finado historiador Mário Ypiranga Monteiro (1909-2005) gostava de reavivar em seus artigos e livros – fazia-se verdade, tal e qual uma sina. Foi assim com o lindíssimo e sempre evocado Palacete Miranda Corrêa (demolido em 1970). Foi assim, por algum tempo, com o Palacete Silvério Nery (Joaquim Nabuco com Rua dos Andradas), arruinado por mais de uma década e atualmente com sua fachada restaurada; e está sendo assim com o Palacete “Mourisco” da Praça de Saudade, abandonado à própria sorte, coberto de plantas trepadeiras e “clamando” pelo socorro de alguma alma caridosa. E, foi assim também, infelizmente, com o Palacete das Lágrimas...

         Durante anos – primeiro como um simples leitor interessado em fatos históricos, e, mais recentemente, já como pesquisador diletante – tentei desvendar a origem de tão curioso brasão, bonito à primeira vista, mas que traz embutido consigo uma evidente aura de dor e miséria. Por que Palacete das Lágrimas? Teriam as paredes daquele casarão sido testemunhas, porventura, de alguma tragédia familiar (tortura, assassinato, suicídio, incesto, estupro?), a ponto de estigmatizá-lo para todo o sempre com tão triste chancela? Não havia outra explicação. E, se tal infelicidade ocorreu, o fato inditoso só podia estar ligado ao seu primeiro proprietário, aquele que o mandou edificar e que nele residiu com sua família por longos anos. Seu nome: Martinho de Luna Alencar.

 

            E quem era este homem, afinal, cujo nome perpassa a historiografia manauara apenas de relance? Infelizmente, pouco se sabe de sua biografia, e tampouco foi possível extrair o seu retrato para ilustração desta crônica, a despeito dos vários cargos públicos que o dito cidadão ocupou ao longo da vida. Todavia, uma ligeira pesquisa virtual nos jornais do final do século XIX nos permitiu compilar alguns dados básicos a respeito dos primeiros anos de sua trajetória. Cearense, natural da cidade de Barbalha, próxima ao Crato, radicou-se em Manaus em 1887, onde logo conseguiu uma boa colocação, como amanuense (escriturário) do Tesouro Estadual. Sendo portador de um diploma de bacharel em Direito (formado, provavelmente, pela Faculdade de Pernambuco, o grande centro de ensino de Ciências Jurídicas do Nordeste, durante muitos anos), atuou como procurador fiscal (1894) e depois como promotor de Justiça (1897), numa época em que o provimento de tais importantes cargos, muitas das vezes, não se dava pela via do mérito, atestada em concurso público de provas e títulos; mas sim à base de nepotismo, apadrinhamento e, obviamente, muita bajulação, dentro da chamada “política de bastidores”. 

         No alvorecer do século XX, por motivos que não restam muito claros (mas sobre os quais bem podemos especular), Luna Alencar cai nas graças de um dos maiores “caciques” do Amazonas à época, o todo-poderoso Silvério Nery (1866-1935), filho de família tradicional da terra, líder local do Partido Republicano Federal e recém-eleito governador do Estado, pelo quadriênio de 23.07.1900 a 23.07.1904 (a data de 23 de julho, como baliza do início e do fim dos mandatos estaduais, tinha por referência a data da promulgação da primeira Constituição amazonense, em 23.07.1891). Orbitando sob as asas de Nery, Luna é contemplado por este último – como pagamento de “favores” a ele prestados, quiçá – com a sua nomeação como chefe de Polícia, cargo dos mais relevantes na hierarquia administrativa (equivalente ao de secretário de Segurança Pública, nos dias atuais), que exerceu entre junho de 1901 e maio de 1902, quando foi exonerado. Foi uma “queda para cima”, como se costuma dizer, pois, decorridos apenas seis meses, é alçado em dezembro de 1902, por indicação de seu padrinho político, ao posto-chave de superintendente municipal (prefeito) de Manaus, num contexto de absoluto superávit econômico da cidade, em que as burras do Fisco estavam abarrotadas de contos de réis advindos do contínuo e generoso ingresso de receitas públicas.

            Obviamente emulado pelo sua súbita e ascendente elevação de status, Luna Alencar – um homem tido nas conversas privadas como extremamente vaidoso e arrogante – não teve peias, segundo os boatos que corriam à boca miúda, em lançar mão dos recursos do Erário para edificar, com notável celeridade, num hiato temporal compreendido entre fins de 1902 e ao longo do primeiro semestre de 1903, sua nova e bela residência (precisamente o futuro Palacete das Lágrimas), levantada numa gleba nobre, na esquina das ruas Quintino Bocayuva e Sete de Dezembro (como era então denominada a atual Avenida Joaquim Nabuco). Mansão esta localizada, certamente não por acaso, a menos de uma quadra de outro suntuoso palacete, edificado em 1899, no canto com a Rua dos Andradas, pelo renomado arquiteto italiano Filinto Santoro. Seria tal fato uma mera coincidência ou uma manifestação explícita (e assaz temerária) de inveja e de competitividade do alcaide para com o seu patrono?

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​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​            O fato é que – fazendo eco ao dito popular que apregoa que “quem cabras não tem, e cabritos mostra, há de estar a bulir com alguém” - a construção deste solar deu “panos para manga”, sendo objeto de toda sorte de estórias maliciosas e chistosas por parte dos munícipes, tanto na época de sua construção quanto a posteriori, estas já avolumadas pela passagem do tempo. Afinal, como se sabe, “quem conta um conto, aumenta um ponto”. Duas dessas anedotas chegaram aos nossos dias, reproduzidas por escrito por Mário Ypiranga Monteiro e por seu colega historiador, Antonio Loureiro, tal como ouviram falar da boca de terceiros; e ambas as estórias tem um objetivo comum, qual seja, o de tentar elucidar, de alguma forma, a origem do curioso apelido de Palacete das Lágrimas, aposto sobre o evanescido casarão.

  

              No caso de Mário Ypiranga, a estória é recontada numa das crônicas ligeiras compiladas pelo historiador amazonense em um de seus livros lançados postumamente, curiosamente epigrafado de Histórias Facetas de Manaus. Evocando seus tempos de juventude, nas décadas de 1910, 1920 e 1930, época nas quais foi testemunha de muitos fatos pitorescos da Manaus antiga (ou deles tomou conhecimento, recontados por outrem), o autor recorda-se da figura antipática de Luna Alencar, que conheceu de vista, já velhusco e ocupando a cátedra de desembargador do Tribunal de Justiça, e que, devido ao seu excesso de formalidade no vestir e ao seu corpo atarracado, arrematado por um pescoço curto, logo recebeu da juventude irreverente da época o apelido jocoso e muito apropriado de “jabuti de colete”. Sobre o célebre epíteto aplicado ao palacete da Joaquim Nabuco, atribui o mesmo a uma estória pouco crível, segundo a qual Luna, conhecido em toda a cidade por sua notória avareza, teria dado um “chá de cadeira” num rapazote que fora procurá-lo em sua casa, na qualidade de emissário da casa comercial Adrião, Barroco & Cia. (loja de materiais de construção localizada na esquina das avenidas Eduardo Ribeiro e Sete de Setembro), a fim de cobrar do magistrado a fatura de uma dívida em atraso, contraída pelo mesmo junto àquela firma. Conta esta que, além de não ter sido paga a contento, ainda teria rendido ao jovem preposto uma solene descompostura por parte do devedor, que, pondo-se cinicamente “em brios”, o colocou porta afora de sua residência, debaixo de gritos e de uma encenada indignação, provocando no pobre rapaz humilhado uma crise convulsiva de choro.

        ​ Em outra crônica similar, escrita no mesmo tom bem humorado pelo acadêmico Antonio Loureiro, a origem do apelido é associada novamente à conhecida fama de “pão-duro” de Luna, remetendo, porém, a um período mais antigo, imediatamente posterior à construção do suntuoso imóvel. Assim, de acordo com esta segunda versão, baseada em rumores que corriam “à boca pequena”, Luna teria se recusado a efetuar o pagamento dos honorários contratados com o construtor da casa, um cidadão português, que, diante de tão descarado calote, e após insistentes e baldadas súplicas pelo recebimento da paga devida pela realização da empreitada, teria cometido suicídio, num ato de desespero, deixando sua família na miséria, com a viúva a mendigar favores, debaixo de lágrimas, à porta do palacete que deu causa à desdita. 

            Sem demérito algum ao notável acervo de pesquisa histórica legado pelos dois ilustres literatos conterrâneos acima citados, o fato é que tais narrativas, que envolvem assuntos de esfera privada, se de fato ocorreram (e praticamente não temos como sabê-lo, passado mais de um século dos supostos acontecimentos), não guardam qualquer correlação, pelo menos diretamente, com a alcunha aposta sobre o vetusto casarão, e que ficou permanentemente a ele associada, tal e qual uma maldição, lançada per secula seculorum. Nada disso. O apelido, no caso, é, de fato, uma pecha vinda de origem, como pretende a versão evocada por Antonio Loureiro, mas, ao contrário da melodramática estória nela narrada, tem a ver com outros fatores, de natureza pública, ligados à cena política local no alvorecer do século XX, e, mais especificamente, à feroz porfia travada abertamente contra a oligarguia liderada por Silvério Nery por certo jornal de oposição, que atendia pela instigante epígrafe de... QUO VADIS?

   

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          P. S.: Continua na Parte II. Fotografias extraídas do acervo pessoal do autor.

 

 O Palacete das Lágrimas visto a partir de sua entrada pela Avenida Joaquim Nabuco.

      

Artigo publicado em 16.11.2025

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GAL COSTA

O brilho intenso do cristal de uma voz eterna

Por Ronald Péres

               No último dia 26 de setembro, se viva estivesse, Gal Costa teria completado 80 anos. Gal, a musa da Tropicália, inspiradora das “dunas do barato” de Ipanema. Gal, a felina “tigresa” de farta e negra cabeleira e boca delineada de batom carmim. A baby Gal de Caetano, tão sestrosa quanto as “mulheres que só dizem sim” descritas no Folhetim de Chico. A Gal fatal, tropical, plural, estratosférica e quantos mais adjetivos caibam em sua gigantesca persona artística. A dona da agudíssima e belíssima “voz de cristal”, que a todos encantava e emocionava a cada vez que portava o microfone. A Gal que foi, é e sempre será uma das maiores cantoras do Brasil (e do mundo) e um dos pilares da “Santíssima Trindade” feminina da moderna MPB, ao lado de Elis Regina e Maria Bethânia. A Gal que, com seu canto puro e divino, eternizou a Aquarela do Brasil de Ary Barroso, e, tal como ela, se eternizou também em nossa memória afetiva e em nosso imaginário, ao ponto de se converter num símbolo da cultura nacional, tão perene e tão icônico quanto o Teatro Amazonas, o Pelourinho, os saveiros do mar da Bahia, as igrejas barrocas de Minas Gerais, o samba carioca, o Pão de Açúcar, o Cristo Redentor ou as Cataratas do Iguaçu.

  
         Escrevo esta crônica, misto de elegia e catarse, ainda profundamente impactado, como admirador devoto, e como brasileiro, pela arrasadora notícia que deixou todo um país estupefato naquele fatídico 9 de novembro de 2022, o dia em que Gal Costa se foi para sempre de nosso convívio. Assim, de súbito, colhida “num rabo de foguete”, abduzida certamente por algum anjo bom, algum ser de luz, na quietude de seu apartamento paulistano, aos gloriosos 77 anos de vida e quase sessenta de uma trajetória artística espetacular e plena de memórias tão caras e tão preciosas para uma legião imensurável de fãs, que, chocados, choraram naquele dia terrível, e ainda estão chorando em silêncio a sua partida, expressada naquela ocasião em todas as redes sociais através de uma avalanche de postagens as mais diversas: retrospectivas de sua vida e obra, áudios e vídeos antigos e recentes, pungentes e amorosas frases soltas de amor e de saudade, emoticons, cartoons, fotos bastante conhecidas e outras inéditas, ao lado de seus inúmeros admiradores famosos e anônimos; e, claro, relatos de emoções e sensações pessoais, muito particulares ao íntimo de cada um dos que tinham em Gal – na voz de Gal, melhor dizendo – a companheira inseparável de seus momentos privados de alegria e de dor.       

              

               Por uma falseta amarga do destino, Gal não teve a ventura de celebrar seu octogésimo jubileu de nascimento, como já o fizeram ou estão em vias de fazê-lo outros ícones de sua brilhante geração, que ainda estão entre nós: Caetano, Gil, Bethânia, Edu, Chico, Paulinho, Roberto, Ney... Isso foi duro, foi injusto (com o perdão dos Céus). Como diriam os ingleses: ‘That´s not fair!”. Gal não morreu jovem, no auge da carreira, como Maysa, Elis, Clara Nunes, Nara Leão, Gonzaguinha, Cazuza, Renato Russo e Cássia Eller. Justamente por isso, por ter vivido tanto, por ter sido tão presente na vida brasileira nesses anos todos, por ter traçado uma carreira longeva e vitoriosa, por ter conquistado tantas gerações de fãs com sua arte, por ter atingido ainda em vida um status de semideusa (tal como Bethânia), Gal merecia ter tido mais essa alegria, mais essa efeméride. Mas, como diria a Xuxa, o “cara lá de cima” tinha outros planos para ela. Fazer o quê? As nossas vontades, por mais nobres e legítimas que sejam, nem sempre coincidem com os desígnios divinos. Como sói acontecer em tais casos, a gente se conforma (pero no mucho), mas lamenta, e muito. Um lamento doído, que, muitas vezes, perdura ‘ad aeternum’. É precisamente o que ocorre, no caso de Gal.

             Hoje deixo de lado o habitual tom de historicidade que caracteriza meus escritos para, simplesmente, “deixar falar a voz do coração”, parafraseando o final da letra de um dos maiores hits da musa baiana, Um Dia de Domingo, que ela registrou em 1985, num espetacular dueto com Tim Maia. Emoção que advém de deixar aqui registrado o meu preito de homenagem a esta mulher que foi, com certeza, um dos grandes ídolos de minha vida. Como toda e qualquer pessoa normal, tive inúmeras referências artísticas ao longo de minha existência. Estrelas da música popular, do cinema e da televisão, principalmente. Mas Gal foi a primeira. O primeiro alumbramento, a primeira devoção, o primeiro amor de fã, cultivado e acalentado desde a infância, numa relação quase uterina, tão pura e tão natural, construída ano a ano, disco a disco, audição a audição das canções eternizadas nessa voz tão delicada, tão linda e tão singular. Para mim, a voz do Brasil! 

    

                Recorte na transversal do tempo. Quero voltar para 1975, ano em que, com cinco para seis anos de idade, eu desfrutava da plenitude de minha “infância dourada”, orbitando entre a casa de meus pais e a de meus avós maternos. Um menino imerso num mundo ideal de sonhos e fantasias, tendo por companheiros bonecos da Disney, super-heróis dos quadrinhos e seres fantásticos. Nessa época, como toda criança, desenvolvi saudáveis fixações por algumas dessas entidades. E uma das maiores era em relação às sereias, as sinuosas mulheres-peixe de compridos cabelos que, na visão poética e mitológica dos gregos antigos, provocavam naufrágios no Mar Mediterrâneo por meio de sortilégios lançados em direção aos marinheiros, pasmados em completo êxtase e delírio com os sons extraídos de suas liras e a doçura de suas vozes. Em minha inocência de criança, eu acreditava piamente na existência de sereias, “sonhava acordado” com elas, desenhava suas figuras em cada folha de papel solto que encontrava, e catava estórias a seu respeito nas revistas e na TV. Uma obsessão tamanha que um dos adultos que me cercava (não lembro agora se mamãe ou uma de minhas tias) chegou ao cúmulo de encomendar de um marceneiro a escultura em madeira de uma sereiazinha, no tamanho natural de uma criança, para por em meu quarto, e assim aplacar o meu afã infantil. Pois bem, tanto fiz, tanto idealizei, que um belo dia, como que atendido pelo meu próprio desejo subconsciente, descobri que sereias, de fato, existem. Ou, melhor dizendo, uma única sereia. Uma sereia brasileira, baiana, linda, morena, brejeira e sensual, de corpo terreno e voz celestial. Seu nome, óbvio, era Gal.

               Ainda lembro como se fosse hoje da primeira vez em que ouvi Gal Costa cantar e, consequentemente, me encantar. Sim, porque sua voz maviosa chegou até mim antes mesmo que eu pusesse os olhos em sua sedutora figura. Por pura liberalidade de meus pais, tios e avós, que sempre foram, graças a Deus, “cuca fresca” nesse sentido, eu, desde pequeno, ficava “grudado” na TV até altas horas, emendando programa com programa, novela com novela, até o sono chegar. E ele sempre chegava, como costuma acontecer com as crianças, por volta das 9h da noite. Comigo não era diferente. Porém, tudo mudaria naquele ano, com a estreia da novela Gabriela. Baseada no clássico romance de Jorge Amado, o novo folhetim era uma superprodução para os padrões da época, alardeada com meses de antecedência pela Rede Globo como o ápice das comemorações pelo seu décimo ano de fundação. No dia da aguardada exibição do primeiro capítulo, eu, já um “noveleiro” em gestação, me postei diante da TV, impávido colosso, ao lado de parte da família, reunida na casa de minha avó materna, à espera da entrada da novela no ar. Uma de minhas tias deve certamente ter tentado me botar na cama. Tarefa inglória. Eu não arredei pé de jeito nenhum, e aguentei firme e forte, ansioso e de olhos arregalados, até o relógio bater 22 horas (lembremo-nos que era ainda a época da “novela das Dez”, com temáticas sempre voltadas para um público mais adulto). De repente, entra em cena a clássica abertura, com o nome de Sônia Braga encabeçando um elenco estelar, apresentado numa sucessão de lindos quadros do pintor baiano Carybé, que retratavam os tons terrosos, o sol inclemente e a vida dura dos retirantes do sertão da Bahia. Tudo muito plástico, de muito bom gosto, como a Rede Globo sabia se esmerar em seu auge. Mas o impacto mesmo foi quando, já no primeiro quadro, ELA abriu a garganta e imprimiu aquela voz suave e divina na melodia e nos versos da canção composta por Dorival Caymmi especialmente para a novela, numa cadência doce como o gorjeio de um sabiá:

“QUANDO EU VIM PARA ESTE MUUUNDO... EU NÃO ATINAAAVA EM NADA... HOJE EU SOU GABRIEEELA... GABRIELA, HÊEEEE... MEUS CAMARADA(S).. EU NASCI ASSIM, EU CRESCI ASSIM, E SOU MESMO ASSIM, VOU SER SEMPRE ASSIM, GABRIEEELA, SEMPRE GABRIEEELA... EU SOU MESMO IGUAL... NÃO DESEJO MAL... AMO NATURAL, ETC. E TAL... GABRIEEELA, SEMPRE GABRIEEELA! ”

 

         Pronto! A sereia com que eu tanto sonhara dedilhava sua lira, enfim! Profundamente impactado e deslumbrado com aquele canto único, atônito estava e atônito fiquei, pelo resto da vida. Como gosta de dizer Barbra Streisand (outro monumento musical de nosso tempo), fazendo charme, em seus shows, para evocar e apresentar no palco seus parceiros na carreira, ali, naquele exato, ‘our love affair began’. Um caso de amor unilateral, sereno e eterno.

               Com Gal – ou, melhor dizendo, através da voz e do canto de Gal – comecei a intuir e a apreender gradativamente e naturalmente que, para além dos meus devaneios infantis e das cantigas de roda e de ninar, existia um mundo maior, mais belo e mais grandioso, o mundo da ARTE, um mundo onde pessoas especialmente tocadas por Deus, e munidas de dons muito especiais, baixavam neste planeta azul com a missão precípua de trazer aos seus semelhantes beleza, encanto, ternura, alegria, sorrisos e lágrimas (estas, não de tristeza, mas de genuína emoção). Pessoas capazes de transcender em si mesmas enquanto seres humanos, legando aos “comuns mortais”, tal e qual o sagrado fogo que Prometeu roubara dos deuses, pitadas de stardust a cada exibição de seus excepcionais talentos. Gal foi assim, ao longo de toda a sua linda trajetória. Uma voz-guia, uma arquiteta, uma pintora, uma escultora da beleza do universo, no sentido amplo. Ouvi-la, vê-la, percebê-la, hauri-la, a cada canção, a cada delicada nota por ela emitida, representou na minha formação musical (e cultural como um todo) um verdadeiro “vestibular” para adentrar no templo das Artes (com “A” maiúsculo mesmo), e um antídoto, pelo resto da vida, contra o mau gosto, imunizando-me ‘per secula seculorum’ contra todo tipo de embusteiros autointitulados de “cantores” ou “compositores”, lançados pela mídia a cada verão. Como diria o saudoso Alex Deneriaz, reconheço de lance, no primeiro olhar, quando tem “truque” na parada. E me orgulho de dizer que minha “professora”, nesse particular, foi Gal.       

              À medida que eu me tornava adulto, meu fascínio por sua arte aumentava mais e mais. A cada vez que a via em cena na TV, ou que ouvia as canções de seu repertório impecável, onipresente nos discos, nas rádios, nos clipes do Fantástico e nos bailes de Carnaval, eu “ganhava o meu dia”, de graça, como se diz por aí. Com o correr dos anos seguintes, comecei a apurar meu ouvido musical, percebendo cada um de seus graves de veludo e de seus agudos de cristal, de seus guturais vibratos e de seus delicados vocalizes, emanados de uma cantora que – diferentemente do purismo técnico de uma Elis Regina (artista que eu também venero, diga-se de passagem) – era absolutamente intuitiva na primeira fase de sua carreira, capaz de emitir notas praticamente sem esforço algum, movendo os lábios quase como que num exercício de dublagem. Isso era algo notável, perceptível aos olhos de todos, tanto da crítica quanto do grande público, que por ela caía se apaixonava de cara, fosse cantando um samba-canção de Caymmi (Só Louco, na abertura da novela O Casarão), uma fossa de João Donato (Até Quem Sabe), uma balada pop de Roberto e Erasmo (Minha Estupidez), ou quaisquer das composições geniais de Caetano feitas especialmente para que ela, sua eterna musa (e de todos nós), brilhasse e arrasasse, como a clássica Baby, Mãe, Meu Bem, Meu Mal; Minha Voz, Minha Vida; Luz do Sol, Dom de Iludir, Vaca Profana e tantas outras “pérolas” das quais ela se imediatamente se “apossava”, tornando-as parte do latifúndio de canções que se tornaram definitivas na sua voz e na sua interpretação.

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​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​               No meu caso específico, a cristalização dessa paixão veio, definitivamente, no ano de 1980. Consagrada pela grande mídia desde o ano anterior, com o lançamento do disco Gal Tropical (seguido do histórico show homônimo no Canecão carioca), Gal lançou naquele início de década o magistral álbum Aquarela do Brasil, totalmente calcado no repertório de Ary Barroso, até hoje considerado um dos melhores da carreira da artista baiana e também da  história da discografia no Brasil. Dois discos simplesmente irretocáveis, que, passados mais de quarenta e cinco anos, ainda conservam o mesmo frescor e vigor, com Gal “dando um baile” em cada uma de suas faixas. Estava eu então com meus 10/11 anos, e, portanto, não tinha qualquer autonomia financeira para comprar ou colecionar discos de quem quer que fosse. Mas, para minha grande sorte, minha tia Marluce havia adquirido esse disco mais recente de Gal. E meu tio Hildemar também, só que na versão em fita-cassete (alguém ainda se lembra do que trata tal relíquia?), que ele, melômano como é até hoje, tocava de forma obsedante onde quer que ele estivesse. Lembro-me particularmente de uma viagem de carro que fiz nessa época até Itacoatiara, ao lado de parentes, na qual, ao longo de todo o trajeto de ida e volta, só dava Gal no toca-fitas. E eram esses dois discos em particular, o Tropical e a Aquarela, que me, ao mesmo tempo em que embalavam meus ouvidos, iam construindo em minha cabeça, ao longo das matas, dos rios, das curvas e das luzes da estrada, imagens alegóricas de um Brasil profundo e nostálgico, evocado numa sucessão de hits imortais, impecavelmente registrados pela voz divina de Gal, então na plenitude de sua potência e técnica vocal: Índia, Dez Anos, Força Estranha, Juventude Transviada, Samba Rasgado, Balancê, No Tabuleiro da Baiana, Na Baixa do Sapateiro, Já era Tempo, Jogada pelo Mundo, Faceira, Folha Morta, Camisa Amarela, e, claro, Aquarela do Brasil, o clássico samba-exaltação de Ary que fundia, na letra, na música e na malemolência da interpretação de Gal, toda a síntese de nossa nacionalidade. Naqueles dois discos monumentais – e também no trabalho seguinte, Fantasia, de 1981 - Gal sintetizou o Brasil em seu canto único, o Brasil do qual temos e sempre teremos orgulho, o Brasil da “graça toda das palmeiras, esguias e altaneiras”, das índias de “cabelos nos ombros caídos, negros como a noite não tem luar”; das morenas frajolas da Bahia, da labuta das lavadeiras “na quebrada da soleira”, do dengo dos ioiôs e iaiás; dos vatapás, carurus, mungunzás e acarajés; “do canto da sertaneja”, das “ondas do rio-mar”, “das fontes murmurantes”, das águas limpas dos igarapés e da “força estranha” que nos leva e sempre nos levará a cantar, a despeito de todas as nossas adversidades e agruras. Força que é nossa, do povo brasileiro. Força que foi catalisada e simbolizada por todas as nossas grandes vozes, com Gal no abre-alas dessa majestosa e apoteótica escola de samba que é a música popular brasileira como um todo. 

  

               O meu encontro pessoal com a deusa tardaria um pouco, entretanto. Foi em 1985, quando estava por volta dos meus 15/16 anos. Não lembro exatamente o mês. Mas, com semanas de antecedência, as colunas sociais de Gil, Baby e Nogar começaram a anunciar aos quatro ventos a notícia que eu esperara anos para ouvir: Gal Costa viria, enfim, dar o ar de sua graça em Manaus, num show exclusivo, para “poucos e bons”, como se dizia antigamente. Em exclusividade falando, o local escolhido não poderia ser mais perfeito: os nobres salões do aristocrático Ideal Clube, então vivendo os últimos suspiros de sua passada grandeza como cenário-mor da alta sociedade local. Fiquei tão feliz quanto soube (acho que minha felicidade estava estampada em meu rosto!), embora sem grandes esperanças de vê-la. Afinal, era espetáculo para adultos, e certamente com ingressos caríssimos, disputado “a peso de ouro”. Lógico que papai e mamãe, idealinos de uma vida inteira, lá estariam, certamente. Puxando pela memória, não consigo me recordar se eu cheguei a expressar para eles a minha vontade de assistir o espetáculo, ou se fui traído por minha própria empolgação ao comentar o assunto. O fato é que mamãe, sensível e sagaz como ela só, já sabendo de minha genuína devoção por Gal, um belo dia me fez o convite, assim de supetão:

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                 – “Queres ir ao ‘show’ da Gal com a gente?”.

 

        ​Nem preciso dizer que meu semblante deve ter se iluminado nessa hora, irradiando todo o meu contentamento!

            O dia esperado chegou afinal. No salão verde-e-branco do Ideal, o ‘who´s who’ de Manaus, reunido em peso, aguardava e entrada da diva em cena, num mal-disfarçado frisson de ansiedade, com todos os senhores e senhoras de meia-idade (que formavam a maioria da plateia) sentados comportadamente nas mesas e cadeiras distribuídas ao longo do salão norte do clube. Nossa mesa estava estrategicamente bem próxima do palco, armado em direção à Praça do Congresso. Por volta das 10h da noite, as luzes do salão apagaram-se, ao mesmo tempo em que as do palco se acendiam. O majestoso grêmio social da Avenida Eduardo Ribeiro, com seu pé-direito altíssimo e as imensas janelas em arco pleno emoldurando todo o recinto, me pareceu mais belo do que nunca naquela noite, imerso na penumbra e tão magicamente cênico quanto a sala de espetáculos do Teatro Amazonas. O show prometia entrar para a história do clube (e da cidade). Na plateia, silêncio total, com as pessoas prendendo a respiração, à espera da entrada triunfal da diva. Afinal, de onde viria Gal? Atravessaria ela o salão, descontraidamente, esquivando-se do natural assédio dos fãs? Qual nada! Deusas não baixam à Terra dessa forma banal. Sua aparição haveria de ter um toque teatral. E teve. De repente, não mais que de repente, a banda já disposta no palco, afinadíssima, executa os primeiros acordes orquestrais, na ouverture previamente ensaiada, subindo gradativamente o tom até alcançar as notas mais altas, antecipando ‘la grande entrée’, até que, da janela aberta na esquina do edifício, eis que ela surge, afinal! Oculta dos olhos da plateia e deslizando, matreira como uma gata, pela varanda externa do clube, Gal adentra o recinto, literalmente se apresentando ao público, quase que recitando os versos iniciais de Meu Nome é Gal, a canção que lhe fora presenteada por Roberto e Erasmo em 1969, no auge de sua fase de musa tropicalista, e que, com o passar do tempo, se tornou seu autorretrato, ao evocar a imagem de mulher moderna, libertária e ousada, para sempre associada à sua figura: “(...) Meu nome é Gal... E preciso me corresponder com um rapaz que seja o tal... Meu nome é Gal... E não faz mal... Que ele não seja branco, não tenha cultura, de qualquer altura, eu amo igual... Meu nome é Gal... E tanto faz... Que ele tenha defeito ou traga no peito crença ou tradição... Meu nome é Gal, eu amo igual...(...)”

                Parece que a estou vendo agora, nesse exato momento, adentrando no palco do Ideal e desfilando como uma manequim de passarela, lânguida, diáfana, majestosa, verdadeira “estátua serenal do meu divino amor”. A par de sua voz, Gal era simplesmente um espetáculo de mulher nessa época. Posta em saltos “agulha”, vestida num duas-peças (minissaia e bustiê) azul-marinho, todo revestido de paetês, ela estava simplesmente coruscante, literalmente reluzindo como uma estrela! A pele branca de alabastro, a cintura esbelta, as ancas largas “à baiana”, as pernas bem torneadas, os cabelos negros de azeviche (num corte mais baixo nessa época, no estilo Chanel, na altura da nuca), e a boca esplêndida - bem delineada e pintada naquele batom vermelho que lhe era tão característico - presa num “engaste sensual”, como bem descrito numa das canções de Ary Barroso que ela gravou. Boca que sorria e cantava. Cantava e sorria. E, acima de tudo, encantava. A mim, sobretudo, encantou, e muito. Não bastasse ela ter sido o meu primeiro ídolo, o meu primeiro ícone, Gal foi também a primeira dentre tantos  outros grandes artistas (nacionais e internacionais) que eu teria o privilégio de ver em cena ao longo de minha vida. Não poderia desejar um début melhor. Vê-la em pessoa, ao vivo e a cores, sob aquelas condições tão especiais, fez com que aquela paixão juvenil se convertesse em definitivo num amor maduro. Se eu tivesse morrido naquela noite, teria subido ao Céu direto, de tanta felicidade. Felicidade que se completou logo à saída do clube, quando, para meu supremo deleite, mamãe me entregou, já dentro do carro, o cartão-convite do espetáculo já autografado por Gal, com a marca de batom de seu beijo nele impressa. Só podia ser coisa de mãe mesmo, que Deus a tenha! É óbvio que eu guardo até hoje o cartão, como relíquia preciosa de um momento inesquecível e que jamais se repetirá. Pelo duplo fato de quem o beijou e de quem amorosamente o entregou a mim.

              ​Mamãe se foi há três anos, apenas sete meses antes da partida de Gal. É tudo passado. É tudo memória. Preciosas e afetivas lembranças. Minha infância, meus pais, a Manaus daquele tempo, os grandes dias do Ideal, a emoção de ver e ouvir Gal... Para me consolar de tanta melancolia, tento evocar em minha mente a própria delicadeza do canto de Gal em Jogada Pelo Mundo, uma de minhas canções favoritas em sua voz, e que, paradoxalmente, apesar da letra aparentemente triste, me faz abstratamente feliz sempre que a ouço novamente: “(...) A felicidade não manda avisar... Quando vai chegar... A ninguém... A ninguém... Pode vir de noite ou de dia... É sempre motivo de alegria... Eu tenho o sol... A cor do mar... Tenho o luar... E o arrebol... Tenho as mais lindas alvoradas... Tenho montanhas azuladas... Pois tendo tudo... Não tenho nada... Ando jogada por este mundo... Não tenho o bem... Nem o amor de ninguém. (...)”

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​           Gal Costa não está, nem numa esteve, “jogada pelo mundo”. Ela foi uma mulher, uma artista, que sempre soube qual era o seu papel e o seu lugar no mundo, que se colocou no mundo, que se projetou no mundo. Com a sua atitude, com a sua força cênica, com a beleza e verdade impressa em tudo que ela cantou. Gal foi um dos mais resplandecentes faróis de sua geração, a luz-guia que iluminou tantos outros (e principalmente tantas outras) que vieram depois dela, e que continuará a acender a chama de outras vozes, herdeiras da ‘vox-matrix’, a “Mãe de Todas as Vozes” do Brasil, como a alcunhou Nando Reis. “Jogados pelo mundo” ficamos nós, seus fãs, pelas “ramblas do planeta”, à procura desesperada, qual bezerros desmamados, dessa voz-úbere, dessa “vaca profana” e ao mesmo tempo divina, que com tanta ‘buena leche’ nos nutriu. Gal está por aí, em todo lugar, ela própria convertida, através de feixes de luz, em som, em “poeira de estrelas”. Parafraseando os versos do poeta russo Maiakovski, traduzidos livremente por Caetano como letra de sua belíssima composição intitulada simplesmente O Amor (1981), é certo que Gal, quem sabe, um dia, numa alameda qualquer de nosso pensamento, de repente, surgirá. Bonita e sorridente. Como era e como sempre estará. Na foto sobre a mesa, no poster grudado na parede, na tela grande de uma TV ou na tela pequena de um celular ou de um tablet da “Geração Z”. Ela é tão bonita, mas tão bonita, que na certa, Eles (os bondosos Deuses das Artes) eventualmente a ressuscitarão, para nos fazerem felizes. Sempre fatal. Sempre plural. Eternamente tropical. E, mais que nunca, IMORTAL!

                                                 Evoé, Gal!

                 

​                                   Gal Costa fotografada para a capa do disco Aquarela do Brasil (1980)

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        Crédito das imagens: Rede Mundial de Computadores. 

Artigo publicado em 05.10.2025

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Guerreiros do Sol 

Ou... Da arte de fazer novela, como nos bons e velhos tempos da Globo

Por Ronald Péres

               Já fazia algum tempo que eu não me ligava em novelas. No acompanhar diuturno de uma novela, melhor dizendo. No último quarto de século a vida mudou, o mundo mudou. O Brasil, mais ainda. Nos últimos vinte anos, a adesão em massa da população às chamadas “redes sociais”, assim como a outras formas de entretenimento veiculadas via Internet, fez com que, inevitavelmente, as novas gerações se desinteressassem paulatinamente pela velha e boa dramaturgia produzida pela Rede Globo, companheira fiel de tantos brasileiros por tardes e noites a fio, desde a fundação da “Vênus Platinada”, em 1965, pelo jornalista e empresário Roberto Marinho (1898-2003), até mais ou menos o início do século atual.

  
                Uma época de ouro, em que novelas inesquecíveis foram ao ar, sempre com elevadíssimos índices de audiência, em alguns casos superiores a 60/70% ou até mais, como foi o caso da histórica Selva de Pedra (1972), que atingiu a insuperável marca de 100% dos televisores ligados durante a exibição de seu último capítulo. Uma época em que a Globo podia jactar-se de ser, de fato, a “Hollywood brasileira”, com um cast de astros e estrelas de primeira linha, de fazer inveja a qualquer estúdio norte-americano dos anos 30, 40 e 50. Talentosos atores e atrizes egressos do rádio e do teatro, dotados de rostos expressivos e vozes imponentes, ou, quando nada, de muita beleza, charme e carisma: Paulo Gracindo, Tônia Carrero, Sérgio Britto, Fernanda Montenegro, Sérgio Cardoso (um ator gigantesco, falecido precocemente aos 47 anos, em 1972), Nathalia Timberg, Tarcísio Meira, Glória Menezes, Francisco Cuoco, Regina Duarte, Jardel Filho, Dina Sfat, Carlos Alberto, Yoná Magalhães, Lima Duarte, Marília Pera, Juca de Oliveira, Aracy Balabanian, Rubens de Falco, Susana Vieira, Cláudio Marzo, Nívea Maria... E depois a  leva seguinte, composta em sua maioria por rostos mais jovens, “crias” já da própria televisão, alavancados entre a segunda metade dos anos 70 e a primeira dos anos 80: Renée de Vielmond, José Wilker, Elizabeth Savala, Tony Ramos, Sônia Braga, Antônio Fagundes, Vera Fischer, Herson Capri, Christiane Torloni, Reginaldo Faria, Lucélia Santos, Edwin Luisi, Bruna Lombardi, Carlos Alberto Ricelli, Glória Pires, Lauro Corona, Lídia Brondi, Cássio Gabus Mendes, Malu Mader, José Mayer... A lista é infindável, entre protagonistas e coadjuvantes, atores cômicos e dramáticos, vilões e mocinhos, e daria tranquilamente para preencher várias páginas. Sem falar nos autores das tramas, os grandes responsáveis pela “usina de sonhos” que gerava novelas em níveis industriais (lembremo-nos que, em seu auge, nos anos 70, a Globo possuía nada menos que quatro horários de novelas em sua grade, com a adição da extinta faixa das 22 horas). Dramaturgos do porte de uma Janete Clair, de um Dias Gomes, de um Walter George Durst, de um Jorge Andrade, de um Lauro César Muniz e de um Gilberto Braga, dentre outros menos cotados; verdadeiros ‘dream makers’, que se alternavam entre si, numa frenética “roda viva” criativa, a fim de não deixar o telespectador sem o seu produto favorito e mais esperado ao longo do dia: a novela.  

              

               Infelizmente, tal como ocorreu há tempos com a velha Meca do cinema, esse delicioso mundo de fantasia criado pela maior emissora do país também foi levado pelos ventos da modernidade, e de uma forma avassaladora, diga-se de passagem. Transfigurada radicalmente nas últimas duas décadas (para pior), a Globo abriu mão ostensivamente de seu público cativo, cultivado ao longo do tempo, passando a exibir programas de entretenimento – e aqui não me refiro apenas às novelas - abaixo da crítica, de um nível abissal, ao ponto de oferecer aos seus fiéis telespectadores uma grade de programação medíocre e totalmente dissociada daquela que ostentou no passado, e que lhe valeu diversos e merecidos prêmios internacionais. Voltando às novelas, há tempos que o que pinta nas telinhas é uma sucessão interminável de tramas insossas, com temas bizarros ou simplesmente tolos, permeadas de “panfletagem ideológica”, e – o que é o mais grave, no meu ponto de vista - “estreladas” por moçoilos e moçoilas sem qualquer talento, alçados imerecidamente à fama do dia para a noite, pelo simples fato de terem tido um dia seus quinze minutos sob os holofotes como BBB´s ou algo inusitado do gênero; por pertencerem a determinado grupo social; ou pura e simplesmente, por serem “amigos do rei” (seja ele quem for). Evoquemos, à guisa de exemplo, a mais recente tentativa global de emplacar uma novela na TV aberta, o remake da clássica Vale Tudo (1988). Uma aberração dramatúrgica, em tudo e por tudo, que, sinceramente, não é digna de qualquer comentário, de tão sofrível que é. E a prova disso é que grande parte dos atores da novela original (quase todos ainda vivos) até hoje não se manifestaram sobre a famigerada versão alternativa, num silêncio que “grita”, muito mais do que cala. (...) Meu saudoso amigo Alex Deneriaz, com sua verve mordaz de colunista social, diria que essa novelinha vulgar não passa de um “truque”. Um engodo barato, diga-se de passagem, que, para mim, “macaco velho” de novelas desde a mais tenra idade, não “dá nem para o arranque”.

              Por falar em truque, novela boa é isso mesmo. Uma costura  bem feita à base de ilusões e de fantasias, uma barganha pré-contratada entre os autores/atores e os telespectadores, na base do “Nós fingimos verdadeiramente que...” (da parte daqueles), em troca do “Nós acreditamos piamente que...” (do lado destes), durante aqueles mágicos 60 minutos. Tudo vale em prol da audiência e do merchand de uns, e da preciosa e sagrada diversão noturna de outros. A questão é que, nessa troca de interesses, o escambo é desigual. Muito é oferecido, mas nem sempre é aceito. Tudo é vendido, mas nem tudo é comprado. Na prateleira, sempre à disposição do público, cenários sofisticados, oníricos ou ultrarrealistas; gírias, penteados, figurinos e acessórios da última moda; trilha sonora eclética, com um mix de hits descartáveis da safra pop-brega-techno-funk-sertanejo, clássicos antigos e recentes da MPB na voz de grandes medalhões, e, claro, baladas românticas internacionais, daquelas que “grudam no ouvido”, do tipo Love By Grace (ugh!) ou One Last Cry (eba!). E tudo isso é absorvido, é “comprado” pelo grande público, invariavelmente, em maior ou menor grau, a cada temporada novelística. Brasileiros são consumistas por excelência. Ponto. Mas, em se tratando de novelas, também são “macacos velhos”, pelos anos nas costas que têm em frente a um aparelho de TV ligado no horário nobre. Os executivos ligados ao mundo das novelas sabem que têm, cativos, logo após o Jornal Nacional, um público fiel e quase adicto, que ali estará, apto a “bater ponto” diário, como indefectível espectador, crítico e coautor das aventuras e desventuras vividas por seus belos e belas, seus crápulas e suas megeras. Mesmo com a profusão de streamings e outras mídias alternativas postas à disposição de todos, na própria TV, no computador ou no telefone celular, as novelas da Globo, gostem ou não os seus  detratores, ainda são, para milhões de brasileiros de todas as faixas etárias, educacionais e sociais, como aquela frase sexista de para-choque de caminhão: “MEU VÍCIO”. Ou, como o título daquela canção cafona do finado Wando: “FOGO E PAIXÃO”!   

    

              Fogo... Paixão... Essa é a “alquimia de Paracelso”, a química perfeita, aquele ‘je ne sais quoi’, que faz a diferença de uma novela para outra; e que decreta, ‘per secula seculorum’, no imaginário popular, que uma trama seja inesquecível ou descartável. Ainda que ela de fato, por seus próprios méritos (ou deméritos) intrínsecos, seja o oposto do que o público é capaz de perceber naquele momento. E quem acende o fogo e faz crepitar a fogueira das paixões? Os protagonistas, lógico. Ou o casal de protagonistas, melhor dizendo, para ser mais específico. E, claro, os  antagonistas, aqueles malvados e malvadas que todo “noveleiro” ama odiar, e que são os responsáveis por adiar ‘ad infinitum’ a felicidade da dupla romântica da vez. Janete Clair, a eterna “Maga das Oito”, por mais de uma vez, em entrevistas, defendeu a sua tese (jamais contestada pelos pósteros) de que numa novela tudo pode dar errado, menos os vilões e os mocinhos. Segundo ela, tudo o mais numa trama é passível de conserto. Mas se o público não odiar de morte os vilões e não amar de paixão os mocinhos, a novela, tal e qual um suflê mal assado ou um bolo mal desenformado, desanda de vez, ou, na melhor das hipóteses, é consumida como um prato insípido, por mera necessidade fisiológica ou falta melhor do que comer.

        Pois toda essa magia, essa química, essa receita infalível de sucesso, praticamente monopolizada pela Rede Globo em suas três primeiras décadas de existência (e da qual parecia ter se esquecido de vez), milagrosamente “reviveu”, como num passe de mágica, com a recente exibição, no Globoplay Novelas (antigo VIVA), da esplêndida novela Guerreiros do Sol, feita especialmente para ser exibida naquele canal alternativo da TV a cabo, parte do conglomerado das Organizações Globo. Na verdade, rotulá-la como novela é força de expressão, já que, com seus econômicos 45 capítulos (o equivalente a pouco mais de dois meses no ar), a trama, na verdade, pode ser classificada como uma macrossérie. Mas o que teve de curta em termos de duração foi devidamente compensado pela sua excelência, em tudo e por tudo. E, pelo que se viu da imensa repercussão que a estória alcançou através dos comentários nas redes sociais, fez o público “grudar” na telinha e vibrar de emoção e de ansiedade pelas “emoções dos próximos capítulos”, como nos bons e saudosos tempos da velha Globo.

               Guerreiros do Sol é uma transposição para a TV do romance homônimo do escritor Frederico Pernambucano de Mello, adaptada por George Moura e Sérgio Goldenberg, uma dupla de autores parceiros que, anteriormente, já havia marcado um “gol de placa” com outra série, Onde Nascem os Fortes, de 2018. Ambientada no inóspito sertão do Nordeste, a estória tem como tema central a dura realidade dos tempos do cangaço e os mitos criados em torno desse curioso fenômeno sociológico, que, por conta do rastro de sangue e de dor que deixou atrás de si, marcou profundamente a história daquela região brasileira, entre as décadas de 1920 e 1930. Como pano de fundo, permeando os ferozes embates travados sob um sol causticante entre policiais e cangaceiros (com barbáries perpetradas por ambas as partes), está a recorrente alegoria à exploração do homem pelo homem, materializada, no caso, pelas onipresentes figuras dos arrogantes coronéis e seus violentos jagunços, de um lado; e dos humildes sertanejos e suas oprimidas famílias, de outro.

 

           Conforme assumido explicitamente pelo próprio autor do livro que deu origem à série, a narrativa inspira-se abertamente na trajetória do mais famoso casal de cangaceiros de todos os tempos: Virgulino Ferreira, o “Lampião”, e sua companheira, apelidada de Maria Bonita; duas figuras míticas daqueles sertões, encarados como heróis por alguns e como bandidos por outros tantos, e que tiveram sua trajetória brutalmente interrompida em julho de 1938, ao serem cercados por uma volante (grupo de policiais) fortemente armada, trucidados e posteriormente decapitados; uma chacina que marcou simbolicamente o fim da era do cangaço, embora este ainda houvesse perdurado por mais algum tempo. Duas vidas lendárias, que também renderam uma minissérie inesquecível (a primeira produzida pela Globo, em 1982), na qual o célebre casal de bandoleiros – uma espécie de Bonnie & Clide à moda sertaneja – foi encarnado com impressionado fidelidade pelo talentoso par de atores formado por Nelson Xavier e Tânia Alves.

               Agora, na versão revisitada para 2025, os ‘alter egos’ de Lampião e Maria Bonita atendem pelos nomes de Josué (Thomás Aquino) e Rosa (Isadora Cruz), dois jovens sertanejos pobres, de bom coração e cheios de sonhos, que se apaixonam à primeira vista em meio a um baile de forró numa noite de luar, mas que têm suas vidas alteradas bruscamente pela desdita que cruza os caminhos de ambos: ele, o assassinato do pai, morto de forma gratuita devido a uma querela banal com o coronel Elói Bandeira (José de Abreu), proprietário das terras onde vive sua família; ela, pelo casamento forçado com esse mesmo coronel (um viúvo solitário), praticamente vendida pelo seu próprio genitor, à custa de promessas casuísticas daquele. Nada de novo sob o sol nordestino. Uma estória triste que se infelizmente se repetiu – e que provavelmente ainda se repete, aqui e acolá, pelos grotões desse país – infinitas vezes, como sina de milhares de Rosas e Josués anônimos, sem vez e sem voz na dura sociedade que os rodeia.

          A partir desse ponto de ruptura, o destino dos dois apaixonados está traçado. Josué, naturalmente revoltado com a desgraça que se abateu sobre seu clã (expulso de sua gleba pelo latifundiário, após a morte do patriarca), e descrente da justiça dos homens, resolve se vingar por seus próprios métodos, tornando-se um proscrito ao cair nas graças e ser admitido – juntamente com seus três irmãos, Arduíno (Irandhir Santos), Milagre (Ítalo Martins) e Sabiá (Vítor Sampaio) - no bando do experimentado e temido cangaceiro José Inácio (Alexandre Nero). Após a morte deste, durante um tiroteio com os “macacos” (apelido dado pelos cangaceiros aos policiais), assume o comando do bando, e, graças à sua valentia, ousadia e sagacidade, aliado ao “espírito de Robin Hood” que era uma das marcas registradas de Lampião – ou seja, roubar dinheiro, joias e outros haveres dos ricos (os coronéis) para, com parte desse espólio, satisfazer as necessidades dos pobres - logo fica famoso entre o povo daquelas brenhas pela alcunha de “Governador do Sertão”. Uma verdadeira celebridade, cujos atos subversivos desafiam a ordem das coisas estabelecida pelos poderosos locais, que, por consequência, resolvem por a prêmio a cabeça do famoso cangaceiro.

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​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​            Já o destino de Rosa é, no início, um pouco mais tranquilo, embora não menos infeliz. Enredada num casamento sem amor com o tal coronel (um homem boçal e rude, mas que, apesar dos pesares, a trata com  certo carinho e respeito), a moça passa a viver com todo o conforto material na imensa fazenda de seu marido, cercada de um staff de serviçais e ao lado de parte da família original do coronel: seu filho, o arrogante Idálio (Daniel de Oliveira), e sua nora, a delicada Jânia (Alinne Moraes), uma mulher culta e de forte personalidade, imbuída de avançados valores feministas. Fazendo companhia à Rosa no casarão está sua adorada irmã, Otília (Alice Carvalho), com quem divide uma relação profunda de mútuo afeto, confiança e cumplicidade. Juntas sob o mesmo teto, e padecendo sob diferentes níveis de opressão feminina, as três mulheres – Rosa, Otília e Jânia – unirão forças e formarão uma tríade indestrutível pelo resto da estória, superando toda sorte de vicissitudes. A começar dos assassinatos de Elói (numa emboscada armada por terceiros) e de Idálio (morto pela madrasta durante um assalto do bando de Josué à fazenda, como catarse contra a crueldade e o assédio praticados reiteradamente contra ela). Este último episódio se mostrará decisivo para que Rosa, vendo-se sem saída perante as leis ditadas por uma sociedade machista e misógina, caia na clandestinidade, ao se juntar definitivamente ao grupo de cangaceiros liderado por seu grande amor, de quem ela jamais se esqueceu. Uma vez livre e senhora de si, ela não medirá consequências para seguir firme e fiel ao seu lado de seu amante, na vida errante e perigosa que o destino traçou para ambos, custe o que custar.  

  

              E o vilão da estória, onde entra nesse enredo? Ele se revela  em grande estilo, na figura de Arduíno, o irmão mais velho de Josué, um homem astuto, ambicioso, competitivo e profundamente ressentido, que fica “roído” de inveja da liderança natural exercida pelo irmão sobre o bando de cangaceiros. Expulso do grupo após uma briga violenta com seus irmãos – numa cena intensa, de tons “macbethianos” – Arduíno, cego de ódio contra Josué, resolve “virar a casaca” e se bandear de vez para o lado dos “macacos”, tornando-se a verdadeira encarnação do diabo na ânsia de saciar o desejo de vingança que passa a nutrir contra Josué e todos aqueles que com ele venham a se aliar. Dono de uma personalidade patologicamente vaidosa, autoritária e cruel, ele se deixará consumir aos poucos no próprio veneno e na própria loucura ao adquirir cada vez mais e mais poder, à medida que a trama avança, perpetrando toda sorte de perversidades contra quaisquer pessoas que se interponham em seu caminho (aí incluídos aqueles de seu próprio sangue), independentemente de sexo, idade ou posição social. Irandhir Santos, o fabuloso ator pernambucano que dá vida ao vilão – e que já deu provas mais de uma vez de seu enorme talento, em inúmeros outros trabalhos no cinema e na TV - é daqueles intérpretes raros, que só aparecem de tempos em tempos. Sua expressão cênica, plena de nuances e recursos teatrais, é completa, fazendo uso do corpo, das mãos, do rosto e da voz na medida certa, sem exageros. O telespectador, de imediato, estabelece com sua personagem uma estranha relação de fascínio, permeada de repulsa e medo ao mesmo tempo, do primeiro ao último take. É uma atuação digna de um Oscar (ou de um Emmy, no caso), que foge do banal, do lugar comum, tornando um prazer inenarrável assisti-lo em cena.

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           A espetacular performance de Irandhir não constitui nem de longe uma exceção no seio dessa afinada orquestra que é o elenco de Guerreiros do Sol, escolhido a dedo pela produção da novela entre alguns dos melhores atores e atrizes nordestinos da atualidade, a maioria deles desconhecidos do grande público, o que se mostrou ao final um grande acerto. Desde o casal de protagonistas até os coadjuvantes (nesse último caso uma mera força de expressão), todos eles terminam por se destacar ao longo da trama, cujo roteiro enxuto, pleno de lances emocionantes e dramáticos, propicia que todos brilhem em algum momento, indistintamente. O pernambucano Thomás Aquino e a paraibana Isadora Cruz - dois atores jovens, carismáticos e extremamente talentosos, de uma beleza dura como o mandacaru do sertão - fazem um par romântico como há muito não se via, incendiando as telinhas de paixão nas cenas entre seus personagens, repletas de sensualidade, de sensibilidade e de muita verdade. Impossível não se emocionar também com o olhar intenso e com a força interpretativa da potiguar Alice Carvalho, outra grande revelação da novela. O romance lésbico entre sua Otília e a Jânia vivida por Alinne Moraes (numa caracterização impecável de uma mulher madura e sofrida, que chega até a empanar a beleza da jovem estrela global) constitui outro ponto alto da estória, tratado pelo diretor com o devido respeito que o tema merece, sem apelações nem cenas desnecessárias. Como, de resto, todas as demais passagens da envolvente narrativa, uma grande “tragédia grega” sertaneja, na qual todas as personagens – brutas, estoicas, passionais, viscerais – parecem extraídas ora das agrestes “veredas” de Guimarães Rosa ou das “terras do sem fim” de Jorge Amado, ora dos densos dramas de Garcia Lorca ou dos vibrantes faroestes de John Ford.

 

        ​Uma mélange perfeita, eu diria, que parece beber na fonte de diversas referências literárias e dramatúrgicas, e que, na fina tessitura urdida sinergicamente pelos produtores, diretores e atores envolvidos no projeto, entrega de bandeja ao telespectador uma verdadeira obra-prima televisiva, sem nenhum favor. Um quadro magnificamente pintado – literalmente, com sua espetacular fotografia em tons de ocre, amarelo e vermelho, a paleta de cores do semiárido nordestino – de um momento ímpar da vida brasileira, e que impressiona já desde a vinheta de abertura, composta por imagens fragmentadas cangaceiros em luta sob o sol dourado do sertão, tendo por pano de fundo os versos do xaxado Cavalos do Cão, interpretado em dueto pelas vozes inconfundíveis de Zé Ramalho e Elba Ramalho, tão marcantes e rascantes como o voo do carcará ou o canto da araponga, cortando a desolação da caatinga:​

                 “Corriam os anos trinta
                  No nordeste brasileiro
                  Algumas sociedades lutavam pelo dinheiro
                  Que vendiam pelas terras
                  Coronéis em pé-de-guerra
                  Beatos e cangaceiros

                  E correr da volante
                  No meio da noite
                  No meio da caatinga
                  Que quer me pegar

                  (bis)

                  Na memória da vingança
                  Um desejo de menino
                  Um cavaleiro do diabo
                  Corre atrás do seu destino
                  Condenado em sua terra
                  Coronéis em pé-de-guerra
                  Beatos e cangaceiros

                  E correr da volante
                  No meio da noite
                  No meio da caatinga
                  Que quer me pegar”

                  (bis)

                  E viva a novelas brasileiras! As de verdade, “sem truques”, como diria o meu amigo Alex...

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Crédito da imagem: Rede Mundial de Computadores.  

Artigo publicado em 31.08.2025

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Hiroshima – 80 anos depois

Oppenheimer e o pesado fardo do “Pai da Bomba Atômica”

Por Ronald Péres

               A crônica de hoje nasce da necessária reflexão calcada na  passagem dos 80 anos da maior hecatombe já vivida pela Humanidade num único dia (ou num espaço de poucos minutos, pra ser mais exato): a explosão da bomba atômica sobre a cidade japonesa de Hiroshima, às 8h15 da manhã de 6 de agosto de 1945, provocada pela detonação, a partir do lançamento de um bombardeiro B-29 norte-americano (o célebre Enola Gay), de um único e mortífero projétil, batizado, ironicamente, de Little Boy (o "Garotinho"). Uma tragédia inominável e incomparável, que se mostrou decisiva para o fim da II Guerra Mundial (1939-1945), marcou o início da Era Nuclear, e deixou como horrível saldo um número estimado entre 70 mil e 200 mil pessoas, segundo as estatísticas oficiais (não-precisas), entre aqueles fulminados - pulverizados, literalmente! - no momento do impacto; e os mortos nos anos seguintes, vítimas de câncer e de outras sequelas decorrentes do contato direto com a radiação.

  
                Como todos aqueles familiarizados com a História bem o sabem, o artefato nuclear, uma arma com um poder de destruição jamais visto, fora desenvolvida ao longo dos três anos anteriores, a toque de caixa, nas dependências de uma base militar ultrassecreta do governo yankee, por uma equipe multinacional e multidisciplinar composta por alguns dos mais brilhantes cientistas do mundo e liderada por um gênio da Física: Julius Robert Oppenheimer (1904-1967), um teórico e um pacifista inteiramente devotado à Ciência, mas que, por força das armadilhas do destino, viu-se compelido pela Casa Branca a valer-se de sua invulgar inteligência e expertise em prol dos interesses imediatos de seu país e do chamado "esforço de guerra" das nações aliadas (EUA, Reino Unido, França, União Soviética e outras), a fim de impedir a todo custo que a Alemanha nazista de Hitler desenvolvesse a mortal tecnologia antes de seus oponentes, o que constituía uma ameaça real, àquela altura, segundo dados concretos coletados pela CIA. E ainda bem que conseguiram, é horrível dizer. Senão, o que teria sido da Humanidade com a bomba sob as mãos de um déspota insano? Melhor nem especular. Sabemos bem - e como sabemos - até onde déspotas insanos travestidos de estadistas (nacionais e estrangeiros, eleitos ou não) são capazes de chegar...

              

           

               

 

 

 

 

 

 

          

 

 

              A vida desse homem, que carregaria pela vida afora, tal e qual um pesado fardo, a alcunha de “Pai da Bomba Atômica”; e cuja genialidade ímpar trouxe consequências dramáticas para a Humanidade, a curto, médio e longo prazo, que até hoje repercutem; teve sua vida retratada por Hollywood há dois anos, numa das melhores cinebiografias já exibidas nos últimos tempos: Oppenheimer, um filme dotado de forte carga dramática e com “mastodônticas” três horas de metragem, que cumpre seu intento com distinção e louvor. A começar da direção segura de Christopher Nolan e do elenco estelar, liderado pelo ator irlandês Cillian Murphy, na pele do biografado, numa interpretação contida e plena de nuances, secundado por nomes bastante conhecidos dos cinéfilos: os ingleses Kenneth Branagh e Emily Blunt, os americanos Robert Downey Jr. e Matt Damon e outros menos cotados, fazendo uma participação cameo aqui e acolá. Uma película merecidamente laureada com diversos Oscars, dentre eles os de melhor filme, diretor e ator. Mas nem poderia ser diferente, tal o fascínio que a trajetória do grande cientista nos revela.

         

         Judeu, de origem abastada, J. Robert Oppenheimer era um homem excepcional, predestinado ao sucesso. Formado na prestigiada Universidade de Princeton, fez pós-graduação em Cambridge (Inglaterra) e em Göttingen (Alemanha), onde travou contato com outras mentes brilhantes de seu métier, como o físico alemão Max Born. De volta à América, passou a dar aulas na Universidade da Califórnia (UCLA), em Berkeley; e no Instituto de Tecnologia de Pasadena. Como “cereja do bolo”, ainda era amigo de ninguém menos que o gênio Albert Einstein, a essa altura autoexilado nos EUA por sua condição de judeu, e que, assim como outras mentes pensantes, se mostrava profundamente incomodado com a loucura bárbara e antissemita que tomava conta da Europa desde 1933. Gabarito e currículo não faltavam, pois, a Mr. Oppenheimer, para que fosse eleito pelo governo de Washington como o homem ideal para comandar – ao lado de outros nomes de peso da Física, como o italiano Enrico Fermi - o ultrassecreto Projeto Manhattan, a “minicidade” industrial e tecnológica implantada às pressas pelo Pentágono na pequena localidade de Los Alamos, um ponto perdido no mapa, em meio à solidão e à vastidão do deserto do Novo México. E assim se passariam três longos anos, de muitos avanços e muitas incertezas, tanto no front bélico quanto no científico.  

    

               Em meados de 1945, os Estados Unidos estavam com o que se chama de uma verdadeira “batata quente” nas mãos: a balança do conflito na Europa já havia pendido a favor dos Aliados. A poderosa máquina de guerra da Alemanha nazista fora esmagada pela união sinérgica das forças russo-anglo-americanas. Hitler estava morto e aproximava-se a conferência de paz de Potsdam, na qual os dois grandes vencedores, EUA e URSS, haveriam da dar as cartas da nova geopolítica global, de acordo com seu poder de barganha (e de fogo, claro). Mas, do outro do Atlântico... A bomba estava armada! Literalmente. Graças ao denodo e à genialidade da equipe do Projeto Manhattan (com Oppenheimer à frente), o start da corrida nuclear, assim como da chamada “Guerra Fria”, fora acionado, sem chance de reversão. Estabeleceu-se então uma batalha interna entre o  Estado-Maior do recém-empossado governo Truman (o presidente anterior, Franklin Roosevelt, havia falecido no início daquele ano) e os cientistas baseados em Los Alamos, temerosos, enquanto teóricos, de que a detonação em grande escala da super-bomba gerada pela fissão do átomo e pelo enriquecimento do urânio em larga escala fosse capaz até de incendiar a própria atmosfera, destruindo o planeta numa fração de segundos! Como sói ocorrer em tais casos, a Política falou mais alto. Usando como bode expiatório o alquebrado Japão - o derradeiro inimigo a ser batido, que ainda resistia insanamente em manter a frente de guerra no Oceano Pacífico – o “recado” havia que ser dado a Stalin e aos comunistas do Kremlin, de forma clara e sem tergiversações, acerca de quem detinha de fato o poder diante do novo status quo.

               E chega-se então ao dia 16 de julho de 1945. Dia crucial para o mundo. Dia do teste final (ou inicial, como queiram) da mega-bomba de Oppenheimer & Cia.. Batizada de Trinity, a bomba-mãe do Little Boy seria detonada naquele mesmo deserto inóspito do sudoeste americano, a poucos quilômetros da base de Los Alamos, diante dos olhares estarrecidos de seus próprios artífices. Retratada de forma assustadoramente realística no filme acima referido, é impossível, enquanto espectador, não se emocionar ao ponto do suor frio e do retesamento das mãos com as fortes imagens geradas pela terrível cena, e compartilhar um pouco do suspense, da tensão e do horror causados pela elevação do monstruoso “cogumelo atômico”, o mesmo Leviatã que, dali a menos de um mês, varreria do mapa Hiroshima e Nagasaki, ceifando milhares de vidas, nos trágicos dias 6 e 9 de agosto de 1945, respectivamente. As portas do inferno haviam sido abertas! No background da sequência cinematográfica, ouve-se a voz do narrador, reproduzindo a impactante frase contida no texto sagrado e filosófico hindu Bhagavad-Gita (as mesmas palavras que seriam profundamente absorvidas e atribuídas a si pelo angustiado Oppenheimer, como se para ele tivessem sido escritas há dois mil anos): “Agora eu me tornei a Morte, a destruidora de mundos!”.

               É claro que o filme não acaba aí. Segue-se ainda mais uma hora de exibição, expondo todo o “calvário” pelo qual passaria Oppenhemer ao longo da década de 1950, envolvido, assim como tantos outros intelectuais, artistas e políticos, na histeria do “Macartismo”, a feroz perseguição e execração pública liderada pelo demagogo senador Joseph MacCarthy e dirigida a toda e qualquer pessoa suspeita de afiliação ideológica com as teorias marxistas.  Num verdadeiro processo de “descida aos infernos”, Oppenheimer seria acusado diante de uma comissão de inquérito formada dentro do próprio Comitê de Energia Atômica (do qual era o diretor) de comunista, antiamericano e do “diabo a quatro”. E a “víbora enrolada no cesto” (leia-se, o inimigo recalcado e insuflador) logo ali, bem ao lado, “cavando a cova” de sua vítima e travestido de amigo solidário, como costuma ocorrer em tais casos. Lembrei-me muito, nessa passagem da película, do pérfido músico Antonio Salieri, que gastou parte de sua existência invejando e “detonando” a vida do genial e infeliz Wolfgang Amadeus Mozart. Mas calma, não vou dar spoiler! Assistam ao filme. Ele vale cada centavo do caríssimo valor do ingresso. É “cinemão” maiúsculo, de primeira, como Hollywood sempre soube fazer.

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               Que níveis de angústia e depressão terá experimentado Robert Oppenheimer quando, menos de um mês depois dos eventos de Los Alamos, pôde constatar, estarrecido e impotente, assim como o resto da Humanidade, os trágicos e concretos resultados de seu maligno e mortal engenho atômico sobre os desditosos civis japoneses? Terá se  arrependido de ter ido até as últimas consequências em suas pesquisas? Terá tido ímpetos de suicídio, talvez? Impossível mensurar um stress de tal monta e tão fora dos parâmetros normais. A essa altura, todavia, era tarde demais. A “caixa de Pandora” já fora aberta e não havia como retroceder. O mundo veria, nas décadas seguintes, uma corrida armamentista sem precedentes, polarizada e monopolizada, por muitos anos, apenas entre os dois grandes vencedores da II Guerra, os russos e os americanos, mas que, nos dias atuais, com o desenvolvimento de arsenais nucleares por parte de outros países em desenvolvimento (democráticos ou autocráticos), constituiu uma espécie de “clube fechado da destruição” (ou da autodestruição, como queiram), em que os “sócios”, longe de se congregarem e se protegerem entre si, se hostilizam mutuamente, de tempos em tempos. Vide as crônicas rusgas fronteiriças envolvendo Índia e Paquistão (dois históricos inimigos figadais e duas potências atômicas) e a perigosa contenda que opôs recentemente Israel e Irã, ambos devidamente avalizados (e quiçá incentivados) em seus avanços bélicos por seus respectivos “padrinhos” ideológicos, EUA e Rússia.

               Neste agosto do Ano da Graça de 2025, que marca o octogésimo aniversário desse horrendo evento histórico, evoquemos, pois, mais uma vez, a memória desse holocausto. Triste, dolorosa, mas que não pode nem deve ser olvidada. Memória da infame desdita que se abateu sobre as pobres almas nipônicas de Hiroshima e Nagasaki. Memória de até onde o homem foi (e é) capaz de chegar, ao ponto de converter-se na "besta-fera" de sua própria raça. Memória de uma conjuntura ímpar na trajetória humana, na qual uns poucos homens, imbuídos de um poder semidivino, tiveram que tomar a amarga, infeliz e cruel decisão de produzir uma desgraça sem paralelo na vida de milhares de inocentes a fim de deter a irrefreável marcha do "quarto cavaleiro do Apocalipse", que, sob as patas de seu implacável corcel, já fizera da Europa uma "terra arrasada", ao longo de seis longos anos. 

          Do lodo, porém, sempre nascem lírios. Assim rezam os poetas. E foi justamente um dos maiores de nosso país, Vinicius de Moraes (1913-1980), que, com sua alma sensível, compôs o magnífico poema Rosa de Hiroshima, uma verdadeira “pérola”, musicada em 1973 por Gerson Conrad, um dos integrantes do extinto grupo Secos & Molhados; e consagrada de forma definitiva na voz de Ney Matogrosso, que então fazia parte do conjunto. A delicada evocação de Vinicius talvez seja, na língua portuguesa, a mais tocante tradução do horror que se abateu sobre Hiroshima, do ponto de vista estritamente humano e individual: sua gente, suas crianças, suas mulheres, suas "rosas cálidas, mudas, telepáticas"; destroçadas pela "rosa radioativa", a "rosa com cirrose", a "rosa sem perfume", a rosa maldita que ameaça, de tempos em tempos, desfolhar suas cinzentas e horrendas pétalas sobre nossas cabeças. Onde e quando haverá uma próxima Hiroshima? A depender da loucura desenfreada que grassa urbe et orbe, pode ser aqui, ali, alhures, em qualquer lugar. E quando menos se esperar. Oremos. O “fardo” armado e suportado por Oppenheimer ainda pesa ameaçadoramente – e pesará, quiçá, ad aeternum! 

- sobre os ombros e a consciência deste insensato mundo...

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​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​Obs: Crônica reformulada a partir de outra, publicada originalmente no perfil pessoal do autor, no Facebook, em 30.07.2023. Crédito das imagens: Rede Mundial de Computadores.   

Artigo publicado em 10.08.2025

Robert Oppenheimer (1904-1967), cientista norte-americano, conhecido como o ‘Pai da Bomba Atômica”. Na primeira metade da década de 1940 liderou as pesquisas que culminaram no desenvolvimento da energia nuclear, no contexto da II Guerra Mundial.

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Cidade Sitiada

Manaus sob o Império da “Cafonália”

Por Ronald e Roger Péres

                Como qualquer bom manauara que se preze, temos por hábito ir ao Centro ao menos uma vez por semana, para dar um passeio e nos reencontrar com nossas raízes e mais caras lembranças. Gostamos de apreciar a cidade, sua arquitetura histórica, sua pavimentação ancestral, sobre a qual nossos antepassados construíram sua trajetória, e, consequentemente, a nossa. Invariavelmente, ao fazê-lo, deparamo-nos com alguma surpresa desagradável, seja ela perpetrada por algum particular de gosto duvidoso ou por alguma ação (ou omissão) equivocada do poder público no zelo com a cidade. Porém, já há algum tempo, temos notado o acréscimo de um elemento a mais, que veio a somar-se a esse nosso “incômodo habitual”, digamos assim. Referimo-nos à crescente e grotesca poluição visual, rotulada genericamente - e eufemisticamente, por que não dizê-lo? - de “arte urbana”, que, a cada dia que passa, vem impondo-se na paisagem urbana, sob o beneplácito das autoridades municipais e a indiferença da grande maioria dos passantes, cada vez mais abúlicos diante de tantos desmandos perpetrados contra nossa Manaus. Algo que, em um passado mais recente, estava sob relativo controle e, diríamos, em níveis desejáveis, até certo ponto. No caso, estamos a falar, especificamente, da péssima “onda”, atualmente disseminada por todo o perímetro central, de se “lambuzar” as empenas cegas – leia-se, a fachada lateral dos edifícios altos, despidas de vãos (basculantes, janelas ou balcões) - com grafites de péssimo gosto, dissimulados sob o nobre manto da chamada “arte pictórica mural”, aqui compreendida como aquela produzida intencionalmente para fins de exposição permanente ao ar livre, sob o sol e a chuva e à vista de todos. Tal modalidade de intervenção urbana, relativamente antiga, desenvolveu-se fortemente, desde a década de 1970, em cidades norte-americanas e europeias, e, quando levada a efeito por artistas de talento, com “A” maiúsculo; e exposta nos lugares certos, costuma produzir resultados muito agradáveis, em termos visuais. O que, definitivamente, não é o caso de Manaus, na presente conjuntura.

  
                É sabido que, durante os “anos de ouro” do comércio da Zona Franca, nos anos 70 e 80 do século passado, a capital amazonense - até então uma cidade de aspecto provinciano, no que esta expressão tem de melhor, no sentido de ordenamento urbano – viu-se, da noite para o dia, completamente “poluída” visualmente por engenhos publicitários de toda sorte, na forma de placas, luminosos e esquadrias de alumínio, a camuflarem as requintadas fachadas herdades dos grandes anos da borracha. No início deste século, com a evolução da legislação e da fiscalização atinentes ao chamado Código de Posturas; e o exemplo virtuoso propiciado pelo “choque de ordem” executado na cidade de São Paulo durante os anos da gestão municipal de Gilberto Kassab; estes equipamentos passaram a ser paulatinamente removidos, ou, na menor das hipóteses, reduzidos a determinados padrões aceitáveis, gerenciados sob a batuta do Instituto Municipal de Planejamento Urbano (IMPLURB). E a cidade, aos poucos, voltou a perceber-se em sua inteireza. Edifícios antigos que muitos tinham como há muito demolidos, começaram a “saltar à luz” para uma nova geração de manauaras, como é o caso do lindo sobrado na esquina das ruas Guilherme Moreira e Quintino Bocayuva, onde, no passado, estiveram instaladas, sucessivamente, a Associação Comercial, a extinta firma I. B. Sabbá e as Casas Pernambucanas, para citar um único exemplo. De sorte que, aos poucos, as coisas pareciam estar “entrando nos eixos” na vida da, outrora, Cidade Sorriso. Só que, em termos de urbanismo – mormente em cidades situadas aquém da linha do Equador, que padecem de vícios atávicos, no campo político-administrativo, como é o caso de Manaus e da maioria das cidades brasileiras e latino-americanas – “tudo que é sólido se desmancha no ar”, para parafrasearmos uma frase standard deveras conhecida nada é para sempre. E eis que agora, de repente e não mais que de repente, voltamos a nos deparar com mais um desafio pela frente... E que desafio!

              Assim, de relance, é possível citar, um por um, todos os “arranha-céus” do centro antigo – aqueles da “primeira geração” de prédios de gabarito superior a seis ou mais pavimentos, construídos entre os anos 70/80 - que se encontram “cafonizados” (com o perdão do inevitável neologismo) por obra e graça da atual “permissividade cromática” que grassa, a olhos vistos, diante de todos os cidadãos; e, o que é pior, fomentada pela própria Municipalidade, às expensas, quiçá, do Erário. As fotos abaixo reproduzidas, colhidas da Internet, falam por si, e dispensam maiores comentários críticos. É um verdadeiro “festival” de rabiscos aqui e acolá, rascunhadas por diletantes das belas-artes à guisa de “arte regional”: peixes, araras, onças, índios, grafismos, e até mesmo uma bizarra (pseudo) homenagem a um conhecido cantor popular, falecido há poucos anos. Tudo muito tosco, muito feio, muito sem estilo, independentemente dos temas escolhidos, os quais, de ‘per si’, nada têm de errado, é bom que se frise.

              A Avenida Eduardo Ribeiro constitui, a nosso modo de ver, o caso mais grave de todos. Hoje, o cidadão que a percorra de ponta a ponta, no sentido norte-sul – ou seja, da Praça do Congresso até o ‘Roadway’ – tem o desprazer de se deparar, na sequência, com nada menos que cinco “garatujas”, cada uma mais hedionda que a outra, aplicadas nas laterais dos edifícios “Zulmira Bittencourt”, “Cidade de Manaus” e “Palácio do Comércio”; assim como no prédio da antiga “Esquina das Sedas” (localizado no canto com a Sete de Setembro), e, ‘last but not least’, no “espigão” que, até pouco tempo, foi sede da Receita Federal, atualmente abandonado e com um destino “nebuloso” em seu horizonte. Ressalte-se que o perímetro da Avenida não é um logradouro qualquer, posto que alberga em sua extensão dois bens tombados e, a priori, tutelados pela União, através do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN): o Teatro Amazonas e o complexo portuário de Manaus. E aí, cara pálida? Cadê os “chefes da tribo”, numa hora dessas de “Deus-nos-acuda”?

           

               

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

          Mas engana-se o caro leitor que achar que isto ocorre apenas na mais tradicional e importante via do centro histórico. O mau gosto,  corporificado quase que numa entidade, dotada de vida própria – vamos chamá-la de  “Cafonália”, bem a propósito - vai se espalhando, tal e qual um câncer em metástase, também por outras ruas, como, por exemplo, é o caso do Edifício Mônaco, localizado na esquina da Avenida Getúlio Vargas com a Rua 24 de Maio; e, logo ali próximo, aquele outro que se ergue na esquina da Costa Azevedo com a Saldanha Marinho. E vocês acham que para por aí? Nã-nã-ni-nã-não! Tem mais: o antigo Edifício Ajuricaba, que, entre os anos 50/80, abrigou o glorioso Hotel Amazonas, de saudosa memória e tantas estórias, não bastasse ter sido há tempos convertido num verdadeiro cortiço, também foi vítima desse tipo de aviltamento, ao ter sua lateral estampada com o desenho grosseiro e mal-acabado – qualquer criança de dez anos poderia ter feito aquilo! - de uma índia sobreposta sobre sua a sua característica arquitetura modernista, originalmente concebida com aquele despojamento clean típico dos anos 1950/60. É espantoso o grau de desgoverno que hoje impera em nossa cidade, sendo a degradação do centro, já tão depauperado por problemas crônicos sociais como camelôs, moradores de rua e viciados em drogas (meu Deus, o que virou o antigo bairro dos Remédios!) – a sua face mais visível e ostensiva. E agora, ainda temos que suportar mais essa “pavulagem”? Faça-nos o favor... Give me a fuckin´ break!, como diriam os americanos. Onde estão os gestores desta cidade, que, deliberadamente, se omitem em lançar mão do “poder de polícia” que lhes é legalmente outorgado, em prol da coletividade? Façam valer sua autoridade! Quanta tibieza, meu Deus! Quanta leniência! A sensação é de que somos seres solitários a clamar no deserto, órfãos de pai e mãe, expostos “à chuva e ao sereno”, como se diz por aí...

                   

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

             

              Posta a problemática, seguem-se, naturalmente, as reflexões. A quem atribuir a culpa por tal descalabro, especificamente falando, no caso das tais pinturas murais? Seriam os síndicos dos citados condomínios, responsáveis, em tese, pela boa manutenção dos edifícios: Ou a Prefeitura Municipal, que, calcada em uma equivocada política demagógica, populista e eleitoreira, estimula que tais práticas sejam cometidas em nosso chão-berço?  Arte é coisa séria, que não prescinde de técnica, de estudo, de estilo e, claro, de TALENTO, antes de qualquer outra coisa. Vide, apenas para nos restringirmos a vertente artística em questão, ao grande muralista brasileiro da atualidade, Eduardo Kobra, um nome reconhecido e aplaudido em nível internacional. O “X” do problema não é a manifestação em si, mas quem a executa, e onde a executa. E, para isto, existem os espaços culturais da cidade, públicos e privados, organizados especialmente para abrigar e fomentar trabalhos desta natureza em seus salões. A cidade não pode servir de galeria experimental para que amadores - que se jactam de artistas! - façam “gracinhas” a seu bel-prazer, subtraindo o brilho e o protagonismo de edifícios de uma nobreza impar, como o Teatro Amazonas, o Palácio da Justiça, a Igreja Matriz e a Alfândega, só para citar alguns dos mais icônicos, atualmente impactados visualmente por essa “onda brega”.

         

         Falando em imóveis históricos, vem à baila a inevitável (e já enfadonha) pergunta de sempre: onde está o citado IPHAN, que adora aparecer, nas horas mais inconvenientes, para encenar uma ridícula peça burlesca, na qual “joga para a plateia” de que zela pelo nosso patrimônio tombado? Há pelo menos vinte ou trinta anos (senão mais) que o conceito de patrimônio, para fins de tutela estatal, estendeu-se, além do próprio bem tombado em si, também para o seu entorno, justamente devido à compreensão de que uma igreja, um teatro, um monumento ou uma praça, por mais belos e relevantes que sejam, não são valores isolados, em termos urbanísticos, mas que estão inseridos em um determinado conjunto estético e orgânico, que deve permanecer sadio e livre de toda sorte de mazelas, a fim de não desvalorizar, por vias transversas, o bem que se quer proteger. Como principal exemplo do que se fala, em nível local, cite-se o próprio Teatro Amazonas e seu nobre entorno, recuperados e revitalizados há mais de vinte anos pela Secretaria Estadual de Cultura, que, ainda que tardiamente, compreendeu que a configuração do atual Largo de São Sebastião enquanto zona de pedestres e destinada ao lazer dos munícipes era fundamental para garantir a integridade, a visibilidade e a perfeita funcionalidade do majestoso teatro-símbolo de Manaus, e o grande protagonista daquele logradouro. Infelizmente, no caso grave aqui denunciado, é forçoso dizer que até mesmo esta vitoriosa iniciativa está sob um risco iminente, uma vez que o entorno do Largo já foi inevitavelmente afetado por tais intervenções “artísticas”. Cadê o IPHAN que não se manifesta sobre isto? Será que só sabe vir aos holofotes quando é para falar da Santa Casa de Misericórdia ou alguma outra obra de caráter particular, que lhes dê palco e plateia? O que vão esperar mais? Que venha algum “gênio” da arte de rua – leia-se grafiteiro – lambuzar com suas mal traçadas tintas as lindas muralhas de arenito (pedra jacaré) que servem de arrimo ao Teatro Amazonas e ao Palácio da Justiça? Ou, pior, que pintem de dourado o belíssimo Monumento à Abertura dos Portos, como fez recentemente uma notória cidadã, autointitulada “artista plástica”, em relação à vetusta estátua do primeiro governador do Amazonas, João Baptista de Figueiredo Tenreiro Aranha, alocada há quase um século na Praça da Saudade? Do jeito que a coisa vai, é ladeira abaixo. Daqui pra pior...

    

               Com a palavra, os legalmente responsáveis pelas explicações, sobretudo a Prefeitura e a Câmara Municipal de Manaus, que têm, ambas, por obrigação, fazendo valer o Código de Posturas do Município e zelar pela ordem urbana, sobretudo no perímetro do chamado “Centro Histórico”, assim especialmente definido pela Lei Orgânica do Município. Questionado a respeito pelos autores deste artigo, o atual titular do IMPLURB, Carlos Valente, afirmou, lamentando, não haver no texto atual do Código de Posturas nenhuma normativa relacionada a tal caso concreto, mas prometeu refletir acerca da inclusão do tema na próxima revisão do Plano Diretor.

               Infelizmente, experiências pregressas nesse sentido não nos tornam nem um pouco otimistas. Há três anos, admoestamos um conhecido político da “safra” mais recente, então cumprindo o mandato de vereador, para que tomasse providências contra tais males, que, já àquela altura pretérita, anuviavam o horizonte de Manaus. Tudo em vão, uma vez que a tal autoridade, certamente muito cheia de si pela recente ascensão ao cargo, “comeu abiu” e simplesmente evanesceu no ar, como costumam fazer os “moleques” que arvoram-se de parlamentares antes mesmo de “desmamarem” de seus cacoetes de adolescência. Mas, como todo bom parafuso que se preza dá a sua volta completa de 360º, certo dia, nós o encontramos em uma solenidade. Ao questioná-lo diretamente sobre sua inação, ‘tête a tête’ - da forma que nosso querido e saudoso pai, Jefferson Péres, bem sabia fazer no trato com personalidades de perfil “escorregadio” - saiu-se, gaguejando, com respostas evasivas e pouco convincentes. Ato contínuo, provocamos novamente o “dito cujo” sobre o eventual manejo de sua parte, na qualidade de edil, de uma possível Ação Popular, um remédio constitucional que, via de regra, costuma ser bastante eficaz nestes casos, mormente quando o autor é uma pessoa pública. Não sabemos porque ainda nos surpreendemos quanto o tal neófito das tribunas, com um ar meio apalermado, ainda teve a desfaçatez de nos confessar, entre dentes, que simplesmente não sabia  como ingressar com tal remédio jurídico (!!!). E estamos combinadíssimos assim, como diria em tempos idos, com sua verve mordaz, a querida jornalista Leda Nagle.

         A inércia dos agentes municipais não exime, todavia, outros “atores” envolvidos na questão, e dos quais não se pode deixar de cobrar o mesmo grau de responsabilidade, em paralelo. São eles, evidentemente, o IPHAN, cujo ‘munus’ precípuo, insculpido em sua própria denominação oficial, é zelar pelo patrimônio histórico material e imaterial da nação brasileira; e o Conselho Estadual de Cultura, entidade criada há mais de cinquenta anos e da qual muitos sequer sabem da existência, em razão de seu crônica inexpressividade e inoperância. A todos eles, sem exceção, a sociedade amazonense dirige as mesmas perguntas, no caso em tela: 1) Quem são os agentes públicos – União, Estado, Município, ou todos concorrentemente - responsáveis por tais permissões, licenciosas e agressoras à paisagem urbana? Quais os critérios adotados para a escolha deste ou daquele “artista”, bem como dos temas a serem usados nos tais murais? Existe banca examinadora formada para tal finalidade? E, em caso positivo, quem são os seus componentes, e com que qualificação?  Quais os critérios para a eleição dos edifícios contemplados com tal intervenção “artística”? Muitas perguntas, enfim... E absolutamente nenhuma resposta para qualquer uma delas. Resta a nós, enquanto cidadãos indignados, apenas o dissabor, a cada passeio pelo velho Centro, de nos depararmos com uma sucessão de quadros dantescos – literalmente falando! - de péssimo gosto, pintados sabe Deus por que diletantes dos pincéis, e a custa de quanto dinheiro vertido de nossos já tão assaltados bolsos de contribuintes.  Senhor prefeito, senhores vereadores, senhores secretários, fiquem sabendo que ARTE (assim mesmo, em “caixa alta”) é coisa de “gente grande”, é coisa séria! Exigimos – enquanto cidadãos, enquanto munícipes, enquanto eleitores - uma cidade limpa. Nas ruas, nas sarjetas, nas calçadas e nos canteiros de praças. Mas também nas paredes de prédios públicos e particulares, que queremos (exigimos) livres de pichações grotescas e notório mau gosto. A arte que deve prevalecer no Centro é a que nossos ancestrais nos legaram nos “dourados” anos desta cidade, e da qual os senhores têm a obrigação de zelar, enquanto gestores públicos que são. Já que não têm a capacidade de fomentar boas ideias, respeitem e cuidem do nosso tão aviltado patrimônio histórico. É o mínimo que se pede.  E deixem a arte para quem realmente tem capacidade e estudo para produzi-la a contento. Fora, “Cafonália”! Abandone o corpo desta cidade que não lhe pertence!

 

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P.S.: Artigo escrito a quatro mãos, em parceria com Roger Carpinteiro Péres, irmão do articulista. Crédito das imagens: Rede Mundial de Computadores (Internet).

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Artigo publicado em 22.06.2025

Aspecto atual da “empena cega” do Edifício Palácio do Comércio, visto a partir da perspectiva do Teatro Amazonas.

Mural sobreposto à fachada lateral do Edifício Ajuricaba, que, entre as décadas de 1950 e 1990 abrigou o antigo Hotel Amazonas.

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Astrud Gilberto

A delicada “Voz do Brasil” na América

Por Ronald Péres

                Quem era a verdadeira “Garota de Ipanema”, afinal? Bem, a resposta é relativa, como diria Einstein. Para a grande maioria dos brasileiros de mais de 40 anos, letrados e minimamente “antenados” culturalmente, a imagem icônica da moça carioca, plena de charme e languidez, aquela “(...) coisa mais linda, mais cheia de graça, que vem e que passa, num doce balanço, a caminho do mar”, tem um rosto e um corpo muito bem definidos anatomicamente. Atributos físicos, no caso, pertencentes à bela morena Heloísa Eneida Mendes Pinheiro – ou Helô Pinheiro, para os íntimos – a conhecida “musa inspiradora” de Vinicius de Moraes (1913-1980) e Tom Jobim (1927-1994) quando, juntos, compuseram, em 1962, uma das canções-símbolo da Bossa Nova (1958-1964), o célebre movimento musical que, fundindo elementos melódicos e harmônicos do samba e do jazz numa nova e sofisticada vertente sonora, deu vez e voz (no sentido literal) ao Brasil no exterior, ali pela primeira metade dos anos 60.

  
                  Porém, caso a mesma pergunta fosse dirigida a outros interlocutores, pelo mundo afora, pessoas da mesma faixa etária e do mesmo nível sócio-cultural, a resposta certamente seria bem outra, uma vez que, para este público externo, a tal “garota” – ou, melhor dizendo, ‘the girl’ – relacionada à famosa e badalada praia da zona sul do Rio de Janeiro, muito mais que um rosto bonito e um corpo escultural, é, sobretudo, uma VOZ. A voz doce, marcante, de timbre delicadamente agudo e afinação perfeita de outra moça, extremamente tímida e reservada, e, por isso mesmo, uma quase desconhecida em seu país de origem: a baiana Astrud Evangelina Weinert, ou Astrud Gilberto (1940-2023), como ficaria conhecida artisticamente aquela que é, ao lado de Nara Leão (1942-1989), o mais representativo nome feminino da Bossa Nova, e certamente a artista brasileira mais conhecida e reverenciada nos Estados Unidos, há mais de sessenta anos.

                Astrud Gilberto, essa grande estrela distante e reclusa, quase uma Greta Garbo da MPB, nos deixou, como todos sabem, há exatos dois anos, no dia 5 de junho de 2023, aos 83 anos, recolhida em sua casa na Filadélfia e longe dos estúdios e microfones já havia mais de duas décadas. Surpreendentemente, o noticiário nacional – fugindo ao habitual padrão de indiferença adotado pela grande mídia televisiva nos últimos tempos – lhe foi bastante generoso, com boas matérias veiculadas na imprensa escrita do sudeste do país e uma boa cobertura jornalística, tanto na Globo News quanto no Jornal Nacional, no dia de sua partida. Nem poderia ser diferente. Astrud merecia. E como merecia... 

                  Sem jamais ter atingido nacionalmente os níveis mínimos de popularidade de outros grandes artistas de sua época, Astrud Gilberto marcou definitivamente a música brasileira, ao projetar, com sua classe, seu estilo e seu inegável talento, a nossa sonoridade mais conhecida e a nós mais associada até hoje – a da Bossa Nova - em níveis internacionais. E pensar que sua brilhante trajetória começou meio que por acaso, quase como que de brincadeira. A estória é deveras conhecida no meio artístico, e, como toda anedota, possui versões às vezes desencontradas em relação ao contexto preciso em que os fatos realmente se deram. Mas ocorreu mais ou menos assim:

 

           Em 1962, a Bossa Nova ganhou o mundo, a partir da apresentação de alguns dos nomes exponenciais ligados ao movimento – Tom Jobim, João Gilberto (1931-2019) Carlos Lyra (1933-2023), Roberto Menescal (1937-), e mais 14 artistas – no emblemático concerto do Carnegie Hall, de Nova York, em 21 de novembro daquele ano. Um show cercado de muita expectativa, que resultou num imenso sucesso de público e crítica, e que renderia dividendos comerciais indiretos para todos os nomes que dele tomaram parte, pelos anos vindouros. Um desses bônus imediatos foi a gravação, em 1963, de um álbum que faria história na discografia mundial, ‘Getz/Gilberto’, reunindo, como o próprio titulo entrega, a sonoridade jazzística do saxofone do músico norte-americano Stan Getz (1927-1991) – já então considerado uma lenda viva musical - à icônica “batida” do violão de João Gilberto, com sua harmonia diferenciada, cheia de cadência e brasilidade, desenvolvida com maestria pelo artista baiano nos anos 50, e que deu o tom para todas as composições do gênero daí por diante. Complementando tal nível de excelência musical, o histórico disco contou ainda, como “auxílio luxuoso”, com a participação de Tom Jobim ao piano, “coadjuvando” certas faixas do disco.

                Era o dia 18 de março de 1963. Sentada a um canto do estúdio de gravação, em Manhattan, Astrud Gilberto, casada com João desde 1959 e mãe de um filho de três anos, a tudo assistia, quieta, como uma simples esposa acompanhando o seu marido famoso em um compromisso de trabalho. Ela não era cantora profissional ainda, embora possuísse formação musical desde muito jovem. Na hora de registrar em áudio a faixa Garota de Ipanema, com o título e a letra vertidos para o inglês pelo compositor Norman Gimbel, chegou-se a um consenso entre os presentes de que a canção ficaria melhor com um acompanhamento vocal feminino, a fim de emular a “cor local” do Rio de Janeiro e a natural sensualidade da mulher carioca evocadas na música de Tom e Vinicius. Astrud, filha de um professor de idiomas, era fluente em inglês, e, ao ter seu nome cogitado como vocalista, predispôs-se imediatamente a integrar o grupo. Precedida pela introdução solo do sax de Stan Getz, a jovem de 23 anos deixou a timidez de lado, e, soltando a voz miúda e afinada nos versos iniciais – “Tall, and tanned, and young, and lovely... The girl from Ipanema goes walking... And when she passes, each one she passes, goes: Ah!... When she walks, she´s like a samba...  That swings so cool and sway so gentle that... When she passes, each one she passes goes: Uh!” – fez a magia acontecer na hora. Nascia ali, naquele exato momento, a léguas da pátria-mãe, uma nova estrela da música popular brasileira!

                   O resto é História. O álbum, ‘Getz/Gilberto’, lançado em março de 1964, já nasceu incensado como um verdadeiro clássico do jazz – ou do latin jazz, como os americanos rotularam a Bossa Nova - e tornou-se uma referência perene de música sofisticada, destinada aos salões mais refinados, ou lounge music, como se diz hoje em dia. Já o single ‘The Girl from Ipanema’, na voz suave de Astrud Gilberto, varreu o planeta instantaneamente e caiu nas graças de todos, vendendo nada menos que cinco milhões de cópias e se convertendo ao longo do tempo, segundo dados oficiais, na segunda gravação mais executada de todos os tempos, atrás apenas de ‘Yesterday’, da dupla Lennon & MacCartney, lançada alguns anos depois. No ano seguinte, 1965, tanto o disco quanto a canção, e também a própria Astrud, foram todos, merecidamente, laureados com o prestigiado Grammy Awards, como era de se esperar. Como toda estória de princesas – Astrud, no caso - tem sempre uma bruxa ou um vilão, esta aqui também teve o seu lado “do mal”, representado, no caso, pela figura de  Stan Getz. Este, além de partícipe, foi também um dos produtores do álbum, e, a despeito de seu imenso talento, era um conhecido cafajeste, misógino e “picareta”. Além de embolsar a “parte do leão” nos royalties auferidos pelos lucros do disco, 1 milhão de dólares (uma quantia fabulosa para os padrões monetários da época); e reservar ao brasileiro João Gilberto a “módica” soma (relativamente aos lucros obtidos, é claro) de 23 mil dólares; ainda cometeu a indelicadeza de se referir a Astrud como uma mera housewife (“dona de casa”) por ele descoberta, não lhe dando qualquer crédito nas duas faixas por ela gravadas (Garota de Ipanema e Corcovado) e – suprema humilhação! – acenando-lhe como estipêndio os meros 120 dólares exigidos pelo Sindicato dos Músicos norte-americanos pagos à performance de um crooner qualquer numa casa noturna. Haja patifaria!

         

            Explorada e aviltada, como mulher e como profissional, assediada moralmente por um “macho tóxico” e divorciada de outro - o mulherengo João Gilberto, que já andava de “amores alheios”, a essa altura do campeonato - Astrud, no entanto, sacudiu a poeira e “caiu pra cima”, como se costuma dizer. Graças à súbita fama alcançada, sua voz passou a ser presença constante nos lounges dos aeroportos, nas lojas de departamentos, nos restaurantes, nos ‘night clubs’, nos cassinos e onde mais fosse chic e elegante na sofisticada América dos anos 1960, pós John & Jackie Kennedy, e ainda não assolada pela revolução da “contracultura” trazida pelos beatnicks, pelos hippies e por Woodstock. Contratada pelo selo Verve Records (um dos mais prestigiados dos EUA), Astrud gravaria dez álbuns até o fim daquela década, todos envoltos num altíssimo nível de excelência, tanto em termos de repertório quanto de arranjos instrumentais. Num blending perfeito de canções em inglês e português (e ocasionalmente em outras línguas também), Astrud deixaria registrado em sua voz dulcíssima algumas das melhores versões não apenas dos clássicos da Bossa Nova e da nascente MPB, mas também de outros grandes compositores internacionais de sua época, como Johnny Mandel, Burt Bacarach, Michel Legrand e Francis Lai, dentre outros. Um total de 19 discos, até o fim de sua brilhante carreira, sendo o último lançado no ano de 2002.

    

                 Aldir Blanc escreveu um dia, em uma de suas geniais letras, celebrizada na voz de Elis Regina, que “(...) o ‘BRAZIL’ não conhece o BRASIL”. Referia-se, o saudoso compositor carioca, de forma irônica e alegórica, ao desprezo mal disfarçado que uma parte das esnobes elites urbanas demonstravam e ainda demonstram pela verdadeira cultura ancestral da nação, enraizada nos grotões do país, nos sertões e cidades do interior. Ao evocar a grandeza de uma artista do porte de Astrud Gilberto - um verdadeiro tesouro cultural da nação brasileira, cujo encargo de “fiel depositário” coube desde sempre, por ironias do destino, aos norte-americanos – tomo de empréstimo o mote de Aldir, e ouso pedir licença ao mestre para, no caso específico das artes, de modo geral, afirmar que o Brasil, infelizmente, também não conhece o “outro” BRAZIL. O Brazil de Astrud Gilberto, de Sérgio Mendes, de Flora Purim, de Airto Moreira, de Paulinho da Costa, de Gaudêncio Thiago de Mello (irmão de nosso grande poeta Thiago de Mello), de Laurindo de Almeida, de Nelson Freire, de Márcia Haydée, de Alberto Cavalcanti, de Florinda Bolkan e de tantos e tantos nomes espetaculares que, brilhando em outras plagas, muito nos orgulharam no passado; e de outros que ainda nos orgulham até os dias de hoje. Um Brasil maiúsculo, um Brasil vitorioso, um Brasil verdadeiramente brasileiro. Ainda que internacional. Para esse BRAZIL, todas as palmas, todas as loas, todos os méritos, todo o nosso respeito e reverência...   

 

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P. S.: Crônica originalmente publicada na página pessoal do autor, no Facebook, em 2023. Crédito da imagem: Rede Mundial de Computadores.

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Artigo publicado em 08.06.2025

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Cartaz da ópera Carmen, de Georges Bizet, levada à ribalta do Teatro Amazonas em março de 1905.

A EFÊMERA E DISCRETA (PERO NO MUCHO) PRESENÇA CIGANA NA MANAUS DA BORRACHA

                Sempre que os historiadores e cronistas, sejam eles do passado ou do presente, trazem à baila temas e aspectos relacionados ao cosmopolitismo de Manaus durante a chamada “época áurea” do Ciclo da Borracha, é inevitável a menção, feita apenas en passant ou de forma mais aprofundada, aos diversos povos estrangeiros que, entre o último lustro do século XIX e os três primeiros do século XX – vale dizer, entre 1895 e 1915 – compunham o colorido melting pot (mosaico cultural) que caracterizava a emergente e próspera capital amazonense.

  
                  Fossem esses adventícios imigrantes no sentido clássico da expressão, aqui estabelecidos com animus definitivo - caso dos portugueses, espanhóis, italianos, sírio-libaneses e judeus (estes de origem francesa ou marroquina) - ou forasteiros residentes por força de algum vínculo comercial ou contratual com alguma firma ou concessionária de capital estrangeiro (condição em que se enquadravam os ingleses e alemães); o fato inconteste é que, se porventura tivéssemos ao nosso dispor uma “Máquina do Tempo”, tal e qual aquela concebida pela fértil imaginação do romancista britânico H. G. Wells (1866-1946), e nos teletransportássemos, subitamente, para a Avenida Eduardo Ribeiro ou para qualquer um dos logradouros de nossa cidade no início dos 1900´s, nos depararíamos com uma verdadeira “Babel” de variadas línguas e rostos de muitas etnias, presentes nos mais diversos segmentos laborais: ora labutando de sol a sol na dura estiva portuária; deambulando pelas ruas e praças, como mascates, a mercadejar suas mil e uma quinquilharias; ora servindo de “caixeiros” (balconistas) em finas lojas de roupas e tecidos ou em empórios de variedades; ora como taverneiros ou pequenos artesãos; ora, já sob um status mais burguês, figurando como joalheiros, relojoeiros, fotógrafos ou altos funcionários de bancos, casas de câmbio, corretoras e grandes firmas de importação, exportação e aviamento; ou, por fim, já como integrantes de um grupo mais seleto e mais alto da pirâmide social, como destacados engenheiros/arquitetos, capitalistas (empresários) ou agentes consulares de seus respectivos países de origem.

               

                Tirante as famosas “polacas” das pensões e cabarés do alto e do baixo meretrício - que, apesar do nome, eram, em sua maioria, pobres moças judias procedentes da Europa Central, cedo decaídas no submundo da prostituição como vítimas do tráfico internacional de “escravas brancas” - todos os grupos acima citados, tão logo aportaram em Manaus, procuraram integrar-se ao tecido social do ‘mainstream’ - ou seja, a sociedade local, brasileira, de origem cabocla ou nordestina, que compunha a maioria (cerca de 80%) da população da capital baré, sendo a quinta parte residual representada pelos povos citados acima, segundo estimativas contemporâneas feitas com base em estatísticas de época. No caso dos “povos morenos”, digamos assim, procedentes do entorno da bacia do Mediterrâneo, a integração foi total, tendo se dado não apenas pela via do trabalho, mas principalmente através do casamento de muitos imigrantes (ou de seus descendentes da primeira geração) com membros de famílias amazonenses. E o resultado está aí, diante de nossos olhos, até hoje, materializado através de tantos sobrenomes tradicionais de nossa sociedade, de característica sonoridade lusitana, hispânica, itálica, arábica ou hebraica. A esse típico e salutar fenômeno social – parte indissociável da  chamada “globalização” - podem se associar vários substantivos, quase todos sinônimos ou correlatos entre si: diversidade, pluralidade, inclusão, integração, pertencimento. Palavras que incomodam profundamente a todas as pessoas de forte tendência ideológica racista ou xenofóbica, pecados dos quais a sociedade amazônica, de modo geral, jamais padeceu, pelo menos em níveis assustadores e patológicos como se vê em outros quadrantes globais, mal disfarçados sob a odiosa bandeira do nacionalismo de extrema-direita. Mas isso é assunto para outra crônica...            

 

                   Hoje quero falar de outro povo, de outra gente vinda de terras distantes, de uma etnia exótica e fascinante, do ponto de vista histórico e cultural, cuja efêmera presença na “capital mundial da borracha” passou praticamente despercebida pelos cronistas do passado, assim como pelos historiadores modernos. Refiro-me aos misteriosos ciganos, também conhecidos por diversos outros nomes, a depender do idioma de cada país  com o qual tenham tido contato ao longo dos séculos: gitanos (em espanhol), gitanes (em francês), zíngaros (em italiano), gipsies (em inglês), zigeuner (em alemão), tsygan (em russo), e por aí vai, com sonoridades variadas, porém similares, entre uma e outra denominação.

 

               Nação antiquíssima, cujas raízes remontam, segundo estudos desenvolvidos pelos etnólogos e filólogos, ao noroeste do Subcontinente Indiano (mais especificamente a região histórica do Punjab, atualmente dividida entre a Índia e o Paquistão), o povo cigano, historicamente, sempre se autodenominou, na verdade, de povo rom (ou roma), palavra que significa “homem” em seu idioma próprio, o romani, aparentado, em termos linguísticos, a outros idiomas do chamado “tronco indo-ariano”, como o híndi, o urdu e o punjabi, falados no sul da Ásia.  Historicamente nômades e apátridas - ou seja, sem fixação duradoura em nenhum país específico – os ciganos iniciaram a sua perene transumância transcontinental no século XI, deslocados pela grande invasão de tribos afegãs no norte da Índia, que deu origem ao poderoso Império Mogul. E de lá pra cá não pararam mais. Sempre marchando na direção oeste, nos últimos novecentos anos os ciganos percorreram o Oriente Médio, os Bálcãs (onde se fixaram por mais tempo, sendo até hoje uma população expressiva na Romênia), a Rússia, a Europa Central, as Ilhas Britânicas, a França, a Itália, a Península Ibérica, até atingirem as Américas, sendo sua presença no Brasil colonial registrada já em 1574.

 

            Semelhante ao que ocorre em relação os judeus - até hoje divididos culturalmente entre duas correntes distintas, os asquenazitas e os sefaraditas – a população cigana espalhada pelo mundo também cinde-se em dois subgrupos principais (por sua vez segmentados em vários grandes clãs): os ‘rom’, propriamente ditos, advindos da Europa continental; e os ‘calón’, procedentes de Espanha e Portugal, estes últimos de tez mais trigueira, provavelmente em razão de sua mistura com os mouros vindos da África, que, por mais de setecentos anos, ocuparam as terras da Ibéria. Independentemente, todavia, de sua “afiliação tribal”, digamos assim, todos os ciganos comungam de traços culturais comuns, além do idioma e do nomadismo (que constitui o seu grande traço distintivo enquanto nação). Em geral são pessoas alegres e comunicativas, com pendor para o lado lúdico e místico da vida, tendo demonstrado, desde sempre, uma grande propensão para as artes musicais (o canto, a dança e a música instrumental), as técnicas circenses (como domadores e acrobatas, principalmente) e as chamadas “ciências esotéricas” - no caso, a cartomancia e a quiromancia, com vistas à “leitura” da buena dicha (boa sorte, em castelhano), ou seja, do destino das pessoas, através das cartas do baralho e das linhas da mão, respectivamente.

 

                   Os mitos e preconceitos envolvendo a cultura cigana têm sido explorados à farta, desde o século XIX, pela Literatura, pelo Teatro, e, depois, pelo Cinema. Diversos são os livros, peças, óperas e filmes que retrataram a figura do cigano (ou cigana) de sensualidade carnal, que, por meio de sua dança lasciva ou de seus sortilégios, desperta amores “vulcânicos” nos gadjés (como eles se referem a todos aqueles não ciganos). No viés contrário, os autores, muitas das vezes, optam por valer-se da figura caricatural do zíngaro ladrão de cavalos, ou da gitana idosa que se aproveita da ingenuidade dos incautos para aplicar golpes ou surrupiar crianças a seus pais. São arquétipos, claro, personagens estilizadas,  pinçadas de uma cultura exótica e ambígua, cheia de  peculiaridades, mas de um fascínio inegável. E que, até mesmo por conta desse caráter hiperbólico, “rico nas tintas”, ficam perenizadas no imaginário coletivo. Quem, com certa idade e um grau mediano de erudição, não se recorda da bondosa Esmeralda (do clássico romance O Corcunda de Notre Dame, de Victor Hugo) e da sedutora Carmen (da ópera homônima de Bizet), ciganas vividas nas telas de cinema pelas belíssimas ruivas Maureen O´Hara e Rita Hayworth, respectivamente? Ou, num recorte mais recente e low level, do charmoso cigano Yago e do mudo cigano Igor das telenovelas Pedra sobre Pedra (1992) e Explode Coração (1996), ambas da TV Globo? Na ficção, o menu cigano é farto e variado, e fica a gosto do freguês...   

         

             

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

              Todas essas obras clássicas consolidaram no imaginário coletivo o tradicional modus vivendi do povo cigano, sempre vagando de vilarejo em vilarejo, de cidade em cidade, em grandes caravanas, com seus carroções cobertos enfeitados de mil e um adereços exóticos, e imbuídos de sua agitação característica, que sempre atraía olhares curiosos ou desconfiados, de uns e outros, por onde quer que passassem. Gregários e, via de regra, endogâmicos, sempre se comportaram de modo tribal (uma natural forma de defesa psicológica diante do preconceito que sofriam por parte dos gadjés), estabelecidos de forma sedentária nos lugares apenas por curtos períodos – que podiam se estender por dias, semanas ou meses - em tendas precárias montadas em acampamentos provisórios, geralmente na periferia das zonas urbanas. Nestes aldeamentos temporários, os gitanos do sexo masculino ocupavam-se durante o dia com serviços avulsos (os chamados “bicos”) ou com trabalhos artesanais (na ferraria, funilaria e outras artes industriais). Machistas, costumavam deixar suas mães, irmãs, esposas e filhas nos acampamentos, bem resguardadas de olhares cúpidos de estranhos, à sua espera para os momentos de congregação e diversão noturna, em volta de grandes fogueiras, ocasiões nas quais a música das guitarras, dos violinos, dos acordeons, dos bandolins e das castanholas dava o tom e o ritmo de danças exuberantes, executadas por jovens e belas ciganas vestidas à moda tradicional, com suas saias estampadas, seus bustiês de decotes salientes, seus lenços multicores adornando a fronte e seus mil e um adereços dourados e prateados ataviando os tornozelos, cinturas, dedos, braços, colos e orelhas das insinuantes “filhas de Eva”. Ou seria mais correto dizer “filhas de Salomé”?

    

                 Esse é o lado romântico da cultura cigana, que, longe de ser uma mera figura alegórica criada pela imaginação fértil de novelistas ou  cineastas, fez parte do cotidiano real daquele povo até bem pouco tempo, em termos históricos (há 50, 60 anos, talvez), antes que o advento maciço da chamada “globalização” e as seduções da moderna sociedade de consumo os conduzisse a um maligno processo de “quase suicídio cultural”, fazendo com que os ciganos mais jovens, ao optaram por ter uma vida “normal”, digamos assim – ou seja, caracterizada pela sedentarização perene nas grandes cidades, pelo exercício de profissões regulares e pelos “casamentos mistos” com pessoas de outras culturas – optem, em paralelo, por esconder sua origem e suas tradições da sociedade em geral, e, pior, envergonhar-se delas, ameaçando, com isso, sua continuidade enquanto etnia e enquanto nação, no sentido antropológico do termo. São os chamados “criptociganos” (ciganos ocultos). Pessoas comuns, que podem ser seus vizinhos, seus conhecidos, seus amigos, ou até mesmo figuras públicas muito conhecidas de todos, mas que, por razões de foro íntimo, enrustem a sua condição, por medo, evidentemente, de sofrerem sanções sociais de todo gênero.

                 Nesse sentido, é lamentável quando, ao olharmos para o passado não muito distante, tomamos conhecimento de que personalidades admiráveis como o ator Charlie Chaplin, o cantor Elvis Presley ou o ex-presidente Juscelino Kubitschek, mesmo sendo exemplos para milhões de pessoas dentro dos seus respectivos campo de atuação, jamais tenham tido a hombridade de assumir sua parcial ascendência cigana, como se um simples fator genético pudesse representar uma nódoa indelével em suas vidas. É triste, mas foi assim que se passou. No viés contrário, é louvável, por outro lado, quando, já nos nossos “tempos modernos” (para evocar Chaplin), outras figuras públicas tragam à baila tal ancestralidade, sem maiores constrangimentos. E ufanem-se dela, o que é melhor. Este é o caso, por exemplo, dos queridos atores Dedé Santana e Ana Rosa (que um dia já foram casados), do talentoso compositor Wagner Tiso e do icônico cantor Sidney Magal. Afinal de contas, é inadmissível que alguém, em sã consciência, possa se permitir, nos dias de hoje, esconder “a delícia de ser o que é”, para parafrasear a letra da linda canção de Caetano Veloso. Deo gratias! Nem tudo é mau, feio ou podre nos tempos estranhos em que vivemos...  

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                  Mas onde entra mesmo Manaus nessa longa história? Ou, melhor dizendo, por onde entraram os ciganos na história daquela tão decantada e próspera Manaus de antanho, há mais de cem anos, época em que a nova “terra da promissão” do norte brasileiro jactava-se de abraçar o mundo inteiro com a riqueza súbita que lhe fora proporcionada pelo “ouro branco” (a borracha)?

             Sim, porque eles também se fizeram presentes na capital amazonense naquele período histórico. Evidentemente que, dadas as dificuldades de ordem logística que, até os dias atuais, determinam certo isolamento da Amazônia frente às demais regiões do país, não é crível supormos a chegada a Manaus, por via terrestre, de caravanas de ciganos montados a cavalo ou a bordo de suas tradicionais carroças, tal e qual se via com frequência nas planícies europeias, ou, tempos depois, já em terras brasileiras, nos sertões nordestinos e do centro-sul. É lógico que os que aqui aportaram o fizeram literalmente, pelo Rio Negro, desembarcados no Roadway da terceira classe dos grandes navios transatlânticos que conectavam Manaus à Europa, ou dos barcos de carreira regionais que percorriam a calha dos grandes rios amazônicos. Como não eram imigrantes, no sentido estrito do termo, certamente passaram despercebidos pelas estatísticas oficiais das autoridades portuárias, tendo sido registrados como meros viajantes, de passagem fortuita pela cidade, e, assim mesmo, no caso dos europeus, como cidadãos procedentes dos países que expediam seus documentos, jamais como ciganos.  

 

              A aprofundada pesquisa que fizemos junto à Hemeroteca Digital Brasileira - portal da Internet que disponibiliza ao grande público o riquíssimo acervo de jornais e periódicos da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro – não nos permitiu extrair maiores dados a respeito da chegada dos ciganos a Manaus, bem como da durabilidade e das condições de sua estadia na capital da borracha. Quantos eles eram? Vinham em grupos, em família ou de forma isolada? Partindo-se do princípio de que não eram pessoas abonadas, como mantinham sua subsistência, nesse ínterim?  Abrigavam-se em pensões, hospedarias e estâncias (cortiços)? Ou, seguindo suas tradições, armavam acampamentos a céu aberto, nas praças públicas e terrenos baldios? Infelizmente, não temos essas respostas precisas, a não ser sob a égide de plausíveis suposições, tomadas a partir do modus operandi dos grupos ciganos em todos os lugares por onde passavam.   

             

               O certo é que até 1905 não há o registro de qualquer notícia sobre a presença cigana em Manaus. Todavia, entre 1906 e 1912 – ou seja, justamente o período final do Ciclo da Borracha, época em que as receitas do Erário atingiram o seu pico – eclodiu uma súbita “invasão cigana” na  cidade. Nada mais natural, levando-se em conta que, já estando perfeitamente constituída como um grande centro urbano, Manaus vivenciava o auge de sua riqueza, o que a tornava, aos olhos cúpidos dos forasteiros que aqui chegavam, em levas cada vez maiores, uma espécie de ‘Eldorado da Fortuna”, uma fonte onde diversas nações queriam beber. Inclusive, quem diria, os improváveis ciganos.

 

                   Essa curiosa associação, que conecta um povo exótico e ancestral a uma urbe em plena ebulição econômica, como era Manaus no início do século XX, nos leva, inevitavelmente, a projetar em nossas mentes, de forma aleatória, imagens alegóricas acerca desse choque histórico-cultural, em recortes similares àqueles urdidos pelos romancistas do século anterior. Como num caleidoscópio, é sedutor imaginarmos ciganos vestidos a caráter, com suas vestes coloridas e lenços à cabeça, perambulando pela Manaus da Belle Époque e interagindo com os manauaras nas mais diversas situações: ora acampados na então erma e baldia Praça da Saudade; ora parados à porta dos cinemas e dos cafés, oferecendo aos transeuntes a leitura da buena dicha em troca de alguns cobres; ora batendo de porta em porta, nas casas de família, em busca de algum serviço rápido e ocasional (e sendo, quiçá, rechaçados com desconfiança pelos donos); ora, de forma irreverente, rindo e falando alto pelas ruas, tirando chistes com uns e outros; ora se anunciando, como exímios artistas que muitos deles eram, nos circos itinerantes ou no palco do recém-inaugurado Cassino Julieta (futuro Cine Guarany)... As possibilidades são muitas, e todas possíveis de terem ocorrido durante esse breve interlúdio de sua comprovada passagem pela “Manô” daqueles anos febris. Mas o fato é, que ao que parece, nenhuma delas foi registrada pelas crônicas da época, nem mesmo em brevíssimas e curiosas notas da seção de variedades. A única exceção, nesse caso, foi a grata descoberta de um lindíssimo poema intitulado La Tzigane (A Cigana), escrito em francês, de doze estrofes, de autoria de uma poetisa de nome Aida Marohn. Quem seria essa mulher misteriosa? Uma viajante, de provável origem franco-cigana, de passagem pela cidade? Ou uma artista, com pauta agendada no Teatro Amazonas, quiçá?  Ou, quem sabe, até mesmo um pseudônimo de outra pessoa, mulher ou homem? Não consegui apurar, até o momento. Mas me dei ao trabalho de, junto com meu irmão Roger, traduzir livremente a poesia, uma delicada peça que, como o próprio indica, exalta a beleza e os predicados da mulher cigana e sua inevitável vocação para a liberdade (a tradução do poema se encontra acostada ao final desta crônica, e a cópia do original em francês eu detenho em meus alfarrábios, podendo cedê-lo para aqueles que, porventura, se interessarem em lê-lo na língua de Verlaine).

  

             Infelizmente, é malgrado dizer, a bem da verdade histórica, por nós pesquisada à farta, que, ao que tudo indica, os ciganos parecem ter entrado pela “porta dos fundos” daquela Manaus tão rica e tão opulenta, que sobre eles parece ter deitado somente os olhos do preconceito, da xenofobia e da misoginia, relacionando-os sempre – as mulheres ciganas, em particular – ao mundo do crime e da contravenção, ao ambiente bruto das delegacias e das enxovias e à indesejável estampa nas colunas policiais. Afinal de contas, o reles “mundo cão” das misérias do cotidiano sempre vendeu muito mais jornal que o rico e variado mundo vendido aos leitores no estilo National Geographic. No caso, dos indomáveis e orgulhosos ciganos, sempre foi mais fácil taxar-lhes a pecha de “ratuínos”, “vagabundos”, “trapaceiros” e “ladinos” do que procurar entender os motivos – repulsa por parte da sociedade em geral, desespero diante da falta de empregos e oportunidades ou simplesmente a fome, o puro instinto animal de sobrevivência - pelos quais os mesmos eventualmente descambavam para os chamados “malfeitos”. As notas que pinçamos abaixo, extraídas das páginas do Jornal do Commercio e do Correio do Norte são assaz explícitas e exemplificativas nesse aspecto. Senão, vejamos:   

 

OS CIGANOS

“Chamamos a atenção da Polícia para esses vagabundos e ratoneiros. Ontem, na Rua do Progresso, quase no canto com a Rua Luiz Antony, uma cigana, aproveitando a distração de uma criada, arrebatou uma criança que brincava na calçada. Não conseguiu levá-la, a não sabemos para onde, porque o merceeeiro da esquina, acudindo aos gritos da criada, perseguiu-a e tomou-lhe a criança.”

 (Correio do Norte, Ed. 120, de 10 de junho de 1906)

 

“A fim de ler a ‘buena dicha’ de alguns desordeiros aquartelados na Chefatura, foi ontem levada para o xadrez a cigana de nome Maria Thereza, natural da República de Montenegro. Além de uma porção de coisas misteriosas, a referida rapariga tinha em seu poder 70$000 em papéis e uma libra esterlina.”

(Jornal do Commercio, Ed. 573, de 2 de agosto de 1906)

 

AS TAIS CIGANAS

“Está a Segunda Delegacia às voltas com mais um caso em que se acha envolvida uma das ciganas que andam em bando pela cidade, a explorar a credulidade pública.

A vítima, segundo rezam as notas da Segunda Delegacia, foi d. Idalina Santos, residente à Rua Dr. Moreira. A cigana procurou-a, convencendo de que adivinharia o futuro de d. Idalina, desde que essa senhora lhe desse a quantia de cento e vinte mil réis. A proposta foi aceita, de modo que a cigana conseguiu haver o dinheiro, nada, porém, tendo feito.  

O subdelegado, Oséas Motta pôs os agentes em campo, e descobriu que a autora da ratonice se chama Maria Marino. Presa, confessou a sua culpa. Contra ela age a autoridade na forma da lei.”

 (Jornal do Commercio, Ed. 1601, de (...) de 1908)

 

FATOS POLICIAIS

“Queixou-se ontem, na 1ª Delegacia, o sr. Manoel Carneiro da Silva, residente no Mocó, que dera a quantia de 110.000 réis a uma cigana para curá-lo de uma enfermidade, e que a mesma não só não lhe deu o medicamento algum como se negou depois a restituir a referida importância. A autoridade providenciou para a captura da referida cigana.”

(Jornal do Commercio, Ed. 1787, de 14 de março de 1909)

 

“É costume velho da cigana Maria Baidou  ‘dissolver’ em um copo d´água 500$000 para poder ler a ‘buena dicha’ de qualquer pessoa. Ontem deu-se este caso com o seringueiro Rosendo Gomes de Oliveira à Rua Ramalho Junior, pela citada cigana, que escamoteou os 500$000.

Todavia, o subdelegado Arthur Passos, com o escrivão Pessoa de Carvalho, deram, em tempo, rigorosa busca, encontrando finalmente os 500$000 do pobre Rosendo, escondidos em um bolso falso. Aquela autoridade mandou lavrar os competentes autos de apreensão e entrega, o que foi logo feito. Maria Baidou ficou recolhida ao xadrez.”

(Jornal do Commercio, Ed. 2121, de 25 de fevereiro de 1910)

 

“Um caso pitoresco para hoje: Sophia Anoiche, cigana, natural da Sérvia, de 16 anos de idade, queixou-se à 1ª Delegacia de que o seu irmão Dragmil Anoiche quer obrigá-la a casar com o cigano José Michele, de 16 anos, filho de Michele Costiggi. E, como Sophia não quer submeter-se aos desejos de seu irmão, esse a tem maltratado muito. Por sua vez, Michele tomou partido a favor de seu filho José e andou “às beijocas” com a Sophia. O caso é que Sophia há sido uma vítima desses amores forçados, tendo sido até “vendida”, em Belém do Pará, por 5,95 libras. De que teve conhecimento a polícia daquela capital. A nossa polícia, porém, já trancafiou no xelindró os ciganos Michele Costiggi, Dragmil Anoiche e José Michele.”   

(Jornal do Commercio, Ed. 2149, de 25 de março de 1910)

 

A ONDA DAS CIGANAS INVADE MANÁOS

O comércio da ‘buena dicha’ e os incautos

 

“Derrama-se atualmente, por todos os recantos da cidade, uma vasta e perniciosa onda de ciganas. A invasão das ladinas mulheres desdobra-se pelos hotéis e pelas estalagens; elas penetram nos lares, e, nas ruas, abordam intempestivamente os transeuntes incautos. E ai daquele, dos mais inexperientes, que lhe cai nas mãos. São jeitosamente explorados, e, crentes, lhes pagam bem, lhes remuneram generosamente.

Elas fazem bom negócio porque prestam os serviços de sua profissão, cobrando de acordo com a cara e a disposição do cliente. E aproveitam bem. É de notar que incitam mais a gananciosa especulação das ciganas a incauta paciência e a franca generosidade de alguns seringueiros menos práticos nas coisas da traficância.

A Polícia deve ler a ‘buena dicha’ das ciganas.”

(Jornal do Commercio, Ed. 2958, de 14 de julho de 1912)

  

AS CIGANAS PERPETRAM MAIS UMA FALCATRUA

“As ciganas, as inefáveis leitoras da ‘buena dicha’, estão transgredindo das suas funções inofensivas de habilidosas quiromantes, penetrando num campo de franca roubalheira.

Fantasiadas de arlequim, exóticas na berradeza policrômica de suas vestes esquisitas, atiram-se à cata de aventuras mais ou menos criminosas, que muitas vezes valem a dura provação de um dia de xadrez. Mas, não se emendam, as terríveis associadas de Mephisto.

Ontem, noticiamos um dos seus contraproducentes rasgos de hierofatismo, que não passou de uma refinada ladroeira em que foi vítima um morador da Avenida Ayrão. Agora temos mais outra.

Maria Milano, a cigana em questão, esteve ontem no Hotel Manáos, onde, depois de muitos rodeios e súplicas, conseguiu que a senhora do hóspede do citado hotel, senhor Alfredo Palhano, lhe estendesse a destra para ver saltar das suas linhas o segredo de um futuro, como sempre, prometedoramente benéfico. Finda a operação, no momento em que a sua freguesa dava as costas, a esperta cigana surrupiou-lhe da mala a importância de 45$, pondo-se a andar, em seguida.

Alfredo Palhano, sendo informado da patifaria da cigana, foi à Delegacia do 1º Distrito, e aí historiou o caso. Maria foi capturada, restituindo à sua vítima a quantia de 36$, afirmando só haver roubado aquele cobre.”

(Jornal do Commercio, Ed. 3016, de 10 de setembro de 1912)

 

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                    Tão pronto quanto surgiram na dourada Manaus da borracha, os bandos de ciganos, que, tal e qual aves de arribação, nela pousaram numa “chuva de verão”, um belo dia levantaram acampamento e também evanesceram, como num passe de mágica. Não foram os únicos, bem o sabemos. Outros forasteiros e estrangeiros – muitos destes recebidos com “tapete vermelho” nos salões da boa sociedade - também o fizeram, quase que paralelamente, num momento em que a “barca da riqueza” amazônica já começava a fazer água por todos os lados, indo soçobrar logo ali adiante, nos escolhos visíveis e incontornáveis da débâcle já há algum tempo anunciada pelos faróis dos balancetes da Receita estadual. Ficou na cidade quem tinha de ficar, como sempre acontece nos momentos de penúria: os seus filhos naturais, e aqueles, mesmo vindos de plagas longínquas, filialmente a adotaram de coração. E, entre estes últimos, obviamente, contavam-se gente de todas as raças e credos, que ajudaram a construir uma nova história para nossa terra: portugueses, espanhóis, italianos, peruanos, judeus, sírios, libaneses, japoneses... Então, sem qualquer viés xenofóbico (muito pelo contrário), é gostoso pensar que, no meio dessa mélange multicultural, um ou outro ciganinho (ou ciganinha), possa também ter sido capturado na teia de suas próprias artes místicas, tenha também se deixado enfeitiçar, graças a algum “sortilégio amazônico” (e eles são muitos), pelos encantos de alguma caboclinha (ou caboclinho) de jeito brejeiro, olhar maroto, corpo malemolente e “pé no chão” (às vezes, literalmente); e, casando e formando uma nova família, tenha também contribuído com seu antiquíssimo DNA, oriundo lá da velha Índia, para a configuração da Manaus que conhecemos hoje. Et pourquoi pas?

 

“O céu é o meu teto, a terra é a minha pátria, e a liberdade é a minha religião.”

(provérbio cigano)

 

A Cigana

 

Ela caminha, leve como uma sílfide,

Deixando seu vestido plissado flutuar ao vento,

Roçando o chão com passos lépidos e ágeis,

Esbelta, vivaz, esguia e ereta como um lírio.

 

Seu pés são graciosos; correm sem parar,

Sem nunca se cansar; são arqueados, curvos e torneados,

Eu prefiro eles aos pés ataviados de uma princesa,

Pés que, mesmo sob a chuva, ainda permanecem imaculados.

 

Ela passa, e caminhando, majestosa e bela,

Balança suavemente como um grande junco,

Que, embalado pelo vento, se inclina languidamente,

E verga, curvando-se sob o peso de um pássaro.

 

Sobre sua fronte, seus cabelos crespos caem rebeldes,

Em tufos, abundantes, porém indisciplinados;

E mais de uma beldade, bela entre as belas,

Teria invejado a delicada forma de seu nariz.

 

Sob os lábios fartos, nos quais seu sorriso desponta,

Vislumbramos o brilhante esmalte dos seus dentes;

E nada se compara ao volume opaco de suas maçãs de pele morena

Tornando ainda mais belos seus olhos ardentes.

 

Ela aprecia as cores luzentes,

E, sobre sua cabeça, enrola um lenço amarelo e vermelho,

Seus seios são adornados com um colar de lantejoulas,

E, coquette, ela canta, sem receio do amanhã.

 

Sem protestar, ela segue, resoluta e altiva,

Seu marido, de tez bronzeada, o eleito por seu coração.

Nômade, ele vaga, de cidade em cidade, em busca de trabalho,

E em todas as paragens compartilha com sua esposa a sua aflição.

 

Ela ampara o marido em sua árdua labuta

De ferreiro, caldeireiro, pedreiro ou seja o que for;

E, charuto entre os dentes, sorri habitualmente,

Ainda cantarolando aquela ingênua canção...

 

À noite, sob sua tenda, em meio à planície,

Ela senta-se ao redor de uma enorme e reluzente fogueira;

E, levando seu filho em suas mantas de lã,

Amamenta-o, acalentando-o ao som plangente de uma melodia.

 

Então, ainda fumando, visionária e sorridente;

Ela venera seu filho e sua mãe serenos,

Sem pensar no longínquo porvir.

Enquanto o bebê abranda com esse refrão,

 

Ela é a Cigana, é a borboleta que voa,

E graceja de flor em flor, cintilante;

Todavia, tenha cautela, pois, sob tal frívola máscara

Resta oculta a  fagulha do carvão em brasas.

 

Manáos, janeiro de 1910 – Aida Marohn

 

Poema La Tzigane, publicado originalmente no Jornal do Commercio de Manaus (edição 02082) em 16 de janeiro de 1910. Traduzido livremente por Ronald e Roger Carpinteiro Péres em 14 de abril de 2025.

Crédito das imagens: Rede Mundial de Computadores.

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Artigo publicado em 04.05.2025

A atriz norte-americana Rita Hayworth (1918-1987), caracterizada como Carmen, a sedutora cigana de Sevilha, em cena do filme homônimo, de 1948, da Columbia Pictures

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Burt Bacharach - A música que “amolece” o coração

Por Ronald Péres

          “Morre o homem, fica a obra!”. Este é um adágio popular muito conhecido, e que costuma ser evocado a cada vez que a “magra” ceifa para junto de seus braços alguém muito valoroso, em termos pessoais e profissionais - um escritor, um artista, um filantropo, um filósofo, etc. Pessoas ímpares, notáveis, que, ao partir, deixam atrás de si, como legado perene para os seus semelhantes um inestimável acervo de coisas boas,  belas e duradouras; seja em forma de  livros, canções, filmes, peças, trabalhos humanitários, discursos e pensamentos. É este precisamente o caso de um homem genial, de quem o mundo se despediu há dois anos, aos longevos e bem vividos 94 anos: Burt Bacharach (1928-2023), um dos maiores compositores da segunda metade do século XX, autor de mais de 500 canções, gravadas por outras tantas centenas de grandes artistas (cerca de mil, segundo a Wikipedia), muitas delas lideres das paradas de sucesso nos Estados Unidos da América, e que valeram a Burt nada menos que seis Grammy´s e três Oscar´s ao longo de sua carreira.

  
            Aqui no Brasil, país infelizmente cada vez mais alienado culturalmente, sua morte, noticiada em parcos minutos veiculados aqui e acolá, “passou batido”, engolfada pelo noticiário comezinho e provinciano do dia-a-dia, que a todos deprime e oprime. Um triste espelho de nossa atual e crescente pobreza cultural. Pena pra nós, que só nos diminuímos enquanto nação ao reverenciar certos “ídolos de pés de barro” (vivos ou mortos), esquecendo-nos daqueles que foram e sempre serão realmente grandes, no sentido mais amplo da expressão, independentemente das modas e das mídias. Este era precisamente o caso desse excepcional artista norte-americano chamado Burt Bacharach, que, por ocasião de sua partida,  deixou “órfãos” os meus apurados ouvidos musicais, assim como os de centenas de milhares de melômanos pelo planeta Terra afora.

 
         Burt era um gigante, uma lenda, um “monstro sagrado”, como se diria no passado, da música mundial. Sua arte, que teve seu auge entre as décadas de 1960 e 1980, atravessou gerações, e permanecerá eterna, enquanto romances e pessoas românticas houver, pois, tendo como invariável tema o amor, ela fala diretamente ao coração dos apaixonados, por meio de baladas extremamente ricas melodicamente – compostas ora numa suave cadência jazzística à base de um duo de piano & sax, ora num orquestrado e sincopado ritmo de swing com vários instrumentos - muitas versadas pelo grande parceiro de Burt no apogeu do sucesso, o letrista Hal David (1921-2012), e magistralmente interpretadas por sua musa-mor, a maravilhosa Dionne Warwick, descoberta por Bacharach no início dos anos 60, em Nova York, enquanto fazia ‘backing vocal’ num coral amador. São canções “anti-fossa”, se é que se pode qualificá-las assim, pois, ainda que escutadas por espíritos ‘in love’ padecendo de “dor de cotovelo”, é impossível, à execução de seus primeiros acordes, não esboçar nem que seja um meio sorriso de alegria ou de puro encanto, de tão “pra cima”, de tão delicadas, de tão belas que elas são.
                         

            Bem, para os que ainda não ligaram o nome à pessoa – ou, melhor dizendo, a pessoa às canções – vamos lá, numa listagem rápida, a “vôo de pássaro”, de alguns de seus maiores e mais populares sucessos, lançados de 1963 em diante: Don´t Make Me Over, Walk On By, Alfie, Valley Of The Dolls, I´ll Never Fall In Love Again (todas elas sucessos na voz de Dionne), I Say A Little Prayer For You (“capturada” por Aretha Franklin), Promises, Promises, What The World Needs Now Is Love, Raindrops Keep Falling On My Head, The Look Of Love (clássico do repertório de Tony Bennett), This Guy´s In Love For You (lançada por Herb Alpert, juntamente com seu fantástico conjunto musical, o Tijuana Brass), Close To You (famosa na versão dos irmãos Carpenters), Best That You Can Do (do filme Arthur, O Milionário Sedutor; interpretada por Christopher Cross), Making Love (lindíssima canção, eternizada por Roberta Flack), e a sempre amada e lembrada That´s What Friends Are For, um verdadeiro hino à amizade, e também um dos maiores hits da década de 80, desde que foi lançada através de um magnífico e uníssono quarteto formado pelas vozes reunidas dos “gigantes” Dionne Warwick, Stevie Wonder, Gladys Knight e Elton John.

           

          Apenas o extrato do extrato, frise-se, de uma prolífica produção artística de cinco décadas feita para o mundo do disco, e naturalmente absorvida pelo cinema de Hollywood em produções de grande bilheteria na época: O Que É Que Há, Gatinha (1965), O Homem Que Amava As Mulheres (1966), Cassino Royale (1967), O Vale Das Bonecas (1967) e Butch Cassidy & Sundance Kid (1969), dentre outras. Quem, com mais de quarenta anos, se pretende uma pessoa de bom gosto musical, e não curtiu quaisquer umas dessas “pérolas” em sua juventude ou em sua vida adulta, das duas uma: ou vivia em Marte, ou, definitivamente, é alguém totalmente outsider. Com a devida vênia dos que (lamentavelmente) pensam em sentido contrário...

         

             Em cinema falando, Burt, em sua juventude, era o próprio estereótipo do galã norte-americano. Alto, atlético, bronzeado, dono de um sorriso sedutor e um charme irresistível, que deixou prostrada aos seus pés ninguém menos que a diva Marlene Dietrich (1901-1992), sua grande patronesse no início da carreira, e mui provavelmente sua amante ocasional, ao que tudo indica, apesar dos muitos anos que os separavam. Nessa época, final dos anos 50, a madura Marlene, já semi-aposentada das telas, estava investindo mais em sua carreira de cantora de palco (ela tinha uma bela e gutural voz de contralto), e, tendo “descoberto” os talentos do jovem Burt, ela logo o contratou para ser seu maestro e arranjador nas turnês que faria pelos teatros da Europa e das Américas, com imenso êxito, nos anos seguintes (estiveram inclusive no Rio de Janeiro, apresentando-se no Hotel Copacabana Palace, em 1959). A relação entre os dois foi ótima... Enquanto durou. Ou melhor, até o momento em que Burt caiu de amores pela sedutora atriz Angie Dickinson, uma conhecida “devoradora de homens”, dona de um corpo escultural e de pernas tão belas quanto as de Marlene, mas com o plus de ser três décadas mais jovem que a veterana diva alemã. Mal conseguindo conter o despeito com o anunciado novo affair de seu “pupilo”, consta que La Dietrich teria se virado para ele e soltado esta clássica frase: “Afinal, você vai mesmo se casar com aquela vagabunda?” (abafa o caso!). Não deu outra. Burt e Angie não apenas se casaram, como foram felizes e apaixonados, até onde o amor permitiu. Ou melhor, até surgir no “pedaço” uma linda e charmosa morena de olhos verdes, muito parecida com a atriz inglesa Joan Collins. Seu nome: Carole Bayer Sager, letrista e compositora de grande talento assim como Burt, e que certamente o cativou (também) pelo ouvido, em breve se tornando a nova senhora Bacharach. Burt, um conhecido ‘ladies’ man’, realmente não deixava barato nesse aspecto... Como bem o definiu a própria Marlene Dietrich, num depoimento insuspeito, dado anos depois do fim da relação pessoal e profissional entre ambos. Pondo de lado quaisquer eventuais mágoas do passado, a diva a ele dedicou estas sinceras palavras: [...] Como homem, ele encarnava tudo o que uma mulher poderia desejar. [...] Quantos homens assim existem? Para mim, ele era o único!"

 

            Num vídeo icônico dos anos 60, disponível no You Tube, temos um delicioso medley do ‘the best of the best’ do repertório de Burt Bacharach, compilado pelo próprio em uma de suas apresentações ao vivo na TV americana, em 1968, no programa semanal de Andy Williams (1927-2012), outro grande cantor da época, com sua voz aveludada e seu bom gosto musical ímpar na escolha de seu repertório; um artista singular, que bem merece uma crônica futura, a ele especialmente dedicada. O encontro entre os dois ídolos dos sixties é uma delícia de se assistir, em tudo e por tudo. Nele pode-se notar, de cara, o alto nível das produções que eram levadas ao ar, assim como o gabarito dos apresentadores, dos artistas e das pessoas presentes à audição. Muito bem posto num ‘smoking’, o charmoso e talentoso Andy, com seus faiscantes olhos “marejados” e toda a classe e o carisma que lhe eram peculiares, introduz o igualmente garboso e magnético Burt (metido na mesma fatiota e um pouco tímido diante do público) com aquelas piadinhas bobas e sem graça tão ao gosto dos americanos. Mas que logo dão lugar aos verdadeiros talentos dos dois cavalheiros: o vozeirão de tenor de um ao microfone (fazendo a linha ‘crooner’), conjugado à virtuosidade do outro ao piano, dedilhando as teclas ao mesmo tempo em que conduz com empolgação e afinação a impecável orquestra e o coro ao fundo, a desfilarem trechos esparsos de seus grandes sucessos lançados até então. Na plateia, um grupo de belas “gatinhas”, vestidas em seus coloridos “tubinhos”, a tudo observa, com um ar comportado de “boas moças”, impensável para a vulgaridade dos dias atuais. Acham pouco ou querem mais?

           Eu afirmei no início desta crônica que estou “órfão” de Bacharach. Qual nada! Isso é uma meia verdade. Pessoas que têm ou tiveram pais maravilhosos, grandes amigos, inesquecíveis amores e geniais ídolos jamais fica órfão de fato. Essas pessoas especiais, ainda que já não estejam entre nós fisicamente, estarão sempre por aí, preenchendo nossas vidas como “alegrias eternas” (evocando o título do poema de Keats). São chamas que nos aquecem no frio de nossos dias solitários, luzes que nos guiam na desorientação de nossa eventual angústia, vozes que falam (ou que cantam, no caso) aos nossos ouvidos, no afã de uma leveza, de um sentido maior para a vida, que é preenchido, muitas das vezes, pela beleza e singularidade da Arte, com “A” maiúsculo. Pois, como disse o poeta Ferreira Gullar, “a Arte existe porque a vida não basta!” O que coaduna com a declaração do próprio Burt, dada em 2018 (quando completou 90 anos): “A música amolece o coração, faz você sentir algo se for bom, traz emoções que talvez você nunca tenha sentido antes. É uma coisa muito poderosa...” E bote emoções poderosas nisso! Ainda mais se você estiver coladinho à pessoa amada, aconchegados dentro de um carro a contemplar a lua e as estrelas, e uma voz angelical (a de Karen Carpenter, ‘by the way’) começar a cantar bem baixinho estas frases doces, como se fora exclusivamente ao seu ouvido: ‘(...) Why do birds suddenly appear, every time you are near?... Just like me... They long to be close to you... Why do stars fall down from the sky, every time you walk by?... Just like me... They long to be close to you...’. E o resto? Bem, o resto é o resto... Ou melhor, é TUDO! Tudo de bom!

  

       Brindemos, com muitos ‘cheers’, ao legado desse verdadeiro monumento artístico chamado Burt Bacharach! Sua música, maestro, continuará, ‘ad aeternum’, a embalar os meus finais de tarde e a acalentar o meu travesseiro à hora mágica do sono. Assim como o de todos os empedernidos e recalcitrantes românticos dessa esfera azul, tenha certeza...  

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P. S.: Crônica originalmente publicada na página pessoal do autor, no Facebook, em 24 de fevereiro de 2023. Crédito da imagem: Rede Mundial de Computadores.

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Artigo publicado em 20.04.2025

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Rua Doutor Moreira

Dolorida lembrança colada na “parede da memória”

Por Ronald Péres

                  Dia desses, “zapeando” pela página mantida no Instagram pelo competente pesquisador Ed Lincon Barros Silva, meu confrade nas investigações acerca do rico passado de nossa cidade, me deparei com a linda e rara fotografia que encabeça este texto, e que retrata uma casa de família outrora situada na velha Rua Doutor Moreira. Uma morada com a tipologia usual para os padrões da época em que foi construída, dotada de um único pavimento, de fachada simples, sem maiores ornamentos, composta por uma porta e duas janelas, e o telhado arrematado por beiral com telhas coloniais à vista; bem ao estilo das residências construídas em Manaus durante o período da Província (1850-1889) e até um pouco além, já no início da República (início da década de 1890).

  
                              Muito evocativo, o referido registro - a par do seu notório valor de per si, do ponto de vista técnico, pela sua nitidez e enquadramento - me chamou novamente a atenção para um fato que há muito me intriga: a quase total ausência de imagens antigas da Rua Doutor Moreira (aqui entendido como aquelas anteriores à instalação da Zona Franca de Manaus, em 1967) disponíveis na vasta e riquíssima iconografia histórica manauara. Uma lacuna para a qual não encontro aparente explicação, de sorte que a histórica via central, formada por dois quarteirões apenas (ou três, se considerarmos a extensão da rua ocupada pelo Palacete Provincial, defronte à Praça da Polícia) possuía, no passado, um perfil inteiramente residencial, tendo sido habitada durante décadas a fio por algumas das famílias mais ancestrais e proeminentes de nossa terra. Todavia, por algum desses mistérios da vida, não foi ela, em momento algum, objeto de interesse de nenhum dos grandes fotógrafos estrangeiros que, com seu imenso talento, deixaram registros indeléveis de nossa paisagem urbana durante o Ciclo da Borracha: o alemão George Huebner, os italianos Arturo Luciani e Marco de Panigai, e, claro, o genial luso-amazonense Silvino Santos. Ou mesmo de outros profissionais das lentes, menos afamados, mas que, dentro do mesmo período histórico, tenham residido ou passado por Manaus, a serviço de instituições ou periódicos nacionais ou internacionais. Talvez tal “desprezo”, digamos assim, possa ser atribuído ao fato de que a Doutor Moreira fosse uma rua comum, sem elegantes palacetes ou grandes casas comerciais ao longo de seu eixo, embora, pela descrição dos mais antigos, apresentasse um aspecto bastante agradável e uniforme, sendo marcada pelo casario baixo, típico do final do século XIX (tal como o exemplar visto na foto acima), entremeado por alguns poucos sobrados, de feição mais rebuscada.

 
                        Mesmo diante dessa evidência, não me conformo com tal lacuna, enquanto pesquisador, e fico a me perguntar, vez por outra, onde poderiam estar eventuais imagens raras colhidas na dita rua, interna ou externamente, se é que elas de fato existem. E a resposta, em caso positivo, desde já, me parece óbvia: “perdidas” em velhos álbuns de muitos desses clãs, coladas aqui e acolá, como fragmentos soltos de um passado remoto, e resguardadas (queira Deus!) por descendentes já da quarta ou quinta geração dos antigos moradores, os quais, com toda a certeza, desconhecem a origem de tais fotos, e, portanto, não as valorizam como merecem. Isso, aliás, acontece, com frequência, não apenas com relação à Doutor Moreira, mas também com diversos outros logradouros urbanos que já passaram por muitas transformações ao longo das décadas (ou dos séculos); assim como no que tange a edificações desaparecidas, arruinadas ou deformadas pela incúria, pela ignorância e pela miséria cultural dos homens. 
                         

                         E este é exatamente o caso da Doutor Moreira, uma das  ruas mais aviltadas – para não dizer mesmo “estupradas”, com o perdão da hipérbole – pelo “progresso” avassalador que tomou de assalto a capital amazonense a partir dos anos finais da década de 1960. Dela, pode-se dizer, sem exagero, que quase não sobrou “pedra sobre pedra”, no tocante à sua arquitetura antiga, salvo três ou quatro exemplares que - de tão descaracterizados por intervenções bizarras e cafonas de toda sorte - mal são percebidos pelo passante apressado que a percorre atualmente, imerso na decadência geral que se apossou de quase todas as outrora fervilhantes ruas comerciais do centro da cidade. Um quadro tão desolador que traz à mente, de supetão, a melancólica exclamação do poeta Carlos Drummond de Andrade, ao contemplar, em sua casa, uma velha fotografia de sua Itabira natal, hoje completamente descaracterizada e com suas belas montanhas inteiramente devastadas pela indústria mineradora de ferro: “É apenas um retrato na parede. Mas como dói!” Com o diferencial de que, no caso da Rua Doutor Moreira, nem sequer o vislumbre desse desaparecido panorama fomos capazes de reter, tendo que nos contentarmos apenas com as igualmente doloridas lembranças mal coladas na “parede da memória” de alguns poucos, para evocarmos a letra de uma famosa canção de autoria de outro menestrel, o cearense Belchior, eternizada na voz de Elis Regina.

        
                         Um desses “poucos” é, não por acaso, um dos grandes cronistas do Amazonas: Ulysses Bittencourt (1916-1993), filho e neto de homens ilustres - o professor e escritor Agnello Bittencourt (1876-1975) e o ex-governador Antônio Bittencourt (1853-1926), respectivamente. Além do pedigree familiar, que por si só já o gabaritava de antemão, Ulysses era dono de uma prosa fluida e escorreita – característica inerente aos bons cronistas – que imediatamente capturava o interesse do leitor. Uma pena ter sido tão bissexto, já que suas crônicas, até onde eu saiba, se encontram compiladas em apenas dois livros, mas que valem por dez, como se diz. Um deles, intitulado simplesmente RAIZ, publicado em 1985 - e atualmente disputado pelos bibliófilos, pelo fato de estar há tempos esgotado no mercado - é uma obra indispensável para aqueles que buscam, literalmente, as raízes de nossa ancestralidade. Eu o guardo em minha biblioteca como um verdadeiro tesouro e o folheio de quando em quando, para me abastecer da memória prodigiosa desse nobre conterrâneo, cuja família, não por acaso, foi das mais notáveis a habitar a tradicional Rua Doutor Moreira. Chão ancestral, magistralmente evocado por Ulysses, com as minúcias e o lirismo que lhe eram peculiares, na crônica epigrafada de “Velha Rua”, contida na citada obra e abaixo transcrita na íntegra. Convido a todos a lê-la (ou relê-la), e, ao fazê-lo, desfrutarem do privilégio de vislumbrar, ainda que de forma abstrata e imaginária, as pessoas, as casas e o ‘modus vivendi’ que um dia compuseram aquele nostálgico cenário urbano. A bem da contextualização e da ampla informação do leitor atual, considerei oportuno destacar em negrito alguns dos nomes de lugares e pessoas citados no artigo, bem como inserir algumas notas de rodapé remissivas, de minha lavra, ao final do texto de Ulysses, a quem desde já peço vênia pela pequena ousadia literária. Mas, como grande homem de letras que ele foi, certamente há de compreender, de onde estiver. 

VELHA RUA 
                                                                                                   Ulysses Bittencourt

“A Rua Doutor Moreira, antes Rua do Espírito Santo (1), é uma das mais antigas de Manaus. A validade de evocá-la não decorre de alguma característica diferente, mas do fato de ser uma via tradicional, igual a tantas outras, e, por ser assim, típica, torna-se importante. Vê-la, através do tempo, acompanhar suas transformações, lembrar dos seus detalhes, e das ocorrências de que foi palco, recordar as atividades que nela transcorriam no dia a dia, é ver e sentir também toda Manaus, um pouco à maneira do arqueólogo que, dispondo para exame de pequenas peças encontradas, parte para a descoberta de todo um magnífico espécime desaparecido. 
O nome daquele logradouro homenageia o Doutor Antônio José Moreira, irmão de Guilherme e de Emílio Moreira (2), e que foi médico da Armada Imperial, vindo da Província da Bahia para a do Amazonas, onde ingressou na Política, tendo sido deputado geral várias vezes, desde 1857 até a legislatura de 1878. 
Quem hoje percorre a Rua Doutor Moreira não pode ter nenhuma noção de como foi ela até pouco antes do advento da Zona Franca. Tranquila e predominante residencial, era bem arborizada, ladeada de casas com sobrado; possuía pavimentação de pedras do Rio Negro, irregulares, num tom cor-de-rosa (que foi substituída, em 1930, pelo prefeito professor Marciano Armond), cortada ao centro pelos trilhos dos bondes; parecia menos estreita e era dotada de calçadas um pouco menores, mas formadas inicialmente por mosaicos ou blocos inteiriços de mármore de Lioz, com o meio-fio em perfeito arremate do mesmo material. 
Ainda lá estão vários dos seus prédios originais, como, por exemplo, os sobrados patriarcais de azulejos portugueses em que viveram as famílias Hildebrando Marinho e do Dr. Abílio Nery (3); o chamado Vaticano (4), em que agora reside o Senador Evandro Carreira, e que, por muitos anos, pertencente à sua família, fora hospedaria para numerosos estudantes e empregados no comércio; a dos meus pais, na qual nasci e nasceram todos os meus irmãos, antes nº 20, atual 88. Das que foram demolidas, podem-se ressaltar duas – um chalé com beirais de madeira rendilhada, em centro de terreno, elevava-se cerca de dois metros do nível da rua, onde morou o ex-deputado José Gonçalves Dias, em frente ao nº 78; a outra, simples porém vasta, foi a casa de estilo colonial de meu tio-avô Francisco Públio Ribeiro Bittencourt, já demolida, outrora famosa não só pelas grandes recepções, mas porque nela nasceu o Ideal Clube, como tão bem registrou Genesino Braga em Assim Nasceu o Ideal (5). Todos os moradores da rua eram não apenas conhecidos antigos, como realmente amigos uns dos outros. 
O grosso das compras para abastecimento se fazia pela manhã, bem cedo, no Mercado Público, geralmente voltando-se acompanhado por um carregador. As bolsas eram usadas, como também avantajados tabuleiros de madeira, que os serviçais transportavam na cabeça, equilibrando-os sobre uma grossa rodilha de estopa. Havia duas mercearias (na época chamadas tabernas), vizinhas, ambas em esquinas da Rua Quintino Bocayuva: a Mão Negra, mais tradicional, e a Póvoa do Varzim (6). Frutas eram adquiridas de duas pequenas quitandas (uma ainda existente) ou, sobretudo, de vendedores ambulantes que passavam a toda hora, anunciando de modo altamente sonoro as suas mercadorias, bem como o padeiro, o teque-teque (7) e compradores de jornais velhos. De repente, no começo da rua, surgia com suas barulhentas rodas de madeira e ferro o carro verde do geleiro, veículo fechado, revestido de folha de zinco, com os dizeres: Gelo Crystal, de Miranda Corrêa & Cia., e puxado por um cavalo que parava em cada porta para entrega de “pedras” de gelo de um, dois ou cinco quilos.   
Acordava-se muito cedo, lá pelas seis da manhã, ou antes, já com a habitual estridência do jornaleiro. Nessa ocasião, as atividades domésticas tinham início. As casas reacendiam a lenha nos fogões, as portas de abriam e assim permaneciam até após o jantar; o almoço era ao meio-dia, toda a família reunida; havia merenda com mesa posta. A rotina era ir dormir lá pelas 10 horas, no máximo. Depois do jantar, algumas pessoas levavam para a calçada, em frente às suas moradias, e aí ficavam conversando, “vendo o movimento” (8), pois, de quinze em quinze minutos, passava, bem iluminado, o bonde “Plano Inclinado”, que ia até a Fábrica de Cerveja e voltava pela Rua Marcílio Dias. Os roubos eram raros, e os acontecimentos de casa acabavam no domínio geral da vizinhança: as doenças, falecimentos, os partos, aniversários, tudo ganhava relevo e repercussão. Era uma solidariedade verdadeira, nascida de demorada convivência.  
Ali funcionaram várias instituições de ensino (9). O mais antigo, o Liceu Amazonense, de propriedade do Dr. Jonathas Pedrosa, depois o Instituto Universitário Amazonense, do professor José Chevalier; a Escola Royal de Datilografia, da professora Hilma de Medeiros Thury; a Santo Antonio Commercial School, do professor Alfredo Garcia; a Escola Brasileira, do professor Pedro Silvestre; e a Zulmira Bittencourt, da família Tupinambá. 
Além das pessoas mencionadas (em relação de memória), viveram naquela rua as famílias Simpson, Ermindo Barbosa, Prado Lins, Raymundo Monteiro, Rebello (10), Queiroz, Pereira da Silva, Soriano de Mello, Filizzola, Arnoldo Péres (11), Medeiros Raposo, Frazão Ribeiro, Vasconcelos, Salomão Benchimol, Maneco Soares, Constantino Pessoa, Fadoul, Tude Gomes da Costa. Um dos primeiros moradores, ainda na velha Espírito Santo, foi o meu bisavô, Tenente José Ferreira Ribeiro Bittencourt, ali falecido em 1881. Por trás da casa dele passava um igarapé (que fica sob a Avenida Floriano Peixoto), pelo qual se podia ir de canoa até o Igarapé de Manaus. O mesmo, antes de canalizado e coberto, terminava à altura do antigo Cine Polytheama. Ainda quando chamada Rua do Espírito Santo, Custódio Pires Garcia (12) fez construir um grande palacete, parte central do hoje Quartel da Polícia Militar. 
Na Doutor Moreira, morou durante dezoito anos o sábio Barbosa Rodrigues, e, por bastante tempo, a família Alves Ferreira, tendo aí nascido o professor Arthur Reis. No local veio a instalar-se o colégio do professor José Chevalier, onde, em 1909, nasceu o Ramayana (13). A tradicional rua já foi maior do que é hoje, transformada em fervilhante artéria comercial; todavia, era aprazível, e, em sua pacatez, muito mais cheia de personalidade. Evocando-a, diríamos: - “Ai de ti, querida velha rua!”       

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NOTAS DE RODAPÉ: 


1)     A antiga predicação de Espírito Santo – aplicada tanto à rua em questão quanto ao antigo bairro central na qual ela estava inserida – advém do nome do desaparecido Igarapé do Espírito Santo, que, uma vez aterrado e canalizado no início da década de 1890, deu lugar à atual Avenida Eduardo Ribeiro.   
2)     Os irmãos Antônio, Guilherme e Emílio Moreira eram baianos, mas fizeram carreira no Amazonas desde a época provincial, destacando-se tanto no  comércio (com a firma Moreira & Irmão) quanto na vida pública, ocupando cargos de relevo na Associação Comercial, no Executivo e no Legislativo amazonenses.  
3)     Os sobrados geminados das famílias de   Hildebrando Marinho (executivo da empresa portuária Manáos Harbour e pai de Jauary Marinho, primeiro reitor da Universidade do Amazonas) e do agrimensor Abílio Nery (irmão mais novo dos ex-governadores Silvério e Constantino Nery, e pai do ex-prefeito Paulo Nery), inteiramente recobertos de belos e coloridos azulejos portugueses, são dos poucos edifícios centenários que ainda remanescem atualmente na Doutor Moreira, embora bastante deformados pelos sucessivos ocupantes das últimas décadas. Além de vizinhas, ambas as tradicionais famílias acabaram também por se entrelaçar mais tarde pela via do matrimônio, casando membros de seus respectivos clãs entre si, como foi o caso de Paulo Nery e de sua esposa, Jacitara Marinho, irmã de Jauary. 
4)     A antiga Pensão Vaticano era um bonito sobrado, que, durante muitos anos, foi propriedade da família Carreira. Demolido na década de 1980, cedeu lugar a uma agência bancária, atualmente ocupada pelo Bradesco.   
5)     O velho casarão da família Bittencourt, cenário do baile de fundação do Ideal Clube, em 6 de junho de 1903, ficava situado bem no meio do quarteirão entre a Floriano Peixoto e a Quintino Bocayuva, lado direito de quem sobe a rua na direção da Praça da Polícia. Era uma das maiores casas da rua, com várias janelas na fachada. O aristocrático clube ali se reuniu por pouco tempo apenas, entre os anos de 1903 e 1905, quando se mudou para uma casa nos baixos da Avenida Joaquim Nabuco, a primeira de suas muitas sedes alugadas. O livro de Genesino Braga, citado por Ulysses, é outro clássico da literatura amazonense, lançado em 1979, e reconta com muita propriedade a trajetória dos primeiros anos do Ideal, até a construção e inauguração de sua majestosa sede própria, no início da década de 1920. Vizinho aos Bittencourt, no antigo número 26, morou também, na virada dos séculos XIX e XX, o engenheiro João Miguel Ribas, autor da primeira planta cadastral da cidade de Manaus, confeccionada a cores na Bélgica, em 1895, pelo desenhista Willy Van Bancels.       
6)     Rara era a taberna (ou taverna, como queiram), na Manaus antiga, que não fosse explorada por um imigrante lusitano, geralmente oriundo das regiões setentrionais do Douro (adjacente à cidade do Porto) ou do Minho, na fronteira com a Espanha. À falta de “dinheiro vivo”, nem sempre de fácil circulação no passado, muitos deles (mas não todos, a depender do grau de avareza de cada um) lidavam com seus fiéis fregueses por meio de um sistema arcaico de crédito, pelo qual anotavam as compras/vendas em cadernos ou cadernetas – a chamada “venda fiada” (ou seja, empenhada na base da confiança devotada ao cliente) – cuja “baixa” era dada ao fim de certo período (geralmente ao final de cada mês), mediante o pagamento em espécie do ‘quantum debeatur’
7)     “Teque-teque” era o apelido comumente dado aos mascates ambulantes de origem sírio-libanesa por conta da matraca utilizada pelos mesmos para apregoar suas mil e uma mercadorias (tecidos finos, adereços femininos, utensílios, etc). Uma onomatopeia, alusiva ao som (batida) do ‘tec-tec-tec’ produzido pelo referida engenhoca.   
8)     Ainda cheguei a alcançar, em menino, na casa de minha avó materna, à Rua Lima Bacury, os estertores do salutar hábito da vizinhança local de colocar cadeiras na calçada após o jantar, especialmente nas noites de luar, para “jogar conversa fora” e ficar “assuntando” a vida alheia, com a criançada, à volta de pais, tios e avós, distraída em meio a brincadeiras de bola, bola de gude, corda, manja, barra-bandeira, trinta-e-um-alerta, estátua, esconde-esconde, e outros folguedos que há muito “o vento levou”. 
9)     Duas dessas escolas chegaram até os nossos dias: a  Royal, de datilografia, que, após andar por outros endereços, encerrou suas atividades na Rua Saldanha Marinho; e o Colégio Brasileiro, que, posteriormente, construiu sua sede própria num amplo terreno à Rua Dez de Julho, adjacente ao Hospital da Beneficente Portuguesa.
10)    Ulysses refere-se à família do despachante aduaneiro Jovita Rebello, genitor do grande pianista e compositor Arnaldo Rebello (1905-1984), um dos maiores nomes da música erudita no Amazonas e no Brasil, e outro filho ilustre da velha Doutor Moreira.  
11)    Meu avô, o juiz pernambucano Arnoldo Carpinteiro Péres (1899-1962), também morador da rua, com sua família, durante parte da década de 1940, vizinho à Pensão Rio Negro, ao tempo em que meu pai, Jefferson Péres, ainda usava calças curtas. 
12)    O comerciante Custódio Pires Garcia, igualmente referenciado por Ulysses Bittencourt em outra crônica do mesmo livro, intitulada “Das Brumas do Passado”, foi um dos homens mais ricos de Manaus em seu tempo, conhecido por ter feito fortuna à base de usura (agiotagem). Por um desses fatores (ou por ambos, conjugados), foi vítima, em 1885. de  brutal latrocínio, perpetrado em seu escritório, localizado à então Rua Municipal (atual Avenida Sete de Setembro). O verdadeiro autor do crime, um dos mais misteriosos e rumorosos na crônica policial de sua época, jamais foi descoberto.    
13)    No último parágrafo, Ulysses se refere implicitamente ao vasto imóvel de linhas coloniais do século XIX, ainda de pé, situado à esquina com a Rua Quintino Bocayuva, lado par. Como dito na crônica, serviu de pouso a diversos moradores, famílias e instituições, ao lago de mais de cem anos. Pela ordem de ocupação: o cientista mineiro João Barbosa Rodrigues (1842-1909), criador e diretor do extinto Museu Botânico do Amazonas, existente na década de 1880, ao tempo da Monarquia; a família de Cosme Alves Ferreira (pai e avô de dois homônimos homens de alto relevo para o Amazonas, nas searas industrial e cultural, respectivamente); a família do jornalista Vicente Reis, proprietário do Jornal do Commercio e pai do historiador e ex-governador Arthur Reis (que  nasceu naquele imóvel, em 1906); o Instituto Universitário Amazonense (um prestigiado colégio de ensino secundário, apesar do nome), dirigido pelo alagoano José Chevalier, pai do escritor Ramayana de Chevalier (pai, por sua vez, da jornalista carioca Scarlett Moon de Chevalier). Em tempos mais recentes, entre as décadas de 1950 e 1980, o centenário imóvel ficaria conhecido em toda Manaus como Pensão Garrido, uma hospedaria muito bem gerenciada por uma família de imigrantes espanhóis, da qual descende, já na terceira geração, o meu querido amigo e competente oftalmologista, Dr. Theodomiro Garrido Neto.  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
 
 

 

 

 

 

 

 

O quase sesquicentenário casarão situado na

esquina da Rua Doutor Moreira com a Quintino

Bocayuva, à época (1965) abrigando a Pensão

Garrido. Bastante descaracterizado, ainda se

mantém de pé nos dias atuais. Acervo da fan page

Manaus Sorriso.
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FONTE: Raiz, de Ulysses Bittencourt. Ed. Copy & Arte, Rio de Janeiro (1985); e Hemeroteca Digital Brasileira (Biblioteca Nacional). FOTOS: Acervo do pesquisador Ed Lincon Barros Silva (Instagram), Manaus Sorriso (Facebook) e Rede Mundial de Computadores.

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Artigo publicado em 23.03.2025

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FRIDAY MUSIC & CINEMA DAY

Cole Porter – O genial gauche da “Era do Jazz”

Por Ronald Péres

                   Há exatos cem anos atrás, ao longo de toda a década de 1920 e um pouco além, o mundo experimentava um de seus períodos mais férteis de todos os tempos, culturalmente falando. O fim da chamada Belle Époque, marcado pela eclosão, pelos horrores e pelo desfecho da I Guerra Mundial (1914-1918) – resultando em profundas mudanças na geopolítica global e na “ordem das coisas”, de modo geral – deixou definitivamente para trás os últimos lampejos do século XIX, com suas empertigadas modas “vitorianas”, seus rígidos códigos de costumes e seus padrões de vida idealizados à maneira perfeita dos “cromos” pintados de um calendário. E saía de cena para dar lugar a um novo tempo, não menos colorido, nem  menos interessante, do ponto de vista sociológico: a curta e movimentada “Era do Jazz”, assim batizada pelos historiadores do futuro em homenagem ao estilo musical que a marcaria indelevelmente.

     

           Um som definitivamente colored, dominado por músicos e artistas de ascendência afro-americana, forjado em sua ancestralidade na batida frenética dos tambores e no canto triste e gutural dos escravos que, por todo o Old South, semeavam hectares e hectares de plantações de tabaco e algodão, fonte da riqueza da altiva e arrogante aristocracia branca norte-americana, humilhada e aniquilada pela sangrenta guerra civil de 1861-1865, tão bem retratada nas páginas da literatura e nas telas do cinema através do clássico ...E o Vento Levou. Um ritmo vibrante, nervoso, febril, evolutivo, quente e sensual, que - nascido e desenvolvido nos guetos negros e pobres e nos bares e cabarés do French Quarter de New Orleans – ganharia nesse período a cena das esfumaçadas casas noturnas, dos elegantes ballrooms e dos grandiosos teatros e movie palaces de Nova York, Chicago, San Francisco e todas as grandes cidades da América.

​                 Tal como ocorria paralelamente com o samba, no Brasil, o jazz, em sua rápida evolução, ao longo dos anos 1920 e 1930, perfazia um movimento centrífugo, saindo da periferia para o centro das grandes cidades, deixando de ser um ritmo das classes mais baixas, eminentemente popular (na verdadeira acepção do termo), exclusivo de lugares suspeitos, para se tornar, tocado, cantado ou dançado, em suas mais diversas modalidades - o swing, o charleston, o ragtime, o blues e o smooth jazz - o “rei” dos salões e dos palcos da nova aristocracia yankee, a elite urbana, endinheirada e descompromissada dos Roaring Twenties, como ficaram conhecidos na História os “loucos” anos 20: magnatas, gangsters, artistas de cinema, playboys, escritores em perene crise existencial e, claro, as míticas “melindrosas”! Mulheres de todas as idades (jamais reveladas), cobertas de jóias, impecavelmente vestidas em delgados e parisienses figurinos, intelectuais ou “cabecinhas de vento”, mas todas invariavelmente belas (ou, no mínimo, charmosas), mimadas, voluntariosas, e cheias de personalidade e glamour. Quem já leu as páginas de O Grande Gatsby (ou assistiu a quaisquer umas das versões cinematográficas baseadas no romance emblemático de F. Scott Fitzgerald) sabe exatamente a qual “mundo” eu estou me referindo. O mundo da assim chamada Lost Generation – a “Geração Perdida”. E põe perdida nisso! Um microcosmo de riqueza e luxo, movido a infinitas e animadas festas, música da melhor qualidade, litros e litros de champagne servidos em delicadas taças de cristal, cocaína a granel servida em finas bandejas de prata, sexo “democrático” e voluptuosamente desenfreado (do tipo “ninguém é de ninguém”), e mais toda sorte de permissividade, loucuras e extravagâncias que se possa imaginar.

   

               Pois foi exatamente esse universo delirante que produziu um dos mais geniais e ímpares artistas do século XX: Cole Porter (1891-1964), um cidadão norte-americano muito bem nascido no seio de uma riquíssima família de Indiana, proprietária de madeireiras e minas de carvão, e que, por isso mesmo, teve a melhor formação que um jovem de seu extrato social poderia ter, estudando nos melhores colégios e sendo obsequiado de todas as comodidades e possibilidades que o dinheiro lhe poderia proporcionar. A par dessas benesses todas, o fato é que Cole revelou-se desde cedo um “menino prodígio”, com um ouvido e um pendor musical fora do comum, versado em violino com apenas seis anos, em piano aos oito, e tendo composto sua primeira opereta aos dez (com o auxílio de sua mãe). Adolescente, ainda cursando nada menos que a prestigiada Universidade de Yale, Cole revelou-se um libretista de mão cheia, chegando a escrever cerca de 300 partituras, a maior parte delas destinadas a compor peças teatrais musicais. Um fenômeno para qualquer artista iniciante. Mas, para Cole Porter, seria apenas o “ensaio geral” de uma longa carreira de imenso sucesso que atravessaria as décadas seguintes...

 

                   No início da década de 20, “nadando em dinheiro” e já casado com Linda Lee Thomas, uma mulher divorciada, oito anos mais velha – com quem manteve um casamento “aberto”, já que ele era notoriamente homossexual – Cole se muda para a Europa e lá passa a maior parte dos “anos loucos”, freqüentando as rodas do grand monde, os teatros de Londres, os cafés de Paris, os hotéis e praias da Riviera e as estações de esqui dos Alpes; fumando, bebendo, dançando e “curtindo a vida adoidada”, em todos os sentidos. Estava na verdade, de forma plenamente consciente, se abastecendo dos temas que iriam nutrir a sua arte a partir dos anos 30, quando suas músicas sensacionais - deliciosos e dançantes fox trots, com arranjos sofisticados e letras criativas, divertidas e repletas de mil e uma alusões maliciosas de duplo sentido - “explodem” nos palcos da Broadway e nas telas de Hollywood, em grandes e inesquecíveis musicais. A lista do repertório legado por Cole Porter é enorme e exaustiva, e por si só compõe – ao lado da obra de seus igualmente geniais conterrâneos e contemporâneos, George Gershwin, Irving Berlin e Jerome Kern - um lindo mosaico do que de melhor a música americana (e mundial) produziu em qualquer época, antes e depois. Uma herança cultural ímpar e perene, que, já aos primeiros acordes num salão de baile, executados por uma orquestra de primeira, formada au grand complet, transporta o ouvinte imediatamente para aquele mundo desaparecido da “Geração Perdida”, de Fred Astaire & Ginger Rogers, de finos ambientes Art Déco, decorados com lustres venezianos, cortinas vaporosas e pisos de mármore em xadrez, pleno de glamour, beleza e encanto. Os títulos das canções são amplamente conhecidos de todas as pessoas com um mínimo de boa formação musical, verdadeiros standards, tocados, ouvidos e amados desde sempre. Alguns exemplos da “nata da nata” de Mr. Porter? Vamos lá: Let´s do it (Let´s fall in love),Love for sale, Night & Day, Anything goes, I get a kick out of you, You´re the Top,Easy to love, I´ve got you under my skin, In the still of the night, Get out of town, I concentrate on you, All of you, True love... E segue o baile. E que baile!

                   É muito difícil tentar definir a extensa e grandiosa obra de um compositor do porte de Porter (com o perdão do trocadilho) numa única canção. Mas, se fosse instado eu a fazê-lo, não hesitaria um só minuto em eleger aquela música que, num uníssono perfeito e simbiótico entre letra e melodia, resume a meu ver tudo o que ele procurava transmitir em sua arte: atemporalidade, leveza, magia, devaneio, sofisticação e sedução: Begin the Beguine, composta em 1935 para o musical Jubilee, e cujos primeiros versos já falam por si, evocando uma noite romântica à beira-mar, quente, constelada, enluarada e propícia ao despertar de uma paixão: ‘When they begin the Beguine (...) It brings back the sound of music so tender (...) It brings back a night of tropical splendor (...) It brings back a memory ever green (...) I´m with you once more under the stars (...) And down by the shore an orchestra is playing (...) And even the palms seem to be swaying (...) When they begin the Beguine (...)’...

 

                 Para aqueles que se interessarem mais sobre a vida e a obra de Cole Porter, sugiro assistir ao excelente filme biográfico-musical De-Lovely (título extraído de uma de suas mais conhecidas canções). Estrelada por Kevin Kline e Ashley Judd, impecáveis nos papéis do casal Cole e Linda Porter, a película - além de exibir deslumbrantes cenários e figurinos, e, é claro, um verdadeiro pot pourri da melhor qualidade - retrata também o “lado B” que marcou o final da vida do compositor, que de festivo nada teve, marcado por fracassos, vícios, mutilações físicas e muitas dores existenciais. Paciência. Das “amargas” também é feita a vida... Ou, c´est la vie!’, como certamente diria, com toda a fleuma e a verve que tão bem o caracterizavam, o elegante, talentoso e singular Mr. Porter. 

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P. S.: Crônica originalmente publicada na página pessoal do autor, no Facebook, em 10 de março de 2023.

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Artigo publicado em 23.03.2025

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Les Parapluies de Cherbourg (Os Guarda-Chuvas do Amor)

Um “poema cinematográfico” musical, multicor e imortal

Por Ronald Péres

                   Na primavera de 1964, o Festival de Cannes laureava com a famosa Palm D´Or um filme absolutamente original e sedutor, que iria marcar definitivamente a história não apenas do cinema francês, mas do cinema mundial como um todo: Les Parapluies de Cherbourg (Os Guarda-Chuvas do Amor, na tradução do título em português). Dirigida pelo jovem cineasta Jacques Demy, a película era protagonizada por uma linda e quase debutante atriz de apenas 20 anos, a loira Catherine Deneuve (1943-), cuja ascensão, a partir do lançamento desse filme, logo a converteria numa das maiores estrelas de sua geração, um símbolo da França e um ícone eterno de beleza e elegância, com uma carreira sólida que já passa de seis décadas.

     

           Fugindo da tradição clássica da cinematografia gaulesa – sempre privilegiando temas sisudos e herméticos, com dramas densos, invariavelmente fotografados em preto-e-branco; característica esta acentuada mais ainda a partir do advento do movimento vanguardista denominado Nouvelle Vague, no fim dos anos 1950 – Os Guarda-Chuvas do Amor trazia para as telas de cinema cores quentes, vibrantes e garridas, em fortes tons primários (vermelho, amarelo, azul) e secundários (fúcsia, rosa shocking, verde citrino); característica cromática acentuada na composição cênica da estória por elementos da moderna publicidade urbana, como affiches (cartazes de propaganda), outdoors e anúncios em neon; além de elementos decorativos dispostos nos cenários principais da trama, a exemplo dos finos parapluies (guarda-chuvas) que dão título ao filme, chapéus, caixas de presente e outros charmosos acessórios vendidos na loja da mãe da protagonista, Geneviève (Catherine Deneuve). A estória, ambientada no final dos anos 50 na cidade portuária de Cherbourg, no litoral atlântico francês, gira em torno da intensa paixão vivida entre a bela moça de classe média e um jovem proletário, o mecânico Guy (o guapo ator italiano Nino Castelnuovo); e da dolorosa separação do casal, ocasionada quando Guy é chamado a servir no front da Guerra da Argélia (1954-1962). E aí reside outra novidade do filme, qual seja, a abordagem de um tema tão sério e tão traumático para a memória recente dos franceses - que perderam milhares de seus compatriotas nessa brutal guerra colonial separatista – evocada sob as saturadas cores (literais, no caso) do romance, da delicadeza e da originalidade, uma característica, aliás, do cinema bissexto de Jacques Demy, casado com outra grande cineasta francesa da época, Agnès Varda, e precocemente desaparecido aos 54 anos.

​                    Filmado como um musical – gênero bastante associado ao cinema norte-americano e pouco explorado na produção francesa até então – o filme de Demy foi ainda mais ousado ao optar pelo formato de opereta, ou seja, uma narrativa inteiramente cantada ou declamada musicalmente pelos atores, do início ao fim, durante os 90 minutos da metragem. Uma missão inglória, no caso de incursões cinematográficas desse tipo, posto que condenada ao fracasso perante o grande público, em mais de 90% dos casos em que fora tentada anteriormente. Não fosse por um pequeno e fundamental detalhe: a acertada escolha do compositor responsável pela trilha sonora, no caso, um jovem e genial músico francês, de origem armênia, chamado Michel Legrand (1932–2019). Pianista, compositor e arranjador, o jovem Legrand, à época com apenas 32 anos, foi - junto com Demy e Deneuve - o terceiro grande nome catapultado a partir do lançamento desse emblemático filme. Graças à presença de Legrand, conjugada a todas as demais virtudes da produção, o filme foi um tremendo sucesso de crítica e público, sendo aclamado em todas as salas em que estreou no mundo inteiro, e em todos os principais festivais de cinema, além de Cannes, realizados dentro e fora da Europa. Transformou-se, ao longo do tempo, num verdadeiro clássico, amado e cultuado por gerações de cinéfilos. Catherine Deneuve, tendo despontado para a fama internacional, voltaria a trabalhar com Demy em mais duas ocasiões: o igualmente delicioso musical Les Demoiselles de Rochefort (Duas Garotas Românticas), de 1967 – ao lado de sua irmã, a igualmente famosa atriz Françoise D´Orléac, precocemente falecida num trágico acidente automobilístico logo após a filmagem – e no drama fantástico Pele de Asno (Peau D´Âne), de 1970. E quanto ao genial Michel Legrand... Bem, este dispensa maiores digressões a respeito, já que seu imenso e inolvidável legado musical (composto para o cinema, principalmente) fala por si.  Vide o imenso sucesso de composições atemporais como Windmills of your mind (de Crown, o Magnífico – 1968), What are you doing the rest of  your life? (de Tempo para amar, tempo para esquecer – 1969), Summer of 42 (trilha sonora do nostálgico filme homônimo de 1972); dentre tantas outras mais.

   

                    Por ser uma opereta, Os Guarda-Chuvas do Amor é dividido em três atos: Le Départ (A Partida), L´Absence (A Ausência) e Le Retour (O Retorno), correspondentes aos diferentes momentos vividos na trama pelo co-protagonista, o conscrito e desventurado Guy. E o momento climático da estória, claro, é a cena da despedida do casal de amantes na gare (estação de trem) de Cherbourg, ao final do primeiro ato do filme. Com direito - como em toda boa cena do gênero – a muitos olhares, beijos, abraços febris e promessas de amor eterno trocados entre a mocinha e o galã. Mas o que poderia ser um melodrama banal, em ‘Parapluies’ se converte - graças à delicadeza da direção de Demy, à perfeita sinergia dos atores em cena, e, sobretudo à deslumbrante e arrebatadora partitura de Michel Legrand – numa verdadeira masterpiece cinematográfica, levando os espectadores da angústia (já desde a sequência anterior, com o desconsolado casal recolhido em sua tristeza, lamentando seu infortúnio, sob a tensão da espera do embarque) às lágrimas (com a linda Deneuve, absolutamente solitária, desamparada e desesperada na plataforma da estação, vendo seu amado partir para uma possível viagem sem volta). Mal sabia ela que volta haveria, mas não necessariamente do jeito que ela sonhara...

Ops! Nada de spoilers! Todo cinéfilo tem o direito (e o dever) de torcer pela felicidade de seus heróis e heroínas da tela...

 

 

​                     O que dizer destes versos de Legrand, trocados pelos amantes da tela com toda a intensidade e, ao mesmo tempo, toda a suavidade que somente a língua de Balzac e Racine permite?

                   De Geneviéve para Guy: 

                   ‘Mais jamais, je ne pourrai vivre sans toi/Je ne pourrai pas/Ne pars pas,                       j'en pleur'rai/Je te cacherai et je te garderai/Mais mon amour, ne me                          quitte pas!’

                  (Eu jamais poderei viver sem ti/Não poderia/Não partas! Eu chorarei por                       ti/Eu te esconderei e te guardarei/Mas, meu amor, não me abandones!)

                   

                    De Guy para Geneviève:

                    ‘Tu sais bien que ce n'est pas possible/Je ne te quitterai pas!

                     Mon amour, il faudra pourtant que je parte/Tu sauras que moi,

                     je ne pense qu'à toi/Mais je sais que toi, tu m'attendras’

                    (Tu bem sabes que não é possível/Eu não te abandonarei/Meu amor, é                           preciso que eu parta/Tu saberás que eu não penso senão em ti/Mas eu                          sei que tu me esperarás)

                    ‘Calme-toi, il nous reste si peu de temps/Si peu de temps, mon amour,                           qu'il ne faut pas le gâcher/Il faut essayer d'être heureux/Il faut que nous                       gardions de nos derniers moments/Un souvenir plus beau que tout, un                         souvenir qui nous aidera à vivre...’

                   (Acalma-te, nos resta tão pouco tempo/ Tão pouco tempo, meu amor,

                    que não devemos desperdiçá-lo/É preciso tentar ser feliz/É preciso que                        guardemos nossos últimos momentos/Uma lembrança mais bela do que                      tudo, uma lembrança que nos ajudará a viver...)

                    No cinema, a desventura dos que se amam – bem ao contrário da vida real – é quase sempre bela, intensa, colorida... E musicalmente inesquecível! N´est-ce pas, monsieur Legrand?

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Créditos das imagens: Rede Mundial de Computadores.

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Artigo publicado em 15.03.2025

Nino Castelnuovo e Catherine Deneuve em cena romântica do filme Os Guarda-Chuvas do Amor (Les parapluies de Cherbourg), de Jacques Demy (1964)

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‘Picnic’ - 70 anos de um clássico do cinema

Sexo, tabus e neuroses nos “semidourados” Anos 50

Por Ronald Péres

                   Ano novo apenas iniciando, e eu aqui já possuído do meu notório “bicho-carpinteiro” da escrita, louco de vontade de repartir com os meus seguidores minhas impressões acerca de fatos históricos, livros, filmes, canções, celebridades, etc. Assuntos os mais variados, enfim - de ontem, de hoje e de sempre - que me tocam profundamente enquanto ser humano, e que põem “no eixo”, como se costuma dizer, de tão prazeroso que é para mim revisitá-los, de tempos em tempos. Seja na qualidade de historiador, leitor, espectador, ouvinte e fã. Ou de cronista, como agora, reunindo todas essas variadas facetas que coabitam dentro de mim, num harmonioso e salutar “condomínio intelectual”, que me nutre, me enriquece e me impulsiona a compartilhar com meus semelhantes um pouco de tudo de bom que a vida já me deu. E não foram poucas coisas.

                 Como sou virginiano - organizado “até a medula”, portanto (risos) - me vali de dois recursos para os quais sempre apelo com frequência, antes de tomar do teclado mais uma vez, e que muito me ajudam no processo de decisão. Primeiro, girei a minha “roleta” mental para me autoquestionar, num átimo: “Do que vou falar dessa vez?”. Bem, considerando que estamos em janeiro, mês sempre imbuído daquele “espírito de férias”, e que dispensa, em tese, assuntos mais sérios, a resposta veio rápida: “CINEMA”. Afinal, quer coisa mais gostosa do que falar sobre filmes, estórias, atores e atrizes maravilhosos? E já que estamos em plena temporada de premiações internacionais do gênero (Globo de Ouro, SAG, Bafta, Oscar), e com o cinema nacional com chances de vitória no páreo, penso que não há assunto mais oportuno no momento. Uma vez decidido o tema, me vali de outro macete que sempre me ajuda nessas horas: datas “redondas”, comemorativas de alguma efeméride – no caso, a entrada em cartaz de um filme na tela grande. Assim, com esses dois “ganchos”, lembrei-me imediatamente que, nesse ano de 2025, completam-se 70 primaveras da estreia de um filme inesquecível, e, por incrível que pareça, ainda muito atual em sua temática profundamente humana.

​                    Falo de ‘Picnic’ (ou Férias de Amor, de acordo com o título que foi dado a este último no Brasil), uma película belíssima, de uma intensa dramaticidade romântica e sociológica, uma obra-prima do cinema, que eu classifico como absolutamente indispensável para todos aqueles se pretendem amantes da “sétima arte”. Não à toa, era um dos filmes favoritos de meu pai, e que também me encanta há muito tempo, desde quando, adolescente ainda, o assisti pela primeira vez, projetado na tela da Rede Globo, no tempo da extinta “Sessão Coruja”, ‘a long time ago’, numa época em que ainda havia beleza, leveza e, sobretudo, “vida inteligente” na programação da TV no Brasil. É sobre esta joia rara que quero falar dessa vez.

 

                     

 

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                Baseado em peça homônima de William Inge, de 1953 – ganhadora do Prêmio Pulitzer, e que angariou um imenso sucesso nos palcos da Broadway desde sua estreia – ‘Picnic’, ao ser transposta para as telas, arrebatou prontamente as plateias do mundo inteiro, desde que estreou, em 7 de dezembro de 1955. As razões para isso ficam claras para qualquer espectador mais sensível, já desde os primeiros takes do filme. A história traça, em cores sutis e cheias de nuances, o sufocante ambiente de repressão social e sexual de uma pacata cidadezinha do Kansas, na moralista década de 1950, com foco na insatisfação afetiva das personagens femininas, aprisionadas em uma vida monótona, previsível e sem qualquer perspectiva de mudança. Tudo muda radicalmente, entretanto, com a chegada ao lugar de um charmoso e sofrido forasteiro, Hal Carter (William Holden), sem “eira nem beira”, e que, apesar de aparentemente não ter nada a oferecer a nenhuma mulher além de doses maciças de virilidade e testosterona, mexerá profundamente com as estruturas estabelecidas da cidade e com a libido das reprimidas e solitárias mulheres da comunidade, das mais jovens às mais maduras. Especialmente da romântica e sonhadora Madge Owens (Kim Novak), a garota mais bonita da cidade, destinada a um casamento sem amor com um rapaz rico, muito por conta da insistência de sua frustrada mãe, que projeta na filha todos os seus sonhos não realizados.​

                Logo nas primeiras cenas do filme, um diálogo entre mãe e filha é revelador. Madge experimenta o vestido que usará no piquenique que dá título ao filma, enquanto sua mãe faz os devidos arremates. Ansiosa, a mãe sugere que Madge aproveite todas as oportunidades para subir na vida enquanto ainda é jovem, o que, no seu estreito modo de ver, significa fazer um vantajoso casamento com um homem “de posses”. Madge retruca, dizendo que tem apenas 20 anos, ao que a mãe responde: ‘Sim, e no próximo verão terá 21, e depois 22, e depois... 40!”, sugerindo à garota que o temido “caritó” (será que alguém ainda usa esse horroroso e pejorativo termo?) está logo ali, dobrando a esquina. Mas a conversa não para por aí. Emendando, a própria mãe, calculadamente - e hipocritamente - sugere que Madge, durante o piquenique, deixe o calor das emoções fluírem e aproveite para se entregar ao namorado, a fim de forçar um fato consumado e assim apressar o casamento. Ao que Madge, chocada, desaba num convulsivo choro, ao perceber a frieza e a desfaçatez de sua genitora, adotando uma postura sórdida que não era de todo incomum, mesmo naquela repressiva época.

                   Durante a magnífica sequência do tão aguardado ‘picnic’ – uma bela festa, tipicamente norte-americana, repleta de jogos, guirlandas e fogos de artifício, que envolve toda a comunidade local - acontece a cena-clímax da estória, e, a meu ver, uma das mais belas de toda a história do cinema. No concurso para a eleição da “rainha” do baile noturno, Madge é eleita, e, de posse da faixa, cetro e coroa típicos de quaisquer ‘misses’, ostenta garbosamente todo a sua beleza juvenil desfilando num barco decorado em forma de cisne, que desliza lentamente ao longo do riacho que corta o parque onde é realizada a festa. Postados nas margens, todos a contemplam e a saúdam efusivamente, num momento de delírio coletivo. Tanto poder de sedução, claro, não passa despercebida aos intensos olhares do charmoso Hal, que é evidentemente correspondido imediatamente por Madge. Momentos mais tarde, cessados os ânimos, num recanto tranquilo do bosque, a paixão entre ambos, até então apenas latente, explode de maneira avassaladora e incontrolável, tal e qual uma força da natureza: ao som da clássica ´Moonglow`, logo emendada com a belíssima música-tema do filme, também intulada `Picnic`, Madge, num lindo vestido rosa-bebê, dança sensualmente em direção a Hal, que corresponde da mesma maneira à sua aproximação, como se ensaiassem um ritual de acasalamento, envoltos em uma cativante aura de intimidade e de ternura. Enquanto isso, os demais personagens à volta do casal quedam-se absolutamente estáticos diante daquela cena tão intensa: um homem e uma mulher sedutores e encantadores – igualmente seduzidos e encantados um pelo outro - entrelaçando seus corpos ao som de uma música inebriante, e disparando mútuos “olhares de fogo”, que dispensam quaisquer palavras. Quem vê a cena não a esquece, de tão bela que é. E quem já a viu “milhões de vezes” (como é o meu caso) nunca se cansa de revê-la.

 

                 À parte o cativante carisma de Holden e Novak, o filme é repleto de boas personagens, interpretadas por excelentes atores coadjuvantes. A começar por Rosalind Russell, uma atriz veterana, consagrada desde o início dos anos 40 em papéis risíveis nas chamadas screwball comedies (comédias malucas), e também em alguns dramas, que lhe valeram três indicações ao Oscar, sem, contudo, jamais arrebatar a cobiçada estatueta dourada. Em meados dos anos 50, já uma mulher madura, estava destinada, segundo os cânones da Hollywood da época, a papéis secundários, invariavelmente de mãe da protagonista, sem maior interesse na trama. E foi nesse contexto que Roz Russell, como ela era chamada por seus colegas do meio cinematográfico, acabou sendo escalada para o elenco de Picnic, no qual teve a oportunidade de mostrar seu talento mais uma vez. E o fez com maestria.

             No filme, ela interpreta a senhorita Rosemary Sidney, uma professora solteirona, residente à casa da senhora Owens, mãe da bela Madge. O papel retrata bem o misto de condição patética e melancólica à qual uma mulher que não tivesse se casado era relegada, especialmente em cidades pequenas e provincianas, residissem elas nos Estados Unidos, no Brasil ou em qualquer lugar do planeta. Voltando ao enredo da estória, a senhorita Sidney vivia um cotidiano medíocre e enfadonho, balizado pelas monótonas aulas na escola onde lecionava e os previsíveis encontros com as amigas. Como forma de defesa à sua frágil condição feminina, ostentava uma falsa moral, sempre com um discurso pseudopuritano na ponta da língua, com críticas ácidas a tudo e a todos, na vã tentativa de ocultar a sua verdadeira natureza: uma mulher frustrada e machucada pela vida, mas, ainda assim, romântica e sonhadora, eternamente à espera de encontrar seu par romântico ideal (ou uma “banda de chinelo velho” que fosse). Um disfarce que mal se sustenta, e que é rapidamente desmontado a partir da chegada à cidade do drifter (vagabundo) vivido por William Holden, momento em que tudo que ela guardava dentro de si aflora de uma forma vulcânica: a feminilidade abafada, o desejo sexual reprimido, o romantismo esquecido, os sonhos de menina-moça não concretizados. Ao longo do filme, sua personagem vai expondo, inicialmente de forma até jocosa, mas depois de modo melancólico, toda a miséria sentimental decorrente de sua vida afetiva fracassada, enternecendo e envolvendo o espectador naquelas angústias femininas tão peculiares ao “belo sexo”, e que assombraram a vida de tantas e tantas mulheres de meia-idade até meados do século XX, antes da liberdade e igualdade sexual trazida pelos “ventos revolucionários” da década de 1960. E, mesmo depois de todas essas revoluções, elas nunca desapareceram de todo. Afinal, quem nunca conheceu, ao longo de sua vida, uma senhorita Sidney para chamar de sua? Elas são arquetípicas, e sempre podem se materializar a qualquer momento na figura de uma tia, uma prima ou uma amiga.  

          

          O infortúnio da amarga senhorita Sidney é compartilhado por outra interessante personagem, que lhe faz o exato contraponto etário: a jovem Millie, a irmã caçula de Madge, vivida pela talentosa Susan Strasberg, filha de Lee Strasberg, o famoso diretor do lendário Actor’s Studio, celeiro de grandes nomes surgidos na cena teatral e cinematográfica americana nos anos 50 e 60. Adolescente ainda, Millie também é vítima de uma infelicidade crônica, sofrendo do chamado “complexo de patinho feio” ao  comparar-se constantemente à bela irmã mais velha, e sofrendo de uma profunda falta de autoconfiança em si mesma, além de um certo desprezo por parte da própria mãe, que a relega sempre a um segundo plano. Para sua tremenda falta de sorte, Millie, tal como Madge e a senhorita Sidney, também se sente atraída pela viril sensualidade de Hal Carter, acirrando a competição e o sentimento de inferioridade da jovem em relação à estonteante Madge. Mas, ao contrário da patética miss Sidney, Millie possui inteligência emocional, e, tal como muitas moças da sua geração, romperá paradigmas, ao perceber rapidamente que, no seu caso, é através dos estudos e da expressão de sua intelectualidade, e não apenas de um casamento arranjado de qualquer maneira, que ela enfim poderá encontrar seu nicho no mundo e uma chance de contentamento e felicidade.

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                   Rodeando essas três mulheres, suas expectativas, angústias e desejos, que estão no cerne do conflito da trama, há ainda a presença de duas outras importantes personagens coadjuvantes: a senhora Owens (Betty Field), mãe de Madge e Millie, sempre atenta e zelosa com as filhas, porém igualmente frustrada e ressentida por seu próprio insucesso conjugal, e que, em razão disso, tudo projeta no sonhado casamento de Madge, sufocando-a com tantas expectativas, e não se apercebendo que negligencia a caçula Millie, o que termina por infelicitar, ao fim e ao cabo, a ambas as moças. Para sua sorte, mrs. Owens tem ao seu lado a simpática senhora Helen Potts, a vizinha idosa e de alma boa que acompanhou a trajetória da família Owens ao longo dos anos. Tal como a senhorita Sidney, ela também envelhecera sem subir ao altar, e dedicou-se inteiramente a cuidar da mãe provecta. Entretanto, diferentemente das demais personagens, miss Potts é a única pessoa serena daquele núcleo de “mulheres à beira de um ataque de nervos”, conformada com a condição que o destino lhe reservou. Embora seja um papel secundário (quiçá, terciário), o roteirista Daniel Taradash reservou à sua personagem, já no final do filme, uma das frases lapidares do filme, e que, a meu ver, resume à perfeição o “X” do problema e o animus em comum de todas as personagens femininas. Uma frase embutida na cena que a idosa vizinha, em conversa ao pé do ouvido com a senhora Owens, se refere à personagem de William Holden, refletindo sobre a chegada daquele estranho. Uma frase mais ou menos assim: “Acostumei-me com tudo tão em ordem: os gerânios nas janelas, o cheiro dos remédios de mamãe... E de repente ELE chegou. Havia um HOMEM em casa. E isso era bom!” Bingo! Tudo estava dito ali naquela frase. Aconchego versus solidão, lucidez versus histeria, esperança versus desalento. Falta de amor, falta de sexo, falta de vida...

               Não posso deixar de mencionar uma passagem curiosa, relacionada aos bastidores do filme, e que retrata bem os paradoxos comportamentais com os quais se debatia a sociedade americana de então. Antes do início das filmagens, o galã William Holden – à época com 37 anos, e dono de um corpo atlético e de uma virilidade latente – viu-se compelido pela Columbia Pictures, o estúdio que produzia o filme, a raspar completamente a farta camada de pelos que revestia seu tórax. A alegação dos produtores era de que sua personagem, Hal, passa boa parte da estória de camisa entreaberta ou com o torso completamente desnudo, e que, sendo assim, tal exposição seria “antiestética” (???). A interdição, na verdade, embutia em si a própria hipocrisia criticada pelo filme, no sentido de não realçar ainda mais o tom carnal da estória (medo de censura, talvez?) e, com isso, atiçar ainda mais a libido das virginais moçoilas espectadoras nas plateias – bem como de muitos gays enrustidos, certamente. Vista em retrospecto, a decisão foi um erro, uma vez que acentuar a masculinidade de Holden iria mais ainda ao encontro do grande objetivo da estória, ao fazer dela o contraponto perfeito à feminilidade “animal” de Kim Novak, e por em total evidência o tema central da discussão: o SEXO, o grande tabu da Humanidade, desde a “noite dos tempos”!

 

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                  Antes e depois de Picnic, na própria década de 50, e também ao longo dos anos 60, surgiram diversos filmes – esplêndidos filmes! - abordando a repressão sexual e o amor frustrado, especialmente sob o prisma feminino: Um Bonde Chamado Desejo (1951), Tudo que o Céu Permite (1955), Quando o Coração Floresce (1955), Lágrimas do Céu (1956), Chá e Simpatia (1956), A Caldeira do Diabo (1957), Gata em Teto de Zinco Quente (1958), De Repente, no Último Verão (1959), Amores Clandestinos (1959), Clamor do Sexo (1961), Em Roma na Primavera (1961), A Marca do Cárcere (1961), Infâmia (1962), O Doce Pássaro da Juventude (1962) e Obsessão de Amar (1965), apenas para citar os mais emblemáticos. Em todos eles, tal como em Picnic, o desejo sufocado, o amor enrustido, os sonhos recalcados, são, de uma forma ou de outra, a razão dos conflitos de seus respectivos protagonistas. A sociedade americana que eclodiu do pós-guerra parecia sentir a necessidade compulsiva de romper abruptamente com os vitorianos valores das gerações que a antecederam, e de avançar à velocidade da luz em questões há muito “jogadas para debaixo do tapete”: direito à liberdade de expressão, às escolhas de vida, ao uso do próprio corpo de forma natural e sem tabus. Tudo isso parecia afluir na mente de pessoas jovens e maduras, quase sempre com consequências graves, como é mostrado em cada uma destas “joias” cinematográficas, muitas delas adaptadas a partir de brilhantes peças teatrais saídas da mente genial de Tennessee Williams (1911-1983), talvez o dramaturgo norte-americano mais encenado em todos os tempos, e que eternizou-se pela abordagem brilhante desses temas existenciais.

             Não posso encerrar esta crônica sem traçar breves comentários sobre o belíssimo casal de protagonistas do filme, William Holden (1918-1981) e Kim Novak (1933-), dois grandes ícones de seu tempo. Ambos extrairiam grandes dividendos do filme, e seriam mitificados para sempre em razão dele. Para Holden, Picnic representou o auge de sua carreira como galã romântico, ao lado de Suplício de uma Saudade, outro megahit daquele ano de 1955, no qual ele teve por partner a diáfana estrela Jennifer Jones. Foi o ápice de uma trajetória iniciada ainda em 1939, aos 21 anos, quando Bill teve a chance de debutar no cinema contracenando com a grande Barbara Stanwyck, em Conflito de Duas Almas (Golden Boy). Entretanto, o sucesso só viria muito mais tarde, já em 1950, quando ele atuou naquele que viraria um clássico instantâneo, numa crítica genial de Hollywood a si própria: Sunset Boulevard (Crepúsculo dos Deuses, no Brasil), dirigido por Billy Wilder e coestrelado por Gloria Swanson, outro mito dos tempos do cinema mudo. A partir dali, Bill acumularia um sucesso após outro em seu currículo, atuando em faroestes, filmes de ação, comédias românticas e dramas dos mais diversos matizes, recebendo nesse meio tempo o Oscar, por sua atuação em Inferno nº 17, igualmente dirigido por Billy Wilder, em 1953. Após Picnic, ele atuaria no clássico A Ponte do Rio Kwai, de David Lean, que arrebatou o prêmio máximo da Academia em 1957. Era um verdadeiro astro, um ator sólido e carismático, amado e admirado por legiões de fãs mundo afora. Infelizmente, como ocorreu com tantos outros artistas em Hollywood, não teve forças para lutar contra o alcoolismo, um vício que, num espaço de apenas dez anos, devastou sua bela aparência, antecipou sua velhice e acabou por causar-lhe a morte precoce, aos 63 anos, bêbado e desamparado, em decorrência de uma queda estúpida em seu quarto, seguida de um violento baque na cabeça e de uma incontida hemorragia.

               Já a “deusa” Kim Novak conheceria o sucesso justamente a partir de Picnic, tornando-se, aos 22 anos, uma das mais populares estrelas da segunda metade dos anos 50, época em que protagonizou, sucessivamente, os sucessos Melodia Imortal (1956), Meus Dois Carinhos (1957), ao lado de Rita Hayworth e Frank Sinatra; Um Corpo que Cai (1958), no qual foi dirigida pelo mestre do suspense Alfred Hitchcock; e O Nono Mandamento (1959), outro espetacular drama romântico, contracenando com Kirk Douglas. Alta, loira, dona de uma beleza nórdica, de um olhar felino, de um corpo escultural, e de uma sensualidade mais sutil que a da “platinada” Marilyn Monroe, Kim Novak - ao lado de Ava Gardner, Elizabeth Taylor, Grace Kelly e da própria Marilyn - é justamente reverenciada como um dos ícones de beleza e glamour não só daquela década, como de todos os tempos no cinema, sendo eternamente lembrada, a cada retrospectiva de sua carreira, pela romântica Madge de ‘Picnic’ ou pela sensual Madeleine, sua misteriosa personagem no filme de suspense de Hitchcock. Sempre subestimada como atriz pelos críticos – o que é uma grande injustiça - Kim teria uma oportunidade ímpar de mostrar todo seu talento alguns anos depois, ao encarar (e se sair muito bem) no difícil papel da amoral Mildred Harris, a anti-heroína criada pelo escritor Somerset Maughan, na terceira adaptação cinematográfica do clássico romance Servidão Humana, levada às telas em 1964. Prova da injustiça a que me refiro é o fato de que até hoje a Academia não lhe concedeu o merecido Oscar honorário. Ao lado de Natalie Wood, Kim pode ser considerada a última estrela de Hollywood forjada sob os moldes do chamado Star System, a intensa máquina publicitária inventada pelos poderosos estúdios da Califórnia para promover um ator ou uma atriz em ascensão, convertendo-os subitamente em ‘movie stars’, da noite para o dia. Coincidentemente, graças à sua longevidade, e do alto dos seus quase 92 anos, completados em 13 de fevereiro, Kim Novak é hoje também praticamente a última “lenda viva” do cinema dos anos 50, derradeira sobrevivente, junto com sua contemporânea Shirley MacLaine (1934-), da Golden Age de Hollywood.

                 A essa altura, o leitor deve estar se perguntando o que um filme que aborda sobre repressão sexual e pessoas frustradas teria de tão especial, de tão encantador, ao ponto de provocar emoções e memórias tão profundas em seus espectadores. Bem, a resposta é: TUDO! Embora a película nos induza à reflexão sobre muitas das angustiantes questões comportamentais que perturbavam a sociedade americana da época, posso afirmar, sem medo de faltar com a verdade, que ele nada tem de triste ou de “pesado”. Muito pelo contrário. Assim como ocorre com E o Vento Levou, Casablanca, Um Lugar ao Sol e tantos outros clássicos eternos, tudo em ‘Picnic’ é belo, perfeito e instigante. Tudo nos deslumbra e nos faz sonhar: a suave fotografia em Technicolor, o ‘sex appeal’ dos protagonistas, o talento do restante do elenco, a estória envolvente, muito bem conduzida pelo diretor Joshua Logan, as arrebatadoras canções ‘Moonglow’ e ‘Picnic’, as evocativas cenas do piquenique e da dança erótica que deflagra as paixões recolhidas das personagens; e, sobretudo, o FINAL do filme, aquele final, que enche nossos corações de uma alegria abstrata e de um sentimento quase mágico de felicidade, de alumbramento e de fé na vida. A vida de todos nós, que um dia conhecemos não apenas uma senhorita Sidney em nossas famílias, mas também uma valorosa Millie na escola, ou uma encantadora Madge numa festa qualquer, desfrutando, absoluta e poderosa, de sua efêmera e preciosa juventude. Pois nisso reside a magia do drama real entrevisto através da arte. “Dourar a pílula” das agruras e mazelas do cotidiano, e deixar em nossas vidas algo de bom e de puro - ‘a taste of honey’, um perfume de rosas, um ´je ne sais quois´ - que nos faz acreditar que o mundo pode ser mais bonito do que ele muitas vezes se apresenta, e os seres humanos um pouco mais dignos dessa condição.

 

               

 

              “A thing of beauty is a joy forever”  

                        Keats (poeta inglês)

 

FOTOS: Cartaz e foto do filme ‘Picnic’, retratando o casal de protagonistas Hal (William Holden) e Madge (Kim Novak). Acervo da Columbia Pictures, disponível na Rede Mundial de Computadores.

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Artigo publicado em 02.02.2025

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Just The Way You Are – As love songs e o auge do romantismo da década
de 1970

Por Ronald Péres

                  Canções classificadas genericamente como “românticas” sempre foram uma constante no universo da música popular e uma aposta certa no sucesso no hit parade – sejam elas bem ou mal compostas, chiques ou bregas, lentas ou compassadas, sublimes ou piegas; e não importando o gênero: baladas, boleros, tangos ou sambas-canções. A razão do êxito comercial de tais composições é óbvia, devido ao fato de estarem, todas elas, invariavelmente, associadas ao amor, ao “estar apaixonado”, ao indefectível “estado de graça” que leva um ser humano a pensar no outro, no objeto de sua paixão, full time, 24 horas, como se os dias, as tardes, as noites e as madrugadas fossem apenas meras abstrações cronológicas, marcadas pelo tic-tac dos ponteiros de um relógio, que, tal e qual uma verdadeira “câmara de tortura”, ali se encontram tão somente para separar lentamente a hora precisa daquele telefonema (ou daquele chat) tão esperado, com o ser amado, de preferência no aconchego de um sofá ou no regaço de uma alcova à meia-luz. A hora da voz sussurrada no ouvido, da palavra mais doce no teclado do celular, da emissão do emoticon carinhoso de mil e um corações, de frases do tipo: “(...) Não consigo tirar você da minha cabeça“, (...) Estou sentindo tanto a tua falta”, “(...) Preciso te ver de qualquer maneira”. Quem nunca? Que seja transformado numa infame estátua de sal, tal e qual a bíblica mulher de Ló, esse espectro desalmado, esse infeliz arremedo de gente, que passou por este planeta e, literalmente, não sorveu do “jardim das delícias” de uma paixão arrebatadora!

​             Em outra vertente, essas “horas de desespero” podem ser enquadradas dentro daquele tempo interminável que medeia o próximo reencontro com aqueles a quem amamos: no shopping, no cinema, no restaurante, na boate, na praia... Para uma hora dessas, de mentes obnubiladas, corações palpitantes, suores e tremores gélidos, calores íntimos e permanente lassidão, nada melhor do que curtir uma boa música de “dor de cotovelo” - ou de “frisson hormonal” (digamos assim), a depender do estado down ou up da ansiosa criatura imersa em febril e incurável paixão. Músicas como a “quente” Just The Way You Are, mega hit do norte-americano Barry White, um clássico das pistas de dança, do som dos carros de vidros fumé e da música-ambiente dos motéis; e presente na trilha sonora de dez entre dez apaixonados entre os 15 e os 60 anos viventes entre meados dos anos 70 e o final da década seguinte.  

                   Quando Just The Way You Are foi lançada, em 1978, o mundo vivia em plena era dos “embalos de sábado à noite”, da efervescência das boites e da chamada disco music, um subgênero musical, misto de rock e balada, feito exclusivamente para as pessoas “ferverem” freneticamente por seis ou sete horas nas noites e madrugadas do planeta. Tempos das históricas boates Studio 54 e Régine´s, de Nova York; Dancin´ Days e Hippopotamus, do Rio de Janeiro; e das manauaras Boate dos Ingleses, Crocodilo´s e Moranguinho. Os “reis” das pistas, nesse ano preciso, eram, evidentemente, os Bee Gees (os talentosos irmãos australianos Barry, Robin e Maurice Gibb), emplacando um sucesso atrás do outro, todos extraídos do super álbum Saturday Night Fever, trilha sonora do filme de mesmo nome, estrelado por John Travolta. Michael Jackson somente iria “estourar” em sua carreira solo, dentro do estilo dancing, no ano seguinte, com as requebrantes Don´t Stop Til You Get Enough e Rock With You, ambas com arranjos criados pelo genial produtor musical Quincy Jones. Já o cetro de “rainha” era dividido, democraticamente, entre as duas grandes disco divas da época, Gloria Gaynor e Donna Summer, ambas donas de poderosas vozes de semi-contralto e de ardorosos fã-clubes de fiéis e fanáticos seguidores e imitadores, dentro da comunidade hoje chamada genericamente de “LGBTQI+”. Era a época das luzes estroboscópicas, das caixas de som dos primeiros DJ´s, dos macacões estilizados, das meias de lurex, do brilho dos lamês e  paetês; dos laquês e das maquiagens carregadas; e das “leoninas”  cabeleiras cultivadas por homens e mulheres, à la Barry Gibb e Farrah Fawcett (a loura fatal do famoso seriado televisivo As Panteras).

                   Mas esse era apenas um lado da história. Porque do outro, claro, havia - como sempre houve, diga-se de passagem – a esperada pausa ‘for making love’, parafraseando o título do saudoso programa local veiculado pela Rádio Difusora nos anos 80, e capitaneado às altas horas da noite pelo inesquecível locutor F. Cavalcanti, com sua embriagante “voz de conhaque”. Como ninguém é de ferro (nem mesmo aos vinte e poucos anos), depois de tantas “sacudidas de esqueleto” na pista de dança, era imperiosa essa parada estratégica, aqui e acolá, para um drink, um respiro, um recosto na poltrona, uma conversa ao pé do ouvido, uma paquera, muitos “amassos” e sabe-se lá quantos beijos intermináveis, até o fôlego dizer chega! Era a hora em que saíam de campo os musos e musas “do agito” e entravam em cena outras “divindades” daquele período, não menos icônicas, talentosas e donas de românticos vozeirões: Stevie Wonder, Diana Ross, Marvin Gaye, Lionel Ritchie, Roberta Flack, e, evidentemente, Michael Jackson e Barry White – a turma da Motown, a emblemática gravadora de Detroit fundada pelo produtor Barry Gordy, totalmente calcada na ‘soul music’ e no ‘rhythm & blues’, e responsável pelo lançamento de todos esses fantásticos artistas ‘black’, entre os anos 60/70. Dentre outros tantos mais, todos na mesma “pegada”, como B. J. Thomas, Barry Manilow, Billy Paul e Kenny Rogers... O ‘set list’ dessa turma da pesada? Quem viveu sua juventude na época (e mesmo um pouco depois, até fins dos anos 80) se lembra muito bem: Rock´n Roll Lullaby, Got To Be There, You Are Everything,Stop, Look, Listen To Your Heart, Killing Me Softly With This Song, The Closer I Get To You, Solitaire, Evergreen, I Loved You, Three Times A Lady, Easy, How Can You Mend A Broken Heart, How Deep Is Your Love, Too Much, Too Little, Too Late, One Day In Your Life, My Love, Mandy, You Make Me Feel Brand New, Without You, Love´s Theme, You And I, Overjoyed, Lately, Making Love, It Might Be You, Best That You Can Do, Lady, Feelings, Conversation e She´s My Girl (sendo estas três últimas super sucessos lançados pelo brasileiro Maurício Alberto Kaisermann, mais conhecido como Morris Albert). E segue o baile... Resistir a tais apelos sonoros ao coração, quem havia de, não é mesmo?

 

               Todas essas canções maravilhosas são clássicos, são standards, que não apenas resistiram à passagem do tempo – e lá se vai cerca de meio século desde que foram gravadas originalmente – como ultrapassaram o seu próprio caráter comercial. São peças cult, produtos culturais tão valiosos, dentro de seu estilo, quanto quaisquer composições eruditas de Mozart, Beethoven ou Bach. Fazem parte de nosso patrimônio auditivo-afetivo, e, sempre que executadas, mexem profundamente com nossas emoções. Com as minhas sempre mexeram, E continuam mexendo, já que eu as escuto regularmente, quase como uma prece diária, para me tele-transportar novamente àquele período tão intenso e tão saudoso, onde o amor estava literalmente, no ar.

             ​​​​     Poderia, pois, ter escolhido qualquer uma delas para intitular essa crônica em homenagem à inesquecível ‘love music’ dos anos 70. Mas, como me vi obrigado a eleger apenas uma, como síntese de tudo o que aqui tento descrever, não hesitei um segundo. E resolvi cravar em Just The Way You Are, por ser ela certamente uma das mais representativas daquele período, do “clima” daquela época, de um tempo em que, sem exagero, estando no ambiente esfumaçado de uma discoteca, todo mundo esperava “alguma coisa de um sábado à noite”, como cantaria depois o Tony Garrido. E esse “alguma coisa”, claro, passava quase sempre pela via do namoro – nas modalidades “banho-maria”, “fogo brando”, “fogo alto” e réchaud. Ou seja, paquera, “engate”, paixão/tesão total e reconciliação.

 

                Nessas horas, quando o DJ acionava, por exemplo, a emblemática canção de Barry White, ou alguma outra de Roberta Flack & Cia., a deixa estava dada: quem estava numa boa, entrava numa melhor ainda. E quem estava na “fossa”, ia direto para o fundo do poço, sem escadas. No caso destes últimos, as cenas eram risíveis e patéticas. Mme refiro aos homens, em especial: o sujeito, jovem ou “balzaquiano’, que não tinha coragem de dar aquele “chega mais” no objeto de seu desejo (ou já tinha simplesmente levado um “fora” homérico), ficava recostado sozinho no balcão do bar ou afundado na poltrona, balançando um copo de uísque ou de vermute ‘on the rocks’, com o olhar de “cabra morta” perdido no vazio. Imerso nessa bad trip, frustrado em seus intentos, entornava todas e começava a enrolar a língua e a repetir “trocentas” vezes a mesma lenga-lenga, enchendo o juízo do garçom que o servisse ou do primeiro infeliz que se postasse ao seu lado disposto a ouvir suas infinitas lamúrias e desditas amorosas. O próprio estereótipo do “chato”, outro clássico da night. Bizarre, como dizem os franceses...

                   Mas o bacana mesmo era admirar, num exercício de quase voyeurismo, a atitude-padrão, sinérgica e paralela, adotada pelos que estavam do outro lado da ponte, ou seja, o pessoal que estava ‘in the mood for love’. E que desfrutava, com calores e sem pudores, de tal estado de espírito. Quando, no caso do exemplo que tomei, Barry White declamava o recitativo de Just The Way You Are, sussurrando a introdução da melodia com aquela poderosa voz de barítono que Deus lhe deu, as portas do Paraíso de abriam para os pretendentes a amantes: olhos nos olhos, pernas roçando embaixo da mesa, “mãos bobas” perpassando cabelos, pescoços, colos, costas e rostos; bocas se aproximando, palavras cessando, corpos falando por si, êxtase e volúpia, instinto animal em estado puro. Ao fundo, no swing e na voz do “cupido” Barry, as primeiras frases da canção davam o recado da própria essência de quem ama de verdade: ‘Don´t go changing... Trying to please me... You never let me down before... I don´t imagine you´re too familiar... And I don´t see you anymore... I would not leave you in times of trouble... We never could have come this far... I took the good times, I´ll take the bad times... I´ll take you  just the way you are!’

                   Declaração “na veia”, sem filtros, sem firulas, sem frescuras. O resto? A cumplicidade da “noite-criança” se encarregava de ajustar. Fosse onde fosse, do jeito que fosse, pelo tempo “infinito” que fosse...

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                    Obs: Crônica publicada originalmente na página pessoal do autor, no                        Facebook, em 07.04.2023. Imagem: Rede Mundial de Computadores.

Artigo publicado em 12.01.2025

“CORONEL” HENRIQUE DE SOUZA, MEU AVÔ – UM GENTIL HOMEM

Por Ronald Péres

                  24 de outubro, data oficializada, já há alguns anos, como o aniversário oficial de Manaus, traz embutido consigo, nos recônditos de minha memória afetiva, um selo de saudade. Nesse dia, há quarenta anos, eu me despedia de uma figura muito especial, um homem que - ao lado de meu pai, Jefferson – representou com toda a certeza um dos primeiros e maiores referenciais masculinos em minha vida. Por isso mesmo, peço licença aos meus leitores, para, mesmo correndo o risco de ser um tanto cabotino, falar um pouco sobre ele e sobre sua vida. De antemão, advirto desde já que ele não foi uma pessoa pública, um grande político, empresário, artista ou intelectual listado no rol da história do Amazonas, nem tampouco um expoente da chamada “alta sociedade”. Era um homem letrado e, à sua maneira, refinado, sim, com toda a certeza. Mas, sobretudo, era um homem comum, no que este adjetivo carrega de melhor em sua conotação. Um homem bom, um homem doce, um homem decente, um homem ímpar: meu inesquecível avô materno, Henrique de Souza.

​             Nordestino “de boa cepa”, nascido em 15 de março de 1898, numa pequena propriedade rural da vila de Estivas (atualmente um distrito do  município litorâneo de Extremoz), no Rio Grande do Norte, não muito distante da capital potiguar, Natal, no seio de uma família de pobres agricultores, vovô Henrique, apesar da falta de recursos financeiros de seus pais, teve uma infância sadia, crescendo como menino livre (no melhor sentido da expressão) nas areias da bela e selvagem praia de Muriú, em meio à faina diária dos pescadores e à natureza exuberante – marcada não apenas por belíssimas praias de areia fina e alva, mas também por dunas, falésias, lagoas, restingas e manguezais - que caracteriza tantas e tantas vilas de caiçaras espalhadas pela costa nordeste do Brasil, bafejada pelos tépidos ventos alísios que sopram incessantemente do sul do Oceano Atlântico.

                   Dono de uma aguçada sensibilidade, como sói ser da natureza de todos aqueles nascidos sob o signo de Peixes, Henrique, desde cedo, demonstrou um nítido pendor para as Letras, e, mesmo sem ter tido acesso a um ensino de nível superior – meta praticamente inatingível para um humilde “provinciano”, à época – conseguiu, graças a seus méritos pessoais e ao seu próprio esforço, vencer paulatinamente as limitações impostas por sua condição sócio-econômica e seu grau mediano de escolaridade. Por volta dos quinze anos, em meados da década de 1910, já órfão de mãe e residindo com sua avó em Natal, enveredou, como tantos jovens ilustrados de seu tempo, pelo jornalismo, empregando-se como colaborador em A República, um dos periódicos de maior prestígio daquela capital. Um ofício pelo qual tomou evidente gosto, uma vez que, pouco tempo depois, já se encontrava residindo e trabalhando na Imprensa Oficial da capital do Estado vizinho, a Cidade da Parahyba (como então se grafava o nome da atual João Pessoa); e casado com sua primeira esposa, a paraibana Maria Freire, com a qual gerou nada menos que cinco filhos, uma prole dentro do padrão das famílias de classe média no Brasil, até o início dos anos 1950. Tudo dentro “dos conformes”, para usar de um jargão nordestino muito típico, na vida de um jovem talentoso e denodado, mas sem muitos recursos, ainda em início de carreira.

                   Nessa época, início da década de 1920, Henrique, além de dar vazão ao seu pendor de literato diletante, compondo versos aqui e acolá – um predicado comum a muitos nordestinos, dotados que são de uma natural “veia poética” -, procurou se especializar num ofício técnico que, dentro do espectro de abrangência do mesmo métier editorial, lhe garantisse um salário fixo, de sorte a propiciar o sustento de sua recém-formada família: as artes gráficas. Afinal de contas, qualificar-se como tipógrafo, num Brasil que, proporcionalmente aos tempos atuais, podia ser classificado como um “país de leitores”, não era para qualquer um. Ao contrário, era uma profissão extremamente valorizada e relativamente bem remunerada, se levarmos em conta o contexto geral de outras atividades de cunho técnico ou artesanal, igualmente em evidência na cena urbana daquela época.

 

               Assim, devidamente gabaritado para tal, não tardou para que o jovem gráfico, na faixa dos seus vinte e poucos anos recebesse uma tentadora proposta de trabalho, vinda, não por acaso, do órgão de Imprensa Oficial de uma paragem muito mais longínqua: Manaus (ou Manáos, como era grafada à época), situada a mais de três mil quilômetros de distância de sua terra natal, cidade outrora bastante próspera nos áureos tempos da extração da borracha, mas que, a despeito da débâcle do ciclo do látex, acentuada desde meados da década anterior, ainda se mostrava uma terra bastante promissora para as “aves de arribação”, daqui e d´alhures, que nela aportassem, a fim de “fazer a vida” no setentrião amazônico. Munido desse espírito esperançoso, Henrique, incontinenti, não titubeou em tomar o primeiro “ita do norte” rumo à capital amazonense, seguindo o caminho percorrido por milhares e milhares de nordestinos, antes e depois dele. E veio acompanhado de toda a família, e de seu amigo e colega de profissão, o paraibano Lucena, que, anos mais tarde, já nos anos 50, abriria na cidade a sua própria e conhecida tipografia homônima.

 

             ​​​     Recém chegado à cidade, instalou-se com sua esposa e filhos numa casa da Cachoeirinha, então um arrabalde tranqüilo, marcado pela presença de muitas e enormes chácaras, e bem servido em sua infraestrutura por linhas de bondes da Manáos Tramways e pela bela ponte metálica inglesa, construída em 1895 por Eduardo Ribeiro, que até hoje marca o principal acesso ao bairro para aqueles que vêm do centro histórico de Manaus. Não foi uma escolha feliz, contudo. No vizinho subúrbio, naquela época, grassavam de tempos em tempos constantes surtos de impaludismo (malária), uma séria preocupação das autoridades sanitárias; endemia que, num lance cruel do destino, terminou por vitimar quase toda a sua família (a esposa e quatro crianças), com exceção da filha caçula, Auta, então um bebê de colo, que escapou da tragédia apenas pelo fato de ter ficado na Paraíba, aos cuidados de sua avó materna. Henrique também caiu doente, mas, homem vigoroso que era, conseguiu se safar da “foice da magra”.

 

                Não sabemos até que ponto a desdita afetou psicologicamente vovô, sempre um homem muito discreto e nada dado a lamúrias, e quanto tempo ele levou para se refazer de um golpe tão terrível. O fato é que, por volta dos trinta anos, ele era um homem viúvo, sem posses, com uma filha pequena para sustentar e sozinho em uma terra estranha. E teria que recomeçar a vida do zero, custasse o que custasse. Afinal de contas, era um nordestino, um sertanejo, e, “antes de tudo, um forte”, como bem escreveu Euclydes da Cunha em Os Sertões. E, como tal, não se dava por vencido à toa. 

                   Revertido à condição de solteiro, Henrique, no final da década de 1920, instalou-se junto a outros inquilinos do sexo masculino num cômodo alugado – um apartamento, dir-se-ia hoje em dia, se quiséssemos “dourar a pílula” - nos altos do sobrado da Livraria e Tipografia O Velho Lino, na esquina da Avenida Sete de Setembro com a Rua Barroso, situado a poucos passos de seu local de trabalho, a sede da Imprensa Oficial, então localizada ao lado do imponente edifício da Biblioteca Pública Estadual. Foi o modo mais prático que encontrou a fim e economizar tempo e dinheiro, já que não necessitava tomar o bonde para se dirigir ao emprego, no qual, por imposição própria do ofício, precisava adentrar bem cedo, nas primeiras horas do dia, a fim de planejar e supervisionar a diagramação das notas que iriam ser levadas ao prelo.  Uma rotina que, diga-se de passagem, se repetiria ao longo de toda a sua existência, até por volta dos oitenta e poucos anos, quando, certamente a contragosto, viu-se premido a se aposentar da profissão da qual tinha tanto orgulho, vergado pelo peso da idade.

                    Talvez ele não o soubesse àquela altura, mas aquele cenário urbano, o perímetro formado pelo eixo da Avenida Sete de Setembro e pelas ruas comerciais adjacentes, também jamais sairia de sua rotina (e de sua retina) pelas cinco décadas seguintes. Após o hiato passado no Diário Oficial (que não há de ter sido muito longo, até onde sei), Henrique foi contratado pela gráfica rival do Velho Lino, e uma das mais antigas e prestigiadas de Manaus: a famosa Tipografia, Livraria e Papelaria Palácio Real, de propriedade da firma César & Cia. Ltda. Uma empresa de renome e tradição no segmento, fundada em 1892 sob a afrancesada razão social de Palais Royal (que manteve até bem depois dos tempos áureos da borracha), e responsável pela impressão de toda sorte de livros, revistas, opúsculos, anúncios de propaganda comercial, convites e impressos oficiais circulantes no mercado editorial local. Gráfica esta que, não por acaso, ficava situada também na Sete de Setembro, quase na esquina com a Avenida Eduardo Ribeiro. Esta, sim seria a sua “casa” profissional pelo resto da vida, até o início da década de 1980. Ali ele exercia, com proficiência e responsabilidade, o seu nobre mister, como chefe da seção das máquinas da tipografia, imerso em meio ao “teque-teque” frenético e incessante das prensas e ao cheiro da tinta fresca que emanava das oficinas da Palácio Real. E ali ele teve a oportunidade de travar contato, profissional e social, com alguns dos maiores intelectuais de Manaus, dos quais editava os livros por eles recém-lançados, com todo o esmero que seu ofício exigia, e com todo o prazer que seu diletantismo literário lhe proporcionava. Esse oportuno e singular convívio com a elite pensante da terra, não raro, desdobrava-se em outros bônus, como, por exemplo, os ingressos gratuitos que, vez por outra, os amigos e clientes ligados à seara cultural lhe forneciam para peças de grande prestígio em cartaz no Teatro Amazonas, excursionando em tournée desde o sul do país, e estreladas por atores do calibre de um Procópio Ferreira (Deus lhe Pague) ou de um Rodolfo Mayer (em seu famoso monólogo As Mãos de Eurídice). E vovô, claro, “não se fazia de rogado”, a elas comparecendo sempre que pudesse, invariavelmente acompanhado por minha tia Marluce, sua primogênita, já que vovó não era muito adepta da ancestral arte de Eurípides e Sófocles, preferindo muito mais as populares matinées e soirées cinematográficas no Guarany e no Polytheama.

                Esses interlúdios de lazer, todavia, eram esporádicos, pois vovô era, acima de tudo, um operário, ainda que gabaritado. E um operário que trabalhava muito. Trabalho duro, que lhe consumia longas horas pela manhã e pela tarde. Nem por isso, Henrique descurava da sagrada hora de descontração, ao final do expediente – a happy hour, como se diz hoje em dia - para tomar uma cerveja XPTO bem gelada, ao lado dos amigos, no Bar Americano, no Bar Avenida ou na Bolsa Universal, alguns de seus botequins preferidos, e dos mais bem freqüentados à época. Assim como não descurava igualmente do cuidado com sua aparência, através da indumentária. Sempre vaidoso, no auge de sua vida adulta, entre as décadas de 1920 e 1950, trajava-se de forma impecável para ir ao trabalho. Todos os dias, “desfilava” pelas calçadas da Sete de Setembro envergando bem cortados ternos de linho branco, sapatos de verniz (comprados nas sapatarias Aronne ou Natal), chapéu de massa à cabeça, charuto à boca, o alfinete de gravata com um brilhante reluzindo ao sol, e, no braço, uma elegante bengala com o cabo estilizado em forma animal. Um perfeito dandy, que evocava, dentro da sociologia regional, a figura clássica do “coronel de barranco”. Daí o apelido dado pelos amigos (que ele, no íntimo, apreciava) e que o acompanhou pela vida afora: “Coronel” Henrique de Souza.   

                   Tanto garbo e elegância, reunidos na figura de um viúvo, “balzaquiano” e “remediado”, não passavam, claro, despercebidos pelas “casadoiras” moçoilas da época, e Henrique teve seus namoricos aqui e acolá, sendo inclusive alvo de disputa por parte de duas irmãs, Albina e Olívia Campello (que vêm a ser, inclusive, minhas primas distantes, pelo lado paterno). Mas, ao fim e ao cabo, nenhuma das duas levou a melhor, já que o charmoso Henrique, com sua tez trigueira e seu ar galante (lembrava vagamente o cantor e compositor baiano Dorival Caymmi), já estava “de olho comprido” numa jovem itacoatiarense de seus 18/19 anos: minha futura avó materna, Marina Pereira da Costa, ou simplesmente Maura, seu apelido familiar desde a mais tenra infância. Muito bonita, residindo então com parentes numa casa simples do bairro dos Tocos (atual Aparecida), Maura chamava a atenção desde mocinha, com seu porte naturalmente altivo, sua pele muita alva, seus cabelos castanhos, cortados à altura da nuca no estilo demi garçon; e seus faiscantes olhos verde-piscina, que certamente deviam evocar no poético espírito de meu avô imagens dos translúcidos mares de sua terra potiguar natal. Conheceram-se, como vovó sempre lembrou com ternura, ali por meados dos anos 30, num baile do Caixeiral, o clube dos “caixeiros” (como então se designavam os empregados do comércio, ou comerciários), e não se largaram mais. Não sei quanto tempo durou o namoro e o noivado, que, com toda a certeza, devem ter sido relativamente curtos e caracterizados por toda a formalidade exigida pelos padrões morais e sociais da época. Afinal de contas, vovó era uma “moça de família”; e vovô, um verdadeiro cavalheiro, muito cortês e respeitoso, e sem qualquer laivo de cafajestagem. O romance há de ter sido também - como mandava o figurino, e em sendo protagonizado por um escriba de mão cheia como vovô - abastecido por cartas e mais cartas trocadas entre ambos, recheadas “com açúcar e com afeto”, como diria Chico Buarque, e entremeadas por delicados sonetos de amor de lavra de Henrique (que vovó, se os guardou, jamais compartilhou voluntariamente com seus descendentes, sempre muito ciosa de sua privacidade que era). Apesar de bastante jovem, Maura era uma garota bastante decidida, e muito madura para sua idade. Era a mulher que vovô buscava para, enfim, reconstruir sua vida, na cidade que adotara para si uma década antes. Feito o pedido de casamento aos pais da moça (meu bisavós, Adelino e Carmina), uniram-se, pois, pelos sagrados laços do matrimônio, em 3 de setembro de 1936. Tiveram seis filhos e foram muito felizes, apesar dos naturais percalços e das dificuldades inerentes ao lar encabeçado por um gráfico e uma costureira, que precisava, com trabalhos esporádicos, ajudar seu marido no sempre apertado orçamento doméstico. Uma história comum. Uma bonita e digna história comum, em tudo e por tudo similar a de tantas e tantas famílias Brasil afora, num tempo em que os “dinheiros”, o sonho da casa própria – este realizado muito tardiamente, quando vovô já havia ultrapassado os 60 anos -, os luxos e as facilidades de toda ordem não eram nada acessíveis à maioria da população (tal como se vê nos dias atuais). Nem tão importantes, tampouco, para que uma família se fizesse sólida, estruturada em valores reais e moldada nas adversidades do cotidiano da vida real.

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                Quando nasci, em 1969, meu avô, aos 71 anos, já era um homem de idade avançada, para os padrões daquela época. Mesmo assim, devido ao fato de ser o neto mais velho, e de ter vivido toda minha infância junto de meus avós maternos, cercado de todo o carinho e a atenção que uma criança merece, tive a sorte de conviver bastante com o velho Henrique. Muito menos do que eu gostaria, pois meus interesses infantis naturalmente eram outros, e, claro, eu não tinha maturidade para perceber nem para sorver, na sua plenitude, toda a riqueza humana e a experiência de vida que residiam naquele senhor bonachão, rijo como “pau de aroeira”, e que, a despeito dos anos, nada perdera do vigor físico e da disposição para o trabalho que, segundo depoimentos de minha mãe e de meus tios, sempre foram a tônica de sua personalidade. Continuava a ir regularmente à livraria, cumprir seu expediente diário, percorrendo o mesmo trajeto, ao longo da Avenida Sete de Setembro, que palmilhara a vida inteira; e vislumbrava, certamente com espanto, as sensíveis mudanças de uma cidade que rapidamente abandonava o seu outrora tranqüilo cotidiano, naqueles primeiros anos pós-Zona Franca. Ao chegar, depois da faina, entregava-se com prazer aos seus hobbies domésticos. Pequenos prazeres, que, invariavelmente, traíam a sua origem nordestina, como a sesta após o almoço, deitado numa boa rede de algodão cru – um ritual extremamente saudável, aliás, que eu também me dou ao luxo de manter até hoje, graças a Deus. Outra “mania” sua era a contumácia em regatear (tentar jogar pra baixo) o preço dos produtos oferecidos por seus fregueses habituais – os inúmeros vendedores de peixes, porcos, aves, “carne de caça” (paca, tatu, veado, etc) e toda sorte de utensílios que, vez em quando, batiam à porta de sua casa, munidos de seus balaios, tabuleiros e caixas, para mercadejar seus víveres e traquitanas, numa negociação misturada com “papo fiado”, que, a depender da hora do dia e do interesse de vovô (pela venda ou pela “prosa” do vendedor), podia se estender um pouco além do normal.

              Outro costume trazido por vovô de sua terra de origem, e que muito me aprazia observar – me fascinava, melhor dizendo -, era o amor e o cuidado que ele devotava à sua coleção de pássaros – um pequeno aviário de espécimes exóticos e nativos, disperso por cerca de trinta gaiolas, se não me engano, enfileiradas ao longo do pátio interno da velha casa da Rua Lima Bacury, nº 247. Gaiolas grandes e pequenas, redondas e quadradas, de madeira ou de metal, dependuradas nas paredes ou soltas no ar, presas apenas por grandes ganchos em forma de “S”. Cada uma delas habitadas por aves exóticas e canoras, pequenos seres emplumados e multicoloridos, que tornavam aquele recanto do casarão, sempre adornado também por muitos vasos de plantas, um lugar extremamente agradável se estar, tanto para os olhos quanto para os ouvidos. Eram tantos gorjeios, trinados, chilreados... Saídos dos bicos de periquitos australianos, canários belgas, canários-da-terra, curiós, golinhas e pintassilgos. Sem falar nas aves raras, vindas do Nordeste ou do interior do Amazonas, que se destacavam tanto pela bela plumagem quanto pelo canto excepcional: o azulão, o galo-de-campina, a graúna, o corrupião, o rouxinol do Rio Negro e até mesmo um esplêndido galo-da-serra - este,  com sua crista arredondada e suas penas de um alaranjado iridescente, era o meu favorito dentre todos, esteta que sempre fui. Além de me encantar com os múltiplos passarinhos da criação, e com cada nova encomenda que vovô recebia de seus fornecedores (estamos a falar de um tempo em que não havia qualquer fiscalização ambiental a esse respeito), gostava também de ver o carinho que ele desvelava aos bichinhos, tirando parte de seu tempo livre, geralmente aos sábados à tarde, para, uma vez sentado e munido de toda a paciência do mundo, dedicar-se a limpar com muito zelo as barras das gaiolas, lavar os cochos e enchê-los de água e alpiste, acariciar suas penas e tratar as avezinhas a “pão-de-ló”, à base de frutas, maxixe, gema de ovo e outros mimos. Uma cena que, tirante o lamento de ver as aves encarceradas, deixaria enternecido qualquer defensor “xiita” dos direitos dos animais. Era deveras encantador aquele ritual!
 
​​​                   Sob outro prisma, minha curiosidade infantil também se voltava  para outro passatempo diário de vovô, fumante inveterado que era, mas com muita distinção e elegância. Era o ritual que envolvia a metódica limpeza de seu cachimbo, a preparação do fumo, e, por fim, a inspeção e a arrumação de suas lindas latas de tabaco importado, que ocupavam parte da despensa da casa, verificando sempre se o produto estava bem embalado e protegido da umidade ou do ataque de brocas e fungos, ao mesmo tempo em que abria as latas para sentir-lhes o aroma, uma por uma. Sim, pois o tabaco de boa qualidade, pelo fato de ser misturado a finas especiarias, rescende a um suave perfume adocicado, fragrância que - ao contrário dos fedorentos cigarros - constitui parte do prazer dos adeptos (cada vez mais raros) dos cachimbos e charutos. E vovô apreciava ambos, sendo a norte-americana Half & Half, aromatizada com notas de anis e cardamomo, sua marca de tabaco preferida, segundo a recordação de meus tios.
                   
                 Talvez devido ao seu avançado grau de miopia (ou astigmatismo, não me lembro agora), não me lembro de vovô lendo grandes textos com freqüência durante minha infância. Mas não erro em afirmar que em outros tempos ele fora um leitor contumaz, com toda a certeza. E a prova disso era a sua sortida estante – um dos meus “parques de diversões” naquela época – repleta de títulos os mais variados, desde as coleções completas dos Sermões do Padre Vieira e dos romances de Machado de Assis e Eça de Queiroz, até revistas e livros avulsos dos mais diversos gêneros, principalmente coletâneas de poesia de autores potiguares e amazonenses; muitos deles de capa dura, bem editados e encadernados pela Palácio Real, e com o inconfundível autógrafo de vovô na folha de rosto, com suas letras ligeiramente tremidas. Embora não os tenha lido todos àquela altura (nem mesmo a metade, talvez), em todos passava sempre uma vista d´olhos, ao chegar da escola ou depois das brincadeiras, admirando ora a excelência da edição e da impressão, ora a beleza da capa e das gravuras internas, ora a textura e o cheiro do papel; e me deixava levar, a esmo, por horas a fio, pelo mundo encantado das palavras e da riqueza da língua portuguesa. Hoje, passados quase cinqüenta anos dessas primeiras “emoções orgásticas” literárias, tenho plena noção de que foi ali, precisamente ali, imerso na pequena estante “mágica” de vovô (e logo depois, na vasta e rica biblioteca de papai) que começava o meu eterno caso de amor com os livros e com a cultura erudita. Esse début eu devo, indiretamente, a ele.
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           Olhando em retrospecto a trajetória de vida de vovô, chego à conclusão de que, a par de seus indiscutíveis predicados humanos,  intelectuais e profissionais, talvez um dos traços mais elogiáveis de sua personalidade, e que muito diz do homem grandioso que ele era, seja o fato de como ele se entregou de corpo e alma – e, principalmente, de coração – à sua nova terra, o Amazonas; e à cidade que elegeu para construir sua nova vida e sua nova família, Manaus. Cidade em relação à qual, diga-se de passagem, vovô jamais dirigiu qualquer palavra de menosprezo ou de crítica chula, tal como proferido por tantos arrivistas que por aqui já aportaram e ainda aportam. Leviandades do tipo: “essa terra só é boa para ganhar dinheiro!”, ou “quero logo fazer o meu pé-de-meia e voltar correndo pra minha terra!”, sem falar de outros impropérios impublicáveis. Nada disso. Nem de longe. Vovô tinha o espírito do verdadeiro migrante, aquele que, por uma combinação de fatores circunstanciais (geralmente adversos), toma a decisão madura, consciente e definitiva de deixar seu torrão natal, sem mágoas nem “contas a acertar”, para ir ao encontro da sua “Pasárgada”, o local imaginário por si idealizado para sua plena felicidade, tal como evocado no clássico poema de Manoel Bandeira. 
            Nesse sentido, acho eu – tenho certeza, melhor dizendo – que Manaus foi a Pasárgada de vovô. É óbvio que devia sentir saudades ocasionais de sua terra potiguar, com seu belo e vasto oceano de mil tons de azul-turquesa; do sabor doce e suave da mangaba e da seriguela; dos prazeres de uma boa carne-de-sol untada de manteiga-do-sertão; e, claro, da típica prosódia “cantada” do nordestino, com sua cadência, suas interjeições e seu sotaque tão característicos. Mas, apesar disso, não me consta que houvesse algum dia expressado o real propósito de lá se restabelecer de vez. Muito pelo contrário, Henrique rapidamente se fez amazonense e manauara, em todos os sentidos. Frequentava religiosamente o Mercado Adolpho Lisboa todos os domingos, onde degustava e se abastecia de guloseimas (mingau de banana-pacovã, pé-de-moleque, quebra-queixo, tapioca de coco) e de toda sorte de frutas regionais e de pescados de água doce, dos quais entendia e desfrutava de todas as formas possíveis (frito, assado e cozido), tal e qual qualquer caboclo do beiradão. Não por acaso, um de seus pratos preferidos era uma boa e típica tartarugada, servida à farta em todas as suas variantes (guisado, picadinho, paxicá e sarapatel), um acepipe olfativo e gustativo, aliás, imensamente apreciado também por minha querida mãe, “xerimbabo” do velho Henrique, como ela sempre se ufanou, e que também sabia preparar (e degustar) um quelônio como ninguém. Por falar em mamãe, não posso aqui, bem a propósito, deixar de evocar uma das máximas do velho Henrique que ela mais gostava de rememorar, e que trazia consigo como uma carinhosa lição de vida passada de pai para filha: “Afaste-se dos propulsores!”, querendo ele dizer com isso que ela se mantivesse sempre atenta a todos os falsos amigos, “amigos de oba-oba”, evitando sua sedução barata e sua influência nefasta, através de maus exemplos ou maus conselhos que, porventura, pudessem vir a lhe prejudicar doravante. Uma pequena lição de amor, que só mesmo aqueles que nos amam com uma intensidade imensurável – como nossos pais – podem nos transmitir.
 
             Como bom menino caiçara, criado à beira-mar, e depois convertido em “caboco” amazônico, Henrique gostava também de praticar natação e de se refrescar, nos fins de semana, nos inúmeros e límpidos “banhos” de igarapé que circundavam a cidade até os anos 60 (Tarumã, Ponte da Bolívia, Parque Dez, Muruama, Guanabara, Tucunaré, etc). Um hábito atávico e salutar, do qual a minha geração e as seguintes foram privadas, infelizmente, por óbvios motivos. Mas de suas habilidades como nadador sou testemunha ocular, como pude atestar certa feita, na piscina de nossa casa, quando vovô, já com seus oitenta e tantos anos, nela mergulhou de ponta-cabeça (de uma altura de três metros), indo varar na margem oposta, debaixo d´água, de um fôlego só. Uma exibição atlética que nos deixou a todos – vovó, os filhos, os netos e demais agregados – atônitos na ocasião, boquiabertos com o tremendo vigor físico e com a habilidade ginástica de vovô. Ele era mesmo um “touro”, como se costumava dizer. Ou, melhor dizendo, um velho elefante, forte, imponente e respeitável. Um elefante que, depois de uma bela jornada na vastidão da savana africana, assentou-se um dia, de forma tranqüila e serena, no recôndito de sua caverna, para o repouso final. Assim foi a passagem do “velho elefante” Henrique, tranqüila e serena, na sua “Pasárgada” à Rua Lima Bacury, nº 247, aos 86 anos, em um triste dia de outubro de 1984.
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            Hoje em dia, olhando em retrospecto, percebo que muito da pessoa que sou hoje – um ser humano voltado totalmente para o cultivo do intelecto, através da leitura, da escrita e da percepção do mundo à minha volta – devo, de uma forma indireta, a esses dois homens singulares, esses dois piscianos maravilhosos, que me marcaram tão profundamente: meu pai, Jefferson Péres; e meu avô, Henrique de Souza. E o mais gratificante é constatar que o exemplo de ambos – principalmente no caso de vovô - me foi transmitido não através de autoritárias e enfadonhas lições de moral, de um modo austero e repressor, mas sim por meio do mero e diuturno exercício de observação que um infante lança em relação a um adulto (crianças são sempre argutas observadoras do seu entorno, e jamais devem ser tratadas como tolas pelos mais velhos). Eu gostava de praticamente tudo na personalidade de vovô: seu senso de organização, sua meticulosidade com os mínimos detalhes, seu fino senso de humor, seus modos simples e afáveis, seu respeito pela casa enquanto lugar de descanso e de harmonia familiar, seu jeito lhano e cavalheiresco, sua aversão a brigas e polêmicas de qualquer gênero, e seu apreço pelo silêncio - ele “pulava” da cadeira, por exemplo, sempre que alguém, de forma rude e mal-educada, alteava a voz desnecessariamente ou batia o portão da rua com mais força. Era, enfim, um homem cheio de predicados, sábio, justo, sensato e extremamente respeitoso com seus semelhantes. Dele guardo e guardarei sempre a mais terna das lembranças; e também o mais doído lamento, pelo pouco tempo que, já em minha plena consciência infanto-juvenil, pude desfrutar de seu convívio. Mas seu arquétipo masculino me serve de baliza até hoje, e sua presença imaterial permanece comigo, de uma forma cada vez mais intensa e constante, à medida que a idade avança e os anos de separação física se alargam. Assim como, em minha fé cristã, creio que permanecem em nossas vidas todos aqueles que um dia amamos, e que nos amaram verdadeiramente. Nossos “avatares”, nossos “guardiões”, nossos “anjos”, o nome que queiram dar. E que bom que é assim. Como ensinou Santo Agostinho, “a morte não é nada”, mas, tão-somente, o “outro lado do espelho”.       

 

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Artigo publicado em 08.12.2024

FITZCARRALDO – O FILME, O HOMEM E A REINVENÇÃO DO MITO

Por Ronald Péres

                           Na primavera europeia de 1982, despontava no écran do Festival de Cinema de Cannes, na Riviera Francesa, um dos filmes mais aclamados naquele ano pela crítica especializada. Uma co-produção entre Alemanha e Peru, que concorreu com destaque e foi premiada em diversos certames internacionais. Uma película épica, seja pelo seu enredo semilendário, de fundo histórico; seja pelas atribulações e pelos pitorescos lances de bastidores que envolveram a filmagem de muitas de suas icônicas cenas, rodadas em Manaus e em lugares ermos da floresta amazônica peruana. Uma estória fascinante, ambientada no final do século XIX, durante o mítico Ciclo da Borracha, e que terminou, por sua vez, por alimentar e reinventar velhos mitos daqueles tempos idos. O nome do filme: Fitzcarraldo.

​                         Dirigido pelo alemão Werner Herzog – cineasta que, dez anos antes, em 1972, havia construído seu prestígio com outro épico, Aguirre, a Cólera dos Deuses (Aguirre, der Zorn Gottes), igualmente calcado num episódio histórico da Amazônia – Fitzcarraldo narra, de forma altamente fantasiosa, a saga de um rico “barão da borracha”, o irlandês Brian Sweeney Fitzgerald, alcunhado pela  corruptela de “Fitzcarraldo” pelos cidadãos de Iquitos, pequena e próspera cidade amazônica peruana na qual ele construíra sua fama e fortuna. Apesar de bem sucedido na vida e respeitado em sua comunidade, Fitzcarraldo tem pretensões ainda mais altas. É um homem culto, aficionado por música lírica, e, em seus devaneios de grandeza, sonha em construir uma grande opera house naquela remota localidade peruana, tão fascinado que estava pela beleza e opulência do Teatro Amazonas, recém-inaugurado em Manaus, a “capital mundial da borracha”. A fim de arcar com seu ambicioso projeto, não mede esforços, à custa de sua saúde financeira, física e mental; e organiza uma dispendiosa expedição fluvial aos altos e remotos rios da bacia amazônica peruana em busca de uma inexplorada região rica em árvores gomíferas, situada acima das perigosas corredeiras do Rio Pachitea, afluente do Ucayali, no Alto Amazonas. Uma reserva de látex tão preciosa que o ambicioso e audaz cauchero irlandês não hesita, nem por um instante, em se lançar numa empreitada insana e racionalmente desencorajadora: conduzir seu barco a vapor – içado e arrastado pela força de centenas de índios, com a ajuda de um engenhoso mecanismo - através do istmo (estreito de terra) que separa os dois rios; repetindo um estratagema similar ao utilizado pelo sagaz sultão turco Mehmet, quando da conquista de Constantinopla, em 1453.

                             A epopeia pode ser dividida em três partes: o prólogo, de mais ou menos uns vinte minutos de metragem, pondo em evidência a idiossincrática personalidade de Fitzcarraldo e as ambições que o movem; o “recheio” do filme,  mostrando a árdua preparação da expedição e os naturais conflitos humanos nela envolvidos; e, finalmente, a jornada em si, na qual o protagonista, a essa altura irracionalmente obcecado em sua meta, parte em sua odisseia amazônica, debatendo-se com toda sorte de adversidades físicas e psicológicas, e não se furtando a agredir ferozmente qualquer um que ouse contestá-lo ou diante dele porventura se interponha. Um homem enlouquecido em sua megalomania, revertido a um estado quase bárbaro, tão selvagem e indômito quanto a grandiosa floresta equatorial que o cerca, que o impulsiona e que o aprisiona em seu grandioso e operístico delírio. Mutatis mutandis, é como se Herzog, resgatando em sua obra cinematográfica o mote e a personagem de seu filme anterior, “ressuscitasse” o mentecapto Lope de Aguirre, o sanguinário explorador espanhol do século XVI, na figura do visionário (e igualmente insano) Fitzcarraldo do século XIX. E a cena final, com a chegada do barco de Fitzcarraldo no porto de Iquitos, e este triunfalmente postado na proa, ao som de uma ária de ópera cantada por Caruso em um disco tocado no gramofone, é inesquecível, de uma beleza visual digna dos melhores clássicos de Fellini.

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                               Caso tivesse optado por rodar um filme de caráter documental, Herzog não teria muito trabalho em seu roteiro, uma vez que a personagem histórica que serviu base à concepção do anti-herói por si retratado no cinema teve uma vida muito mais interessante e rocambolesca que seu homônimo fictício; uma biografia que renderia não um filme, mas uma série completa de vinte ou trinta capítulos. Seu verdadeiro nome de batismo era Isaías Fermín Fitzgerald López, nascido em San Luís de Huari, na região centro-oeste do Peru, em 6 de julho de 1862, filho primogênito de uma peruana e um marinheiro mercante norte-americano de origem irlandesa. Criado por seu pai para ser seu sucessor empresarial, Isaías teve acesso aos melhores colégios de seu país, e, por volta de 1878, foi enviado aos Estados Unidos, para se graduar em engenharia naval. De retorno ao Peru - ainda um jovem inexperiente, mas muito ambicioso - logo enveredou, à guisa de “batismo de fogo”, numa temerária exploração comercial ao longo da calha do Rio Marañón, uma aventura que quase lhe custou a vida, em razão de um grave ferimento, que lhe causado por uma punhalada traiçoeiramente desfechada contra seu ventre, no calor de uma briga, numa mesa de jogos de azar. Refeito do golpe, depois de três meses de convalescença, voltou ao lar, onde constatou, para seu desgosto, que seu pai – devido à tremenda angústia causada pela falsa notícia da morte do filho - também caíra seriamente enfermo, vindo a falecer não muito tempo depois. Sentindo-se culpado e envergonhado perante sua mãe e seus irmãos por ter sido o vetor involuntário de tal infortúnio, resolveu partir definitivamente de seu pequeno pueblo natal, sem rumo certo, levando consigo mapas detalhados da bacia amazônica peruana, cartas hidrográficas que seu genitor acumulara ao longo de sua vida de navegante, e que lhe permitiriam, no futuro, alcançar seus altos objetivos mercantis.

 

                      ​Na ocasião, estava em curso a Guerra do Pacífico (1879-1884), travada entre o Peru e Chile pela posse da franja costeira ao longo do deserto do Atacama. Movido pelo senso de patriotismo e por um natural ímpeto juvenil, Isaías se dirigiu à região de Cerro de Pasco, a fim de se juntar a um regimento de soldados voluntários. Tendo saído apressadamente da casa paterna sem seus documentos, e estando de posse de tantos mapas,  acabou sendo detido durante um incidente banal pelo próprio Exército peruano, e mantido encarcerado por vários meses, sob suspeita de ser um espião chileno. Interrogado, acareado e sem conseguir provar sua identidade e sua real condição, Isaías acabou por ser julgado e condenado sumariamente por uma corte marcial, e teve sua execução por fuzilamento marcada para o dia 4 de novembro de 1879. Mas foi salvo “à hora do gongo” pela pronta intervenção de um frade, Frei Carlos, a quem sua família hospedara no passado, e que, visitando-o em sua cela para lhe conceder a extrema-unção, o reconheceu e o identificou perante as autoridades, salvando assim sua vida. Extremamente comovido e grato pelo gesto do religioso, Isaías posteriormente trocaria oficialmente seu primeiro nome de batismo, passando a assinar como Carlos Fermín Fitzcarrald, sendo este último, como dito, a versão hispânica de seu sobrenome paterno. Uma homenagem dupla: ao frade peruano, seu redentor; e também a São Carlos Borromeu, santo italiano de sua devoção, cujo dia consagrado, 4 de novembro, por uma estranha coincidência, era a mesma data em que o “milagre” de sua libertação ocorrera.

​                             Uma vez liberto e dono de si novamente,   mas ainda amargurado e ressentido pela injustiça e pelos sofrimentos pelos quais passara, Fitzcarrald decide seguir o conselho de seu benfeitor, Frei Carlos, e “sumir do mundo” por uns tempos, internado-se nas matas virgens do departamento  oriental de Loreto (correspondente, em sua totalidade, à maior parte da Amazônia peruana),  tido como a nova “terra da promissão”, onde medravam espontaneamente milhares de espécimes de caucho (Castilla elastica) e de seringueira (Hevea brasiliensis), ambas produtoras de látex, o “ouro branco”, matéria-prima da borracha, a valiosa ‘commodity’ que, ao lado do aço e do petróleo, iria moldar na centúria seguinte a face das cidades e das economias dos países desenvolvidos, graças, principalmente, ao advento da indústria automobilística. Imerso durante dez anos na vastidão da floresta loretana, Fiztcarrald – após se familiarizar com os nativos nas técnicas de coleta, armazenagem e beneficiamento do insumo – refaz totalmente sua vida, emergindo como um homem próspero, dono de um imenso patrimônio fundiário e financeiro, e um dos mais poderosos barones del caucho da década de 1890, auge do ciclo gomífero.

 

                             Uma riqueza que podia ser mensurada pelo luxo do casarão que mandou edificar em plena selva, na confluência dos rios Ucayali e Mishagua, para lhe servir de morada e centro de operações. Erguida em 1892, era uma verdadeira hacienda aristocrática, toda estruturada em madeira nobre (cedro), com três pavimentos, largas varandas e 25 cômodos. Possuía pomar, horta e um lindo jardim com exóticas orquídeas e outras flores raras, cultivados por empregados chineses trazidos especialmente para tal finalidade. Ao redor da propriedade dispunham-se quarenta casas (onde residiam jagunços, capatazes e colonos seringueiros brancos), alojamentos coletivos para os índios, estábulos de animais, viveiros de caucho, armazéns repletos de borracha e o clássico “barracão de seringal”, onde eram comercializadas interna corporis as mais diversas mercadorias (de uma simples agulha ao mais sofisticado champagne francês), desembarcadas pelo cais construído às margens do rio. Nesse aparatoso e auto-sustentável palacete silvestre, Fitzcarrald – apelidado pelos seus homólogos seringalistas de “o senhor feudal do Ucayali” – reinava absoluto, em companhia de sua jovem esposa, a peruana Aurora Velazco, tida como a mais bela mulher de Iquitos, enteada do seringalista brasileiro Manuel Cardoso da Rosa, proprietário da firma Cardoso & Cia. e sócio do jovem cauchero nas transações do comércio de borracha ao longo do Ucayali. Unido desde 1890, o casal teve dois filhos varões, Frederico e José, desde cedo mandados a estudar em França pelo pai.  

                              Com o passar dos anos, o nome Fitzcarrald se converteria numa “lenda viva” ao longo das calhas dos rios Ucayali, Urubamba, Pachitea, Apurimac, Tambo e Madre de Dios; regiões nas quais, além de fazer fortuna, também se notabilizou por ter fundado uma cidade, Puerto Maldonado (situada à margem daquele último rio), e pelos seus métodos pouco ortodoxos de arregimentar mão-de-obra para seus seringais. Segundo a versão corrente entre seus contemporâneos, submeteu à servidão centenas de indígenas peruanos, principalmente das etnias Piro e Campa (esta também denominada de Ashaninka, com parte de sua população ainda vivendo nas matas do Acre). Índios recrutados como seringueiros, carregadores e lavradores, e que eram cooptados em suas aldeias por astutos emissários de Fitzcarrald, à base de presentes, ameaças, falsas promessas e mistificações baseadas em velhas crenças, que associavam a figura do seringalista como sendo o “filho do Sol” ou o amenchagua (reencarnação) de um líder messiânico indígena dos tempos coloniais. Dada a complexidade do ser humano, é forçoso mencionar, entretanto, que, a despeito de tais pecados, Fitzcarrald era uma pessoa dotada de inúmeros predicados pessoais. Segundo seu biógrafo, o escritor Ernesto Reyna, “(...) sabia fabricar canoas, fundir e trabalhar ferro, entendia de mecânica, calafetagem e pintura, (...) era um pouco médico, botânico, cartógrafo, engenheiro e marinheiro”. Não bastasse isso, era ainda homem ilustrado, um poliglota. Além do castelhano (seu idioma materno), era fluente em português, francês e alemão; e também em várias línguas indígenas peruanas (quéchua, pano, piro, campa, etc), de forma a facilitar o trato com seus subordinados.

                               O grande ponto de intersecção entre o Fitzcarraldo do cinema e o Fitzcarrald da vida real se dá por ocasião do episódio em que este último - no afã de expandir sua rede comercial e angariar mais lucros – descobre a existência de uma conexão terrestre de apenas onze quilômetros existente entre dois subafluentes dos rios Ucayali e Madre de Dios; e, sempre audaz, decide sondar o terreno visando a abertura de uma rota que, uma vez se provando viável em termos logísticos, poderia no futuro vir a representar uma considerável economia de tempo e de recursos empregados em seus negócios, caso se concretizasse seu intento final, qual seja, o de assentar uma pequena ferrovia sobre o caminho, a fim de transportar a borracha por si comercializada através do atalho entre as duas hidrovias.

                     Essa passagem natural – desde então assinalada nas cartas geográficas peruanas como o “Istmo de Fitzcarrald” – foi objeto de uma primeira e insatisfatória incursão de reconhecimento em agosto de 1893, com o uso de uma pequena flotilha de simples canoas. Deslocando-se em seguida a Iquitos, Fitzcarrald expõe sua descoberta e às autoridades locais e ao seu sócio e sogro, Cardoso da Rosa; ao mesmo tempo em que tenta, sem sucesso, cooptá-los a aderirem financeiramente ao seu projeto hidroferroviário. Inconformado, adquire um barco a vapor de três toneladas, o Contamana; e monta uma expedição mais ambiciosa, um comboio composto, além do barco principal, por um rebocador e outros pequenos batéis (lanchas e canoas), levando mantimentos e utensílios; e integrado por cerca de mil índios e uma centena de homens brancos. Munido de tal suporte humano e material, retorna ao istmo em junho de 1894, durante o auge do período das cheias (o que muito facilitava o percurso em certos trechos), a fim de vencer o grande acidente natural que antevira na primeira incursão: um enorme morro de terra, de 469 metros de altura, coberto de mata fechada, localizado bem no meio da passagem.

                               Tal como retratado no filme de Werner Herzog, foi uma façanha épica e insana, que consumiu dois meses em sua consecução. Uma vez desembarcados junto à embocadura do varadouro, Fitzcarrald e sua tropa cuidaram de desmatar e preparar a trilha (de quatro metros de largura), desmantelar o navio, e transportar peça por peça da fuselagem manualmente, aos poucos, através do íngreme aclive. O feito maior foi conduzir morro acima (e depois abaixo) o casco da embarcação, uma peça única em armação de aço, arrastado sobre uma carreira de toras e pranchas de madeira e puxado por cordas e roldanas, manipuladas pela multidão de pobres almas que arregimentara consigo, num esforço hercúleo e megalomaníaco, digno dos tempos da escravidão no Egito antigo. Mas que, apesar dos pesares, foi bem sucedido em sua meta, pois a zona fluvial na qual ele desembocara – e que ele pensara, erroneamente, fazer parte da bacia do Purus – além de riquíssima em árvores de caucho de excelente qualidade, era desconhecida dos demais seringalistas que lhe faziam concorrência, o que lhe abria caminho para que conseguisse favores governamentais em razão de seu pioneirismo exploratório. O périplo, num total de 548 quilômetros, foi completado no dia 4 de setembro de 1894, com a entrada do Contanama na Bolívia, atracando no seringal de propriedade do poderoso cauchero Nicolás Suárez. Foi com assombro que este último vislumbrou a surpreendente chegada da embarcação em suas terras, e, mais ainda, a figura imponente de Fitzcarrald, de pé, postado orgulhosamente na proa do barco, vestido de negro e envergando um elegante chapéu “panamá”. Uma salva de 21 tiros de canhão foi disparada, para celebrar a glória do Peru e a sua própria conquista pessoal.

                      Associado a Suárez, e também a outro próspero seringalista boliviano, Antonio Vaca Díez, Fitzcarrald acabou por formar um verdadeiro trust amazônico da borracha, cujo capital foi investido na compra de modernos barcos a vapor com maquinário possante, casco de aço de pouco calado (fundo chato) e rodas na popa, fabricados na Inglaterra; e na melhoria logística do istmo por si descoberto, inicialmente por meio da abertura de uma estrada de terra, a fim de embarcar as partidas de borracha pela nova rota de navegação recém-estreada pelos associados, e que se provara afinal economicamente viável, pois diminuíra bastante os custos do frete no transporte do látex extraído na Bolívia, ao evitar a perigosa calha do Rio Madeira, com suas inúmeras cachoeiras e corredeiras, que tanto prejuízo causava aos navegantes. Também cuidou Fitzcarrald de fomentar a fixação humana na zona selvagem recém-explorada, com o estabelecimento de comunidades ribeirinhas e pequenas colônias agrícolas, que produziam arroz, milho, banana, etc., como sustentáculo ao trabalho dos seringueiros. Em reconhecimento ao seu arrojo e empreendedorismo, o Ministério da Guerra peruano concedeu a Fitzcarrald, em novembro de 1896, o privilégio da exclusividade de navegação comercial pelas calhas do Alto Ucayali, Urubamba, Manu e Madre de Dios. Sacramentava-se, assim, de fato e de direito, o seu propalado status de “Rei da Borracha” da Amazônia peruana.

                        A estrada para o sucesso estava, literalmente, traçada. Faltava apenas pavimentá-la com os almejados trilhos de aço, que conduziriam os sonhos do visionário Fitzcarrald a novos píncaros. O “voo do condor”, todavia, seria abatido quando este apenas preparava para alçar-se às alturas. Em 9 de maio de 1897, ao singrar as turbulentas águas do Urubamba, justamente no momento em que transportava  para o istmo o material destinado à construção de sua almejada ferrovia, Fitzcarrald pereceu afogado, após perder o comando de seu barco - destroçado e naufragado nas pedras das corredeiras do rio - e tentar, sem sucesso, salvar a vida de seu sócio,  Vaca Díez. Trágico e irônico final de um homem de espírito aventureiro, de um empresário arrojado e de uma personalidade singular, absolutamente “fora da curva”, como se diz hoje em dia. Morto precocemente aos 35 anos, sua lenda só fez aumentar com o passar dos anos, tanto entre os índios – que associaram o seu súbito desaparecimento a uma espécie de “arrebatamento” divino – quanto entre os brancos da região de Loreto, que, de geração a geração, passaram a propalar e recontar os seus feitos, nas mais diferentes versões. Além do famoso istmo, seu nome batiza ainda a sua província natal, nos Andes peruanos.

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                             O cinema, com sua grandiosidade e seu intenso poder audiovisual de captar emoções e cristalizar imagens no imaginário coletivo, ainda a está a dever à ambígua figura de Carlos Fermín Fitzcarrald um épico à altura de sua verdadeira trajetória. Mesmo assim, devo dizer que, passados mais de quarenta anos da estreia de Fitzcarraldo (o filme) na tela grande, ainda é com genuína emoção e orgulho que, na condição de manauara e de amazônida, revejo de vez em quando na TV a sua clássica sequência de abertura, composta de um lindo storyboard de mais ou menos quinze minutos de metragem, e que, no resultado final, aprecie-se ou não sua narrativa exageradamente fantasiosa, eterniza toda a mítica criada em torno daquela personagem tão singular, e, por tabela, da Manaus dos febris tempos da borracha. Ela se passa mais ou menos assim:​

                       Numa escura noite de verão amazônico, remando numa tosca canoa regional, aporta na orla da capital amazonense um casal de exóticos “gringos”: o irascível “barão” Fitzcarraldo (encarnado pelo ator alemão Klaus Kinski, pai de Nastassja Kinski, uma das musas do cinema dos anos 80) e sua amante, a alegre cortesã Molly, dona de um bordel em Iquitos (personagem encarnada por ninguém menos que a diva italiana Claudia Cardinale, à época ainda uma charmosa mulher na flor de sua maturidade, aos 43 anos). Embarcada naquela longínqua cidade peruana, a improvável dupla encarara durante dias a fio a “descida” do Rio Amazonas no afã de chegar a tempo de comparecer a soirée de estreia da ópera Ernani, de Verdi, no Teatro Amazonas; uma montagem protagonizada por duas das maiores “estrelas” de sua época: o tenor italiano Enrico Caruso e a atriz francesa Sarah Bernhardt. Uma licença poética, evidentemente, uma vez que tal apresentação, como se sabe, jamais aconteceu, nem aqui nem alhures, posto que os dois célebres artistas jamais se encontraram em cena, até onde se tem notícia; nem tampouco passaram por Manaus algum dia, seja em visita ou em tournée teatral.

                      Embora fosse apenas um pré-adolescente de 11 anos, lembro-me vagamente do pequeno frisson que se apoderou de Manaus em 1981, ano em que se deu a filmagem das cenas inaugurais da película, rodadas dentro e fora do Teatro Amazonas. Para tanto, foram convidadas por D. Amine Daou Lindoso, então Primeira-dama do Amazonas, diversas senhoras de renome na cidade, integrantes da chamada “alta sociedade”, as quais, evidentemente, não se furtaram – muito pelo contrário! – em envergar pesados figurinos de época para uma breve figuração de poucos minutos na tela. Cada figurante receberia um cachê, que seria devidamente revertido para as obras beneficentes de D. Amine. Mamãe estava lá, muito bonita, posando de dama da ‘Belle Époque’, com seu traje costurado por vovó – um vestido longo de cetim branco, arrematado por uma pelerine de seda ou veludo azul-marinho, salvo engano. Assim como ela, também estava D. Valderez Cabral, uma dileta amiga de nossa família, cujas recordações daquele inolvidável evento ela teve a gentileza de compartilhar, há pouco, com meu irmão Roger, ao contar-lhe, por exemplo, que, num intervalo, ela fora chamada pela equipe de figurinistas do filme. Qual não foi seu espanto quando estes lhe disseram que haviam apreciado tanto sua indumentária que resolveram, de última hora, substituir o figurino da própria La Cardinale pelo dela (!!!). E foi nesse momento que minha querida amiga viu-se ali, no camarim, diante de uma mulher, segundo ela, “absolutamente comum” (!!!), mas que, após um brilhante trabalho de maquiagem, logo transformou-se na  diva que todos conhecemos das telas do cinema, exibindo aqueles expressivos e bem delineados olhos cor de avelã.
 
​​​                           Naturalmente envaidecidos com seu fugaz “momento Andy Warhol”, os socialites lotaram as cadeiras da plateia, das frisas e dos camarotes do teatro. Afinal de contas, não era todo dia que uma deslumbrante estrela internacional – a bela Cardinale, no caso – podia ser admirada assim, vis-à-vis, pelos “simples mortais” dos trópicos. Sem contar a presença de três outros célebres “figurantes” brasileiros, escalados para uma rápida participação no filme: os atores José Lewgoy (vivendo um estereotipado “coronel de barranco”) e Grande Otelo (como um serelepe maquinista de trem); e o cantor Milton Nascimento (no bizarro papel de um paramentado e mudo “valete” postado à entrada do teatro). Excentricidades dos produtores, que qualquer cinéfilo experimentado e sem crises de recalque releva e tira por menos...   
                   
                  É fascinante revisitar a cena em que Kinski e Cardinale, ofegantes e de mãos dadas, saltam da canoa e, apressados, sobem a escadaria (hoje soterrada) do Mercado Municipal para tomar uma carruagem até a Praça de São Sebastião. Lá chegando, bastante atrasados, adentram igualmente às carreiras o recinto do magnífico teatro, feericamente iluminado pela luz elétrica recém-inaugurada em Manaus. A apresentação já se encaminha para seus momentos finais. No palco, Caruso canta sua derradeira ária diante de uma Sarah Bernhardt (que, na vida real, jamais foi uma cantatrice) exageradamente maquiada, mais parecendo um travesti ou um arremedo de gueixa oriental. As cortinas se cerram e depois novamente se abrem. A sala se acende para a ovação do público. No primeiro plano, sorrindo para a câmera e aplaudindo freneticamente o espetáculo, distinguem-se nitidamente duas notórias filhas da terra, já falecidas, e muito familiares para os manauaras mais antigos: as senhoras Eldah Bitton, com seu característico rosto magro (e que, não por acaso, fora cantora lírica em sua juventude); e Naha Assi Hatoum, mãe do hoje célebre escritor Milton Hatoum. É cinema puro, em grande estilo!
                          Ao contrário do louro, franzino e medonho Klaus Kinski (que mais se assemelhava ao repulsivo Mr. Hyde criado pela mente fértil do escritor Robert Louis Stevenson), o verdadeiro Fitzcarrald – segundo relatos de seus contemporâneos, e conforme atesta a única fotografia que se conhece de sua pessoa - era um homem viril e bem apessoado, com seus 1,75m de altura, compleição robusta, cabelos castanho-escuros, barba farta e frisada, tez levemente morena e traços faciais tipicamente castelhanos. Notícias históricas dão conta de que ele teve uma rápida passagem por Manaus nessa época, vindo de um périplo através do vale do Madeira, a caminho de Iquitos. Todavia, podemos apenas especular se ele chegou efetivamente a “dar o ar de sua graça” em algumas das primeiras seratas líricas levadas à cena na luxuosa “ópera das selvas’, inaugurada em 31 de dezembro de 1896, apenas quatro meses antes de sua morte. Mas não resta dúvida de que a liberdade poética tomada por Herzog (também roteirista do filme) é uma belíssima alegoria dos grandes dias do apogeu do “ouro branco’, e que termina por consagrar de forma definitiva, na perenidade da arte cinematográfica, vários mitos e várias simbologias ao mesmo tempo, superpostos um sobre o outro e reunidos num só, tal e qual as pitorescas bonecas matrioskas russas: o mito do intrépido Fitzcarrald, o mito do icônico Teatro Amazonas, o mito do legendário Ciclo da Borracha, o mito da exótica Manaus, e, por fim, o mito da misteriosa e indômita Amazônia, que a todos sempre fascinou, e, como se fora a esfinge da mitologia, desafia até hoje seus novos desbravadores a decifrá-la e a conhecê-la por inteiro, em todas as suas nuances. Realidade versus fantasia. História versus lenda. Narrativas amalgamadas, recontadas, revividas e recriadas pela inexorável passagem do tempo e pela suprema força da arte.             
 
Fontes da pesquisa: Fitzcarrald – El Rey del Caucho (1942), de autoria do escritor peruano Ernesto Reyna. Imagens: Rede Mundial de Computadores.

 

 

 

 

 

Artigo publicado em 17.11.2024.

Retrato do verdadeiro “barão da borracha” peruano Carlos Fermín Fitzcarrald (1862-1897)

SÉRIE “HISTÓRIA”

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AS “DAMAS” E OS “MANCEBOS” DE LOUÇA DE MANAUS – DELICADAS E USURPADAS TESTEMUNHAS DA HISTÓRIA DA CIDADE

Por Ronald Péres

                 Por mais de um século, elas pairaram, belas, alvas, solenes e imperturbáveis, encarapitadas no alto dos prédios da cidade. Ou, melhor dizendo, sobre as platibandas – as muretas superpostas acima das janelas e da parede frontal, e que servem para disfarçar as coberturas de telhas – de alguns velhos casarões espalhados pelas ruas do centro antigo de Manaus. No raiar do século XX, podiam ser vistas aqui e acolá, fincadas em seus pedestais de forma isolada, em pares, em trios, ou mesmo em grupos maiores, desde a beira do Rio Negro até as imediações da Praça da Saudade. Refiro-me, obviamente, àquelas peças que constituem um dos mais bonitos e menos valorizados acervos remanescentes do glorioso passado manauara: as lindíssimas estatuetas decorativas de louça branca, fabricadas e exportadas durante mais de um século por duas famosas, tradicionais e longevas manufaturas cerâmicas portuguesas: as fábricas de Santo Antônio do Vale da Piedade (1784-1930) e Devesas (1865-1980), ambas baseadas em Vila Nova de Gaia, adjacente à cidade do Porto, na margem esquerda do Rio Douro. Dos fornos de ambas saíam, em série, ano após ano, não apenas objetos de estatuária, mas também outras peças ornamentais do gênero, como vasos, “pinhas”, “compoteiras”, e, claro, os famosos azulejos portugueses, até hoje uma das grandes trademarks daquele país peninsular europeu. Produção essa que foi naturalmente absorvida, em grande parte, pelo mercado consumidor da emergente burguesia brasileira, devido aos fortes laços históricos e culturais de Portugal com sua antiga colônia sul-americana.

​                       Confeccionadas na verdade em faiança, um tipo de louça mais rústica e resistente, propícia à exposição permanente à luz solar e às intempéries, as famosas “estátuas de louça do Porto”, com sua alva textura, de um esmalte ligeiramente vitrificado e refulgente, se destacavam de longe na paisagem urbana de várias cidades brasileiras, superpostas acima das fachadas de vários edifícios comerciais e residenciais, principalmente daqueles construídos na segunda metade do século XIX, já sob a influência da arquitetura neoclássica do Brasil-Império, mas ainda com forte apego ao tradicional padrão construtivo luso-brasileiro, de matriz árabe-mourisca medieval. Presentes nas mais variadas tipologias prediais – as inúmeras casas “de muitas portas” (que abrigavam tabernas e empórios dos mais diversos gêneros), os vastos sobradões “de muitas janelas”, os elegantes solares urbanos, os graciosos chalés suburbanos e até mesmo as vastas propriedades rurais – as estatuetas do Porto eram geralmente conjugadas, no conceito harmônico usual das fachadas oitocentistas, às janelas ogivais e aos azulejos policromados de padrões decorativos florais ou geométricos (de procedência portuguesa, em sua maioria). Entre as décadas de 1840 e 1890, esse era o partido arquitetônico típico de inúmeras edificações de Belém, de São Luís, do Recife, de Salvador, e, claro, da sede da Corte Imperial, o Rio de Janeiro. Isto porque, especialmente a partir do terço final do Segundo Reinado, tornou-se quase que uma chancela obrigatória de elevação do status social, principalmente entre os comerciantes e residentes citadinos bem situados na vida, investir na construção de novos prédios (ou na reforma de antigos imóveis) despidos da velha feição colonial – ou seja, de telhado à vista, dotado de “eira” e “beira”. É nesse período que entra em cena, com toda a força, a voga das platibandas vazadas com carreiras de balaústres e profusamente decoradas com fileiras de estátuas e outros ornatos cerâmicos de procedência lusa. As estatuetas em forma humana eram usualmente (mas não exclusivamente) representações femininas, simbolizando moças aguadeiras (portadoras de cântaros), mulheres guerreiras, deidades da mitologia grega ou alegorias às estações do ano, aos continentes do globo, às artes, às ciências e às atividades econômicas da Humanidade (agricultura, indústria, comércio e navegação). Erudição, cosmopolitismo e progresso. Os grandes valores do ‘fin de siècle’, sintetizados num singelo artefato, ao mesmo tempo artístico, industrial e de apelo universal.

                             Manaus - cidade cujo desenvolvimento econômico, impulsionado pelas altas receitas da borracha no mercado internacional, praticamente se confunde com o início da República - não teve, em termos quantitativos, a exemplo de sua vizinha Belém, tantos exemplares desse partido arquitetônico, que, já no início do século XX, ia, pouco a pouco, se tornando demodée, identificado ao regime monárquico deposto. Ainda assim, no decênio final daquela centúria, que vai de 1890 a 1900, cerca de duas dezenas de importantes edifícios foram levantados dentro desse característico estilo “luso-tropical” (segundo o rótulo cunhado pelo famoso antropólogo e sociólogo pernambucano Gilberto Freyre), muitos deles coroados pelas graciosas figuras esmaltadas em louça do Porto. Um dos mais antigos, mais vistosos e mais emblemáticos, datado de 1894, é o imponente sobrado de 22 janelas e quase igual número de portas que se ergue defronte ao Rio Negro, na esquina da antiga Rua do Tesouro (atual Monteiro de Souza) com a Praça XV de Novembro (ou Praça da Matriz, para “os de casa”). Sobradão que guarda consigo uma parte expressiva da história do Amazonas, erguido que foi para servir de armazéns e escritório da filial da próspera firma paraense B. A. Antunes & Cia. Ltda., Comissões, Consignações e Aviamentos – uma das maiores exportadoras de borracha, no auge do ciclo gomífero, entre 1890-1910 – e que, após a saída desta da praça de Manaus, por volta de 1913, foi posteriormente adquirido e ocupado pela Booth Steamship Company, companhia de navegação baseada em Liverpool, na Inglaterra. Ela mesma, a famosa Booth Line, integrante da ‘holding’ concessionária do porto de Manaus por 60 anos e responsável, com sua imensa frota de luxuosos transatlânticos, pela conexão direta de Manaus com a Europa, através de linhas regulares de vapores mistos (de carga e de passageiros) que aportavam semanalmente no Roadway. Com a saída de cena definitiva da Booth – cujos últimos navios cargueiros ainda operaram em Manaus até o fim dos anos 70 – foram embora junto com ela todas as estátuas e pinhas que guarneciam o “cocuruto” do prédio, descidas de seus pedestais e embarcadas de volta para o Velho Continente pelos últimos funcionários britânicos responsáveis por “apagar as luzes” da centenária empresa no Amazonas, segundo me relatou recentemente um amigo querido, testemunha fidedigna do aviltante saque perpetrado contra aquele patrimônio. Quanto ao histórico prédio, desnudado de seus delicados “brincos e pingentes”, sobreviveu aos trancos e barrancos pelas décadas afora, convertido em botequim (quiçá também lupanar) de quinta categoria. Vertido no início deste século a um total estado de ruína - assim como os imóveis vizinhos, integrantes do quarteirão que ultimamente se convencionou chamar, impropriamente, de “Complexo Booth Line” – aguarda a prometida recomposição de sua fachada pelo consórcio privado que administra as obras ora em curso no local, a fim de converter toda a quadra num moderno empreendimento mercantil, gastronômico e de serviços. A pergunta que não quer calar, no caso, é: serão repostas réplicas similares às esculturas perdidas? Eu, otimista incorrigível que sou, torço por isso e gostaria muito de acreditar que sim. A ver, como diriam os lusitanos...

                                A partir da inauguração da moderna Avenida Eduardo Ribeiro, o grande boulevard central da capital da borracha, aberta entre 1892-1896 pelo visionário governador maranhense que terminou por batizá-la com seu nome, começaram a surgir na nova paisagem citadina, num espaço de poucos anos, muitos edifícios comerciais, e vários deles também eram, seguindo a voga do final do século XIX, adornados pelas cerâmicas alegóricas e decorativas portuguesas. Os cartões-postais e reclames antigos atestam que era assim, por exemplo, em duas das esquinas da Avenida com a antiga Rua Municipal (a atual Avenida Sete de Setembro), nas quais se defrontavam dois prédios térreos, do tipo de “muitas portas e sem janelas”, conforme os alcunharam os cronistas do passado. Em um deles se abrigou, nos tempos áureos da borracha, o próspero Canto das Novidades, armarinho de fazendas e miudezas da firma Andrade, Santos & Cia.; e, anos mais tarde, entre 1932 e 1963, o Bar Americano, evocado por tantas gerações de boêmios, estabelecimento gerido pelos imigrantes italianos Michele Massulo, Carlo e Marco Vitale. Fazendo face ao endereço, do lado par da via, se encontrava outro prédio quase gêmeo, com uma carreira de portas abertas para ambos os lados da esquina. Prédio de muitos donos e inquilinos, ao longo de mais de meio século, no qual se instalaram, sucessivamente, a firma Adrião, Barroco & Cia. (de ferragens e utensílios); a prestigiada Pharmacia Studart (na qual foi desenvolvida a fórmula do conhecido “Leite de Colônia”, pelo farmacêutico cearense Carlos Studart), e, já nos anos 60, a frequentadíssima Esquina das Sedas, dos sócios Mamed Assi e Hassan Hatoum, ambos imigrantes libaneses.

 

 

                             ​Subindo a Avenida, na esquina com a Rua Henrique Martins – o popular “Canto do Fuxico”, como ficaria posteriormente conhecido pela população -, a presença da estatuária de origem europeia era ainda mais ostensiva, e se impunha na ornamentação da fachada de nada menos que três dos edifícios daquele icônico ângulo da urbe, todos eles intimamente ligados à vida social da cidade. Dois deles eram também térreos. No primeiro funcionou a sortida Casa Quintas, empório de gêneros alimentícios e bebidas finas importadas, de propriedade do súdito inglês Percy Vaughan (mesmo local onde, a partir de 1921, viria a se instalar o café Leão de Ouro, de Pinheiro, Pires & Cia). No outro, diagonal àquele - um prédio de bem acabado, com muitas portas arrematadas por bandeiras ogivais - foi uma das primeiras edificações da nova avenida, e teve, desde sempre, uma vida animada e elegante, abrigando sucessivamente a Confeitaria Avenida (a primeira com esse nome, aberta na virada do século pelos sócios espanhóis Abelló e Casanova); o café e restaurante 31 de Janeiro (cenário do público e passional assassinato do deputado Rodolpho Índio de Maués, em 13 de agosto de 1917), e, finalmente, o concorrido bar Ponto Chic, de Alves & Cia., um dos grandes points da rapaziada boêmia entre as décadas de 1920-1950, assim como o vizinho “Leão de Ouro”.  Este último ainda subsiste, muito bem conservado, com sua linda e singular marquise de ferro e vidro, que uma alma cretina tentou furtar há alguns anos, mas que, em sequência ao furioso alarde disseminado através das redes sociais, terminou por ser reposta ao seu lugar de origem. Infelizmente o mesmo final feliz não teve o formoso trio de estátuas que adornava sua platibanda, surrupiado “na calada da noite”, lá pelos idos de 1988, sem que uma autoridade ou um cidadão sequer desse um “piu” de indignação àquela altura (nesse sentido, viva o tempo ruidoso e histérico em que vivemos!). Dessas estatuetas eu me recordo nitidamente, pois, em dominicais passeios noturnos de carro, sempre por lá passávamos – eu, meus irmãos e meus queridos e saudosos pais - e parávamos para admirar a beleza do conjunto arquitetônico, tentando adivinhar quais deidades greco-romanas (uma masculina e duas femininas) estariam ali representadas, com seus respectivos atributos. Seriam Vênus, Apolo e Diana? Ou talvez Juno, Marte e Ceres, quem sabe? O fato é que eram os “nossos” deuses pagãos, já incorporados há muito ao nosso singelo panteão urbano manauara, e nenhum maldito vândalo, abonado ou não, tinha o direito de descê-los de seu pequeno e secular “Olimpo”...      

O mesmo diabólico espírito bárbaro que – à maneira do godo Alarico ou do huno Átila, devastando a arte clássica da Roma antiga – assolara alguns antes o vetusto e imponente sobrado do outro lado da rua, vasto casarão erigido no final dos oitocentos, e que, até o início dos anos 1960, possuía uma das fachadas mais rebuscadas da cidade, com sua profusão de balcões de ferro fundido, janelas em ogivas, frontões, compoteiras, e, claro, sempre elas, as maravilhosas estátuas de faiança do Porto. Prédio que abrigou diversas lojas conceituadas no andar térreo (a Tabacaria Boer, a Pharmacia Barreira, o Bazar Sportivo, dentre outras, ao longo dos anos), e que, nos altos, sediou o Ideal Clube, entre 1912-1920, sendo palco do lendário incidente fatal de que foi vítima a jovem violinista Ária Ramos, de 18 anos, num baile carnavalesco, na madrugada de 17 de fevereiro de 1915. Despido, há mais de seis décadas, de todos os seus traços de elegância, o icônico edifício ainda resiste, impávido colosso, à boçalidade dos homens, e está a clamar, há tempos, por uma merecida restauração que lhe restitua a dignidade outrora perdida e tão estupidamente vilipendiada.

                            A riqueza da estatuária de origem portuense não se fazia notar somente nas construções voltadas para o comércio. Também nas residências, especialmente naquelas de aspecto solarengo, a aposição de tais artefatos no alto da fachada, em combinação com outros elementos decorativos, em muito contribuía para que os passantes, de antemão, decodificassem aquela morada como lar de uma família aristocrática, detentora de bons costumes e de alto status social e financeiro. Vivendas assim proliferavam, por exemplo, nos elegantes bairros cariocas de Flamengo, Botafogo e Laranjeiras (cenários de muitos dos romances de Machado de Assis); nas paulistanas alamedas dos Campos Elíseos; nas chácaras urbanas de Recife; no bairro da Graça e ao longo do Corredor da Vitória, endereços da nova elite soteropolitana; e nas sombreadas travessas residenciais, pejadas de mangueiras, de Belém do Pará.

 

Manaus, para quem não sabe, também possuía o seu “eixo elegante” nos tempos do látex, representado pela Avenida Joaquim Nabuco (antiga Estrada de Nazareth; e, entre 1900-1910, Avenida Silvério Nery). Ela mesma, a extensa e tradicional via que corta a região central de ponta a ponta, no sentido sul-norte, e que atualmente, rebaixada à degradante condição de “zona vermelha”, valhacouto da mais extrema miséria humana em seus seis quarteirões iniciais, só nos envergonha e nos entristece. Evidentemente que não era assim no passado, nem de longe. Muito pelo contrário. Endereço de algumas das mais nobres e belas residências de Manaus, desde o final do período provincial, a atual Joaquim Nabuco sempre foi uma das ruas preferidas pela alta burguesia da cidade, que nela edificou um conjunto de chácaras urbanas, sobrados, palacetes e bungalows dos mais diversos estilos, ao longo de mais de meio século.

                              Dentro do específico partido arquitetônico abordado neste artigo - os casarões “luso-tropicais”, revestidos de azulejos e dotados de estátuas em sua frontaria -, duas edificações sobressaíram, sendo das primeiras grandes vivendas erguidas naquela avenida residencial, na última década do século XIX. Uma delas foi reduzida, há tempos, a um pálido retrato sépia, colado em álbuns de família. Era a morada pertencente ao armador (construtor naval) Francisco Mentor de Vasconcellos, situada nos altos da Joaquim Nabuco, entre as ruas Huáscar de Figueiredo e Vinte e Quatro de Maio, lado esquerdo de quem sobe a avenida. Muito bonita, se destacava igualmente pela sua topografia, tendo sido construída em terreno elevado em relação ao nível da rua, protegido por um sólido muro de arrimo e acessível por uma escadaria de lance duplo, salvo engano. No patamar superior, a casa se distanciava alguns metros do portão de entrada, o que só lhe conferia maior imponência e beleza, acentuada pelos belos azulejos amarelos de sua fachada, e pelas cinco louçãs figuras alegóricas, representando os cinco continentes, que arrematavam seu frontispício. Mansão de aspecto colonial, que foi inclusive distinguida pelo eminente sociólogo paraense Leandro Tocantins, em sua obra magna, O Rio Comanda a Vida – Uma Interpretação da Amazônia (1940), com a seguinte descrição, contida no capítulo “Aspectos da arquitetura tradicional de Manaus”:

“Mas o que empresta um encanto particular às vias públicas de Manaus é a presença de inúmeros palacetes residenciais dos antigos lordes do comércio: chefes de casas aviadoras, seringalistas, donos de empresas de navegação, exportadores de borracha, corretores. A força-motivo de todos os negócios era única, imperialmente: a borracha. (...) Prosseguindo pela Avenida Joaquim Nabuco, pode-se apreciar a sede da Legião Brasileira de Assistência, um gracioso chalé, estilo de fazendinha Império, com porão e um andar, lance duplo de escadas e varandas laterais, rodeado por um grande quintal. Ao lado, uma bonita casa portuguesa, também do início do século, com azulejos de fachada, platibandas e balaústres coríntios encimados por estatuetas de inspiração grega, em cerâmica da fábrica de Santo Antônio do Porto.”

                               Infelizmente, não cheguei jamais a por os olhos sobre tal relíquia predial, mas sempre ouvi falar dela, através de minha mãe. Mais especificamente, sobre o indigno fim que teve a casa, subitamente desabada, por problemas estruturais, em certo dia de 1968, na sequência de alguns poucos “estalos”, à guisa de aviso prévio. Uma tragédia patrimonial, tanto no sentido econômico quanto do ponto de vista histórico, que “matou de susto” – quase matando literalmente - seus derradeiros moradores, que escaparam por um triz de serem soterrados: quatro senhoras idosas e solteiras (Esmeraldina, Flávia, Luziélia e Guiomar), irmãs do falecido Mentor de Vasconcellos; a sobrinha delas, minha prima Eleonora Péres (também Vasconcellos, pelo lado de sua mãe, Lasthenia), e os filhos pequenos desta última. Felizmente, meu primo Leopoldo (irmão caçula de Eleonora) teve a sensibilidade de guardar consigo uma das estatuetas decorativas da fachada, que, ‘Deo gratias’, escapou intacta do sinistro.

                         O mesmo triste destino do solar dos Vasconcellos ameaça se repetir - acaso a mão firme das autoridades não se faça sentir urgentemente - com relação ao seu “irmão gêmeo”, situado bem mais abaixo, no meio do quarteirão entre a Rua dos Andradas e a Quintino Bocaiúva. Abandonado, esquecido e recentemente vandalizado por uma súcia perversa, o casarão do velho e querido Grupo Escolar Nilo Peçanha – onde me alfabetizei e cursei todo o ensino primário, sob os cuidados, a doçura e paciência de minha primeira professora, dona Lya de Queiroz Monteiro – é hoje um triste retrato do que se transformou o Centro de Manaus, desprezado pelos cidadãos de bem e completamente tomado e saqueado por uma hoste de vagabundos advindos sabe Deus de onde. No caso do prédio do antigo Nilo Peçanha - também erguido no final do século XIX como residência do construtor (empreiteiro) José Cardoso Ramalho, pai do ex-governador Ramalho Júnior – o escândalo se faz ainda mais evidente, já que aquelas paredes guardam a honra de terem abrigado por vinte anos, entre 1914 e 1934 (antes do grupo escolar), a sede da nossa histórica e centenária Faculdade de Direito. A despeito disso, prevalece a inércia generalizada dos entes públicos quanto à sua recuperação e seu destino, num angustiante pacto de silêncio, do tipo “comeu abiu”. Nos últimos tempos, sempre que passo em frente à minha amada escola, ao percorrer de carro as antigas ruas centrais, o faço com um misto de nostalgia e de angústia. Esta mais do que aquela, porque nunca sei até quando terei o prazer de contemplar ao longe, como fiz tantas vezes em criança, a “legião branca” que secularmente embeleza e dignifica a frontaria do velho educandário da Joaquim Nabuco. Tais e quais invictas e resilientes vestais romanas, as seis graciosas matronas de louça têm resistido a toda sorte de agressões ao seu honorável lar, e teimam em não serem quedadas de suas peanhas, apesar dos pesares. Estão todas lá, felizmente, porém largadas ao seu ominoso infortúnio. Discretas, quietas, intimidadas, talvez rogando para serem esquecidas de fato, em todos os sentidos; perplexas diante de tanta irreverência e tanto desrespeito da sociedade atual pelos seus próprios valores (se é que ainda os mantém).

                               Este artigo não tem, evidentemente, a pretensão de elaborar um rol exaustivo de todas as edificações manauaras contempladas com tais adereços cerâmicos, até porque isso seria uma tarefa difícil, visto que algumas delas, especialmente aquelas localizadas nos arrabaldes da zona central, não foram jamais fotografadas por seus moradores, restando apenas como vagas lembranças de descendentes ainda vivos, ou da narrativa esparsa de algum cronista ou memorialista. Dito isso, “puxo” pela memória de tudo que já vi ou li a respeito na iconografia e na literatura local para elencar mais alguns imóveis, existentes ou desaparecidos, em cujos altos se impunham, no passado distante, outros grupos de belas estátuas do Porto: 1) a demolida chácara da família Miranda Leão, ao final da Rua Ramos Ferreira, no antigo bairro dos Tocos (atual Aparecida); e que depois abrigou o primeiro hospício de Manaus - cujas enormes figuras de louça adornavam toda a extensão do gradil que a separava da rua, e que, segundo o historiador Mário Ypiranga Monteiro, eram vítimas constantes de pedradas e tiros de estilingue, disparados pela molecada do bairro, em tolas disputas pueris; 2) a casa térrea de porão alto e quatro janelas da Rua Simon Bolívar, em frente à Praça da Saudade (quase ao lado do “Palacete Mourisco”), que serviu de segunda sede ao Ideal Clube, entre 1906-1912; 3) vizinho a esta última, o esguio casarão assobradado da Rua Ferreira Penna, lar, por muitas décadas, da tradicional família Baraúna, um pequeno gineceu habitado por muitas moças (Clio, Débora, Elci, Iclé e Vitória), filhas do proprietário, o fiscal aduaneiro (e depois empresário) José Baraúna; 4) também na Ferreira Penna, a casa baixa fronteira a dos Baraúna, hoje pintada de rosa salmon e cuidadosamente restaurada, sobre a qual – num gesto de consciência de quem a adquiriu - foram repostas três bonitas estátuas, similares às que ali existiam originalmente; 5) o par (ou seria um trio?) de casas geminadas encarapitadas na “calçada alta” da Rua Luiz Antony; 6) o prédio original (incendiado em 1913) da elegante casa de modas Au Bon Marché, na esquina da Avenida Sete de Setembro com a Rua Joaquim Sarmento; 7) a sede, no início do século XX, da agência seguradora A Equitativa, dois quarteirões acima, naquela mesma avenida, adjacente ao extinto Grande Hotel; 8) o antigo botequim A Phenix (canto da Marechal Deodoro com a Quintino Bocayuva), onde, anos depois, se instalaria a longeva Drogaria Rosas, da firma J. G. Araújo... E me perdoem se esqueço de alguma!                                    

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A dilapidação que se abateu sobre o acervo de estatuária portuguesa que por décadas ornou a paisagem urbana da Manaus antiga não foi um fato isolado, nem tampouco produto dos tempos modernos. Ou, pelo menos, dos tempos modernos ‘stricto sensu’. Começou bem lá atrás, talvez antes mesmo do advento da Zona Franca, quando a geração dos chamados “novos ricos” dos anos 60/70 – imbuída de toda a incultura e boçalidade que invariavelmente são peculiares a pessoas de súbita ascensão financeira e social – começou a descaracterizar (ou simplesmente demolir) os “prédios velhos” por si herdados ou adquiridos no Centro, a fim de convertê-los em lojas, “modernizando” seus interiores e suas fachadas sob parâmetros mais condizentes com os novos tempos e as novas funções dos imóveis. Um mau exemplo nefando e repetitivo, que resultou num verdadeiro “barata voa” do patrimônio urbanístico manauara, em todos os sentidos. Era comum, na década de 1980, adentrarmos numa residência de classe média alta de amigos de nossos pais e avós – na Vila Municipal, no Vieiralves ou no Parque Dez – e nos depararmos com uma estátua de louça jogada entre os arbustos de um jardim, coberta de limo; ou um painel ou chafariz, compostos por meia dúzia de azulejos portugueses, remanescentes da demolição de uma casa antiga; ou ainda um lampadário de rua do tempo dos ingleses, e por aí vai... Vestígios de uma Manaus que “montava e se desmontava” ano após ano, tal e qual uma vulgar ‘drag queen’ de cabaré, enlouquecida e deslumbrada diante de seu público rotativo. E o mais bizarro – para mim, pelo menos, um jovem que, desde “os cueiros”, aprendi a dar valor à minha terra e ao que ela possui realmente de valor, em sua essência – era ouvir o dono ou dona da casa, com um “sorriso amarelo”  e imbecil na cara, se ufanar de que havia pedido ou ganhado de presente tal estatueta ou azulejo do “compadre fulano de tal” que, do nada, decidira derrubar “aquela casa velha lá na rua X ou Y”. Ou, pior, que havia encomendado ou recebido tais “mimos” em troca da prestação de um favor ou de um serviço jurídico ou de negócios. E a história da cidade que se danasse. Era assim – egoísta, simplória e inconsciente – a lógica de uma boa parte dos membros da “elite” ascendente e emergente da nova metrópole amazônica. Não podiam nem por sonho aquilatar o tesouro que guardavam dentro de seus muros. Sim, porque atualmente, no sempre aquecido mercado de antiguidades do Rio de Janeiro ou de São Paulo, qualquer simples exemplar de uma daquelas singelas e centenárias estatuetas produzidas pelas fábricas de Santo Antônio do Porto ou de Devesas é disputada “a tapa” nos leilões, dada a sua raridade e o reconhecimento de sua excelência, não sendo elas vendidas por menos de R$ 10.000,00 (dez mil reais), o preço-base, podendo escalar daí para cima a depender do tamanho e da representação da figura alegórica, e, claro, do grau de conservação da peça.

    

O que restou para Manaus desse rico e outrora quantitativo acervo escultórico é quase nada. Numa contabilidade rápida, calculo que, tirante o fabuloso grupo que (ainda) encima a platibanda do velho Nilo Peçanha, remanescem em seus lugares originais, como heranças do Ciclo da Borracha, apenas o trio de figuras que orna o já mencionado Grande Hotel, à Avenida Sete de Setembro, esquina com a Rua Marechal Deodoro (que, por pouco, não sucumbiu junto com o próprio edifício no terrível incêndio de 2010); uma estátua da deusa Minerva “encastelada” sobre o frontão de uma casa simples no final da Avenida Epaminondas; e mais dois outros exemplares do gênero, vistos acima da fachada de uma velha chácara da Rua Ajuricaba, na Cachoeirinha. Doze vetustas peças, últimas remanescentes de um perverso e contumaz rapto perpetrado contra seus pares. Um rapto vil, tal como o das jovens sabinas, celebrizado nos anais da República romana, que, escorado em justificativas mesquinhas e indefensáveis, abduziu, violentou, e fez desaparecer de nossas vistas, para todo o sempre, as belas “damas” e os viris “mancebos” de louça dos telhados da Manaus de outrora.

     

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Artigo publicado em 27.10.2024.

Prédio da antiga Tabacaria Böer, na esquina da Avenida Eduardo Ribeiro com a Rua Henrique Martins, ao tempo em que abrigava, seus altos, a sede do Ideal Clube. Possuía sua rica platibanda inteiramente ornamentada com estatuária e outros adornos em cerâmica trazidos de Portugal, há muito desaparecidos.

                                                                         

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GILBERTO BRAGA, ARTUR XEXÉO E O RIO DE JANEIRO QUE AMBOS LOUVARAM – E LEVARAM CONSIGO

Por Ronald Péres

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               Recentemente, terminei a leitura, agradavelmente enlevado – tanto pela escrita, em forma de gostosa crônica jornalística; quanto pelo conteúdo em si – do livro “Gilberto Braga – O Balzac da Globo”, biografia escrita pelo jornalista Artur Xexéo (e concluída, após a morte deste, pelo também jornalista Maurício Stycer), lançada no início deste ano de 2024, e que aborda, como o próprio titulo e subtítulo entregam, a vida e a obra do grande dramaturgo Gilberto Braga (1946-2021), o mais perfeito tradutor visual dos costumes, das idiossincrasias, da ‘finesse’ e do ‘aplomb’ da alta sociedade carioca (e brasileira, por tabela), revelada em sua monumental obra telenovelística de mais de quatro décadas à frente do horário nobre na TV Globo. Um livro que me chamou a atenção de cara, apenas pela capa, pois, ao percorrer mentalmente, de relance, o rico “universo” do biografado, me pareceu deveras natural (e justo) que a trajetória desse ícone de nossa cultura popular tenha sido recontada para a posteridade por outra personalidade tão emblemática da Imprensa carioca, tão culta e tão ligada ao imaginário do Rio de Janeiro das décadas de 1950, 1960 e 1970: Artur Xexéo (1951- 2021). Assim como me pareceu tristemente irônico (e injusto) que ambos, Gilberto e Xexéo, tenham partido quase ao mesmo tempo, com poucos meses de diferença entre um e outro, sem verem o livro finalizado e dele colherem os merecidos louros. Mortes precoces, diga-se de passagem, que levaram consigo  duas prolíficas “penas”, senhores absolutos em suas respectivas áreas de atuação profissional; e dois preciosos “baús” de memórias, depositários das particularidades de um tempo maravilhoso, no qual a “Cidade Maravilhosa” - na sua “ressaca” de transição, de glamurosa capital federal para mera “capital de província” (coisa que jamais será) - ainda ditava modas e modos a torto e a direito Brasil afora. Pois é justamente deles, ou, melhor dizendo, da inevitável interconexão havida entre ambos, propiciada pelo rico microcosmo no qual viveram e em torno do qual orbitaram essas duas personalidades geniais e singulares, que eu quero falar nessa crônica.

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​​          Primeiramente, Gilberto Braga. Falemos do rico mundo de Gilberto, o agradável e confortável mundo burguês no qual nasceu e se formou esse bem ducado e ilustrado tijucano de classe média, e, depois, o aristocrático e esnobe mundo dos “grã-finos” cariocas, no qual Gilberto, por seus próprios méritos, penetrou e naturalmente se aclimatou. Mundos esses que lhe serviram de eterna inspiração, e os quais compartilhou generosamente com todos os brasileiros, em veiculações diárias que entravam em nossas casas à hora marcada (invariavelmente às oito da noite) para nos ofertar um cardápio de genuínas emoções: risos, lágrimas, suspense e deliciosas especulações... Quem, nos últimos cinquenta anos, não se postou por algumas horas diante da TV, para torcer pelas suas heroínas – vividas por Betty Faria, Regina Duarte, Sônia Braga, Vera Fischer, Renée de Vielmond, Lucélia Santos, Lídia Brondi, Glória Pires, Cláudia Abreu, e, claro, a musa-mor do autor, Malu Mader, com seu sorriso desconcertante e todo o seu charme e sensualidade natural, de uma graça “que vem e que passa”, típica das moças da Zona Sul do Rio Janeiro? Ou, por outro viés, visto pelo anverso da moeda, quem não aguardava com ansiedade pelas vilanias e mil e uma maquinações das inesquecíveis megeras vivificadas pela mente fértil e talentosa do escritor carioca? “Peças raras”, possuídas de loucura, maldade, soberba e falta de escrúpulos, mas inevitavelmente ‘racées’, charmosas, espirituosas e irresistíveis: Yolanda Pratini (Joanna Fomm), em “Dancin´Days” (1978); Lourdes Mesquita (Beatriz Segall) em “Água Viva” (1980); Chica Newman (Fernanda Montenegro), em “Brilhante” (81); Renata Dumont (Tereza Rachel), em “Louco Amor” (83); Lúcia Gouveia (Joanna, novamente), em “Corpo a Corpo” (84); Constância Eugênia (“O Dono do Mundo”, 91) e Idalina Menezes de Albuquerque (“Força de um Desejo”, 99) - ambas magistralmente encarnadas pelo “monstro sagrado” que é Nathalia Thimberg, uma atriz gigantesca, a quem o Brasil ainda deve as devidas honras e reverências – e, ‘last but not east’, a “dupla dinâmica” das artes da patifaria: Maria de Fátima Aciolly (Glória Pires) e Odete Roitmann (Beatriz Segall), coprotagonistas da magistral “Vale Tudo” (88). As duas biscas, coadjuvadas em suas armações por seus respectivos comparsas e escroques, de alto e de baixo coturno, o boçal “tubarão” empresarial Marco Aurélio Cantanhede (Reginaldo Faria) e o decadente gigolô César Ribeiro (Carlos Alberto Ricceli), compuseram a síntese mais que perfeita do que de pior, de mais ordinário, canalha e cínico um determinado extrato da sociedade brasileira – aqui compreendida em sentido vertical, sem distinção de classes - é capaz de revelar. “Vale Tudo”, aliás, como obra-prima da dramaturgia em qualquer nível, merece uma crônica à parte, de tão didática e emblemática que é, até hoje, como retrato vivo de um Brasil podre e nocivo que, tal como as onipresentes baratas e ratos, parece imune á detonação de uma bomba de nêutrons ou qualquer outra hecatombe do gênero. O noticiário político (e, por vezes, também policial) do dia-a-dia, teatro grotesco no qual a vida real suplanta a própria arte, não me deixa mentir.

                Gilberto era assim. Um autor maiúsculo antenado com seu tempo e com sua realidade, talvez o maior teledramaturgo  gestado pela outrora “maquina de sonhos” da Globo, em minha opinião (que me desculpem os cultores de Janete Clair, outra personalidade igualmente grandiosa em seu ‘métier’). Tal como George Cukor no cinema americano, e como seu colega “global” Manoel Carlos, Gilberto era um ‘ladies’ man’. Compreendia a fundo a psiquê das mulheres, ao ponto de privilegiar em seus textos, talvez até mesmo inconscientemente, as personagens e personalidades femininas, sempre envolvidas e movidas por eternas contradições, representações, inconstâncias, dúvidas e anseios. Tinha um gosto musical apuradíssimo e uma cultura cinematográfica ímpar, ambos elementos onipresentes em sua obra, por sua direta ingerência e exigência. Percebia igualmente – outro ponto de interseção com Manoel Carlos - a sua cidade, o seu território, a sua gente, o seu cotidiano. Em todas as obras de Gilberto, o Rio de Janeiro se revela por inteiro, com suas cores, seus contornos, seus eternos cartões-postais. Mas também com sua riquíssima “fauna humana”, que, de alto a baixo, dá o tom da Zona Sul carioca. Gilberto traduzia em seus textos, como ninguém mais, o mundo quase irreal no qual viviam as chiques ‘socialites’, as belas modelos do ‘café society’, os mulherengos ‘playboys’ “filhinhos de papai” e os arrogantes empresários “donos do mundo”; todos debruçados em uma vida hedonista de festas espetaculares, carrões, iates e apartamentos de luxo, e transitando no vaivém estelar dos eixos Búzios-Angra-Paraty, ou Petrópolis-Teresópolis-Friburgo. Mas também era sensível o bastante para falar da gente comum das ruas de sua cidade, aqueles que, desde o raiar da aurora, dão o tom da vida na capital fluminense, singularizando-a e colocando-a no rol das mais interessantes cidades do mundo: os surfistas, os vendedores ambulantes da areia, os vagabundos, malandros e “ratos de praia” de Copacabana, (sobre)vivendo de “bicos” e “facadas”; os taxistas rudes e mal-humorados, as alegres e desabusadas “meninas da calçada”, os feirantes ruidosos e metidos a espertalhões na hora da “xepa”, os porteiros mexeriqueiros e “apresentados”, as mal-amadas síndicas dos condomínios, os velhos e velhas ranzinzas vociferando nos guichês dos bancos e nos caixas dos supermercados por causa de dois tostões a menos, o cara “boa-praça” da banca de revistas, da quitanda e do açougue; a “perua” fresca e cheia de “não-me-toques”, a turma ‘fitness’ dos compulsivos por ginástica na orla, as babás e seus carrinhos, os “tarados” por cachorros deixando seu rastro (e seu fedor) pelas calçadas, o “caô” (treta, malandragem) do carioca, o sexo à flor da pele presente em todas as esquinas, do Leme ao Recreio, exposto nos corpos desnudos e na malemolência de tantos rapazes e moças perfeitamente cônscios e senhores de seu poder de sedução...

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                É justamente aí nesse ponto que o universo “gilbertiano” se conecta, de forma quase automática, aos brilhantes e “caleidoscópicos” textos publicados na mídia impressa, durante anos a fio, por esse outro gênio da pena que foi Artur Xexéo. Como ressaltei no início, é de fato uma dolorosa coincidência que, quase que de uma tacada só, o Rio tenha se despedido de dois de seus maiores tradutores, dois de seus maiores porta-estandartes, um no campo dramatúrgico, outro no campo jornalístico. Gilberto era um dramaturgo-cronista, já sabemos. Xexéo, pela linha inversa, foi o cronista clássico, perfeito e irretocável, que, ao final da vida, se fez dramaturgo, literalmente, ao enveredar pela gostosa seara dos musicais de época, levados à cena teatral no melhor estilo Broadway, com grande produção. Como foi também uma perversa trama do destino o fato de que, em seu derradeiro trabalho, Xexéo estivesse se debruçando justamente a escrever a biografia de... Gilberto Braga!  Xexéo, tal como o seu conterrâneo, contemporâneo e parceiro das hostes culturais, era um carioca nato e convicto, “de carteirinha”, um amante apaixonado e devotado pelo Rio de Janeiro. Da mesma forma que o tijucano Gilberto, o capacabanense Xexéo igualmente brindava a seus “sete leitores” – como ele, jocosamente, se referia ao seu público-alvo, fazendo charme na abertura de suas crônicas dominicais, publicadas primeiro no ‘Jornal do Brasil’, e depois em ´O Globo’ -  com um passeio maravilhoso e onírico pelo Rio de sua infância e adolescência, nos anos 50/60. Através de sua narrativa, de seu ‘savoir faire’, de sua fina ironia e verve (estas destiladas nas palavras ácidas de “Dona Candoca”, seu alter-ego, criado para expor suas “verdades secretas”), de sua vasta cultura, e, principalmente, de sua prodigiosa memória, éramos todos convidados, nós seus leitores fiéis – e aí eu me incluo, desde os meus verdes 17/18 anos, graças à influência benéfica de meus pais, leitores contumazes de ambos os periódicos cariocas - a conhecer lugares e episódios do passado recente do Rio dos “anos dourados”, acerca das quais jamais suporíamos, mas que habitavam, de forma muito vívida e familiar, a mente iluminada do cronista: os piqueniques de fim de semana na pitoresca ilha de Paquetá, os programas de auditório da Rádio Nacional, o Circo Garcia, o palhaço Carequinha, o teatrinho Trol da TV Tupi, os pitorescos “reclames” televisivos de GrapetteCrush e outros enlatados, os bailes de carnaval do Teatro Municipal e os luxuosos desfiles de fantasia do Hotel Glória, os desfiles de moda na exclusiva Casa Canadá, as “certinhas do Lalau” (vedetes do chamado “teatro de revista”), os concursos de Miss no Maracanãzinho, os programas da TV Rio e da TV Excelsior, o ‘glamour’ dos cines Metro, Rian e Roxy, as concorridas sessões de “filmes-cabeça” do Cine Paissandu, as ‘boites’ do Leme e do Lido, os entreveros e “causos” políticos dos tempos de Carlos Lacerda e Adhemar de Barros, o eterno ‘footing’ do carioca na Avenida Atlântica, os lanches na Cirandinha e na Colombo, os jantares finos nos restaurantes Bife de Ouro, Le Bec Fin e La Fiorentina; as compras na Sloper e na Sears, os ‘shows’ de Bossa Nova no Beco das Garrafas, os festivais de música dos anos 60, as “dunas do barato” de Ipanema, as “corridas de submarino” (leia-se, as transas clandestinas dos casais, na então erma e distante Barra da Tijuca), o “desbunde” dos anos 70, com a eclosão do colorido “mundo gay” e do exercício pleno da  sexualidade... Sem falar nas estórias saborosíssimas envolvendo o ‘who’s who’ das altas rodas da Cidade Maravilhosa, ‘habitués’ das piscinas, restaurantes e salões do  Copacabana Palace, do Country e do Iate Clube, e da pulsante ‘night’ da cidade: Jorginho Guinle acompanhado de suas “mil estrelas de Hollywood”, as deslumbrantes Vera Barreto Leite, Odete Lara, Ilka Soares e Danuza Leão, os colunistas Maneco Müller, Ibrahim Sued e Zózimo Barroso do Amaral; os “colunáveis” Baby Pignatari e Odile Rubirosa, Carmen e Tony Mayrink Veiga, Elisinha e Walter Moreira Salles, et caterva...; a “turma etílica da boemia” (e da boa música): Antônio Maria, Tom Jobim e Vinicius de Moraes, Dolores Duran, Sylvia Telles e Maysa; a “turma bonita da boa vida” (e às vezes “da viração”): Arduíno Colassanti, Leila Diniz, Roniquito de Chevalier, Regina Léclery, Pedrinho Aguinaga, Djenane Machado... Ufa! Está de bom tamanho ou querem mais?

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​           A morte de Gilberto Braga, em paralelo à de Arthur Xexéo, inevitavelmente, melancolicamente, abriu um vácuo, uma lacuna imensa na cultura brasileira. Foram duas cortinas – duas belas e luxuosas alcatifas, de veludo vermelho ‘bordeaux’ drapeado e com franjas douradas - que caíram ao mesmo tempo sobre a espetacular cena social carioca, e sobre a cena brasileira de modo geral. Ambas as personalidades, duas “antenas parabólicas” fincadas à margem esquerda da Guanabara, portavam consigo memórias e percepções afetivas ímpares, estórias particulares e coletivas, grande parte da própria História paralela (com “H” maiúsculo) de seu (do nosso) tempo; depositários que eram desse rico tesouro cultural de lembranças, que, com estilo e, sobretudo, com muito talento, repartiam com seus seguidores e admiradores. A impressão que temos, ao comparar as duas vidas aqui abordadas, é que, com elas, o Rio de Janeiro da segunda metade do século XX se despediu também, ou, pelo menos, “aquele” Rio – airoso, charmoso, genuinamente brasileiro e único – que, de supetão, deu adeus a todos nós, arrebatado na bagagem espiritual e emocional de dois de seus maiores ‘causeurs’, Gilberto Braga e Arthur Xexéo, legítimos “meninos do Rio”, sem dragões tatuados no braço, mas com suas mentes abertas na vasta dimensão do espaço-tempo. Que voem perenemente, à maneira das diáfanas asas-deltas que, diuturnamente, se projetam da Pedra Bonita, à ilharga do monólito da Gávea: coloridos, livres, leves e soltos, pairando sobre sua cidade amada e nos inspirando de lá de cima, do “Céu da Vibração”, como cantou o grande Gilberto Gil.

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Crédito das imagens: 1) Capa do livro “Gilberto Braga – O Balzac da Globo” (Editora Intrínseca Ltda., RJ, 2024); 2) Cena cotidiana capturada na Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro (década de 1950). Disponíveis na Rede Mundial de Computadores.

 

         

Artigo publicado em 13.10.2024.

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SÉRIE “HISTÓRIA”

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MAD MARIA – O LIVRO, A MINISSÉRIE E A DELIRANTE “FERROVIA DO DIABO” QUE O BRASIL ESQUECEU

                                                                                   Por Ronald Péres

                Recentemente, no último dia 12 de agosto, Manaus, o Amazonas e o Brasil se despediram de um de seus grandes pensadores e um dos maiores expoentes literários do país revelados nos últimos cinquenta anos: Márcio Souza (1946-1924).

Por coincidência, poucos meses antes do passamento do grande autor, “paguei uma dívida” antiga que tinha comigo mesmo,  enquanto leitor contumaz, enquanto pesquisador diletante da História, enquanto amazonense, enquanto brasileiro. Refiro-me ao estupendo romance Mad Maria, uma verdadeira obra-prima, lançado em 1980 pelo nosso conterrâneo escritor, àquela altura, já afamado nacionalmente, depois do sucesso alcançado por sua estreia na ficção literária, com Galvezo Imperador do Acre, de 1976. Em comum às duas obras tem-se, como pano de fundo, a talentosa abordagem pelo autor de dois episódios infelizmente mal explorados da História do Brasil, ambos sendo parte do chamado “Ciclo da Borracha” na Amazônia (1870-1914), conectados e sucedâneos entre si, e ambos igualmente fascinantes, do ponto de vista em retrospectiva do olhar contemporâneo.  

 

​​            Em Galvez entrevê-se, em meio à narrativa em tom farsesco, a disputa internacional, entre Bolívia e Brasil, no final do século XIX, pela posse do território do Acre e sua rica reserva de seringais nativos, vencida por este último após uma guerra civil entre cidadãos dos dois países, que redundou em pacto firmado com a assinatura do Tratado de Petrópolis, em 1903. Já em Mad Maria, de forma bem mais ampla, colorida e cheia de nuances, é retratada a construção, como conseqüência do citado acordo e sob encargo do governo brasileiro, da célebre Ferrovia Madeira-Mamoré (cuja locomotiva era apelidada de “Maria Louca”, em inglês), paralela às turbulentas e intransponíveis cachoeiras do curso superior do Rio Madeira, a fim de permitir o escoamento da  borracha produzida pelo árduo trabalho dos seringueiros naquela região remota, desde os confins das selvas bolivianas até a vila de Guajará-Mirim (no atual Estado do Rondônia), e daí até os portos de Manaus e Belém, de onde o precioso insumo - à época, a segunda commodity da pauta de exportações brasileiras, depois do café - era embarcado para a Europa e a América do Norte.

            Por trás dos dois eventos correlatos havia, obviamente, a manipulação explícita de fortes interesses do capital estrangeiro nas divisas geradas pelo látex amazônico. Ambições estas representadas, no caso, pelo grupo empresarial (o “sindicato”, ou holding, como se diz atualmente) capitaneado pelo poderoso empresário norte-americano Percival Farquhar (1865-1953), um magnata de alto coturno e uma verdadeira “águia” nos negócios e no tráfico de influência das altas esferas da Política, e, como tal, detentor de um rol de concessões públicas espalhadas por todo o Brasil, sob a forma de portos, ferrovias, madeireiras, mineradoras e outros investimentos privados “menores”, no ramo da hotelaria de luxo. Não é difícil adivinhar nesse sentido, quem era o astuto nome forte que – já sendo proprietário, não por acaso, de vastos latifúndios gomíferos no entorno do traçado da futura ferrovia - constituiu a Madeira Mamoré Railway Company, empresa vencedora da “licitação” para a empreitada da prometida estrada de ferro nos ermos do setentrião brasileiro...

        

​           Já na leitura dos primeiros capítulos do romance, minha empolgação foi tanta – seja pela envolvente e ilustrativa narrativa do autor; seja pelo próprio leitmotiv histórico em si, tão caro a nós, amazônidas – que me lembrei, inevitavelmente, da minissérie homônima baseada na estória, que fora produzida pela TV Globo e lançada em 2005, com grande divulgação na mídia nacional; produto esse que, à época, me “passou batido” (como a tantos telespectadores, talvez), em razão dos erráticos e imprevisíveis horários em que era veiculada pela emissora, fator que certamente deve ter lhe prejudicado em muito a audiência. Por isso mesmo, fiquei com vontade de revê-la como se deve, de forma atenta e sequencial. Mais: quis fazê-lo em paralelo à leitura do livro (experiência que nunca havia tido até então), o que se revelou um grande acerto, pois, além do duplo prazer a mim proporcionado, serviu de mútuo aval da grandiosidade de ambos os produtos, tanto o original literário quanto o audiovisual, dele derivado, e que nada lhe fica a dever em qualidade.

            A trama novelística se passa no ano de 1911, quatro anos após o início dos trabalhos de construção da ferrovia, levada a cabo pela companhia norte-americana incorporada por Farquhar. E em dois cenários, aparentemente em tudo distintos um do outro. No primeiro deles, a vastidão e a solidão da selva amazônica - mais especificamente a chamada “Frente do Abunã”, trecho do trajeto férreo estacionado na passagem do rio de mesmo nome (um dos afluentes do Madeira) – temos um grupo de trabalho multiétnico composto por alemães, barbadianos, chineses e outras nacionalidades que, tal e qual numa bíblica “Babel” (no sentido lingüístico da diversidade; e no sentido alegórico, de confusão), não se entendem e se odeiam mutuamente, movidos pelo ‘stress’ de um labor incessante, extenuante e insalubre, que ceifa vidas a cada dia e parece não avançar na indômita e assustadora floresta; por seus próprios preconceitos raciais e por fúteis e irracionais disputas cotidianas. Todos liderados por um rude,  debochado, fanfarrão e pragmático capataz inglês, Mr. Collier (vivido com um excesso de histrionismo por Juca de Oliveira na minissérie global), que, agindo com “mão de ferro”, não hesita um segundo em aplicar as mais duras e desumanas penas aos seus subordinados que ousam infringir as “regras” de trabalho por ele impostas, tornando ainda mais insuportável a dura realidade do dia-a-dia, que se arrasta no silêncio opressor da mata. E haja dureza: doenças (tuberculose, pneumonia, epidemias de malária e outras sezões infecto-contagiosas), ataques de feras e de índios, acidentes de trabalho, furtos, brigas, motins, assassinatos. Nada muito diferente do submundo que grassa atualmente dentro de um garimpo na Amazônia, por exemplo.

             Em recorte narrativo diverso, a milhares de quilômetros dali, temos o cenário do elegante Rio de Janeiro do início do século XX, então capital federal e vitrine da modernidade da ainda jovem República brasileira, reluzindo de novo com sua bela Avenida Central, seus cafés e jardins à francesa e os ares parisienses trazidos pelas grandes reformas urbanísticas implantadas poucos anos antes pelo operoso prefeito Pereira Passos. O centro das grandes cartadas, tramoias, especulações e decisões políticas. O palco onde circulam dois dos grandes protagonistas (ou, melhor dizendo, antagonistas) da estória; ambos vaidosos, prepotentes e rivais no exercício, e, principalmente, na demonstração de poder. De um lado, o baiano J. J. Seabra, ministro da Viação e Obras Públicas, que, mal disfarçando uma certa hipocrisia por trás de uma aparência austera e impoluta, à semelhança de uma vestal romana, se arvora de feroz crítico e de escudo contra a ingerência estrangeira nos assuntos e na economia do país, mote de que se vale a fim de capitalizar dividendos para os projetos políticos em seu curral eleitoral. No campo oposto, como não é difícil supor, aparece o próprio Percival Farquahar em pessoa, munido de toda a arrogância e a boçalidade tipicamente advindas do dinheiro farto e fácil que jorra de suas algibeiras, e das quais lança mão, sem pruridos nem pudores, na tentativa (quase sempre bem-sucedida) de cooptar – leia-se, corromper - os “colonizados” brasileiros na consecução de suas ambiciosas investidas negociais. No meio de ambos, o político brasileiro e o milionário americano, uma notória antipatia mútua, metas opostas a serem atingidas num curto prazo, uma bela e jovem amante em comum e uma ferrovia na encruzilhada de seus caminhos, a Madeira-Mamoré, “pedra no sapato” no ardiloso xadrez político do primeiro, e “pedra angular” na delirante escalada capitalista do segundo. Na tela pequena, Antônio Fagundes e Tony Ramos, investidos dos respectivos papéis de Seabra e Farquhar, dão um show de interpretação, especialmente Tony, que, achando o tom certo da personagem histórica recriada com ares de vilão por Márcio Souza, faz do mogul americano um abjeto “porco chauvinista”, um verdadeiro poço de canalhice, cinismo, corrupção, cupidez, lascívia e misoginia.

             Corte, mais uma vez, para o cenário amazônico, para a apresentação dos três “heróis” da trama, todos eles vítimas inocentes da malsinada Mad Maria, que, a cada trajeto vencido na jungle, parecia levar com ela vidas e sonhos desfeitos. O primeiro deles, Dr. Richard Finnegan (Fábio Assunção, na telessérie), um médico americano idealista, seduzido pelas “lorotas” contadas por seu veterano colega, Dr. Lovelace, a respeito de uma promissora perspectiva de trabalho aberta em plena selva brasileira, sob as melhores e mais favoráveis condições técnicas; mas que, uma vez lá estando, depara-se, isso sim, com um verdadeiro campo de concentração (e eventualmente de extermínio) montado diante de seus desiludidos olhos. A segunda, Consuelo (vivida pela lindíssima Ana Paula Arósio), uma jovem boliviana recém-casada que, após perder o marido num naufrágio durante uma travessia de vapor pelas corredeiras do Madeira, vaga desesperada pela mata, até que, semimorta, é resgatada pelos trabalhadores da ferrovia, que a levam para o acampamento e a entregam aos cuidados do virtuoso Dr. Finnegan, que, como se imagina, por ela logo se apaixona perdidamente, como em todo bom romance. E, finalmente, temos a figura do patético e débil “Joe”, um rapaz nativo da nação indígena Caripuna (encarnado na tela pelo ator amazonense Fidélis Baniwa), que, perdido e vagando a esmo pela trilha aberta em torno da estrada, depois de ter tido sua tribo dizimada pelas chacinas e pelas doenças trazidas pelos “civilizados”, é pego furtando pequenos “badulaques” dos alojamentos dos brancos. E, suprema tragédia dentro da tragédia, é “julgado” sumariamente por uma turba enfurecida, e “sentenciado” a ter suas mãos decepadas (!!!), sendo salvo, igualmente, pela pronta intervenção do bondoso Dr. Finnegan, amparado pelos tiros da Winchester do capataz Collins prontamente disparados à guisa de alerta aos “juízes”.

         Durante a primeira parte da estória, o livro de Márcio Souza – seja valendo-se de pinceladas de aventura de faroeste (no contexto amazônico) ou de um drama de costumes à la Eça de Queiroz (no citadino ambiente carioca) – prima pelo desenho do riquíssimo tableau histórico que envolveu a construção da Madeira-Mamoré, bem como de seus igualmente interessantes e representativos personagens, reais ou fictícios. Duas das passagens mais emblemáticas se dão, não por acaso, justamente nas cenas que integram o primeiro capítulo da minissérie. Numa delas, o apito da chaminé da locomotiva, a Mad Maria, rasga o silêncio da mata em meio à trilha já aberta pela horda de trabalhadores que, macilentos, esfomeados e exauridos após mais um dia de trabalho, a seguem a pé, à semelhança de “espantalhos humanos” reduzidos à mais infame indignidade. Um quadro de horror e miséria que é suavizado logo em seguida pelo close da câmera sobre as mãos delicadas da personagem de Ana Paula Arósio, dedilhando ao piano, em diáfanas vestes típicas da ‘Belle Époque’, no convés do vapor que a levava para seu pretendido destino, a inebriante protofonia da ópera O Guarany, de Carlos Gomes. E, logo em seguida, a grande angular se abrindo, para revelar, com apoio orquestral e num esplêndido travelling toda a imensidão da Amazônia e a pequenez do homem diante dela, representada pelo barco a vapor que, a essa altura, é apenas um ponto pintado no verde da densa floresta, prestes a soçobrar mais adiante. Alguma semelhança com a grandiloqüência cênica e alegórica evocada no filme alemão Fitzcarraldo (1982), de Werner Herzog, não terá sido, talvez, neste caso, mera coincidência...  

         

            Todavia, a partir do momento em que a novela se encaminha para seu terço final, a narrativa adquire tons mais sombrios, melancólicos, quase de tragédia grega mesmo. Pois, tal e qual uma “maldição dos faraós” do velho Egito lançada sobre os violadores de tumbas reais, a “Ferrovia do Diabo”, como seria apelidada a igualmente faraônica Madeira-Mamoré, também parecia arrastar consigo vidas malsinadas pela miséria, pela moléstia, pelo fracasso, pela decepção, pela loucura, pela infelicidade... E pela morte, física e moral, daqueles que cruzaram seu caminho! Não vou aqui dar o destino de cada uma das personagens, para não estragar o prazer do leitor ou do telespectador das duas obras, e que nelas não ainda haja incorrido. Mas, sem dar spoilers, é possível antecipar (na verdade, rememorar) o irônico fato histórico que baliza e sintetiza, em sua amarga ironia, todo o melancólico desfecho delineado pelo autor como arremate de sua narrativa semificcional. Quando a Ferrovia Madeira-Mamoré enfim se inaugurou, em 7 de setembro de 1912, com a presença de Farquhar em pessoa, como anfitrião de uma efusiva efeméride que converteu a pequena Porto Velho – à época parte do Estado do Amazonas - numa quase filial de uma vila americana do ‘Mid-West’ adornada com bandeiras e flâmulas azuis e vermelhas, a guerra comercial pelos lucros da borracha amazônica já havia sido irremediavelmente perdida pelo Brasil, impotente, tanto do ponto de vista  econômico quanto tecnológico, de competir diante dos prolíficos seringais cultivados pelo Império Britânico no Sudeste Asiático, desde o fim do século XIX, com as mudas de hévea nativa contrabandeadas da região do Tapajós pelo famoso aventureiro – leia-se, “biopirata” – Henry Wickham, um “soldado da fortuna” comissionado para tal fim pelos cientistas do Royal Botanical Garden de Sua Majestade, a Rainha Vitória. Diante de tal realidade insofismável, não havia mais borracha, pois, a ser transportada pela Mad Maria, sob a perspectiva da inviabilidade comercial frente aos vultosos custos operacionais de tais viagens. Farquhar, o ambicioso capitalista, o grande estrategista, o arrojado empresário, “dera com os burros n´água”, prostrado pela débâcle do látex tanto quanto qualquer exportador e aviador falido de Manaus e de Belém, ou quanto os desgraçados seringalistas e seringueiros que lamentavam sua desdita espalhados na vastidão da selva. ‘And then there were none’ (não sobrou nenhum), parafraseando o título do clássico romance policial de Agatha Christie!

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         O epílogo desta triste história (com H) é bem conhecido de todos os amazônidas, e dos rondonienses em especial. Uma vez tendo perdido sua razão de existir, a “Ferrovia do Diabo” – que tanta desgraça causou na vida de tantos, em troca de praticamente nenhuma benesse - teve sua concessão antecipadamente desfeita pelo governo brasileiro alguns anos depois de inaugurada, por acordo celebrado com o próprio Farquhar, que, pragmaticamente, como bom americano, tratou de livrar-se da melhor forma dos imensos prejuízos que, hemorragicamente, a malograda estrada de ferro causara aos seus bolsos. Obsoleta, sem propósito, sem uso nem manutenção adequada, a Madeira-Mamoré acabou por ser, como tudo o mais na Amazônia que é deixado ao léu, “engolida” pela floresta, eternamente indômita e refratária à presença do homem “civilizado’, que até os dias de hoje se porta como um estúpido estranho e como um recalcitrante agressor ao seu peculiar e singular environment.

              As lições de tal aventura – ou seria mais apropriado dizer desventura? – não foram absorvidas nem amadurecidas a contento, como mostrariam, nas décadas seguintes, outras pretensiosas e malfadadas incursões do gênero: a Fordlândia de Henry Ford, o Projeto Jari de Daniel Ludwig, a Transamazônica de Médici; e agora, ao que tudo indica, a gananciosa e um tanto açodada incursão exploratória da bacia petrolífera existente na foz do Rio Amazonas, que tanto enche os olhos da Petrobras e dos burocratas (e plutocratas) de Brasília. Todos eles “filhos” e “netos” da desvairada Mad Maria. ‘Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?’ Cabe aqui apelar à clássica invectiva latina de Cícero, na qual, ao invés do nome do antagonista do famoso político romano, bem se poderia trocar para: “Até quando, imbecis, abusarão de nossa paciência?” E segue o desabalado “trem dos insensatos”... Sem foguista, sem maquinista e mais descarrilado que nunca! Melhor “embarcar” nesse outro comboio aqui, muito mais poético e “prazenteiro”, como diria Tom Jobim:

 

“Lá vai o trem com o menino/Lá vai a vida a rodar/Lá vai ciranda e destino/Cidade e noite a girar/Lá vai o trem sem destino/Pro dia novo encontrar/Correndo vai pela terra/Vai pela serra, vai pelo mar/Cantando pela serra, o luar/Correndo entre as estrelas, a voar/No ar/No ar”

                       

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Crédito das Imagens: Rede Mundial de Computadores.

 

Artigo publicado em 22.09.2024.

A locomotiva da Madeira-Mamoré, conduzindo autoridades por um certo trecho da floresta amazônica, por ocasião da inauguração da ferrovia, em 1912.

RIBEIRO JÚNIOR E A REVOLUÇÃO TENENTISTA DE 1924 EM MANAUS – O CENTENÁRIO DE UMA GLORIOSA CAUSA PERDIDA

Por Ronald Péres

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Imagens extraídas da Revista da Semana (RJ), montadas em forma de mosaico, nas quais são retratados figuras e episódios ligados à “Revolução do Amazonas” de julho-agosto de 1924. Nos três medalhões superiores vemos o General João de Deus Menna Barreto (à esquerda), comandante das tropas legalistas federais que depuseram os revoltosos; o Tenente Ribeiro Júnior (ao centro), líder da revolução; e o Coronel Raymundo Barbosa (à direita), substituto provisório de Ribeiro até a chegada do futuro interventor, Alfredo Sá. Na parte inferior, vemos as tropas federais em formação junto à escadaria do Palácio Rio Negro; e a multidão reunida na Avenida Sete de Setembro, saudando o discurso de Ribeiro Júnior proferido ao povo da sacada do palácio.

PARTE IV – A EXPANSÃO DA REVOLTA AO PARÁ E A REAÇÃO DO GOVERNO FEDERAL. O FIM DA REVOLUÇÃO, A QUEDA E A REDENÇÃO DO “REDENTOR”. 

         Uma vez alcançados os objetivos primordiais da revolução, mediante o controle do governo estadual e o apoio da população civil da capital, Ribeiro Júnior e seus jovens e idealistas companheiros de farda tomaram a decisão, já na semana subsequente ao levante, de expandir a luta para além das fronteiras amazonenses. E assim o fizeram. Ou, pelo menos, tentaram. A ideia era, em conjugação sinérgica com o iminente levante das tropas do 26º BC de Belém, deslocar uma força expedicionária ao vizinho Estado do Pará, descendo o Rio Amazonas, até a pequena cidade de Óbidos – uma localidade estratégica do ponto de vista militar, por estar situada defronte ao ponto mais estreito do grande caudal – e tomar posse do fortim no qual se aquartelava a guarnição federal ali baseada. Com isso, visavam os revoltosos do Amazonas, além de prestar auxílio logístico à sublevação de seus homólogos paraenses, garantir de forma mais segura a linha divisória entre os dois estados nortistas contra um previsível ataque de tropas legalistas enviadas pelo governo federal, que, cedo ou tarde, terminaria por acontecer.

 

​​             Assim é que, passando da intenção à ação, zarpou do Roadway no dia 28 de julho de 1924 o apresado vapor Bahia, levando a bordo um batalhão de tropas com esta finalidade, comandadas pelo Capitão Dubois e pelos tenentes Lemos da Cunha e Barata. Um embarque festivo, acompanhado por cerca de dez mil pessoas postadas no cais flutuante, e saudado por música marcial e por discursos inflamados proferidos pelos tenentes Holanda e Villaronga Fontenelle, arrematados ao final pela fala do líder Ribeiro Júnior, concitando o esforço dos expedicionários em prol da causa maior: a expansão da revolução por todo o território paraense e, se possível, mais além, pelos estados do Nordeste. Um sonho deveras ambicioso, pois o que talvez não soubessem àquela altura era que o levante vestibular de São Paulo, iniciado em 5 de julho, e que serviu de estímulo à eclosão da rebelião nortista, já dava sinais de iminente colapso diante da contraofensiva engendrada do governo federal. E, mais, que o motim da guarnição de Belém fora sufocado ainda em seu nascedouro, a 26 de julho, pela forte reação da Polícia Militar local, que terminou por render os rebeldes.

 

          A incursão ao Pará, todavia, foi bem-sucedida, tendo sido a fortaleza de Óbidos tomada em 2 de agosto, com o auxílio dos vasos de guerra Ajuricaba e Missões, integrantes da Flotilha do Amazonas. Uma ação rápida, facilitada pela adesão das tropas que guarneciam o forte, lideradas pelo Tenente Saint-Clair Paes Leme; pela consequente rendição do comandante do fortim, Capitão Bastos Nunes; e pela evacuação da cidade por boa parte da população, que, tendo sido previamente cientificada pelas autoridades do iminente confronto, evadiu-se para o interior. A captura daquele importante bastião propiciou que as tropas sublevadas de terra e mar, ali reunidas, se assenhorassem de outras vilas do Baixo Amazonas (Alenquer, Monte Alegre, Prainha, Almeirim) e chegassem até a importante cidade de Santarém, na foz do Rio Tapajós, onde também ficaram baseadas, à espera de reforços. É desta última localidade que o paraense Tenente Barata, em meados de agosto, telegrafa ao companheiro Ribeiro Júnior a fim de lhe prestar contas do êxito alcançado na missão levada a cabo em sua terra natal. E conclui sua missiva de forma dramática e ufanista, afirmando que “(...) em Óbidos será assegurada a liberdade da Amazônia ou será atestado pelos seus escombros o quanto se defendeu aquela liberdade conclamada há muitos lustros.”

 

*****

        

             A resposta do governo federal à revolta tenentista da Amazônia, como era de se supor, não tardaria a se fazer realidade. Despido, na prática, de sua investidura governamental, César do Rego Monteiro – que não mais retornara a Manaus desde a deflagração do levante – valeu-se do mandato parlamentar conferido ao seu concunhado, Aristides Rocha, a fim de que este, da tribuna do Senado Federal, clamasse em altos brados pelo retorno do Amazonas ao status quo ante e pela punição dos militares revoltosos que agiam à margem do “império da Lei”. Uma voz que, evidentemente, não era isolada, posto que a expansão do movimento tenentista em nível nacional e o virtual retorno dos militares ao poder – tal como ocorrera nos “verdes anos” da República – não interessava ao stablishment sociopolítico-administrativo que orbitava em torno da elite de oligarcas civis que, baseada no eixo São Paulo-Minas Gerais, comandava o país.

 

         Uma vez deliberada a necessidade de pronta e imediata reação àquela ruptura institucional, é constituído em 31 de julho o Destacamento do Norte, uma força expedicionária conjugada entre Exército e Marinha, armada com o propósito de sufocar a rebelião no Amazonas, prender os seus líderes e restaurar a ordem constitucional. Um contingente total de 1.500 militares, tendo à frente de seu comando o experiente General João de Deus Menna Barreto, oficial que havia se notabilizado por ocasião do levante de 1922, quando ajudou a debelar a revolta da Escola Militar. Por uma questão de praticidade e rapidez em atingir o seu alvo, optou-se por uma expedição marítima, organizada em forma de esquadra, com várias belonaves e embarcações de apoio compondo a sua formação, sendo as principais os destroieres Mato Grosso e Sergipe, a canhoneira Amapá, os cruzadores Barroso e Poconé, o navio-hospital Cuiabá e os transportes Macapá, Manáos, Belo Horizonte, Curitiba e Campos Salles, além de dois hidroaviões. Muito mais do que reprimir seus oponentes pela força das armas, o objetivo embutido sob tal aparato bélico era impressioná-los, e, claro, intimidar qualquer possibilidade de resistência. E assim se fez.

             Em 18 de agosto de 1924, as tropas legalistas aportam em Belém. No dia seguinte, retomam o controle de Santarém. Em 21 de agosto, Menna Barreto telegrafa ao Capitão Dubois, e num ultimato, lhe concede o prazo de três dias para que a guarnição aquartelada no Forte de Óbidos, sob o comando do Tenente Barata, depusesse as armas. Desobedecida a ordem, segue-se um bombardeio àquela fortaleza por parte da Artilharia Naval, em 26 de agosto, e a sua consequente rendição. Após dominar a estratégica cidade paraense, as forças do Destacamento do Norte prosseguem em sua missão até o seu destino, Manaus.

 

           Na capital amazonense, já reinava desde meados de agosto um certo clima de desânimo no seio do staff governamental de Ribeiro Júnior, suscitado pelas notícias desalentadoras que vinham do Pará, no tocante ao crescente êxito alcançado pela contraofensiva das tropas legalistas. Rumores começavam a circular entre o povo, esmorecendo o ânimo daqueles que acreditavam piamente na vitória da revolução. A fim de dissipar os boatos, uma mensagem encorajadora nesse sentido, escrita pelo governador militar, é veiculada no dia 27 de agosto, nas páginas do Jornal do Povo. Não é o bastante, todavia. O povo pressente o desfecho dos acontecimentos, os quais se desenrolavam justamente na direção contrária aos seus anseios, e põe-se em angustiado compasso de espera.

 

​            Ao entardecer do dia seguinte, 28 de agosto, a baía do Rio Negro, defronte ao Roadway, se viu tomada pela esquadra do Destacamento do Norte. O primeiro navio a ser avistado em terra, vindo do “Encontro das Águas”, foi o destroier Mato Grosso, seguido dos demais. No Poconé, que lançaria âncoras um pouco depois do resto da frota, estava o chefe da expedição, General Menna Barreto, que, prontamente, dá ciência formal a Ribeiro Júnior da presença das forças federais, e das possíveis consequências da desobediência às ordens emanadas do Palácio do Catete. O cenário de guerra estava armado.

                 Na memória coletiva de todos os manauaras, ainda estavam muito presentes os acontecimentos do fatídico dia 8 de outubro de 1910, quando a cidade amanheceu sob intenso bombardeio dos navios da Flotilha, suscitado por uma mesquinha tentativa de deposição do então governador do Estado, Antônio Bittencourt; um evento traumático para a população, que não desejava, de modo algum, reviver aquele nefasto episódio. Por ordens expressas repassadas previamente por Ribeiro Júnior às forças de terra e mar por ele comandadas, não houve tentativa de resistência ao desembarque das tropas legalistas, nem qualquer incidente de monta, deflagrados por parte dos correligionários militares e civis que genuinamente o apoiavam. Muito pelo contrário, o “Redentor”, fazendo jus à liderança que naturalmente conquistara perante os amazonenses, mostrou-se mais uma vez um homem sereno e estoico, e, num gesto de resignação e sabedoria, decide pela rendição incondicional, deliberando para que tudo transcorresse na mais perfeita ordem e respeito de parte a parte, na medida do possível. Não era desejo do líder da Comuna de Manaus perseverar no sonho revolucionário idealizado por si e por seus companheiros à custa do martírio de inocentes e de uma luta fratricida e sem perspectiva de vitória, dada a enorme desproporção das forças envolvidas.Na memória coletiva de todos os manauaras, ainda estavam muito presentes os acontecimentos do fatídico dia 8 de outubro de 1910, quando a cidade amanheceu sob intenso bombardeio dos navios da Flotilha, suscitado por uma mesquinha tentativa de deposição do então governador do Estado, Antônio Bittencourt; um evento traumático para a população, que não desejava, de modo algum, reviver aquele nefasto episódio. Por ordens expressas repassadas previamente por Ribeiro Júnior às forças de terra e mar por ele comandadas, não houve tentativa de resistência ao desembarque das tropas legalistas, nem qualquer incidente de monta, deflagrados por parte dos correligionários militares e civis que genuinamente o apoiavam. Muito pelo contrário, o “Redentor”, fazendo jus à liderança que naturalmente conquistara perante os amazonenses, mostrou-se mais uma vez um homem sereno e estoico, e, num gesto de resignação e sabedoria, decide pela rendição incondicional, deliberando para que tudo transcorresse na mais perfeita ordem e respeito de parte a parte, na medida do possível. Não era desejo do líder da Comuna de Manaus perseverar no sonho revolucionário idealizado por si e por seus companheiros à custa do martírio de inocentes e de uma luta fratricida e sem perspectiva de vitória, dada a enorme desproporção das forças envolvidas.Na memória coletiva de todos os manauaras, ainda estavam muito presentes os acontecimentos do fatídico dia 8 de outubro de 1910, quando a cidade amanheceu sob intenso bombardeio dos navios da Flotilha, suscitado por uma mesquinha tentativa de deposição do então governador do Estado, Antônio Bittencourt; um evento traumático para a população, que não desejava, de modo algum, reviver aquele nefasto episódio. Por ordens expressas repassadas previamente por Ribeiro Júnior às forças de terra e mar por ele comandadas, não houve tentativa de resistência ao desembarque das tropas legalistas, nem qualquer incidente de monta, deflagrados por parte dos correligionários militares e civis que genuinamente o apoiavam. Muito pelo contrário, o “Redentor”, fazendo jus à liderança que naturalmente conquistara perante os amazonenses, mostrou-se mais uma vez um homem sereno e estoico, e, num gesto de resignação e sabedoria, decide pela rendição incondicional, deliberando para que tudo transcorresse na mais perfeita ordem e respeito de parte a parte, na medida do possível. Não era desejo do líder da Comuna de Manaus perseverar no sonho revolucionário idealizado por si e por seus companheiros à custa do martírio de inocentes e de uma luta fratricida e sem perspectiva de vitória, dada a enorme desproporção das forças envolvidas.

          Horas antes de sua prisão, uma multidão de dez mil pessoas comprimira-se diante do Palácio Rio Negro a fim de empenhar a sua solidariedade a Ribeiro Júnior e à causa revolucionária. Seguiram-se discursos de alguns de seus principais correligionários e admiradores (Crisantho Jobim, Rosa Ramalho, Antônio Mavignier de Castro, Hemetherio Cabrinha), e, por fim, do próprio Ribeiro Júnior, prestando contas de suas ações à frente do governo e concitando todos a se manterem firmes em seus ideais de dias melhores. A manifestação terminou com a oração emocionada do professor Coriolano Durand na qual, em certo trecho – de forma intencionalmente dramática – se referiu a Ribeiro como “doce Jesus de minha desventurada terra”, e concluiu sua fala conferindo-lhe, em nome do povo, o título de “Cidadão do Amazonas”. Mutatis mutandis, tirante o exagero da analogia relacionada à imagem religiosa do Cristo, pode-se dizer que a comunhão havida naquele momento entre o “pastor” (Ribeiro Júnior) e seu “rebanho” (o povo amazonense, que o venerava como seu “Salvador”) poderia soar como algo paralelo à “última ceia”, já que o “Calvário”, para aquele, ainda estava por vir.

          Os lances desse dia histórico – e triste, para muitos manauaras – estão muito bem descritos, detalhe a detalhe, na reportagem do jornal União Portugueza, reproduzida semanas depois pelo periódico maranhense Folha do Povo (edição de 29.091924), e que aqui se transcreve parcialmente, in verbis:

 

“(...) Cerca das 17 horas, entrou em nosso porto o destroier ‘Mato Grosso’. Ao ser conhecido este fato, milhares de pessoas, de todas as classes sociais, correram às praias, enchendo completamente o litoral.

Após a amarração da belonave, essas milhares de pessoas se dirigiram a Palácio, vivando e aclamando o governador militar do Estado Sr. 1º Tenente Dr. Ribeiro Júnior, colocando-se a seu lado e dando-lhe seu apoio incondicional. Usaram da palavra vários oradores, entre eles os nossos confrades, Sr. Dr. Coriolano Durand e Antônio Mavignier de Castro.

Reclamado pela enorme massa popular, que se elevava a mais de dez mil pessoas, assumiu a tribuna popular o poeta Hemetherio Cabrinha, que começou dizendo: - “Povo, eu já fiz o meu testamento: deixo aos meus filhos um nome pobre de operário honrado, terminando por oferecer ao Governador Militar o seu corpo para servir de trincheira em sua defesa”. Em seguida, a massa popular, em um grito formidável, como se fora proferido por uma só boca, proclamou o temerário primeiro tenente Dr. Alfredo Augusto Ribeiro Júnior, Cidadão do Amazonas.

Visivelmente comovido, fala então o Sr. Governador do Estado, dizendo: “Em breves horas, daqui a pouco, terei de entregar os pulsos às algemas da legalidade. Antes, porém, quero apelar para todos, pedindo que, sob palavra de honra, se comprometam a receber em paz, desarmados, os emissários do Governo Central.”

E essas dez mil pessoas, depois de terem afirmado que iriam todas presas juntamente com ele, acabaram prometendo obedecer aos seus desejos. Palmas estrepitosas e ensurdecedoras, ‘vivas’ e aclamações irromperam delirantemente, atroando os ares de modo retumbante.

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Quando chegou a Palácio um ofício ordenando ao ínclito soldado da República que se recolhesse preso a bordo do ‘Mato Grosso’, o que se passou é indescritível. Essas milhares de pessoas, homens, jovens, senhoras e senhorinhas se opuseram a que Ribeiro Júnior se entregasse. E essa massa compacta de povo, chorando e cerrando os punhos, não queria que o insigne militar, esse oficial, nobre e cavalheiresco, que, movido pelo seu coração de homem de bem e pela sua alma pura e adamantina, que a todos havia arrancado ao sofrimento horrendo da fome e da miséria, levando a seus lares o conforto, o bem-estar e a garantia de seus direitos perante a lei, se fosse entregar prisioneiro. Entretanto Ribeiro Júnior, que é um estoico e um valente, conhecedor dos seus deveres, convencendo o povo de que devia obedecer, segue para bordo; todos o acompanharam até o cais de embarque, vivando-o e abraçando-o.

Ao ter o povo conhecimento de que Ribeiro Júnior havia seguido para Palácio, pelo igarapé, a fim de passar o governo ao Interventor, 21 e ½ horas mais ou menos, seguiu delirante para o aclamar mais uma vez em Palácio. Quase toda à noite, a massa formidável de povo percorreu as ruas de Manáos, dando vivas ao ex-governador militar, aos tenentes Barata, Azamor, Linhares, ao Exército e à Armada.”

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E continua o mesmo periódico, relatando a intensa comoção do povo amazonense que, tendo tomado ciência da prisão de Ribeiro Júnior e de seu confinamento no interior do paquete Bahia, afluiu em massa ao cais do Roadway no dia seguinte, 29 de agosto, para manifestar gratidão e reverência ao seu “Redentor”. Uma cena pungente, jamais vista antes na história de Manaus: uma verdadeira legião popular, estimada em cerca de vinte mil pessoas, aglomerada de forma espontânea e coesa a fim de lamentar, em lágrimas e sob uma devoção quase messiânica, a queda do jovem líder que, no curto período de pouco mais de um mês, capturara os seus corações, com sua postura de homem probo e a sabedoria, lisura e transparência com que exercera seu breve governo. A nota fala por si:  

 

“(...) Às 9 e ½ horas de ontem, sexta-feira, ao saber-se que o ex-governador militar do Estado se achava preso a bordo do paquete ‘Bahia’, dirigiram-se para o ‘Roadway’ da ‘Manáos Harbour’ milhares e milhares de homens, senhoras e senhorinhas, reclamando a soltura de seu ídolo querido.

Profundamente comovido, o 1º tenente Dr. Ribeiro Júnior veio à porta da câmara que lhe serve de prisão e daí saldou e agradeceu a grandiosa manifestação de solidariedade do povo amazonense, que por três vezes o aclamou delirantemente. Não existe realmente, nesta terra, coração bem formado que não admire esse homem másculo, que, caindo, sobe mais, porque soube cair de pé!

Dificilmente o povo renunciará à liberdade sublime que Ribeiro Júnior lhes outorgou nestes trinta e tantos dias de seu governo honrado e justiceiro. Ninguém se iluda a tal respeito. A liberdade é a coisa mais linda e elevada que existe; e Ribeiro Júnior deixou um altar erigido em cada peito deste povo sofredor, que lhe será eternamente grato.

Muitas senhoras e senhorinhas enviaram para bordo ‘bouquets’ de flores, beijando-os antes e orvalhando-os com lágrimas do mais profundo reconhecimento. Dezenas de embarcações cercavam o paquete por todos os lados, tentando subir ao tombadilho, o que não foi permitido. E nós também fechamos estas ligeiras notas com lágrimas nos olhos e o coração enlutado.

(...)

Às 12 horas desse dia o ‘Roadway’ da ‘Manáos Harbour’ e todo o litoral se achavam repletos de povo. Ao bater o meio-dia, um homem, de cima dos armazéns, disse: “Povo, ajoelhai e rezai pelo nosso salvador!”. A cena que então passou é daquelas que fazem curvar a cabeça na mais profunda contrição, pois cerca de vinte mil pessoas – senhoras, senhorinhas, homens, rapazes e crianças – ajoelharam-se, ergueram as mãos para o céu e rezaram. Durante essa prece, que durou cinco minutos, não se ouvia nem sequer o zunido de um mosquito. O silêncio era absoluto, estático!

Nesse momento, em que as lágrimas de mães amazonenses e seus filhinhos estremecidos rolavam pelas faces abaixo, vindo misturar-se, nos lábios, com as preces ao Altíssimo Arquiteto do Universo, fervorosamente pronunciadas em ação de graças ao homem que as tinha arrancado da fome, da nudez, das enfermidades, e de todas as misérias, bem como os seus maridos e pais, apareceu à porta da câmara do ‘Bahia’, a figura simpática, insinuante e pálida do intemerato e criterioso 1° tenente Ribeiro Júnior.

Abrindo os braços potentes, fez um amplexo, como quem queria apertar ao seu peito, nobre e valoroso, essas vinte mil pessoas. Em seguida, levou a mão direita ao coração e depois ficou em continência ao povo, enquanto este esteve ajoelhado. Ao erguer-se, o povo rompeu em aplausos frenéticos e retumbantes a Ribeiro Júnior, ao Exército e à Armada.”

 

                    Restabelecido o controle do aparato estatal pelas forças legalistas, começam a circular na capital boatos em torno da possível volta da oligarquia Rego Monteiro ao poder, o que não era de modo algum desejável, quer pelas classes populares, quer por muitos membros da elite local igualmente vítimas dos desmandos do clã durante tantos anos de desordem administrativa e de perseguições políticas. Vindo da região do Rio Branco (atual Estado de Roraima) - onde se refugiara durante a revolução, asilado na fazenda do   pecuarista Bento Brasil - o ex-governador interino, Turiano Meira, desembarca no Roadway escoltado pelas forças federais, sob intensa vaia dos populares ali presentes. Intimidado pela má recepção, Turiano se recusa a reassumir a cadeira vacante do Executivo, atitude igualmente tomada pelos presidentes da Assembleia Legislativa e do Tribunal de Justiça. Diante do impasse institucional, seguem-se sinais de franca azáfama e insatisfação, tanto nos gabinetes estaduais quanto no seio da população, que logo tomou novamente as ruas, clamando veementemente por uma intervenção do governo federal. O presidente da República, Arthur Bernardes, que almejava pacificar a insurreição o mais rápido possível, não faz ouvidos moucos aos apelos, e termina por ceder à voz do bom senso, decidindo afinal pela decretação do status de exceção. Quem nos conta a respeito de tais movimentações de bastidores é ainda o mesmo periódico União Portugueza, na reportagem transcrita pela Folha do Povo (MA), alusiva a fatos ocorridos nos primeiros dias de setembro de 1924:

 

“(...) Ao saber-se que o governo da União havia ordenado a reposição do governo Rego Monteiro; que o Sr. Dr. Ayres de Almeida, na qualidade de presidente da Assembleia Legislativa, apesar de convidado oficialmente, não aceitaria, e que o Sr. desembargador Sá Peixoto, presidente do Superior Tribunal de Justiça havia tido o mesmo gesto nobilitante, a população desta capital, alvoroçada, rugindo como um leão enraivecido, correu para a rua a protestar contra tal reposição.

Essa notícia horrível, correu tão rápida e mexeu com os nervos do povo amazonense, que, em menos de dez minutos mais de três mil pessoas se aglomeraram nos cantos das Avenidas Eduardo Ribeiro e Sete de Setembro, falando ao povo vários oradores, inclusive o Sr. Capitão do Exército, A. Dourado. A massa popular foi crescendo de momento a momento, e o comércio ia fechando suas portas, tornando, em pouco tempo, as suas amplas artérias quase intransitáveis. Em dado momento, um homem de cor, um preto, usando da palavra, disse: “– No tempo da escravatura nós tínhamos de pedir ao senhor a quem devíamos ser vendidos... e hoje, em plena República, em que se diz reinar ampla liberdade, não temos o direito de escolher quem nos governe...”.  Uma retumbante salva de palmas cobriu as últimas palavras do arrojado orador.

Pouco depois circulou a notícia de que os Senhores Doutores Ayres de Almeida e Sá Peixoto telegrafaram ao Exmo. Sr. Presidente da República, pedindo a intervenção ampla para o Amazonas. E o povo, essa massa leônica e formidável, então descansou, dissolveu-se como por encanto, com a mesma rapidez com que se havia reunido!

            Aplacados os ânimos, Menna Barreto, obedecendo a comandos superiores, designa como governador interino o Coronel Raymundo Barbosa, comandante da 8ª Região Militar (Norte-Nordeste), até que se consumasse a intervenção federal no Amazonas. É curioso ressaltar que, durante todo o tempo em que as tropas legalistas permaneceram em Manaus – um lapso de quase um mês – não houve, por parte da população civil, quaisquer atos de hostilidade dirigidos contra aquelas ou contra o General Menna Barreto, encarado pela maioria do povo não como um algoz, mas como um homem sério e responsável, que, honrando a farda que envergava, ali estava em estrito cumprimento de seu dever de militar. Este, por seu turno, se portou de modo igualmente digno, procurando tratar a todos os cidadãos que a ele se dirigiam com gentileza e urbanidade; e, numa atitude de tácito  reconhecimento aos méritos da administração de Ribeiro Júnior, manteve quase todos os integrantes do secretariado deste último em seus postos, à exceção do superintendente da capital, Chagas de Oliveira, por este ter se recusado a restaurar a nomenclatura da Praça de São Sebastião, alterada, durante o governo revolucionário, para Praça Ribeiro Júnior. Finalmente, em 24 de setembro de 1924, a esquadra do Destacamento do Norte zarpa de Manaus, deixando a cidade e o estado aos cuidados do novo governador militar, até a chegada do interventor, o mineiro Alfredo Sá, o que ocorreria somente em dezembro daquele ano.               

                Aplacados os ânimos, Menna Barreto, obedecendo a comandos superiores, designa como governador interino o Coronel Raymundo Barbosa, comandante da 8ª Região Militar (Norte-Nordeste), até que se consumasse a intervenção federal no Amazonas. É curioso ressaltar que, durante todo o tempo em que as tropas legalistas permaneceram em Manaus – um lapso de quase um mês – não houve, por parte da população civil, quaisquer atos de hostilidade dirigidos contra aquelas ou contra o General Menna Barreto, encarado pela maioria do povo não como um algoz, mas como um homem sério e responsável, que, honrando a farda que envergava, ali estava em estrito cumprimento de seu dever de militar. Este, por seu turno, se portou de modo igualmente digno, procurando tratar a todos os cidadãos que a ele se dirigiam com gentileza e urbanidade; e, numa atitude de tácito  reconhecimento aos méritos da administração de Ribeiro Júnior, manteve quase todos os integrantes do secretariado deste último em seus postos, à exceção do superintendente da capital, Chagas de Oliveira, por este ter se recusado a restaurar a nomenclatura da Praça de São Sebastião, alterada, durante o governo revolucionário, para Praça Ribeiro Júnior. Finalmente, em 24 de setembro de 1924, a esquadra do Destacamento do Norte zarpa de Manaus, deixando a cidade e o estado aos cuidados do novo governador militar, até a chegada do interventor, o mineiro Alfredo Sá, o que ocorreria somente em dezembro daquele ano.

  

 

        

     

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Artigo publicado em 18.08.2024.

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O General Menna Barreto (sentado, com as mãos cruzadas, visto ao centro da fotografia) posando no Palácio Rio Negro, junto ao seu Estado-Maior, após a deposição de Ribeiro Júnior. FONTE: Acervo do historiador Abrahim Baze, veiculado através do Portal Amazônia (Rede Mundial de Computadores).

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                  Nesse ínterim, Ribeiro Júnior – que havia sido conduzido do Bahia para uma cela do quartel da Polícia Militar, a fim de evitar novas aglomerações à beira do cais – seguiria preso na capital amazonense, e continuou recebendo as mais diversas manifestações de apreço e carinho por parte do povo. Em meados de setembro, ainda sob tal condição, é transferido para o 26º BC de Belém, onde permanece encarcerado por mais de um ano, à espera de seu julgamento, assim como os demais revolucionários. O caso foi primeiramente julgado pelo Conselho de Justiça Militar da 8ª Região (circunscrição à qual o tenente estava vinculado), e depois, em grau de apelo da Promotoria, perante o Supremo Tribunal Militar. O acórdão da Corte Marcial, proferido em março de 1925, considerou o réu incurso nos crimes previstos no artigo 117 do Código Penal Militar, combinado com o artigo 43 do Código Penal vigente à época (sedição e subversão da ordem pública); e decidiu pela condenação do oficial rebelde a uma pena de grau médio, num total de 3 anos, 9 meses e 5 dias; sentença da qual Ribeiro cumpriria mais da metade, em regime fechado.

 

                No interregno do cárcere belenense – período em que se distrai escrevendo crônicas para o jornal O Estado do Pará - Ribeiro teria duas grandes alegrias. A primeira foi quando recebeu com grata satisfação, das mãos de um amigo de Manaus, Salvador Carlos de Oliveira, um lindo álbum fotográfico, por este organizado, sob o título O Momento Histórico do Amazonas, contendo diversos flagrantes dos dias de glória vividos por ele e por seus companheiros rebeldes à frente do governo amazonense. E a segunda, infinitamente maior, foi rever Belisa e os filhos, depois de quase quatro anos separado dos seus entes queridos. A esposa, saudosa, para lá se transferira de Barra do Piraí, a fim de ficar mais próxima de seu amado. Da mesma forma, ela e os pequenos o acompanhariam de volta a Manaus, em fins de 1925, instalando-se a família numa confortável casa à Rua Dez de Julho, nº 37, estrategicamente situada atrás do 27º BC, onde Ribeiro ficaria detido por apenas dois meses.

                Por uma estranha ironia do destino, o breve retorno de Ribeiro Júnior a Manaus, em outubro de 1925, ainda na condição de preso apenado, coincidiu com a tentativa de regresso de Mário do Rego Monteiro, o odiado ex-chefe de Polícia do governo por ele deposto. Num gesto de arrogância e cinismo, próprios de sua personalidade, Mário aporta na cidade no dia 7 de outubro, a bordo do vapor Baependy, investido do cargo de juiz de direito, por influência de seu pai, César. Porém, é impedido de desembarcar no Roadway por uma multidão estimada em dez mil pessoas, que ali se encontrava à sua espera, mantendo-se em vigília em veemente protesto contra sua posse no cargo e prorrompendo em vaias e impropérios contra sua pessoa. Mesmo decorrido mais de um ano do calor dos acontecimentos do ano anterior, a população ainda se mostrava inflamada e hostil pela memória dos desmandos praticados pelo clã Rego Monteiro no passado. Diante da acachapante e surpreendente reação cívica do povo de Manaus, o insensato Mário, aconselhado pelas autoridades locais, decide retornar ao Rio de Janeiro no mesmo navio em que embarcara, frustrado e humilhado.

                   Em dezembro de 1925, Ribeiro Júnior é mais uma vez transferido, desta vez para o presídio de segurança máxima da Ilha Grande, no litoral sul fluminense, unidade que concentrava os presos políticos mais importantes do país. De lá, após nove meses, é remetido para o Hospital Central do Exército, no Rio de Janeiro, onde cumpre pena até junho de 1927. Nesse meio-tempo, em setembro de 1926, Ribeiro Júnior recebe de Belisa (ainda residindo em Manaus) a notícia da chegada de mais uma filha do casal, a amazonense Yara, fruto de um momento íntimo de ambos durante o breve interlúdio manauara de sua prisão. A escolha do nome da menina, não por acaso batizada com o nome da Mãe d´Água da mitologia indígena, é mais uma prova cabal do extremo apreço e da ligação afetiva de Ribeiro com a terra pela qual se batera, e que jamais o esquecera, mesmo em seus dias de infortúnio. 

                  Em fevereiro de 1927, teve início a redenção do “Redentor”, sendo Ribeiro posto em liberdade após o Supremo Tribunal Federal ter-lhe concedido o habeas corpus impetrado a seu favor por seus advogados. Tão logo circulou em Manaus a notícia de sua anistia, os membros da Legião Cívica da cidade, seus devotados seguidores desde os eventos de 1924, apressaram-se em lançar a sua candidatura ao Congresso Nacional, num grande comício em praça pública. Nesse contexto de euforia, seu retorno triunfal ao Amazonas é mais que esperado; e termina por acontecer, em grande estilo, alguns meses depois. Quem nos conta mais uma vez é sua filha Eneida Ribeiro, em suas já citadas Memórias:

“Em 4 de julho de 1927, Ribeiro Júnior, do Rio de Janeiro, retorna ao Amazonas. Ao descer do navio ‘Prudente de Morais’, no porto de Manaus, encontra uma verdadeira multidão. A saída do ‘Roadway’ é tumultuada. Bandeiras brancas e chapéus de palha são freneticamente acenados. Na Praça São Sebastião, a Legião Cívica promove grande manifestação. O doutor Francisco Pereira da Silva faz-lhe uma saudação em nome do povo amazonense, por quem lutara há três anos, devolvendo-lhe a justiça e a liberdade. Todos desejam acompanhar o antigo Redentor a caminho de sua residência. Também fardados, com o uniforme do Colégio Dom Bosco, estão ao seu lado os filhos Ivan e Túlio. Orgulhosos com o reconhecimento do povo ao ex-governador revolucionário. Alegres com a volta do pai ao convívio da família.”    

              A justiça, a verdadeira JUSTIÇA, para o homem Ribeiro Júnior tardara, mas chegara, afinal. E ele agora seguiria sua vida, reabilitado perante o Exército e a sociedade, e pronto para novas incursões – desta feita, no campo político - em defesa dos interesses de sua terra adotiva, pela qual inscrevera seu nome na História. Em novembro de 1930, já residindo no Rio de Janeiro ao lado da família, é promovido à patente de capitão. Um mês antes, observara de longe, como espectador, o desenrolar da revolução militar que acabaria por soterrar a obsoleta “República do Café com Leite” e conduziria o “caudilho” gaúcho Getúlio Vargas ao poder, num desdobramento natural do Movimento Tenentista iniciado naquele distante mês de julho de 1922, e do qual ele e seus valentes companheiros de farda (Barata, Azamor e outros) foram grandes protagonistas. Em 1933, entusiasmado com o que parecia ser, àquela altura, um aceno do governo Vargas à democracia, mediante o anúncio da formação de uma Assembleia Nacional Constituinte, Ribeiro retorna ao Amazonas e se candidata à cadeira de deputado constituinte, pela Aliança Trabalhista Liberal, no pleito extraordinário convocado em maio daquele ano, recebendo uma expressiva votação. Porém, pelas regras eleitorais então vigentes, alcança apenas a primeira suplência de sua legenda. Mesmo frustrado em sua primeira incursão nas urnas, é homem de espírito indômito, que não se dá por vencido facilmente. Menos de um ano e meio mais tarde, nas constitucionais eleições parlamentares de outubro de 1934, é enfim eleito deputado federal, ficando em segundo lugar (5.581 votos) entre os nomes sufragados para o quadriênio de 1935-1938. Seu mandato é caracterizado pela defesa de importantes causas em prol do Amazonas, como o incentivo ao assentamento de imigrantes japoneses em colônias agrícolas; e o embate travado contra a concessionária inglesa Amazon Telegraph Company na tentativa de aditivar o contrato com o governo em condições desvantajosas para o erário estadual.

                No campo ideológico, como homem moderado e de viés liberal-democrata, combate ferozmente da tribuna do Parlamento as duas grandes vertentes político-ideológicas que dominam a cena mundial na década de 1930, ambas extremistas, totalitárias e aparentemente antagônicas entre si: o fascismo de extrema-direita (no Brasil chamado de integralismo) e o comunismo de extrema-esquerda. Para seu extremo desgosto, Ribeiro Júnior veria seu filho primogênito, Ivan - já adulto e seguindo carreira no Exército, assim como o pai – enfileirar-se às hostes desta última e ser preso e condenado como um dos partícipes da malfadada Intentona Comunista de 1935, liderada por Luís Carlos Prestes. Uma amargura que recebeu uma dose extra em 10 de novembro de 1937, quando o Presidente Getúlio Vargas, dando explícita vazão à sua mal disfarçada veia ditatorial, decreta o por si denominado Estado Novo, impondo uma nova Constituição que, na prática, chancela o regime de exceção no país. As liberdades civis são restringidas e vigiadas, a censura é imposta aos meios de comunicação, e, last but not least, o Congresso Nacional tem suas portas cerradas. Desiludido com a brusca interrupção de sua vida pública e com os sombrios rumos do Brasil, Ribeiro, desde 1935 alçado à patente de major, tenta prosseguir sua carreira militar, sem o ânimo de outrora, contudo. Uma asma crônica, que o perseguia desde a juventude, evoluíra com os passar dos anos para uma aguda insuficiência cardíaca, que acabou por abreviar precocemente seus dias, aos 51 anos, em 29 de junho de 1938.

 

 

EPÍLOGO

 

 

 

               Os anos se passariam. O Amazonas e Manaus seguiriam, no seu marasmo econômico e na sua quietude provinciana, até o novo surto de progresso trazido pela instalação da Zona Franca, a partir de 1967. Porém, no coração dos manauaras que viveram aqueles gloriosos e frenéticos dias de 1924, a memória e o legado de Alfredo Augusto Ribeiro Júnior jamais seriam olvidados. Em 1955, por ocasião da passagem do 31º aniversário da Revolução, a Municipalidade inaugura, com a presença de Yara, a filha amazonense do líder, a Praça Ribeiro Júnior, construída sobre o leito da Avenida Floriano Peixoto, atrás do Quartel da Polícia Militar. Arrematada por um busto de gesso do “Redentor do Amazonas”, moldado pelo artista Murilo Branco Silva, foi um logradouro de vida brevíssima, igualmente desaparecido na voragem do crescimento da cidade, que o fez desaparecer menos de duas décadas depois, em nome das pragmáticas necessidades impostas pelo crescente tráfego urbano. Em 1974, no Jubileu de Ouro da Revolução, Yara, em artigo publicado no Jornal do Commercio de 23 de julho daquele ano, assim recordou-se daquela ocasião:

“(...)

Quero relembrar a alegria imensa, o enorme orgulho que experimentei, a 23 de julho de 1955, quando inaugurei a Praça Ribeiro Júnior e pisei o chão de minha terra ali mesmo, junto ao 27º BC, de onde saiu meu pai, a 23 de julho de 1924, para devolver ao povo do Amazonas o que lhe fora roubado num governo de tirania.

Ali, onde ecoava ainda o timbre possante de sua voz, na palavra fluente de Hemetherio Cabrinha. Ali, ao lado de Philadelpho de Moraes, seu melhor e mais fiel soldado. Ali, junto a Eldah Bitton e Eunice Serrano, representantes da mulher amazonense, que participou ativamente da Revolução de 1924.

Ali, naquele pedaço de terra onde nasci, para perpetuar a figura de Revolucionário, para agradecer, junto ao meu povo, o que meu pai fez pelo Amazonas. Ali, par saudar Ribeiro Júnior, como sei que foi e sempre será saudado pelo povo do Amazonas.

Ali, para saudar seus companheiros de luta, comandante Simas – o único que tive a satisfação de conhecer pessoalmente – Azamor, Lemos Cunha, Barata, Dubois e tantos outros que tomaram parte na Revolução de 1924.

Cinquenta anos são passados. Poucos daqueles que participaram da Revolução, que a assistiram, ainda estão vivos. Mas, em cada amazonense, há de restar a lembrança da palavra de um pai, de um irmão, de um parente, enfim, que o fez conhecer Ribeiro Júnior.

(...)

O tempo não destrói a História, nem seus ídolos e heróis. Ao contrário: os faz renascer; ressalta-os e transporta-os para os tempos atuais. Surpreendi-me, em 1955, ao chegar a Manaus para inaugurar a Praça Ribeiro Júnior, e me deparar com a enorme multidão que aguardava a filha de Ribeiro Júnior, no Aeroporto de Ponta Pelada. Guardo, com imenso carinho, recortes de jornais e fotografias desse meu povo todo, dos amigos de meu pai, saudando sua memória, fazendo-o eterno na gratidão dos amazonenses.”

 

                    Quem foi, afinal, Ribeiro Júnior? Um demagogo carreirista? Um herói acidental? Um esperto oportunista? Um ingênuo sonhador? Talvez nenhum desses exagerados rótulos lhe caibam de forma adequada, justamente porque são exagerados, e, portanto, tendentes à deformidade em seu perfeito juízo de valor. Podemos dizer, talvez, sem incorrermos num igualmente exagerado simplismo, que Ribeiro Júnior, sem apresentar qualquer dote especial em particular – na escrita, na oratória, nas artes da estratégia próprias de seu métier - foi um homem comum, munido de reais valores éticos (presentes também na formação moral de muitos dos homens de seu tempo) e de inegáveis virtudes individuais: carisma, humildade, probidade, sagacidade, serenidade, senso de dever e de oportunidade, e, acima de tudo, uma aguçada consciência política e uma saudável indignação cívica. Predicados esses que, conjugados em sua pessoa naquele momento histórico muito singular do qual foi protagonista, o tornou, como se costuma dizer no jargão em língua inglesa, ‘the right man in the right place’ – o homem certo no lugar certo (e na hora certa). E se o povo amazonense - durante o breve “sonho de uma noite de verão” que foi a Revolução de 1924 em Manaus - o encarou, em sua época, como o seu “Redentor”, o prócer de sua gloriosa “causa perdida”; e a História - escrita pelo pósteros, devidamente revista e analisada sob os mais diversos ângulos - não desmentiu tal epíteto, que assim seja, para todo o sempre. Evocando outro antiquíssimo jargão popular, este proveniente da Roma antiga: ‘vox populi, vox Dei’!

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FONTES DA PESQUISA: Hemeroteca Digital Brasileira/Biblioteca Nacional (jornais diversos), A Revolução de 1924 em Manaus (1985), de autoria de Eloína Monteiro dos Santos; e Ribeiro Júnior, Redentor do Amazonas – Memórias (1997), de autoria de Eneida Ramos Ribeiro.

 Artigo publicado em 01.09.2024..

RIBEIRO JÚNIOR E A REVOLUÇÃO TENENTISTA DE 1924 EM MANAUS – O CENTENÁRIO DE UMA GLORIOSA CAUSA PERDIDA

Por Ronald Péres

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A Redempção do Amazonas, quadro alusivo à vitoriosa Comuna de Manaus, com destaque para alguns de seus principais líderes: os tenentes do Exército Alfredo Augusto Ribeiro Júnior (visto ao centro, de corpo inteiro), Simas, Barata, Couto e Saint-Clair; e da Marinha, Azamor e Lemos Cunha. Nos medalhões superiores, as imagens dos quartéis da Polícia Militar (à esquerda) e do 27º Batalhão de Caçadores (à direita), representando, respectivamente, as forças militares estaduais e federais confrontadas no levante de 23 de julho de 1924. FONTE: Rede Mundial de Computadores.

PARTE III – OS 36 DIAS DA “REDENÇÃO DO AMAZONAS”

         As semanas subsequentes à revolução ficariam marcadas para sempre na historiografia local sob o epíteto de “A Redenção do Amazonas”. Foram apenas 36 dias, mas muito intensos, e, sob o prisma da maioria da população amazonense, sufocada por tantos anos de opressão e medo, seriam encarados como uma espécie de catarse, um expurgo das vilanias perpetradas pela família Rego Monteiro e seus acólitos. Um período marcado pela devassa e organização das contas públicas, pelo confisco de bens dos “decaídos” e pela transparência dos atos do recém instaurado governo interino, todos eles formalizados por meio de sucessivos decretos, editados sem o concurso da Assembleia Legislativa, que teve suas atividades suspensas nesse interregno.

       Nas horas que sucederam ao levante, os militares rebelados acordaram, de imediato, em tomar algumas providências urgentes, e que se faziam necessárias a fim de garantir o domínio logístico da cidade e assegurar aos amotinados o controle da situação, o mais rapidamente possível. Para tanto, todas as linhas telegráficas e telefônicas foram cortadas, o que deixou Manaus incomunicável com o restante do país. O vapor Bahia, atracado no porto – o mesmo que, antes do golpe, aguardava o embarque das tropas do 27º BC, a fim de reforçar as tropas federais destacadas para combater o motim paulista - foi apresado e impedido de deixar o cais. E, por fim, foram realizadas algumas prisões de civis e de alguns poucos militares que não haviam aderido à rebelião. O titular do 27º BC, Capitão Dubois, foi designado como comandante geral das tropas sublevadas; sendo logo redigida uma Proclamação ao Povo a ser lida no dia seguinte, 24 de julho, na qual era ratificada a união das Forças Armadas em prol de um objetivo comum, ao mesmo tempo em que eram exaltados os valores do Tenentismo (patriotismo, espírito de sacrifício, dever de proteção à Nação e aos cidadãos brasileiros). Para assumir a vacância administrativa do governo deposto, estabeleceu-se ab initio uma Junta Governativa Trina, formada pelos tenentes Holanda, Barata e Ribeiro Júnior, sendo este último designado afinal, à unanimidade, como líder do novo governo revolucionário.

 

              Em 26 de julho, poucos dias após a sua investidura no cargo, uma enorme massa humana afluiu para a frente do Palácio Rio Negro, a fim de ouvir pela primeira vez a eloquente e inflamada fala proferida pelo altivo tenente de 37 anos, com promessas do fim da humilhação do povo e de dias melhores para o Amazonas. O discurso, epigrafado “Ao Povo Amazonense”, contém  palavras que denotam a sua plena consciência em relação às enormes expectativas que pairavam sobre sua pessoa, a par de outras que expressam a sua revolta pessoal diante dos desmandos perpetrados pelo governo deposto: 

“Empossado no cargo de governador do Estado do Amazonas pelos meus nobres companheiros das Forças de Terra e Mar, signatários da Deliberação, ontem vulgarizada, assumi a gestão dos seus negócios públicos, serenamente consciente das altas responsabilidades que de tão enobrecedora investidura se originam.

(...)

E a faina destruidora de tão ignóbeis traidores passivos da Nação chegou ao ponto de os seus próprios poderes constituídos se ufanarem de ser os maiores semeadores da ilegalidade, do descrédito público, do pauperismo, da degradação e da desonra.”   

           

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

       

 

 

 

 

 

 

 

 

 

       

        Nas entrelinhas de tais frases, patenteada estava a forte personalidade do orador. Uma vez instalado no cargo, Ribeiro Júnior revelou-se de pronto, a despeito de sua juventude, um governante dotado de qualidades essenciais para um chefe de Estado (equilíbrio, responsabilidade, sagacidade e tirocínio), mas que também não se esquivava em agir de modo firme e assertivo na deliberação e condução de seus atos, guiado por um senso maior de justiça social e por um sentimento de profundo respeito perante a sociedade amazonense. Ao mesmo tempo que não permitiu que a cidade mergulhasse num ambiente bárbaro de violência e de linchamento contra seus antigos opressores – o que seria até certo ponto natural, dadas as circunstâncias pregressas vividas pela população – tratou de impor medidas duras, dirigidas a ferir os ladravazes associados à administração anterior naquilo que lhes era mais caro: o bolso. Além disso, estando o sagaz tenente fluminense bem ciente de que a formação de um governo estritamente militar e composto exclusivamente por elementos forasteiros em nada contribuiria para a angariar a simpatia e o apoio dos locais, tomou ele a sábia decisão de cercar-se de um staff de civis extremamente gabaritados, pinçados dentre a elite intelectual local, por si convidados a fim de ocupar importantes pastas do novo governo interino: Crisantho Jobim, escriturário da Delegacia Fiscal, nomeado para a Secretaria Geral do Estado (equivalente à atual Casa Civil); o professor Marciano Armond, para a Diretoria Geral de Instrução Pública (Secretaria de Educação); e o agrônomo-agrimensor Francisco das Chagas Aguiar, designado como novo superintendente (prefeito) de Manaus. E ainda os doutores Olegário de Castro (novo chefe de Polícia, no lugar do famigerado Mário do Rego Monteiro), Francisco Pereira da Silva (delegado auxiliar, subordinado àquele); Paulino de Brito (diretor da Imprensa Oficial e do Arquivo Público); Antônio Lopes Barroso (chefe do Tesouro); e João Franklin de Alencar Araripe (procurador fiscal da Fazenda Pública).

           Armado, aos poucos, o novo arcabouço estatal, era hora de pôr “mãos à obra”, a fim de recompor, se mais tardar, as receitas do dilapidado Erário estadual, bem como pôr em dia a folha de pagamento dos funcionários públicos, na medida do possível. E nesse ponto reside, certamente, a mais notória e a mais louvada das ações postas em prática pelo breve governo Ribeiro Júnior, ao longo daquele movimentado verão de 1924: a instituição do chamado “Tributo da Redenção”, um imposto criado em caráter extraordinário, com viés nitidamente confiscatório, à la Robin Hood, que consistia em apresar os haveres bancários depositados em nome de todas as pessoas físicas ou jurídicas sobre as quais houvesse certeza (ou que  pairassem fortes suspeitas) de  haverem se locupletado ilicitamente às custas do povo; numerário esse que, tão logo apurado, deveria ser imediatamente revertido aos cofres do Fisco. Nesse sentido, um dos episódios mais eloquentes se deu logo após a revolução, quando um contingente militar dirigiu-se até a agência do Banco do Brasil – então localizado no térreo da conhecida casa comercial Panhola, à Avenida Sete de Setembro, atrás da Igreja Matriz – e, lá estando, compeliu o gerente a apresentar-lhes a escrituração detalhada, com balancetes, saldos e extratos bancários referentes às contas e aos valores ali depositados e movimentados pelas pessoas ligadas ao ancien régime. Para estupor de todos os presentes, descobriu-se a existência de um depósito em nome do ex-chefe de Polícia, Mário do Rego Monteiro, na cifra astronômica de 300 contos de réis, uma pequena fortuna, certamente destinada a “engordar” mais um pouco as já recheadas algibeiras do clã, ou, quiçá, financiar possíveis negócios escusos com terceiros. Diante de tal descalabro, Ribeiro Júnior, indignado, ordenou ao favorecido que, sem vacilações, assinasse um cheque em favor do banco, a fim de estornar a quantia inexplicavelmente e injustificadamente depositada em sua conta. Outras casas bancárias foram igualmente auditadas, e tudo que nelas porventura fosse detectado a título de numerário acumulado pelos membros da “lista negra” foi confiscado em nome do povo do Amazonas.

 

           O confisco não ficaria restrito, todavia, ao dinheiro acumulado em espécie, mas também a toda sorte de bens voluptuários (automóveis, mobília, joias e artigos de luxo) encontrados nas residências daqueles, passíveis de serem leiloados em prol do rápido incremento das receitas estaduais. Era necessário, com a máxima celeridade, dar uma satisfação ao povo, e, para isso, nada mais simbólico do que sanear as contas públicas às expensas dos próprios agentes causadores ou propulsores daquela calamitosa situação. Nesse contexto expiatório, os leilões – que, de praxe, eram realizados no interior dos imóveis particulares, abertos à visitação pública, com a lista de bens postos à venda previamente divulgada pelos jornais – passaram a constituir uma atração popular, com multidões comparecendo diante das casas dos “exploradores do suor do povo” para conferir de perto a dilapidação de seu espólio “maldito”. Dessa forma se desenrolou, por exemplo, a hasta pública realizada às portas do palacete de Joaquim Lobato de Faria, ex-chefe do Tesouro (cargo equivalente a secretário de Fazenda), à Avenida Joaquim Nabuco, defronte à Beneficência Portuguesa. No mesmo viés se realizou a expropriação de três caros automóveis, pertencentes a Cláudio, Mário e Edgard do Rego Monteiro (filhos do governador deposto, César do Rego Monteiro), realizada em plena Avenida Eduardo Ribeiro, sob manifestações de júbilo dos presentes. Ambos os eventos constituíram-se em verdadeiros espetáculos públicos, ao ponto de serem retratados na famosa Revista da Semana, periódico carioca de grande circulação nacional, como dois dos momentos mais emblemáticos da “Revolução do Amazonas”.

             Outra frente de arrecadação foi aberta, por óbvio, na própria esfera de atuação do Tesouro Estadual (Secretaria de Fazenda), quando o novo inspetor-chefe designado pelo governo revolucionário, Antônio Barroso, contabilista dos mais renomados e respeitados na cidade, após proceder a uma apuração de responsabilidades no âmbito interno, fez publicar um edital notificando os senhores Félix de Toledo e Álvaro de Carvalho, para, na qualidade de antigos exatores do Município de Maués, recolherem aos cofres públicos, no prazo de 60 dias, as respectivas quantias de 383 mil réis e 27 contos e 147 mil réis, em relação às quais não lograram prestar as devidas contas.

             Em seu livro de memórias, intitulado Ribeiro Júnior – Redentor do Amazonas (1997), Eneida Ramos Ribeiro, filha caçula do líder revolucionário – que não era sequer nascida à época em que aquele foi alçado à curul governamental do Estado pela força das armas – nos traz alguns detalhes preciosos acerca do modus operandi na arrecadação do Tributo da Redenção. Informações que a autora certamente obteve, ainda menina, da narrativa de seu próprio pai; ou, já moça, das lembranças de sua mãe, Belisa, também testemunha ocular dos fatos. Assim descreve Eneida:   

 

“A cobrança do Tributo da Redenção, em geral, era feita à vista do povo. O dinheiro era recolhido em cestos de vime. Ribeiro Júnior preparava uma lista de nomes de pessoas e entidades que julgava terem enriquecido à custa do Estado. Mandava prendê-los e chamá-los ao palácio. Lá, o governador revolucionário entregava um cheque e dizia: ‘assine-o!’. Assim perfez seiscentos e vinte e quatro contos. Vende trinta e três vacas e seis carneiros da fazenda de Cláudio do Rego Monteiro por seis contos e a mobília do ex-tesoureiro estadual Lobato de Faria, que rendeu vinte e dois contos. Tudo era recolhido ao Tesouro estadual, através de guias. Depois, se efetuava o pagamento dos funcionários. Essa atitude do governo revolucionário encontra ressonância direta no funcionalismo público e indireta nos comerciantes. (...) Abria-se um novo horizonte de vida para o povo amazonense.”    

         

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

          Corroborando essa vertente expiatória, foi editado o Decreto nº 1.483, de 28 de julho, que extinguiu a Polícia Militar - há muito convertida, na prática, numa milícia a serviço exclusivo da família Rego Monteiro – imediatamente substituída pela chamada Guarda Cívica, sob o comando do Capitão Arthur Martins da Silva (por sua vez respondendo diretamente ao Tenente Barata), corporação criada com a mesma finalidade de garantir a segurança pública, porém expurgada de seus “maus elementos”. Outra medida de força, muito aplaudida pelas famílias, foi a que determinou o fechamento de todas as “casas de quino” (uma espécie de loteria) existentes no perímetro urbano de forma clandestina. Em número de cinco – localizadas às ruas dos Andradas, Quintino Bocayuva, Henrique Martins, Lobo D´Almada e uma quinta no bairro dos Tocos (Aparecida) - eram administradas por policiais civis, que, na verdade, nada mais eram do que meros “testas-de-ferro” do capo Mário do Rego Monteiro.  Estas casas de tavolagem, além de gerarem impagáveis “dívidas de jogo” para os seus habitués, também se prestavam ao exercício explícito da agiotagem e da extorsão, sendo uma fonte de enriquecimento ilícito não apenas dos contraventores em si, mas de toda uma rede de beneficiários direta ou indiretamente envolvida com o seu funcionamento. Decreto similar impôs taxações sobre a comercialização de fumo e bebidas alcoólicas, uma decisão que, no mesmo viés daquela, também foi bem recebida por muitos, assim como a moratória baixada pelo Decreto nº 1.493, de 11 de agosto, que prorrogava o prazo de pagamento, sem ônus, do Imposto Predial relativo aos exercícios fiscais de 1922, 1923 e 1924. Os decretos “saneadores” - assim como os confiscos, os anúncios dos leilões e o produto líquido da arrecadação de ambos - eram veiculados diariamente através do Jornal do Povo, o órgão de propaganda revolucionária, editado pelo governo interino na gráfica da própria Imprensa Oficial, e que saiu do prelo já a partir do dia seguinte ao levante, 24 de julho; sem prejuízo, contudo, dos demais órgãos noticiosos locais, que, uma vez cessados os ânimos dos primeiros dias após a refrega, voltaram a circular normalmente. Ainda em pleno contexto da revolução, o jornalista Júlio Uchôa pôs nas ruas o periódico A Liberdade, que circulou de 13 de agosto de 1924 a 10 de fevereiro do ano seguinte, perfazendo um total de 158 números. Editado no mesmo formato do Jornal do Povo, o jornal de Uchôa tinha também por conteúdo dar ciência aos leitores de todas as novidades implementadas pelo governo interino, e ficou famosa pela coluna intitulada “A Gazeta Negra”, que, como se deduz do próprio nome, enveredava por um viés de delação de pessoas ligadas, por sua má conduta, ao regime deposto.

​          Todas essas sucessivas e acertadas atitudes – somadas ao fato, deveras incomum, de Ribeiro Júnior abrir as portas do Palácio Rio Negro para a concessão de  audiências privadas aos cidadãos que o procurassem com pleitos legítimos - geraram um forte sentimento de empatia entre os revolucionários e a população, que decodificava tais medidas “higienistas” como parte de um contexto maior, de moralização do Estado; e, cada vez mais, via na figura digna, austera, impoluta, eloquente e viril de Ribeiro Júnior um herói, uma espécie de líder messiânico, enviado pelos Céus para ser o seu libertador, o “Redentor do Amazonas”, como logo passou a ser alcunhado por todos, inclusive pela Imprensa. Um homem verdadeiramente idolatrado por homens e mulheres, e que, à medida que sua fama de benfeitor se espalhava, passou a ser objeto de espontânea reverência por parte de seus admiradores - e, principalmente, de suas admiradoras - por onde quer que passasse.

 

              Prova cabal disso é notícia veiculada pelo jornal pernambucano A Província, que, na edição de 28 de agosto de 1924, assim descreveu a passagem do governador pelo Instituto Benjamin Constant:

“(...) Uma das primeiras visitas feitas pelo governador revolucionário foi ao Instituto Benjamin Constant, educandário de meninas órfãs, dirigido pelo desembargador Gaspar Guimarães, diretor da Faculdade de Direito de Manáos, e membro, em exercício, do Superior Tribunal de Justiça no Amazonas. Constando a saída de alunas, em massa, explicou o diretor que o fato se prendia a férias e à suposição de que não haveria recursos para manter o estabelecimento. O Tenente Ribeiro Júnior ordenou, imediatamente, que fosse pago o custeio do Instituto, pelo Tesouro, e visitou o edifício, de que recolheu boa impressão. À saída, o chefe do governo foi vivamente ovacionado pelas alunas, que ofereceram ao Tenente Ribeiro Júnior vários ramos de rosas, assim como ao oficial que o acompanhava, Segundo-Tenente Boanerges Damasceno Couto, comandante da guarda do Palácio Rio Negro, residência do governador, e sede da administração do Estado.”

               

               O mesmo viés de júbilo estudantil também marcou a homenagem ao líder havida duas semanas depois, esta narrada sob o prisma da carinhosa memória filial de Eneida Ramos Ribeiro (op. cit.), que, arrematando um pouco mais adiante, também descreve, de forma minuciosa, o espontâneo culto popular que, no espaço de pouco mais de um mês, se formara em torno de Ribeiro Júnior, uma devoção quase religiosa, e que era alimentada por meio das mais diversas e icônicas representações: 

 

“A 7 de agosto de 1924, o governo revolucionário é alvo de uma sincera e justa manifestação das escolas Normal e Preparatória. Voltando da visita a várias repartições públicas, o governador é coberto pelas flores das alunas ao subir as escadas do Palácio Rio Negro. Edith Xerez discursa, enaltecendo o apoio das normalistas à causa da liberdade e da justiça. Comovido, Ribeiro Júnior agradece e depois acompanha as moças até a escadaria.

(...)

A figura e as atitudes de Ribeiro Júnior facilmente dão margem a uma representação exagerada pela manifestação popular. (...) Surgem leques, anéis, selos, quadros, cartões-postais, com a sua fotografia. Seus autógrafos são disputados. (...) Joaquim Gonçalves de Araújo, uma das maiores fortunas de Manaus, conhecido como J. G. Araújo, financia grande parte do material sobre Ribeiro Júnior, feito na gráfica ‘Palais Royal’. Nas lojas comerciais, armam-se verdadeiros altares com seu retrato e os de seus companheiros, tidos como estrelas da Revolução. Os cantadores e romancista populares esbanjam versos enaltecendo sua figura e seus atos. (...) De uma publicação do gênero literatura de cordel, folheto pobremente impresso, com o título ‘A Epopeia do Amazonas’, e da autoria de Manjerona Assis, encontram-se versos mais cuidados. Descrevendo o homem Ribeiro Júnior, diz:

O Governador revolto

Era um novo, era um tenente.

Ribeiro Júnior, distinto,

Reto, justo, bom, valente

E honrado, severo, presto:

Caráter independente.”

               

          A cada novo decreto editado, a cada discurso proferido, a cada compromisso ou solenidade a que comparecia, a popularidade do “Redentor” aumentava, passando a evoluir numa espiral crescente, até culminar, de forma emblemática, na “apoteose” do dia 19 de agosto: um grande desfile organizado em sua honra pela Legião Cívica – uma associação civil, sem qualquer relação com a Guarda Cívica paramilitar recentemente criada - e que contou com a participação massiva da sociedade  organizada (representantes de escolas públicas e particulares, do operariado, do funcionalismo público, das famílias, etc). Liderando o cortejo, um carro aberto ostentando um imenso retrato de Ribeiro Júnior deixou a Praça de São Sebastião, local onde se concentravam os partícipes, desceu a Avenida Eduardo Ribeiro e subiu a Avenida Sete de Setembro até o Palácio Rio Negro, onde uma multidão aguardava a chegada do préstito. No trajeto, da janela das casas, a multidão atirava bouquets de flores naturais, e aclamava o nome não apenas de Ribeiro Júnior, mas de todos os “redentores do Amazonas” – os oficiais do 27º BC e da Flotilha. O governador militar, emocionado, mais uma vez saiu ao jardim do palácio e discursou ao povo, sendo grandemente ovacionado por todos.  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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            Reinava na cidade um clima generalizado e incontido de felicidade e otimismo, como não se via há bastante tempo. O estado de espírito dos amazonenses atingia píncaros de euforia, e pode bem ser mensurado pela narrativa insuspeita do professor Agnello Bittencourt (1876-1975) – eminente geógrafo, historiador, cronista e testemunha ocular da História do Amazonas por quase um século – contida em seu Dicionário Amazonense de Biografias (1973), no verbete dedicado à memória do bravo tenente subitamente convertido em uma deidade política:

“(...) Os dias de governo de Ribeiro Júnior foram trepidantes, trespassados de uma atmosfera de ansiedade, e o povo ávido de novos acontecimentos. (...) Além do nervosismo, a alegria era a tônica de todos os espíritos. Pessoas tomavam bondes em que não pretendiam viajar e homens austeros iam para a rua sem gravata, numa terra em que esse objeto de indumentária era e ainda é um sinal de distinção. Criaturas que não saíam de casa eram vistas nas ruas e nos comícios, e até senhoras e senhoritas da sociedade, numa antecipação do feminismo, iam às praças públicas em estímulo e agradecimento aos revolucionários. Numerosos fatos poderiam ser citados para demonstrar o estado psicológico do povo baré, naqueles dias de euforismo e grandes esperanças. (...) Ribeiro Júnior era um cidadão aplaudido por qualquer ato que praticasse” 

 

            Alçado à condição de “lenda viva” e líder supremo da terra que redimiu e que abraçou como sua, o jovem e idealista Alfredo Augusto Ribeiro Júnior sonhava bem mais alto, contudo. Almejava seguir adiante, expandindo os frutos da revolução plantada por si e por seus companheiros de luta para além das fronteiras amazonenses. E assim o fez. Ou, pelo menos, tentou...

     

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Artigo publicado em 18.08.2024.

Dois flagrantes colhidos no dia 26 de julho de 1924, dias após a tomada do poder pelos tenentes rebeldes, retratando a multidão que afluiu ao Palácio Rio Negro para ouvir o primeiro discurso proferido por Ribeiro Júnior (em destaque, no medalhão), já designado como chefe do governo militar revolucionário do Estado do Amazonas. FONTE: Revista da Semana (RJ).

Leilão dos automóveis pertencentes aos oligarcas Cláudio, Mário e Edgard do Rego Monteiro (filhos do governador deposto, César do Rego Monteiro), realizado em plena Avenida Eduardo Ribeiro, às vistas do povo. FONTE: Revista da Semana (RJ), reproduzindo uma fotografia de autoria de Silvino Santos.

Ribeiro Júnior idealizado como “Ídolo do Povo” nas páginas de um periódico amazonense de grande circulação à época. Fotografia de autoria de Gil Ruiz, veiculada através do Blog do Coronel Roberto (Rede Mundial de Computadores).

RIBEIRO JÚNIOR E A REVOLUÇÃO TENENTISTA DE 1924 EM MANAUS – O CENTENÁRIO DE UMA GLORIOSA CAUSA PERDIDA

Por Ronald Péres

Grupo de militares do 27º Batalhão de Caçadores posando junto à entrada lateral do Palácio Rio Negro dias após a tomada do poder pelas forças revoltosas conjuntas do Exército e da Marinha no levante de 23 de julho de 1924. FONTE: Acervo do historiador Abrahim Baze, disponibilizado através do Portal Amazônia/Rede Mundial de Computadores.     

PARTE II – O LEVANTE 

        Em março de 1924, cerca de um mês antes do acintoso baile à Segundo Império promovido pelo governo Rego Monteiro, desembarcara no Roadway do porto do Manaus o militar fluminense Alfredo Augusto Ribeiro Júnior, ingresso no Exército desde 1906, a fim de apresentar suas credenciais de primeiro-tenente (patente à qual fora promovido em 1920) junto ao 27º Batalhão de Caçadores, sediado à Praça General Osório, então sob o comando do Capitão José Carlos Dubois.  Vinha transferido do 26º BC, em Belém (e, antes, do 25º BC, em Recife), não por vontade própria, mas “por motivos disciplinares e proteção dos centros de prováveis conflitos”, segundo os relatórios oficiais da época. como uma espécie de punição disciplinar por suas atitudes e declarações de cunho político “incômodo”, manifestadas interna corporis, nos anos pregressos, em apoio aos atos rebeldes propagados pelo Movimento Tenentista - uma postura naturalmente tida como inadmissível por alguns oficiais de alto escalão simpáticos ao governo federal, e passível, portanto, de sanções, explícitas ou veladas. Nesse particular, aliás, o “degredo amazônico” imposto a homens de farda tidos como insubordinados não constituía nenhuma novidade, sendo uma prática usual dos altos comandos desde os tempos do Império, tendo sido infligido a figuras históricas de vulto, como Floriano Peixoto e Eduardo Ribeiro, por exemplo, ambos enviados ao Amazonas, por motivos similares, ligados ao emergente Movimento Republicano, em finais da década de 1880.

            Ao contrário daqueles ex-governantes, que eram solteiros à época, Ribeiro Júnior chega à capital amazonense devidamente acompanhado da família que havia constituído, e que, até então, residia em Barra do Piraí (RJ): sua esposa, a gaúcha Belisa Ramos (a quem era extremamente devotado); e os seis filhos do casal - Ivan, Túlio, Telmo, Darcy, Cecy e Dalmo, nascidos entre 1911 e 1920. A despeito de seu parco soldo de militar de baixa patente, consegue alugar uma residência de excelente padrão, à Rua Dez de Julho, situada estrategicamente atrás do quartel do 27º BC, onde se instala junto com os seus (o imóvel, uma bela casa do início do século XX, geminada com outras três, ainda está de pé até os dias atuais). Extremamente politizado como era, logo trata de se inteirar da conjuntura política e econômica pela qual atravessava o Amazonas, e das misérias padecidas pelos cidadãos locais, submetidos ao perverso, opressor e extorsivo desgoverno da oligarquia Rego Monteiro. Ao mesmo tempo, trava contato com outros colegas de farda, todos forasteiros, assim como ele, e que também haviam sido “exilados” na guarnição federal de Manaus em razão de seu espírito sedicioso manifestado preteritamente em casernas de outras regiões, igualmente insuflados pelos ideais do Tenentismo. De todos estes jovens militares de espírito rebelde, talvez aquele que mais tenha exercido influência e ascendência sobre Ribeiro Júnior naquele momento crucial tenha sido o seu homólogo, o primeiro-tenente paraense Joaquim de Magalhães Cardoso Barata, transferido apenas dois meses antes dele, em janeiro de 1924, como retaliação por seu envolvimento direto numa frustrada tentativa de prender o ministro da Guerra, Fernando Setembrino de Carvalho, em dezembro de 1923, durante a visita daquela autoridade à cidade paranaense de Ponta Grossa. Atentado que, na verdade, constituía a “senha” para um plano maior, visando, tal e qual se pretendera na revolta de 1922, uma articulação dos batalhões federais baseados no Paraná e na capital federal, o Rio de Janeiro, a fim de atingir o poder central, depor o Presidente Arthur Bernardes, e, com ele, a malfadada “Política do Café com Leite”, com todas as suas mazelas: a violência dos “coronéis” rurais nos sertões do Brasil, a fraude nas urnas propiciada pela manipulação (por parte daqueles) dos célebres “currais eleitorais” e dos “votos de cabresto”, os conchavos dos oligarcas visando o favoritismo dos seus apadrinhados nos negócios públicos, etc, etc, etc. A velha bandeira do ideal tenentista – aquela cujo dístico propugnava a radical mudança desse intolerável stablishment por meio da luta armada - permanecia desfraldada, mais do que nunca. E, junto dela, as adormecidas brasas de um espírito de luta que, na Manaus de meados de 1924, encontrariam as condições necessárias de temperatura e pressão e as indispensáveis fagulhas para convertê-las novamente em chamas altas e ardentes.

 

      E que “fagulhas” sucessivas foram essas, que culminaram no “incêndio” tenentista de 23 de julho daquele ano, além, evidentemente, da  notória falência do Estado e da indignação civil diante dos atos ominosos perpetrados pela malta reunida em torno do clã Rego Monteiro? Basicamente, foram dois os estopins do levante amazonense, dois “palitos de fósforo”, riscados na hora certa e no lugar certo, digamos assim.

            O primeiro leitmotiv, embutido no quadro geral da política local e decorrência direta daquele degradante status quo, foi a explícita intenção de César do Rego Monteiro, o régulo de plantão, de impor como favorito à sua sucessão o nome do advogado Aristides Rocha, recém-eleito senador, e, não por acaso, seu concunhado (casado com D. Pergentina Rezende, irmã de D. Elisa, a detestada primeira-dama). Anúncio que provocou grande apreensão entre os opositores do governo e entre os cidadãos mais politizados, já que tal pretensão, em se concretizando (como certamente se daria, pela ordem “natural” da política de então), outra coisa não significava senão a continuidade dos Rego Monteiro no poder, pelos quatro anos seguintes. E a continuidade da generalizada miséria material e moral do povo, por via lógica de consequência. Nesse diapasão, a segurança do “César”, no tocante ao seu pleno domínio das rédeas da situação, era de tal monta que, em fins do mês de junho (cerca de um mês antes de deflagrada a rebelião), aquele deu-se ao luxo de “pedir” da Assembleia Legislativa uma licença para ausentar-se formalmente do cargo sine die, a pretexto de um necessário “tratamento de saúde” na Europa, acompanhado de sua frívola consorte. E, uma vez assentido o pedido, assim o fez, sem qualquer pudor, deixando, na sede vacante, o presidente do Legislativo (e seu genro), Turiano Meira, formalmente investido no exercício das funções governamentais. Instaurado estava, pois, o cenário mais que perfeito para a materialização do conhecido adágio popular que reza que “quando os gatos saem, os ratos fazem a festa”. Com a diferença que, nesse caso específico, poder-se-ia afirmar, sem qualquer hipérbole, que a ordem dos animais citados na máxima fora invertida. E parcialmente vertida para o singular, no caso dos roedores.  No dia 23 de junho, o periódico carioca A Rua: Semanário Ilustrado publicava uma nota intitulada “O Amazonas Acéfalo”, pela qual se podia bem aquilatar a medida do sentimento geral de desalento e indignação do povo amazonense diante do estado caótico a que estava submetido:

 

“O Sr. Rego Monteiro partiu para a Europa e deixou o Amazonas acéfalo. (...). Deixou tudo desorganizado, o tesouro vazio, e o funcionalismo sem receber os seus vencimentos atrasados há alguns meses. Segundo um telegrama que recebemos, a população está agitadíssima, reclamando do governo federal, por intermédio dos seus representantes no Congresso, providências enérgicas no sentido de ser o Amazonas reconduzido ao regime da ordem e da legalidade, chamando-se à responsabilidade o governador que tantos danos tem causado ao seu infeliz povo.”

             

        Ao clamor popular associou-se um segundo fator-isqueiro, que muito contribuiu para deflagrar o levante. Em 5 de julho de 1924 – data eleita estrategicamente como lembrança da passagem do segundo aniversário da revolta do Forte de Copacabana - estoura nos quartéis da cidade de São Paulo uma insurreição liderada por um general reformado, Isidoro Dias Lopes, e que reunia em torno de seus objetivos comuns as forças do Exército e da Polícia Militar daquela importante capital. Uma entente que, dando concretude aos sufocados anseios das casernas, não possuía, entretanto, um caráter de rebelião popular (tanto que rechaçou de pronto a adesão dos operários anarquistas), mas sim de um motim militarista stricto sensu, com vistas, mais uma vez, à reinserção das Forças Armadas no contexto político nacional.  A despeito de tal viés reducionista, a sedição acende novamente a chama revolucionária em todo o país, e que rapidamente teria ecos em diversos outros estados nas semanas seguintes, com movimentos similares deflagrados por homens de armas, profundamente descontentes com o regime e com os rumos da nação. O governo federal, como era de se esperar, reage à altura, e rapidamente convoca tropas de todas as suas guarnições acantonadas do Oiapoque ao Chuí para se juntarem às hostes legalistas de resistência ao motim paulista. Remetido de Santarém no dia 21 de julho, aporta no Roadway de Manaus o vapor Bahia, do Lloyd Brasileiro, com a finalidade de embarcar o destacamento das Forças Armadas do Amazonas para o teatro de operações; o que gera, naturalmente, enorme insatisfação por parte dos jovens tenentes do 27º BC, bem como de seus homólogos da Marinha, simpatizantes do movimento insurreto. Um clima de tensão paira no ar. A “conjunção astral” propícia para o êxito de um coup d´état em nível local, devidamente legitimado pelas circunstâncias, estava formada. Não havia mais nada a esperar. Era apenas uma questão de tempo, conveniência e oportunidade.

            As forças de terra e mar baseadas na capital amazonense resolvem, então, irmanar-se em torno de seu obtivo comum: depor o famigerado governo Rego Monteiro, custasse o que que custasse; e fazer de Manaus uma “cabeça de ponte” para a construção de uma aliança militar no eixo norte-nordeste, para, quiçá, dar suporte aos revoltosos de São Paulo e de outros estados. As casernas se agitam e conspiram entre si, e de tal complô logo sobressaem, naturalmente, as lideranças do grupo. Os “cabeças” do  movimento nortista eram todos, em sua grande maioria, jovens tenentes do Exército ou da Marinha, transferidos para a Amazônia “por conveniência do serviço militar”, devido à sua filiação ideológica com os ideais do Tenentismo, e seus antecedentes de engajamento em episódios de cunho político em seus estados de origem. Eram eles, além de Ribeiro Júnior e Magalhães Barata, os primeiros-tenentes  Abelardo Rangel, Aluísio Pinheiro Ferreira, Aurélio Linhares, José Backer Azamor, José Dias Vieira, José Lemos da Cunha, Raymundo Villaronga Fontenelle, Saint-Clair Peixoto Paes Leme e Sebastião Mendes de Holanda; e os segundos-tenentes Abílio da Costa, Euclydes Joaquim Lins e Antônio Mendes Silva. Com patente superior, apenas dois insurgentes: os capitães José Carlos Dubois (comandante do 27º BC) e Francisco Batista de Almeida (médico).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

       O calendário marcava a data de 23 de julho de 1924. O dia transcorrera sem qualquer intercorrência, com a cidade imersa em sua rotina laboral de meio de semana e a população convivendo com as agruras estivais trazidas pelo tempo seco e o forte calor do verão amazônico. No porto flutuante, o movimento de cargas e de navios de bandeira nacional ou estrangeira, ao longo de todo aquele mês, evidenciava, ainda que como pálida reminiscência dos seus grandes dias, a resiliente relevância comercial da antiga capital mundial da borracha, mesmo em plena débacle. À tarde, no campo do Parque Amazonense, havia tido lugar o treino da equipe do Nacional Football Club; e, à guisa de diversão cinematográfica, o Polytheama anunciava a estreia, às 8h15m da noite, do filme Aparências Fingidas. O título da película norte-americana não poderia ser mais irônico, diante da fingida aparência de normalidade que pairava no ar.

            Não sabemos se o concorrido cinema da Avenida Sete de Setembro chegou a abrir sua bilheteria naquela noite, pois, um pouco antes disso, a rotina da cidade de Manaus foi subitamente abalada com a concretização daquilo que, “à boca pequena”, nos meios oficiais e nas conversas discretas dos botequins, já se comentava, e, até certo ponto, se previa: o levante das tropas federais do 27º BC, em consórcio com seus companheiros de farda da Flotilha do Amazonas. Por volta das 19 horas, com boa parte do comércio de portas cerradas e muitos dos civis já recolhidos em suas casas para a sagrada hora do jantar em família, um batalhão de dezenas de militares deixa o quartel da Praça General Osório, e põe-se em marcha perfilada e ritmada pelas ruas, como que posto em formação para um extemporâneo desfile cívico. Tomando a Rua José Clemente, descem a Avenida Eduardo Ribeiro, diante dos olhos de espanto e incredulidade dos passantes que, àquela hora tardia, ainda transitavam pela principal via da cidade, vindos dos bares, das lojas e das repartições das adjacências. Os soldados, altivos e garbosos, portam consigo seus longos e potentes fuzis e envergam seus discretos uniformes na cor cáqui, arrematados com talabartes (presilhas) de couro, quepe e botas pretas. Contudo, a presença de uma peça móvel de artilharia (um canhão sobreposto a uma carroceria), sendo conduzida em meio à massa legionária, tornava o inusitado espetáculo um tanto mais intimidador aos olhos dos circunstantes. Definitivamente, aquele não parecia ser um mero exercício de tropas, como ocasionalmente costumava ocorrer. E não era, de fato.

 

           Avizinhava-se o cruzamento com a Avenida Sete de Setembro, eixo tradicional dos desfiles escolares e militares, e, portanto, o caminho natural por onde o batalhão deveria normalmente infletir, rumo à Praça da Polícia – na qual estava justamente sediado o quartel da Polícia Militar, centro das forças armadas estaduais. Todavia, qual não deve ter sido a surpresa dos frequentadores sentados à porta da Leitaria Amazonas – o mais elegante café de Manaus, normalmente lotado àquela hora do “lusco-fusco” – quando, de suas cadeiras de vime dispostas em torno de pequenas mesas de ferro, viram a tropa enveredar pela estreita e pouco permeável Rua Henrique Martins, situada um quarteirão antes daquela avenida, com que perfazendo um traçado paralelo (e mais discreto) na mesma direção? Estava, agora, muito claro perante as testemunhas oculares daquela marcha inaudita, qual era o objetivo real de seus organizadores, qual seja, o ataque - célere, cirúrgico e eficaz – à caserna da “Briosa” PM, de sorte a “estrangular” no nascedouro qualquer tipo de resistência armada ao “golpe cívico” urdido pelos líderes da revolução.

         E assim foi feito. Uma vez tendo alcançado a ampla pista da Avenida Treze de Maio (atual Getúlio Vargas), a tropa revoltosa pôs-se em posição de combate diante do quartel da PM, do outro lado da Sete de Setembro. Aquele era um dos cruzamentos nevrálgicos da cidade, pois conjugava em seu perímetro dois cinemas (Polytheama e Alcazar), uma escola secundária (o tradicional Ginásio Amazonense D. Pedro II), alguns botequins e uma das praças mais frequentadas da capital. É crível afirmar que, àquela hora, no início da noite, ainda deveria haver muitas pessoas circulando em seu entorno, de sorte que os federais hão de ter dado algum tipo de aviso aos civis – por meio de disparos ou rojões soltos no ar - para que se evadissem do local o mais rapidamente possível. Um sinal de alerta dirigido, evidentemente, também aos seus oponentes aquartelados no batalhão estadual, para que depusessem as armas, evitando, assim, um desnecessário derramamento de sangue. Mas isso é tão somente uma especulação, já que os detalhes do confronto se tornaram difusos e voláteis com o passar do tempo. O que é certo, conforme se extrai de reportagens dos jornais da época, relatórios, depoimentos e outras fontes primárias, é que houve uma intensa troca de fuzilaria de parte a parte entre as forças beligerantes (não sabemos se o canhão chegou a ser usado), numa carga que durou o tempo aproximado de 35 minutos, findo o qual a soldadesca estadual – em número desproporcionalmente reduzido frente aos seus litigantes, na proporção de um homem para dez – optou, sabiamente, por não mais oferecer resistência e se rendeu, tendo saído mais gravemente ferido da contenda tão somente o comandante da PM, Coronel Pedro José de Souza, o último a capitular diante dos revolucionários, comandados naquela ação decisiva pelo experimentado e destemido Tenente Magalhães Barata.

           Uma vez atingido o objetivo número um, com o pleno domínio do  quartel da PM pelas forças revolucionárias, os líderes do movimento destacaram imediatamente um pelotão, liderado pelo Tenente Ribeiro Júnior, a quem coube o encargo de outra importante missão, de cunho mais simbólico do que propriamente bélico, mas não menos relevante: a ocupação do Palácio Rio Negro, sede do poder estadual, a fim de depor e prender o governador em exercício, Turiano Meira, e instaurar a nova ordem, manu militari. Não sabiam os revoltosos, contudo, que o esperto Turiano ali não mais se encontrava, pois, muito bem informado como estava acerca do desenrolar dos acontecimentos que antecederam o golpe, por meio de seus contatos privilegiados na Marinha, tratou de pôr um prática um plano de fuga que já havia elaborado previamente em conluio com aqueles, evadindo-se com sua família, momentos antes da invasão, por uma canoa estrategicamente posicionada às margens do Igarapé de Manaus, que passa por trás do palácio. O episódio rocambolesco, que entrou para o anedotário político do Amazonas, é narrado em vivas cores pelo jornal O Brazil (RJ), edição do dia 30.08.24 (por sua vez reproduzindo matéria veiculada em A República, do Pará), e tem como base o insuspeito testemunho de Ildefonso Marinho, respeitado cidadão manauara e testemunha de muitos dos acontecimentos daquele verão de 1924.         

 

“Dias antes de rebentar a revolta, o governador conferenciara com o Capitão-de-Mar-e-Guerra Horminta Maria de Albuquerque, comandante da Flotilha, pedindo o seu auxílio no caso de qualquer movimento por parte das forças de terra, cuja sublevação vagamente se anunciava. O comandante havia prometido um auxílio eficaz, sob a condição, entretanto, do Dr. Turiano recolher-se a bordo de um dos navios da Flotilha, tendo até ficado assentado definitivamente que esse vaso de guerra seria a canhoneira ‘Missões’. Logo após essa conferência, o governador, a pedido do referido militar, mandou fornecer lenha para os navios da Flotilha, o que foi feito pela Inspetoria das Águas, retirando-se esse combustível da depositada da secção de Bombeamento de Água.

(...)

Muitos dias antes da sublevação, o presidente Turiano Meira trazia, preventivamente, uma lancha atracada nos fundos do palácio, num pequeno cais, que dá para o Igarapé denominado ‘Primeira Ponte’. No momento da fuga o governador procurou refugiar-se na lancha em questão, vendo frustrado o seu intento por ter-lhe faltado o ‘chauffeur’, que desaparecera no instante em que o 27º BC iniciara o tiroteio sobre o Quartel de Polícia. Nessa emergência, tomou uma canoa, e, com sua esposa, três filhinhos, uma criada e um soldado, desceu o igarapé em direção à Canhoneira ‘Missões’, vaso de guerra destinado a recebê-lo, de acordo com o que ficara combinado na Capitania do Porto. Pouco adiante seguia outra embarcação, tripulada por dois marinheiros nacionais. Como da ‘Missões’ atirassem sobre os dois marujos, por não terem estes gritado ‘a senha’, o governador, ao ver cair n’água, morto um dos tripulantes da primeira canoa, buscou outro rumo. Encontrando em seu caminho, ancorado, o “gaiola” ‘Rio Curuçá’, aí deixou os seus filhos e a criada, seguindo com a esposa na perigosa canoa que começava a fazer água. Longa e penosa foi a travessia até o sítio ‘Cantídia’, de propriedade do Coronel José Alves, onde permaneceu até a tarde de 26, quando o Coronel Pedro Freire, secretário geral do Estado, depois de ter conseguido as necessárias garantias do Capitão Dubois, o foi buscar em lancha.”

         

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

          Com a ausência de Turiano Meira, a sede do governo foi deixada aos cuidados de seu cunhado, Mário do Rego Monteiro – um dos filhos do “César” e o odiado chefe de Polícia, que tantas ignomínias praticara contra seus concidadãos, por meio dos métodos truculentos de que se valia a gang de facínoras por si comandada. Ironicamente, a este caberia o humilhante papel histórico de se ver acossado, rendido e preso por Ribeiro Júnior, quando da tomada do Palácio Rio Negro, e, ainda assim, sem abrir mão da arrogância que lhe era inerente. Mais uma vez é a narrativa de Ildefonso Marinho (op. cit.) que nos fornece detalhes vívidos desse momento histórico, bem como da detenção, naquela mesma noite do dia 24 de julho, de outras importantes figuras ligadas ao governo decaído:

“Da mesma Força que, após o tiroteio, ocupou o quartel de polícia, e que era comandada pelos tenentes Joaquim Magalhães Cardoso Barata, Pedro Alves da Cunha e Sebastião Holanda, foi destacado um pelotão para ocupar o Palácio Rio Negro, o que foi feito sem resistência alguma, pois ali encontraram desarmada a respectiva guarda, que havia recebido ordens do Dr. Meira para não reagir. No palácio foi encontrado o chefe de Polícia, Dr. Mário do Rego Monteiro, a quem foi dada voz de prisão pelo Tenente Ribeiro Júnior. Contava-se na cidade, a respeito dessa prisão, o seguinte episódio:

No momento em que o tenente, comandante da Força, o intimou a entregar as armas que tivesse, o Dr. Mário respondeu que tal coisa não faria, por ser o chefe de Polícia do Estado. Ante a insistência do tenente, o Dr. Mário, ao entregar o revólver que trazia, perguntou se aquele oficial não queria também a carteira e o relógio, provocando essa frase grande indignação ao comandante do pelotão, que, em altos gritos, começou a dizer que os revoltosos não eram ladrões.

(...)

O Dr. Caio Valladares, um dos chefes governistas de maior prestígio, foi detido na noite de 24 pelo tenente Aluísio Ferreira, ficando preso, sob palavra, na residência do Dr. Bernardino Paiva. Relaxada a prisão, na manhã seguinte, regressou o ilustre advogado à sua residência. O Dr. Edgar do Rego Monteiro, superintendente da capital, foi preso na mesma noite em que saíra de automóvel com o diretor da Imprensa Oficial, sendo que neste nada fizeram os revoltosos...”

 

​     E arremata seu depoimento, falando a respeito dos sucessos envolvendo também a Marinha, naquele convulsivo contexto de tomada do poder:

“O comandante da Flotilha jantava, na Capitania do Porto, com o comandante Cyro Câmara, quando aí compareceu, poucos minutos antes de romper a revolta, um tenente do Exército, acompanhado de praças, que os convidou a seguir até o 27º BC, onde ficaram detidos na secretaria. Toda a guarnição federal do Amazonas aderiu ao levante, que teve como causa inicial a desobediência do 27º BC à ordem de embarque chegada pelo ‘Bahia’. Apenas o mestre do aviso ‘Ajuricaba’, o 1º cozinheiro e um médico da Armada que viajara no ‘Bahia’, não aderiram ao movimento.”

 

       O autor da prisão dos oficiais da Flotilha, não mencionado por Ildefonso, foi o Tenente Euclydes Lins, que, tão logo os recolheu ao quartel do 27º BC, fez disparar um rojão, a que se seguiu outro foguete similar, acionado pelos marinheiros amotinados. Era a senha combinada entre as forças de terra e mar no sentido de que esta última se achava solidária com os revoltosos.

          Consumatum est! A “noite dos generais” – ou, melhor dizendo, dos tenentes – chegava a seu termo, sem mortos nem maiores feridos nas escaramuças. A promessa de um novo alvorecer despontando no Amazonas no dia seguinte encheu de alegria o coração de muitos amazonenses oprimidos, bem como insuflou com um novo ânimo o espírito dos sublevados vitoriosos.  Estes, entretanto, encontrariam pela frente uma “casa” completamente desordenada e virada pelo avesso, e muito haveria ainda por fazer...

 

 

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FONTES DA PESQUISA: Hemeroteca Digital Brasileira/Biblioteca Nacional (jornais diversos); A Revolução de 1924 em Manaus (1985), de autoria de Eloína Monteiro dos Santos; e Ribeiro Júnior, Redentor do Amazonas – Memórias (1997), de autoria de Eneida Ramos Ribeiro.

Artigo publicado em 04.08.2024.

Joaquim de Magalhães Cardoso Barata (1888-1959), primeiro-tenente do

Exército lotado no 27º BC de Manaus e um dos “cabeças” da Revolução de 1924, ao lado de Ribeiro Júnior. Liderou a tomada do quartel da Polícia Militar na noite de 23 de julho, na ação decisiva que culminou na vitória dos revoltosos. FONTE: Rede Mundial

de Computadores. 

 

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Turiano Meira, governador do Amazonas, em exercício, deposto pelas tropas tenentistas lideradas por Ribeiro Júnior e Magalhães Barata. FONTE: Rede Mundial de

Computadores.

 

RIBEIRO JÚNIOR E A REVOLUÇÃO TENENTISTA DE 1924 EM MANAUS – O CENTENÁRIO DE UMA GLORIOSA CAUSA PERDIDA

Por Ronald Péres

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Alfredo Augusto Ribeiro Júnior (1889-1938), tenente do Exército, líder da Revolução de 1924 em Manaus e governador interino. Cognominado popularmente como o “Redentor do Amazonas”. FONTE: Rede Mundial de Computadores.

PARTE I – OS FATOS ANTECEDENTES

             Há exatos 100 anos, em 23 de julho de 1924, um pequeno tsunami político “varria” a quieta e provinciana Manaus de pouco mais de cinquenta mil habitantes: era a “Revolução Tenentista” (ou “Comuna de Manaus”, como também ficou conhecida), um levante militar liderado por um grupo de tenentes do Exército, tendo à frente Alfredo Augusto Ribeiro Júnior e seus companheiros de farda aquartelados no 27º Batalhão de Caçadores da Praça General Osório, que, num movimento heroico e valoroso, depuseram pela força das armas o governo oligárquico, corrupto e nepotista de César do Rego Monteiro (1921-1924). Uma revolução de vida breve, que durou pouco mais de um mês, mas que, pelo alto mérito moral de que se revestiu a causa, bem como a personalidade de seu líder, marcou para sempre as páginas da História do Amazonas.

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            Antes de nos debruçarmos sobre os fatos locais que culminaram na rebelião amazonense, é preciso compreender o contexto maior da conjuntura política no Brasil. Assim como os antecedentes históricos que prepararam o terreno para que as coisas se desenrolassem de forma célere e febril, tal como se passaram naquele distante verão amazônico, há uma centúria.

             

         A República brasileira, proclamada em 15 de novembro de 1889, nasceu sob a égide do militarismo, e - muito além dos inflamados discursos ideológicos vociferados contra o regime monárquico, desde a década de 1870, pelos próceres do Movimento Republicano - foi fruto direto de uma quartelada, urdida na calada da noite, sob o calor de insatisfações circunstanciais dos altos comandantes das forças armadas de mar e terra. Militares foram, não por um acaso, os dois primeiros presidentes do novo Estado federativo, os marechais alagoanos Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, que governaram a nação com “mão de ferro” (especialmente o segundo). Em vista disso, mesmo quando, premidos pelas demais forças sociais, os homens de farda se viram obrigados a entregar o poder governamental aos civis, a partir de 1896, estes jamais se despiram, em sua mentalidade coletiva, do sentimento de “pais da República”. E sempre se mantiveram à espreita e à ilharga do poder, digamos assim, atentos e vigilantes quanto às posturas adotadas pelos diversos mandatários paisanos que se sucederam no Palácio do Catete (a sede do governo federal, no Rio de Janeiro) pelo quarto de século seguinte, dentro da “Política do Café com Leite”, que alçava à Presidência da República, a cada quatro anos, sob a forma de eleição indireta, um político de São Paulo em alternância com um de Minas Gerais, os dois Estados mais ricos da Federação, num questionável e exclusivista sistema de “rodízio geográfico” bilateral e descaradamente plutocrático.

 

           Tal estado de coisas levou, ao longo do tempo, a uma insatisfação crescente nas casernas, que passaram novamente a reivindicar de forma ostensiva, ao longo de toda a década de 1920, uma maior participação dentro da estrutura de governo do país, como que repristinando o espírito do republicanismo militarista vigente trinta anos antes. Esse movimento, urdido nos quartéis de todo o país - e muito inflamado por episódios esporádicos, como o fechamento do Clube Militar e a nomeação de civis para as pastas ministeriais das Forças Armadas - seria alcunhado pelos historiadores de “Tenentismo”, por ter sido protagonizado em todos os casos por militares dessa patente, e teve como estopim o motim de 5 de julho de 1922, no Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro. Um levante “quixotesco”, urdido de forma heroicamente amadora por um grupo pequeno de militares amotinados naquela fortaleza carioca sob a liderança dos tenentes Antônio de Siqueira Campos e Eduardo Gomes com o objetivo de depor Epitácio Pessoa da presidência da República e impedir a posse do novo presidente eleito, Artur Bernardes, ambos representantes das oligarquias paulistas e mineiras. Rapidamente reprimido pelas forças legalistas, num confronto corpo-a-corpo em plena Avenida Atlântica, que deixou como saldo trágico a queda em combate de quase todos os revoltosos, o trágico levante passaria para a história do Brasil como o episódio conhecido como a “Revolta dos Dezoito do Forte”. E, ao contrário de arrefecer os ânimos, só contribuiu para “botar mais lenha na fogueira” do clima beligerante que - emulado pelo sangue dos mártires de Copacabana e pela não-concessão de anistia aos insurretos sobreviventes - continuou a vigorar, ainda com mais força, em boa parte do seio militar, resultando, num curto espaço de apenas dois anos, na eclosão de sucessivos “estados de sítio” em diversos estados da Federação: São Paulo, Mato Grosso, Sergipe, Pará e Rio Grande do Sul.

​      ***

            No remoto e pacato Amazonas, localizado a milhares e milhares de quilômetros do epicentro dos acontecimentos nacionais, esse clima de latente insurreição fardada também não tardaria a soprar seus agitados ventos. Mas, desta feita, por razões muito específicas, aparentemente distintas – embora, substancialmente, nem tanto assim – daquelas que culminaram na sublevação da capital federal e em outros pontos do país.

             

            Em 1924, o Amazonas e sua capital, Manaus, sentiam fortemente os efeitos da crise da borracha amazônica no mercado internacional, deflagrada uma década antes com a queda abrupta do preço da preciosa commodity (até então o segundo item da pauta de exportações brasileiras, depois do café) na cotação das bolsas europeias e norte-americanas, suplantada que fora pelas maciças e mais baratas safras inglesas egressas ano após ano das racionalizadas plantations do Império Britânico no Sudeste Asiático. A capital amazonense já não vivia mais os seus “anos dourados” do início do século vinte, quando prósperos comerciantes abriam uma loja de finos produtos importados a cada esquina; e na qual poderosas firmas exportadoras estrangeiras com assento na Associação Comercial disputavam um lugar ao sol no mercado local para ver qual delas detinha a maior capacidade de absorver a contínua produção dos seringais interioranos, e, consequentemente, negociá-la a peso de ouro no exterior. Inversamente proporcional a esse quadro de pujança, Manaus era, no início da década de 1920, uma cidade achatada economicamente, estagnada em termos populacionais e sem quaisquer perspectivas de progresso, nem mesmo a longo prazo. Uma comunidade majoritariamente composta, em parte, por uma massa operária pouco instruída intelectualmente e pouco organizada em termos sindicais; e, na outra banda, por um núcleo burguês de funcionários públicos que sobrevivia basicamente de seus parcos salários estipendiados pelo Erário. Proventos esses que, naquele preciso e delicado momento histórico, por um calamitoso e degradante estado de coisas, pareciam se “esfumaçar” diante de seus olhos, antes mesmo de aportarem em suas vazias algibeiras...

               

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

          Alçado à cátedra governamental desde 1921, pela via da eleição indireta através da Assembleia Legislativa (como era de praxe da regra constitucional vigente em nível nacional), o ex-senador e desembargador piauiense César do Rego Monteiro, dono de uma personalidade autoritária e corrupta, não perdeu tempo em deflagrar, às escâncaras, uma série de desmandos com o uso da máquina pública, como talvez jamais se vira antes no Amazonas, nem mesmo nos tempos dos sucessivos e controvertidos governos dos irmãos Silvério e Constantino Nery, entre 1900 e 1908, no auge do ciclo do látex, marcados pelo empastelamento de jornais opositores e pela contratação de milionários e impagáveis empréstimos com bancos estrangeiros, que muito contribuíram para comprometer mais ainda a saúde financeira do Estado pelos anos vindouros. Governos que, a despeito de tais práticas e políticas equivocadas, ainda se preocuparam, contudo, em manter uma aura de respeitabilidade e decência perante a sociedade amazonense, ainda que esta não passasse de uma tênue e rota “capa cerzida”.

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          Rego Monteiro, todavia, ao contrário de seus antecessores, não tinha qualquer peia moral nesse sentido. Assim, ocupou-se prontamente, à guisa de escudo e sustentáculo político de suas indisfarçáveis intenções de poder absoluto e enriquecimento ilícito, em montar uma camarilha em torno de si, capitaneada, não por acaso, por seus parentes próximos, devidamente investidos em cargos estratégicos: seus filhos, Edgard (prefeito de Manaus), Mário (chefe de Polícia) e Claúdio do Rego Monteiro (magistrado, assim como o pai); e seu genro, Turiano Meira, presidente da Assembleia Legislativa. Um misto de oligarquia e plutocracia baseada no nepotismo que vinha, desde a assunção daquele magistrado ao governo estadual, minando as finanças e a paciência do povo amazonense com uma série sem fim de desmandos: encampações ilegais de imóveis e “negociatas” de toda sorte, sendo a mais audaciosa delas a  tentativa de empréstimo (frustrada pelo governo federal) de 23 milhões de dólares com a empresa norte-americana J. C. White Engineering Company, tendo como lastro a cessão de 30.000 quilômetros quadrados de terras estaduais; chantagem e agressão física de cidadãos opositores do governo, perpetrados pelo órgão policial (convertido numa verdadeira “milícia política”); meses de salários atrasados, pagos somente à custa de muita humilhação e a imposição de descontos “leoninos” (de mais de dois terços) aos servidores públicos, sob pena de demissão; e outros desatinos mais. Um status quo tão surreal que fazia com que a diferença entre o banditismo oficial vigente na oprimida Manaus de meados dos anos 20 e aquele imperante na Chicago dos anos 30, dominada pelas gangs da época da “Lei Seca”, se desse apenas em níveis proporcionais de latitude, violência e modus operandi.

 

        No que concerne à audácia e impiedade dos “donos do poder” encastelados no Palácio Rio Negro e nos gabinetes oficiais, dois episódios em particular chocaram a sociedade da época, em razão da honorabilidade das vítimas afetadas pelos métodos nada ortodoxos dos Rego Monteiro, ambas da mesma família. O primeiro desses casos dramáticos envolveu a extorsão praticada contra o professor Francisco Telles da Rocha, um cidadão de meia-idade, bastante respeitado e distinguido socialmente. Este era credor do Estado da importância de dois contos de réis (uma soma expressiva para a época), quantia que almejava legitimamente receber em sua integralidade a fim de, precipuamente, não interromper a formação acadêmica de seu filho Sabbas, estudante de Medicina na Bahia, subsidiado pelo pai. Contudo, vendo-se na iminência de não ver nem a cor do vil metal, o honesto e humilde professor “aceita” a indecorosa proposta do governo de redução do seu crédito para menos da metade do valor devido (oitocentos mil réis), “estimulado” ainda mais nesse sentido diante da ameaça explícita de ver seus bens levados à hasta pública para a quitação de impostos atrasados. Mora esta decorrente, não por acaso, do não-pagamento em dia de seus vencimentos, por parte do Estado! Era uma roda perversa e canalha, que girava sem parar, alimentando um círculo vicioso e nefasto no qual os Rego Monteiro se tornaram experts em manipular, gerando um clima generalizado de opressão e medo, que teve como símbolos do explícito achaque institucional as bandeiras de leilão frequentemente postas à frente das casas dos devedores do Erário, como forma de intimidá-los e coagi-los a aderirem, de uma forma ou de outra, ao saque oficioso praticado pelo verdadeiro “sindicato do crime” que havia se formado nos intestinos do governo e pelos asseclas do clã para “serviços sujos”, dos quais dois se tornaram tristemente famosos pela sua truculência: os policiais (capangas ou jagunços, melhor dizendo) que atendiam pelos nomes ou alcunhas de Calambange (um homem de cor negra) e Pina (um imigrante português), responsáveis por surras homéricas e toda sorte de atos degradantes perpetrados contra cidadãos de bem nos subúrbios da cidade, na calada da noite. E, por vezes, até mesmo à luz do dia, como foi o caso do jornalista Agêo Ramos, diretor do jornal oposicionista Gazeta da Tarde, seviciado pela Polícia em plena via pública, diante de todos.

        Esse episódio deprimente se desdobraria ainda em dois lances deveras tristes e revoltantes, quando da humilhação dupla sofrida por D. Mimi, filha do professor Francisco Telles, irmã de Sabbas e mãe da futura cantora lírica Eldah Bitton, então uma mocinha de apenas dezoito anos. D. Mimi era uma senhora de “prendas domésticas”, como tantas de sua geração e condição social. Assim, na ingênua e desesperada tentativa de ajudar seu pobre pai a receber os seus salários atrasados, Mimi bordou uma almofada para a filha do governador (a quem tinha como sua amiga) e – usando de um ardil benevolente, digamos assim - ofertou o presente através do marido desta, o médico Turiano Meira (genro de Rego Monteiro), que, ao tentar pagá-la pelo delicado trabalho manual, obteve como resposta de Mimi que a melhor gratificação que ela poderia receber seria a pronta intercessão de Turiano junto ao seu sogro em favor da causa do professor Telles. Este, todavia, num gesto de franca pusilanimidade e falta de empatia, sai-se com uma evasiva qualquer e deixa a pobre mulher falando sozinha.

            Inconformada, e mais uma vez imbuída da boa ousadia própria dos indignados e injustiçados, Mimi não se dá por vencida e, pouco tempo depois, toma o rumo do Palácio Rio Negro, levando a jovem filha Eldah consigo, como acompanhante. Lá chegando, ambas obtêm uma audiência com ninguém menos que a primeira-dama do Estado, a senhora Elisa Rezende do Rego Monteiro, egressa do proeminente clã dos Rezende, uma família igualmente de origem piauiense, assim como a de seu marido, e berço de nomes de peso na sociedade amazonense, com atuação, em especial, no ramo do Direito. A despeito de sua origem tradicional, D. Elisa, porém, não era uma personalidade de trato fácil, muito pelo contrário, sendo tida e havida por muitos como uma mulher antipática e arrogante, má fama à qual eram acrescidas as pechas de ser uma pessoa fútil e insensível às agruras pelas quais passavam os seus concidadãos. Nesse sentido, uma “madrinha” com tais características negativas era tudo com que D. Mimi não poderia contar naquele calvário embaraçoso por si percorrido. Um suplício subitamente potencializado, pois, a par das tribulações pelas quais passava seu patriarca, a família Telles da Rocha se viu ainda às voltas com a morte de Agrícola, filho do professor Francisco e irmão de Mimi; e, submetida à condição de quase indigência em que se encontrava, não possuía recursos para financiar um sepultamento digno ao extinto. Engana-se quem supor que a ilustríssima senhora primeira-dama tenha minimamente se condoído do drama familiar narrado por Mimi. Segundo o depoimento das suplicantes e de outras testemunhas indiretas do colóquio travado entre as duas mulheres, D. Elisa, após ouvir detidamente a pungente narrativa da postulante e a sua súplica final por ajuda, encerrou a conversa de forma seca e implacável com a seguinte frase: “Mas quanta gente boa se enterra pela Polícia!”. Como Deus jamais desampara, segundo o ditado popular, o respeitado e humanitário médico Adriano Jorge, uma boa alma cristã, logo arregimentou amigos da família para se cotizarem para o enterro, numa última tentativa de pressionar moralmente os Rego Monteiro perante a sociedade amazonense. A tentativa logrou êxito, mas apenas em parte, pois, uma vez financiado o funeral pelo Estado, as despesas seriam descontadas mensalmente do ordenado de D. Mimi. Um opróbrio total e completo. Para os Rego Monteiro, evidentemente.

 

             A “gota d´água” de tal cadeia de abusos teve seu ápice na noite de 19 de abril de 1924, um Sábado de Aleluia, quando o casal Rego Monteiro, numa atitude de total escárnio diante da conjuntura desesperadora pela qual atravessava a imensa maioria do povo amazonense, abriu os salões do Palácio Rio Negro para um suntuoso baile de gala, tendo como tema o período do Segundo Império na França de Napoleão III (1852-1870); evento este no qual os cavalheiros compareceram vestindo traje a rigor (smoking) e as damas foram formalmente convidadas a envergarem fantasias calcadas na moda de meados do século XIX. A festa, nababesca e oferecida sem qualquer específico pretexto de ordem cívica, teria tido como única razão de ser o desejo da voluntariosa primeira-dama Elisa de descer as escadarias do palácio exibir sua deslumbrante fantasia de “Imperatriz Eugênia” e, por via de consequência, ostentar diante dos olhos de toda a elite local a riqueza voluptuária desfrutada pelo casal, visível na luxuosa mobília e decoração da residência oficial, na mesa farta do banquete, na ornamentação de flores naturais e na feérica iluminação do palácio e de seus jardins, que atraiu para a Avenida Sete de Setembro, naquela noite, tal e qual mariposas diante da luz, uma pequena multidão de espectadores (formando um “sereno”, como se costumava dizer na Manaus do passado), alguns espantados e muitos certamente indignados, mas todos ávidos por conferir de perto o absurdo nível de desfaçatez de seus governantes. Há relatos orais, deixados pelo mais antigos, de que muitos dos assistentes daquele “circo palaciano” armado na pequena península formada pela junção dos igarapés de Manaus e Bittencourt não contiveram seus ânimos de fúria, chegando ao ponto de puxar um coro de apupos (vaias) e impropérios por ocasião da chegada a palácio daqueles convidados tidos como indesejáveis – os “sócios” e “clientes” da camarilha Rego Monteiro. 

          Guardadas as devidas proporções, pode-se dizer, em retrospecto, que aquela portentosa efeméride – animada por valsas vienenses e outros bailados executados pela impecável orquestra do maestro João Donizetti até as três horas da madrugada - representaria para a oligarquia dos Rego Monteiro uma espécie de “baile da Ilha Fiscal”, um “canto de cisne”, antecipando a sua breve derrocada. Imersos na ostentação de seu poder e emulados pela adulação dos áulicos de sua “Corte” (tanto os cinicamente convictos quanto aqueles compreensivelmente atemorizados), o poderoso “César” e sua “Imperatriz” jamais poderiam supor, no pleno exercício de sua potestade, que, em meio ao rebuliço daquele festim dionisíaco de noite de inverno amazônico, um olhar atento os espreitava, e a tudo observava. Um olhar perspicaz e crítico, lançado por um conviva muito discreto, mal percebido entre os tantos sobrenomes graúdos da sociedade amazonense – políticos, juízes, advogados, médicos, jornalistas, comerciantes de alto coturno, cidadãos estrangeiros de alta expressão – que compunham a seleta lista de convidados do primeiro casal. Seu nome? Alfredo Augusto Ribeiro Júnior, um altivo e garboso militar de 35 anos, orgulhosamente investido em seu posto de primeiro-tenente do Exército, extremamente politizado e perfeitamente cônscio do papel decisivo exercido pelas Forças Armadas nos destinos da nação, desde o reprimido levante do Forte de Copacabana. O homem predestinado pela História a servir de algoz dos algozes do Amazonas...

**********

P. S.: Continua no próximo domingo!

FONTES DA PESQUISA: Jornal do Commercio (edições diversas), e Ribeiro Júnior, Redentor do Amazonas – Memórias (9ª Edição, 2016), de autoria de Eneida Ramos Ribeiro.

Artigo publicado em 21.07.2024.

César do Rego Monteiro (1863-1933), governador do Estado do Amazonas entre 1º de janeiro de 1921 e 23 de julho de 1924. Seu governo, considerado unanimemente como um dos mais corruptos da história republicana estadual, foi deposto manu militari pelas forças revolucionárias do Exército e da Marinha, no episódio que ficou conhecido historicamente como a Comuna de Manaus. FONTE: Wikipedia - Rede Mundial de Computadores.  

Vista panorâmica de Manaus, capturada pelo fotógrafo e cinegrafista português Silvino Santos, durante o primeiro sobrevoo feito sobre a cidade, pelo hidravião Eleanor III, no contexto da célebre expedição científica à Amazônia conduzida pelo geógrafo norte-americano Alexander Hamilton Rice Jr., entre 1924-1925. FONTE: Fan Page ‘Manaus Sorriso’  - Rede Mundial de Computadores.  

SÉRIE “HISTÓRIA”

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O SEMINÁRIO DE SÃO JOSÉ E A EDUCAÇÃO FORMAL
NA MANAUS DA ÉPOCA DA PROVÍNCIA

                                                                     Por Ronald Péres

                    Durante quase todo o segundo quartel do século XIX, ou seja, desde a Independência do Brasil, em 1822, quando o atual território amazonense (antes, Capitania de São José do Rio Negro) permaneceu sob a tutela política da Província do Grão-Pará, sob a condição menor de Comarca do Alto Amazonas – o ensino em nível intermediário de graduação foi extremamente negligenciado pelas autoridades. Manaus, erigida ao foro de vila somente em 1832, não dispunha de qualquer escola oficial, sendo a instrução primária ministrada por abnegados e diletantes professores particulares em suas próprias e modestas casas. Assim, qualquer pessoa que houvesse cursado as primeiras letras e quisesse prosseguir além em seus estudos, teria, forçosamente, que se deslocar, durante dois longos meses, de barco a vela – estamos falando de um tempo anterior à navegação a vapor! - até Belém do Pará, situada 1.500 quilômetros Rio Amazonas abaixo. Ou então tomar o rumo de São Luís, Recife, Salvador ou do Rio de Janeiro, e se desvincular completamente de sua realidade amazônica. Um descalabro total!

          Esse perverso status quo, que praticamente condenava os amazonenses a viverem mergulhados na mais profunda ignorância, somente se altera em 14 de maio de 1848, apenas dois anos antes da criação da Província do Amazonas, quando, por determinação de D. José Affonso de Moraes Torres, Bispo do Pará, é fundado o Seminário Episcopal de São José, a primeira escola de ensino secundário da cidade, uma instituição particular, gerida pela Igreja Católica, mediante subvenção anual do Poder Público de 1.400 contos de réis. Lembremo-nos que, até o advento da primeira Constituição da República, de 1891, o Estado não era laico, e, portanto, as obrigações e os interesses deste e da Igreja fundiam-se e confundiam-se, muitas das vezes. Sendo assim, era encarado como dever do Estado e da Igreja unir suas forças – e, ao mesmo tempo, tutelarem-se entre si - na promoção do ensino formal da melhor qualidade aos seus jurisdicionados e fiéis. Tudo dentro dos valores e princípios cultivados pela veneranda e milenar Sé de Roma, e abraçados pelo Império brasileiro.

             

               Com esse munus, o governo local (ainda respondendo aos ditames do Pará) cede à Cúria, a título precário, um amplo terreno de sua propriedade, situado próximo ao Rio Negro, às margens de um pequeno igarapé há muito desaparecido – o Igarapé da Olaria; ou da Ribeira, como também era conhecido. Ali - na esquina da atual Rua Tamandaré com a Praça da Matriz - é edificado o novo Seminário, um prédio austero, de beiral saliente, telhas do tipo “capa-e-canal”, inteiramente caiado de branco, com muitas janelas de guilhotina e um átrio interno. Tudo dentro do melhor figurino da arquitetura portuguesa que vigorou no Brasil ao longo de todo o período colonial. Além do educandário, o vasto imóvel abrigava ainda em uma de suas dependências a residência do Vigário Geral, maior autoridade eclesiástica da Província até a criação do Bispado do Amazonas, em 1892. Não há registro do nome do arquiteto que o construiu, nem tampouco de imagens de sua disposição interna, mas é crível supor que seguisse o padrão das construções monásticas e educacionais erguidas pela Igreja Católica no mundo inteiro, com muitas salas e cômodos destinados ao estudo, à convivência, à oração e ao recolhimento; amplas, arejadas, revestidas com ladrilhos rústicos de cerâmica e com pé-direito alto; e sem grandes luxos, com mobília sóbria e esparsa.

​                   A fotografia abaixo, capturada no início do século XX, é rara, e retrata, ainda que sem maiores detalhes, a volumetria e a aparência externa do velho Seminário São José, que ganhou mais visibilidade após o aterro do pequeno igarapé na década de 1860, que resultou no novo Largo da Imperatriz, aberto diante de si, uma longa alameda adornada por duas fileiras de belíssimas palmeiras imperiais. E que ganharia, dentro de poucos anos, a vizinhança fronteira da nova e bela Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, aberta ao culto em 15 de agosto de 1877, dia da Festa da Assunção de Maria Santíssima.

​                  Ali, entre aquelas grossas paredes construídas em taipa sobre base de pedras, os primeiros educandos amazonenses tiveram acesso ao mesmo farto ‘curriculum’ disciplinar oferecido aos seus pares da Corte e de outras capitais, todo ele calcado na visão humanística e universal preconizada pelos pedagogos da época: Português, Francês, Latim, Aritmética, Álgebra, Geometria,   Geografia, História, Filosofia, Retórica e Religião (Catecismo, História Bíblica e Civilidade Cristã); complementadas com duas aulas semanais de educação artística - Música (vocal e instrumental) e Desenho; e também de educação física.

               O colégio religioso, que funcionava em regime triplo – externato, internato e semi-internato (estes últimos, os alunos “pensionistas”) - era dirigido por um padre superior, ostentando o honorável título de “Reitor”, que zelava de perto pelo bom nome e pela boa imagem do Seminário, selecionando a mais completa grade curricular, os melhores mestres (clérigos ou laicos), e se ocupando inteiramente, claro, do conforto, da rotina e da disciplina do estabelecimento. Assim se lê num anúncio do jornal “Amazonas”, de 1882, no qual o então Reitor, padre Amâncio de Miranda (que hoje empresta seu nome a uma rua no bairro de Educandos), ao mesmo tempo em que declara abertas as matrículas para o próximo período escolar, estabelece desde logo, rigidamente, tanto o padrão dos uniformes que os futuros discentes deveriam trajar – calça, paletó com gola de veludo, colete, gravata e chapéu de massa; todos na cor preta – quanto os itens do extenso “enxoval” (a expressão era esta) que os alunos internos deveriam trazer de suas casas. Nestes termos: “1 travesseiro, 4 fronhas, 4 lençóis e 2 cobertas, 12 camisas, 8 ceroulas, 12 pares de meias, 6 pares de calças pardas, 6 paletós pardos, 12 lenços, 6 toalhas de rosto, 2 calções de riscado para banho, 2 sacos grandes para roupa, 4 camisões de dormir, 2 pares de sapato (um para casa, outro para saída), 1 espelho, 1 pente de alisar, 1 tesourinha, 1 escova para dentes, 1 para sapatos, 1 para fato (paletó), e 1 bauzinho (...), para guardar pequenos objetos, que deve estar sempre à mão!” (sic) 

             

              O ensino no Seminário – que também ministrava o curso primário – era custeado pelos pais ou tutores dos alunos, que também se responsabilizavam em fornecer os livros e materiais escolares. As “pensões” (valores dos cursos) eram pagas mediante cotas trimestrais, advertindo o colégio aos pais, desde logo, que “(...) o aluno que, no décimo dia de cada trimestre, não estiver quite com a casa, será convidado a entrar no gozo de suas férias” (sic). O ano letivo iniciava-se em janeiro e findava em outubro. Os horários variavam de acordo com o regime eleito pelo aluno: os externos entravam às 7:45h e saíam às 10h, retornando para novo turno das 2:45h às 4:30h da tarde; e os semi-internos, permaneciam das 7:45 às 16:30h, sem intervalos, com pausa para almoço no refeitório. Já os internos, todos do sexo masculino, eram alojados em dormitórios coletivos, tendo direito às refeições diárias e à lavagem periódica de suas roupas, devidamente identificadas com as iniciais de cada aluno, e guardadas em armários próprios, fechados a chave. Com esse nível de disciplina, não é difícil imaginar que, embora não explicitado no informativo publicado na Imprensa, os castigos físicos impostos aos alunos de aprendizado lento ou indisciplinados fossem uma tônica pedagógica “embutida no pacote”, com a aplicação frequente de “bolos” de palmatórias e réguas, “cascudos” e puxões de orelhas naqueles de índole dispersa, rebelde ou peralta. Uma praxe que, aliás, subsistiu até os anos 1980 nas escolas públicas e particulares, sempre defendida ou repudiada com muita veemência por pais, mestres e pelos próprios alunos.                   

                  Ao longo de sua história, o Seminário de São José foi a base sócio-educacional de várias gerações, filhos da elite amazonense em sua maior parte, mas também crianças egressas de famílias sem recursos – os “filhos da Província”, como eram admitidos na escola, beneficiados com bolsas de estudo mantidas pelo próprio Estado. Sendo assim, foi o Seminário do Largo da Imperatriz responsável pela formação de nomes expressivos da política, do magistério, da magistratura, do funcionalismo público, das profissões liberais, e das artes e letras no Estado do Amazonas, além de clérigos, evidentemente. Dentre seus muitos professores, destacaram-se alguns nomes, como o cônego cearense Israel Freire da Silva (1859-1925), um intelectual robusto, catedrático de 4 disciplinas - Português, Francês, Latim e Retórica – e o maestro baiano Adelelmo do Nascimento (1852-1898), um dos nomes ancestrais da Cultura no Amazonas, titular das aulas de Música e Canto no Seminário e também no Instituto dos Educandos Artífices, a primeira escola técnica do Amazonas.

​            A partir da criação do Liceu Provincial (futuro Ginásio Amazonense Dom Pedro II), em 1869 - o primeiro colégio de instrução pública do Estado - o velho Seminário começa lentamente, a perder prestígio em detrimento de seu rival, que passa a ser encarado como a nova “menina-dos-olhos” da educação pelo governo provincial, e foco de todos os investimentos nesse setor, tanto em relação ao seu corpo docente quanto às instalações do novo colégio. O que leva à decadência daquele velho educandário religioso, acentuada bastante após a separação entre Estado e Igreja, após a proclamação da República, que implicou necessariamente no fim das subvenções subministradas aos padres pelos cofres do Erário.

                   

                Com a extinção do Seminário, em 1909, o velho casarão da Praça da Matriz, já bastante mal conservado, permaneceu vacante e subutilizado durante mais alguns anos. Em 1917, o Estado, legítimo dono do terreno, autoriza por lei a sua alienação ao Banco do Brasil, que, após demolir o vetusto prédio, ali edificaria a sua sede própria, inaugurada somente em 1929.  Quanto ao tradicional Seminário, seria recriado décadas mais tarde, graças à ativa ingerência do então Bispo do Amazonas, Dom João da Mata Andrade e Amaral, e reaberto oficialmente em 19 de março de 1943 (dia de São José), numa vasta gleba situada entre as ruas Emílio Moreira e Major Gabriel, nos limites da zona central, antes ocupada pela antiga chácara da família Nery. Mas aí já é outra história...

 

 

Crédito das imagens: acervo da fan page Manaus Sorriso. Foto 1: panorâmica do Largo da Imperatriz no final da década de 1880 (colorização eletrônica digital de autoria do pesquisador Eliton Reis Lira). Foto 2: aspecto  do Seminário São José em 1902. 

Artigo publicado em 07.07.2024.

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SÉRIE “CINEMA & MÚSICA”

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‘Anonimo Veneziano’  

O romantismo da Itália (e de toda uma época) cristalizado através de um delicioso “filme-videoclipe”. E de uma canção inesquecível...

                                                                               Por Ronald Péres

 

     E eis que o alegre mês de junho decorreu. Mês dedicado a três importantes comemorações da Igreja Católica (os dias consagrados a Santo Antônio, São João e São Pedro), à efusão pagã (e gourmand) das festas juninas... E, por certo, à celebração do sentimento-motriz da Humanidade, o amor, com ápice a 12 de junho, dia votivo aos enamorados de todas as idades e de todas as condições. Sendo assim, vamos falar um pouco de amor, de paixão, de ternura e de leveza? O mundo anda tão carente disso tudo, não é mesmo? Desatemos, pois, as amarras que nos prendem à nossa dura realidade cotidiana do presente, e deixemo-nos conduzir, no tempo e no espaço, para cinco ou seis décadas atrás, de volta a uma Itália onírica e romântica, cinematográfica e musical, na qual tudo parecia ser (e talvez fosse mesmo) de uma beleza atemporal e indestrutível. Pelo menos nas canções que embalaram   os sonhos de mais de uma geração. Assim como nas imagens coloridas de filmes ingênuos que se tornaram ícones daquele imaginário coletivo, como A Fonte dos Desejos (1953) e o sempre lembrado e querido Candelabro Italiano (1962). Qual jovem, moça ou rapaz, nascido no Pós-Guerra, dentro da chamada geração ‘baby boomer’, não se imaginou, por exemplo, um dia, na pele das personagens de Suzanne Pleschette e Troy Donahue, tendo um intimista colóquio amoroso numa taverna de Roma ao som de ‘Al Di Lá’, cantada na voz de tenor de Emilio Pericoli? Para, logo em seguida, enlevados de mútuo encantamento, subirem numa lambretta e saírem ‘per le strade del mondo’ rumo ao Lago Maggiore ou à Costa Amalfitana. Quem nunca?

    Itália. Música. Cinema. Palavras intimamente (e lindamente) associadas entre si. Ao longo de toda a década de 1960, e da primeira metade dos anos 1970, a música italiana experimentou o auge de sua popularidade no mundo inteiro. Mais ou menos como ocorria no Brasil - embalado pela plêiade de imensos talentos revelada pela Bossa Nova (1958-1964) e seqüenciada pela Era dos Festivais (1965-1973) – a Itália dos 60´s e do início dos 70´s também se revelou um “celeiro” de nomes musicais os mais expressivos, seja na orquestração, na composição, ou na canzone, propriamente dita. Assim, a cada verão europeu, durante o célebre festival de música realizado anualmente (e até os dias atuais) na cidade praiana de San Remo, no litoral da Ligúria, despontavam para a fama internacional artistas do quilate de Domenico Modugno, Sergio Endrigo, Pino Donaggio, Guido Renzi, Fred Bongusto, Peppino Di Capri, Mina Mazzini, Ornella Vanoni; e, claro, a meiga e sempre lembrada Gigliola Cinquetti, a “namoradinha da Itália”, intérprete dos mega-sucessos ‘Non Ho L´Età’ e ‘Dio, Come Ti Amo’ (ambas da trilha sonora do filme desse último nome, de 1966). Foi a época do lançamento de clássicos eternos da canção romântica, como ‘Volare’, ‘Io Che Amo Solo Te’, ‘Anema e Cuore’, ‘Tanto Cara’, ‘Il Mondo’, ‘Roberta’,Champagne’, ‘Canzone Per Te’ (de Sergio Endrigo, defendida e vencida por Roberto Carlos em San Remo, em 1968), etc, etc, etc... Canções que fizeram suspirar multidões de moçoilas sonhadoras pelo planeta afora, atracadas dia e noite às suas vitrolas, às suas capas de discos e aos seus devaneios de uma onírica ‘stanza d´amore’ passada em Roma, Florença, Veneza ou em alguma espetacular praia mediterrânea, sob os braços morenos de um ‘bel ragazzo’, másculo, sedutor e principesco.       

       

       Em termos cinematográficos, um dos ápices dessa fantasia coletiva criada em torno do belo país peninsular talvez seja o lançamento, em 1971, do filme ‘Anonimo Veneziano’, dirigido por Enrico Maria Salerno e estrelado pelo ítalo-americano Tony Musante e pela brasileira Florinda Bolkan, nome artístico da cearense Florinda Soares Bulcão, uma ex-aeromoça da Varig, galgada para a fama sob os auspícios do famoso diretor Luchino Visconti – que a lançou como protagonista em 1969 no clássico Os Deuses Malditos (La Caduta Degli Dei) - e da prima deste, a socialite e condessa italiana Marina Cicogna (empresária e companheira de Florinda por duas décadas). ‘Anonimo Veneziano’, como filme em si, não tem nada de excepcional. É uma estória banal, que gira em torno dos encontros, desencontros e reencontros de um casal em crise existencial e amorosa, tendo como pano de fundo o cenário atemporal da bela e aristocrática Veneza. A típica “DR”, como se diz hoje em dia. Mas DR em grande estilo, diga-se de passagem. Com direito a caminhadas solitárias sob a chuva na Piazza di San Marco e nas vielas da velha cidade, passeios a dois nas gôndolas dos canais venezianos, corridas do casal em campos gramados e floridos, capturadas em câmera lenta – um recurso típico do chamado “cinema videoclipe” da época – e contemplações sem fim ao pôr-do-sol nas margens da mágica laguna que cerca a milenar e sereníssima “pérola do Adriático”. E Florinda Bolkan, claro, vestida pelos melhores estilistas de Milão e Paris, “fazendo carão” o filme inteiro, ostentando o seu escovado penteado de “pantera” e arrasando nas botas de cano longo, nas minissaias, nas calças pantalonas, nos sobretudos e nos seus chiquérrimos e imensos óculos de sol, bem na linha Jackie Onassis. Com esse ensemble e esse outfit, o que é mesmo uma simples crise de relação, não é verdade? Ainda mais, se, ao final, tudo acabar na entrega horizontal de uma pós-reconciliação, sob os lençóis de algodão egípcio do Grande Hotel do Lido. ‘(...) Camereriere... Champagne, per brindare un encontro... Per te, che già eri di un altro... (...)’. Sempre se pode evocar o saudoso Peppino di Capri, com sua voz anasalada e seu imbatível ‘Champagne’, clássico romântico de fim de noite (ou seria de extensão da noite?), e deixar a imaginação correr solta...

          

     O filme, hoje um tanto esquecido, teve um sucesso relativamente grande em sua época, já que estava totalmente inserido dentro do contexto no qual foi lançado, tendo sido rodado sob a influência de películas da ‘nouvelle vague’ francesa como o clássico Um Homem... Uma Mulher (‘Un Homme... Une Femme’), de 1966 - embalado por uma inebriante trilha sonora, composta por Francis Lai; e totalmente calcado nos olhares, nos pequenos gestos e no principalmente no silêncio cúmplice dos protagonistas. No caso do filme italiano (assim como no citado filme francês de Claude Lelouch), grande parte de seu sucesso deve-se muito menos às modas e aos dilemas amorosos da estilosa ‘signorina’ Bolkan, e muito mais à igualmente lindíssima música-tema que perpassa toda a película, do primeiro ao último take. ‘Cuore... Cosa Fai’ (Coração... Que Fazes?, em tradução literal) é daquelas músicas que, na língua inglesa, são adjetivadas como haunting – assombrosas,  encantadoras, inspiradoras. Composta por Stelvio Cipriani, especialmente para o filme de 1971, e posteriormente interpretada pelos maiores nomes da música internacional - de Fred Bongusto a Ornella Vanoni, de Mantovani a Frank Pourcel - ela ficou mais famosa na forma instrumental, utilizada ao longo do filme. Embora a letra seja também um primor, fazendo alusões ao sol dourado e intenso que banha Veneza e sua lagoa espetacular, e à frenética massa humana que percorre seus becos e canais todos os dias, mimetizando qualquer indivíduo em mais um “anônimo veneziano”, misterioso (e por isso mesmo instigante) e passível de se tornar um(a) grande amante em potencial, ainda que fugaz. É uma música eterna – tão atemporal quanto a cidade que a inspirou – e que, a cada audição, nos enleva e nos faz percorrer em pensamento as nossas Venezas (a cidade real e aquela idealizada, que vive no imaginário de cada um de nós), as nossas “Pasárgadas” (para evocar o genial poema de Manuel Bandeira que fala de um lugar ideal, utópico, onde todos seremos felizes, ao lado do amor que elegermos), as “Xangri-Lás” de nossas ilusões. É claro que essas “cidades de sonho” só existem em nossas mentes, em nossas emoções e desejos mais íntimos. Ao contrário da onírica peça musical composta por Cipriani há mais de meio século, e que permanece sendo uma das músicas românticas mais belas de todos os tempos, na minha modesta opinião.     

         

         Cantemos, pois, junto com Fred Bongusto, essa lindeza em forma de balada. É fácil. É só deixar a emoção fluir e embarcar na gôndola destinada a deslizar no canal de um mundo ideal, rumo a um amor ideal. ‘Andiamo’!

‘Cuore, cosa fai (...) Che tutto solo te ne stai (...) Il sole è alto e splende già (...) Sulla città

Al buio tu non guarirai (...) Non stare lì, dai retta a me (...) Di là dai vetri forse c'è (...) Una per te, per te

Almeno guarda giù (...) E tra la gente che vedrai (...) C'è sempre una, una che (...) E' come te

Un viso anonimo che sà (...) L'ingratitudine cos'è (...) E una parola troverà (...) Anche per te

E allora te ne vai (...) Non hai perduto niente ancora (...) A un'altra vita, un altro amore (...) Non dare mai

 Il sole alto splende già (...) Sul viso anonimo di chi (...) Potrà rubarti un altro si (..) Un altro si (...) Il mondo é li (...) È li’

                                               **********

Crédito da imagem: Rede Mundial de Computadores.

Artigo publicado em 23.06.2024.

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O TURISTA APRENDIZ – MÁRIO DE ANDRADE: UM MODERNISTA EM MANAUS (Parte I)

                                                                               Por Ronald Péres

 

    Recentemente, a combinação nefanda de um binômio de fatores negativos – o “rescaldo” da terrível pandemia que assolou o mundo por mais de dois anos; mais o infame estado de indigência ao qual foram submetidos todos os setores culturais por parte das políticas públicas levadas a cabo pela última gestão federal - pôs de lado e deixou passar “em brancas nuvens” a celebração - à altura do que o fato merecia - do centenário de um dos mais cruciais eventos do Brasil no século XX: a Semana de Arte Moderna, aberta, com grande alarde da mídia impressa, em 22 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo. Façamo-lo, pois, ainda que com certo atraso, rememorando - e dando a conhecer a muitos que dela sequer suspeitam - a breve, porém marcante, estadia na capital amazonense, em julho de 1927, de um dos intelectuais mais icônicos do Movimento Modernista de 1922: o escritor - poeta, romancista e ensaísta Mário de Andrade (1893-1945).

         

        Um “agito” que congregou num mesmo e nobre recinto, ao longo de sete dias, o que havia de mais vanguardista no país em termos de artes plásticas, música erudita e literatura. Uma semana que revelou nomes definidores e definitivos das tendências e da estética da expressão brasileira, pelos cinqüenta anos seguintes; que daria seus frutos inclusive em outras searas culturais, como o teatro, o cinema e música popular; e que foi sintetizado numa expressão cunhada pelos próprios “modernistas” partícipes do evento: a “antropofagia cultural” - uma ideia subjetiva e revolucionária que, em síntese, preconizava a absorção aleatória de todo o arcabouço ancestral das matrizes culturais da formação do Brasil (índios, negros, portugueses, e suas respectivas derivações mestiças) para, uma vez “deglutidas e digeridas”, propiciar o surgimento de um Brasil amalgamado, novo, moderno, contemporâneo, profundamente “enraizado” dentro de si mesmo e perfeitamente desenvolto na sua latinidade e malemolência tropical. A mesma ideologia eclética e pluralista que, décadas mais tarde, nos anos 60, outro grande movimento cultural, o “Tropicalismo”, com Gil e Caetano à frente, rebatizaria como “geléia geral”. Os nomes exponenciais que sobressaíram na Semana de 1922 são, bem ou mal, razoavelmente conhecidos de qualquer brasileiro de mediano nível  acadêmico: o músico Heitor Villa Lobos, os pintores Lasar Segall, Di Cavalcanti, Cândido Portinari, Tarsila do Amaral e Anita Malfatti; o escultor Victor Brecheret e os escritores Guilherme de Almeida, Menotti Del Picchia, Ronald de Carvalho, Oswald de Andrade, e... Mário de Andrade, por supuesto!

       Do ponto de vista físico, Mário de Andrade  era um sujeito comum, quase feio mesmo. Tipicamente brasileiro, de tez morena clara, rosto quadrado, possuía contra si uma acentuada calvície e um evidente prognatismo maxilar, que o deixava com a famosa “cara de mamão-macho”. A despeito dessa falta de atributos, não se dava por vencido, compensando seus defeitos com uma elegância impecável no trajar e nos modos pessoais, que, aos olhos de seus interlocutores, convertiam sua figura num legítimo dandy (ou um “almofadinha”, como se dizia nos anos de 1920). Não bastasse todo esse aplomb em termos de moda e etiqueta, era ainda, de acordo com os que com que ele privaram, um homem encantador, dotado de uma cultura invulgar e de um tirocínio intelectual que logo o tornaram em líder informal do pensamento e do ideal dos “modernistas”, ao lado de seu colega Oswald de Andrade (não eram parentes, apesar do nome). Em 1927, cinco anos depois da realização da Semana de Arte Moderna, Mário já era uma sumidade nacional, recepcionado e adulado em todos os salões nos quais se fizesse presente e em todas as cidades nas quais estivesse de passagem. Celebrado, dentre outras obras literárias, por seu romance Amar, Verbo Intransitivo e pelo poema Pauliceia Desvairada – uma ode ao frenesi e a efervescência mundana e intelectual da metrópole paulistana, tida como o “caldo de cultura” que culminou no Movimento Modernista. E estava ainda por lançar aquela que seria considerada como a sua obra-prima, e síntese do movimento deflagrado por ele e seus pares em 1922: o romance Macunaíma, a fábula satírica sobre um bizarro e patético “herói sem nenhum caráter”,  individualista, indolente, lascivo e pleno de idiossincrasias – uma personagem que, na visão cínica de seu autor, seria quase que um alter ego do povo brasileiro, lato sensu falando, independentemente de suas diferentes nuances regionais.

Pois bem, em maio desse mesmo ano de 1927, Mário de Andrade, fazendo jus ao “espírito” de imersão cultural no Brasil profundo que embalava os modernistas, resolve – a contragosto, de início, já que era o típico “urbanóide” paulistano - ingressar numa autodenominada “viagem etnográfica”: a caravana fluvial à Amazônia promovida e bancada por sua grande amiga, Olívia Guedes Penteado, riquíssima aristocrata paulista, proprietárias de cafezais a perder de vista, e uma mulher extremamente culta, que, fazendo-se de mecenas diante dos seus artistas protegidos, e graças às suas excelentes relações sociais, foi uma das primeiras grandes personalidades de seu tempo a entender e “abraçar”, com seu apoio explícito e seu patrocínio financeiro, o grupo de intelectuais projetados pelo sucesso alcançado na Semana de Arte Moderna de 1922. Feitos os preparativos, a ‘entourage’ liderada por madame Penteado embarca no Rio de Janeiro rumo ao norte do país, numa excursão que duraria dois meses e meio, de 7 de maio a meados de agosto de 1927. Embarcados num “vaticano” – antigo e confortável navio regional de grande porte – da companhia inglesa Amazon River, o grupo iniciou sua jornada amazônica em Belém do Pará, a 19 de maio, subindo toda a calha do Rio Amazonas até Iquitos, no Peru; e depois, no retorno, enveredando pelo Rio Madeira, até Porto Velho, onde os forasteiros percorreram um trecho da Ferrovia Madeira-Mamoré. Entre uma e outra escala amazônica, os ilustres paulistas detiveram-se durante quatro proveitosos dias em Manaus (e mais dois dias adicionais intercalados na volta do Peru e, depois, no retorno da região do Madeira), para conhecer e desfrutar das singularidades da antiga “capital mundial da borracha”, antes do regresso ao Pará e ao Sudeste do país.

O TURISTA APRENDIZ – MÁRIO DE ANDRADE: UM MODERNISTA EM MANAUS (Parte II)

 

       

 

 

       

 

       As impressões de Mário de Andrade de sua estadia na Amazônia foram registradas, de modo quase telegráfico, em seu diário de bordo, com a intenção de servirem de material para um livro futuro que, infelizmente, jamais saiu do papel.  O lapso somente seria corrigido cinqüenta anos depois, em 1976, quando as notas de viagem do escritor paulista foram editadas pela sua conterrânea Telê Porto Ancora Lopez, sob o título de O Turista Aprendiz – um epíteto, aliás, conferido pelo próprio Mário, na epígrafe de suas anotações manuscritas. São relatos, evidentemente, saborosos e de uma riqueza sociológica única, registrados por uma mente arguta, curiosa, mas, de modo geral, bastante humilde, que se mostrou fascinada diante do vasto universo natural e cultural que se descortinava diante de seu olhar tão urbano. Em Manaus, como era de se esperar, D. Olívia e o escritor foram recebidos como verdadeiras celebridades por toda a intelectualidade manauara, andando de “seca a meca” de um lado para o outro, sem pausa para descanso: do Palácio Rio Negro ao Mercado Municipal, do Teatro Amazonas ao Tarumã, do Careiro ao Lago do Catalão. Leiamos, pois, alguns trechos dessa sintética narrativa, como forma de celebrar a reverência e o deslumbramento genuinamente turísticos do afamado intelectual diante da pitoresca e interessante Manáos de meados dos anos 20, a mesma cidade que seu colega Euclydes da Cunha – um misantropo, antipático e snob a não mais poder – tanto menosprezara e ridicularizara, quando aqui esteve em 1905, vinte anos antes de Mário: (Obs: os parênteses são de minha lavra, para melhor situar o leitor da atualidade)

       - “5 de junho - Depois de mais uma tempestade noturna, chegamos dia claro em Manáos” (vindos de Itacoatiara). “(...) E toca pro Palácio Rio Negro, onde imediatamente se dá recepção oficial, pelo presidente em exercício, um número de simpatia” (referia-se a Antônio Monteiro de Souza, substituindo interinamente Ephigenio Salles no governo do Estado). “Depois, toca pra ‘Chácara Hermosina’ onde tivemos um almoço colossal, mas colossal!” (chácara do corretor João Hermes de Araújo, localizada no KM 17 da antiga Estrada do Tarumã, onde o grupo permaneceria até o entardecer). “Depois da volta, aproveito o crepúsculo para visitar a ‘zona estragada’ com o coronel comandante da polícia. Depois, vamos ao bairro da Cachoeirinha, visitar o arraial da Igreja do Pobre Diabo, onde tinha festa, como as nossas mesmo: pau-de-sebo, leilão, ‘dou-lhe uma, dou-lhe duas’... Sono calmo e digno. Nessa mesma noite provei sorvete de graviola. Esquisito... A graviola tem gosto de graviola mesmo, isso é incontestável, mas não é um sabor perfeitamente independente. (...)”. P. S: a título de curiosidade, cabe especular de quem teria partido a inusitada ideia de ciceronear uma personalidade dessa envergadura social e intelectual pelas ruas da “zona estragada” (leia-se, o baixo meretrício) da cidade. ‘Très bizarre’, como diriam os franceses... 

       “6 de junho – De manhã, bonde e passeio oficial até a Fábrica de Cerveja. Tarde também oficial. Hospital, orfanato e exposição Ângelo Guido. Não compramos! (...) Noite livre, minha, com Raymundo Moraes, Da Costa e Silva e outros; infensos a qualquer espécie de ‘futurismo’, porém que se sentiram no dever confrade de me visitar. Aliás, simpaticíssimos, conversa ótima, pouca literatura, muito Amazonas e felicidade, com que me trouxeram a bordo às três horas da madrugada. Me deram o ‘opúsculo de caçoada’, sem maldade, que publicaram por causa de minha vinda futurista. Mas não chega a ser engraçado”.

        “7 de junho - Passeio em duas lanchas oficiais pelo Careiro, tempo feio. Largamos o Negro e tomamos pelo Paraná do Catalão. Fomos ao Lago de ‘Amanium’ - não escutei bem esse nome, preciso perguntar. Mas que coisa sublime o lago, inteirinho cercado de mato colossal, calmo, uma calma encantada, em que os ruídos, gritos de animais, estalam sem força pra viver. Solidão pura e livre, nada triste. Lá estavam as vitórias-régias, com os aguapés e socós nas folhas. Voltamos ao crepúsculo. Corrida das duas lanchas. De noite, sem o que fazer, largados pelos da terra, que desejavam que descansássemos, fomos ao cinema (Odeon). (...)”.

         “8 de junho – De manhã, visita ao Mercado de Manáos, bem menos interessante e menos rico que o Belém. Provamos o ‘coco’ tucumã, que achei ruim a valer. No almoço provamos o matrinxã, que achei dos melhores peixes do Amazonas. Visita à Fábrica de Beneficiamento de Borracha e à Associação Comercial... (...) Me esqueci: a pupunha com melado é uma gostosura. Partimos de Manáos às 17 horas, todo o corpo administrativo do Estado no cais com banda de música. Vida de bordo. Isso da gente ser o único homem duma viagem com mulheres pode ser muito masculino, mas...”

        No dia 2 de julho, quando do retorno da excursão ao Alto Amazonas, registrou ainda Mário de Andrade as seguintes observações:

        “Madrugamos em Manáos. Perfeito. Almoço em terra. Fujo visitas a colégios. Conversa com Raymundo Moraes no ‘Ponto Chic’. O Clóvis Barbosa, redator da ‘Redempção’, simpático. (...) Achei Manáos mais quente que Iquitos... Aliás, essa história de calor, a gente mais ou menos se acostuma... Não se acostuma por causa dos naturais desta terra, que não se esquecem de nos dizer todo dia e todo o dia que ‘no dia de hoje está fazendo um calor excepcional”. E, já no fim do dia, ao ser brindado com o majestoso pôr-do-sol no Rio Negro, Mário não se fez de rogado, deitando toda a sua verve poética em louvor do espetáculo natural que tinha diante dos olhos: “(...) E principiou um dos crepúsculos mais imensos do mundo. É impossível descrever. Fez crepúsculo em toda a abóbada celeste, norte, sul, leste, oeste. Não se sabia pra que lado o sol deitava, um sol todinho em rosa e ouro, depois lilás e azul, depois negro e encarnado, se definindo com furor. Manáos a estibordo. As águas negras por baixo. Dava vontade de gritar, de morrer de amor, de esquecer tudo. Quando a intensidade do prazer foi tanta, que não me permitiu mais gozar, fiquei com os olhos cheios de lágrimas.“

     E, por derradeiro, as últimas emoções do ‘pit stop’ da temporada manauara, nos dias 20 e 21 de julho de 1927, quando do retorno de Porto Velho: inauguração da “Parada Olívia Penteado” – em homenagem à sua patronesse – na recém-aberta Estrada do Rio Branco (atual BR-174); seguido de um lauto jantar no elegante restaurant do Grande Hotel, à Avenida Sete de Setembro, esquina com a Rua Marechal Deodoro, regado a bons e vinhos e postas de... filés de tartaruga! Petisco exótico sobre o qual teceu o seguinte comentário: “Muito bom! Estes filés de tartaruga vão me deixar com saudades”. Fechando a noite, uma “esticada” à animada e concorrida Leitaria Amazonas, à Avenida Eduardo Ribeiro, muito bem acompanhado da “nata” da intelectualidade local: Raymundo Morais, Clóvis Barbosa, Coriolano Durand, José Chevalier... Podemos bem imaginar a sofreguidão de Mário ao tentar sorver um pouco da vasta cultura regional de Moraes, um homem vivido e experimentado na lida da Marinha Mercante nos altos rios, autor do clássico Na Planície Amazônica (dentre outras tantas obras) e considerado um dos primeiros “amazonólogos” em termos literários.       

       No dia seguinte, às vinte horas, Mário de Andrade partiria de Manaus definitivamente, de volta à sua “Pauliceia Desvairada”. Em seu diário de bordo, o grande literato sedimentou suas derradeiras impressões do último dia passado entre nós: “Dia 21 de julho. Levanto cedinho, comprar peles de onça. Às dez horas, visita à Prefeitura, e, em seguida, ao Campo de Demonstração (Seringal Miry), ver o corte ‘racional’ da borracha, com a fabulosa ‘faca Amazonas’. Bonito, as folhinhas novas das seringueiras. São prateadas!

       Almoço no Palácio Rio Negro. Francamente, esta hospitalidade baré está delicadíssima, generosíssima, agradabilíssima! Depois, delicioso passeio e respectivo lanche no bosque da Cachoeira do Tarumã. O Chevalier foi. E o mineirinho inteligente... Como é mesmo o nome dele?”            .....................................................................................................................

       Todavia, a mais emblemática declaração de Mário de Andrade sobre a capital amazonense, e que passaria para a crônica histórica da cidade, foi dada por ele semanas antes, quando aqui aportara pela primeira vez. Entrevistado por um jornalista local, Mário, elegante e sutil, definiu Manaus, metaforicamente, como uma “deliciosa mulher de duas idades”. O que deixou seu interlocutor intrigado, que rapidamente o inquiriu: “De duas idades?” Ao que Mário respondeu, sagazmente, deixando entrever a sua total percepção da natureza mutante e ao mesmo tempo nostálgica, que, já naquela época, permeava a “alma” da cidade, outrora tão opulenta e tão vaidosa de si mesma, com um olho no passado e outro no futuro:  

     - Pois é, Manáos já foi uma virgem linda. Agora é uma mulher fecunda, que ainda traz na sua atualidade a presença do passado. Nos tempos áureos da borracha, viveu se enfeitando: vosso teatro, vosso monumento à abertura dos portos amazônicos, vosso Palácio Rio Negro, ainda são as jóias desse tempo leviano. Depois... jucurutu agourenta regongou nos vossos telhados. A borracha decaiu, mas, pelo que vejo e me contaram, administrações mais que eficientes surgiram e Manáos já vai passando de virgem de luxo a mulher fecunda”.     

 

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     Terá Mário de Andrade por acaso notado algum perdido laivo de desvario metropolitano na já então provinciana “Bariceia” do fim dos anos 20? E com quantos “Macunaímas” terá se deparado em suas lúdicas andanças por estas veredas tropicais, bem como pelos demais sertões amazônicos que visitou ao lado de ‘madame’ Penteado - certamente inspiradoras de sua singular criação literária? Enfim, se o poeta modernista gostou ou não gostou da nossa terra, no “frigir dos ovos”, pouco importa afinal. Mas que ele certamente aqui desfrutou de um verdadeiro banquete “antropofágico” (no sentido cultural), e de mais de um banquete “pantagruélico” (no sentido gastronômico), isso é certo...          

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Crédito das imagens: Acervo do Instituto de Estudos Brasileiros, constantes da obra O Turista Aprendiz (1976), disponíveis on line através da Rede Mundial de Computadores (Internet).

Artigo publicado em 26.05.2024.

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MIRANTE DE SÃO VICENTE – UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL?

                                                                                                         Por Ronald Péres

 

             Desde o início do mês, os veículos de mídia da Prefeitura Municipal de Manaus vêm divulgando, com bastante destaque nas redes sociais, a inauguração, no dia 4 de abril, do novo MIRANTE DE SÃO VICENTE – oficialmente batizado de “Mirante Lúcia Almeida”, em homenagem à falecida consorte do atual alcaide. Aberto no início da Avenida Sete de Setembro, o mirante é o cerne de um belo projeto turístico que tem tudo para ser um ‘turning point’ no marasmo de décadas em que se encontra “adormecida” uma zona muito especial de nosso centro histórico. Refiro-me ao antigo e seminal bairro de São Vicente, o “chão-berço”, o “marco zero” dos manauaras, local de fundação da cidade e, por mais de dois séculos, de nossa identidade societária.

             Para os cidadãos menos afeitos à história e à geografia de Manaus, já forneço as devidas coordenadas, a fim de que todos se situem sem necessitar do auxílio do ‘Google Earth’ ou de qualquer outro aplicativo do gênero. Trata-se do perímetro urbano, de formato irregularmente triangular, que, tendo por base o eixo formado pela Rua da Instalação e o lado ocidental da velha Praça da Matriz, segue na direção oeste até a  antiga Ilha de São Vicente, ocupada há anos pela Marinha, como sede do 9º Comando Naval. Centralizado em torno do aprazível bosque da Praça Dom Pedro II - nosso primeiro jardim público, de 1894, com seu gracioso coreto e seu belíssimo chafariz importados da Inglaterra – ali se  encontram ruas e becos antiqüíssimos, que são (ou deveriam ser, pelo menos) velhos conhecidos das famílias mais tradicionais desta terra: a Rua Bernardo Ramos (a mais charmosa e pitoresca de todas elas, repleta de lindos casarões construídos durante o Ciclo da Borracha), a Frei José dos Inocentes, a Governador Vitório, a Itamaracá, a Henrique Antony, a Taqueirinha, o Beco José Casimiro, o Beco do Céu (ou “Bairro” do Céu, para não fugir à tradição popular)... Vias e vielas pitorescas, plenas de “cor local”, ladeadas por edifícios igualmente ancestrais e emblemáticos de nossa urbe: o Paço da Liberdade (outrora sede da Prefeitura), o Palácio Rio Branco (antiga Assembleia Legislativa Estadual), a velha Câmara Municipal, as ruínas do icônico Hotel Cassina (ora reaproveitadas num projeto modernista e de gosto duvidoso); e os seculares endereços do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas (IGHA), de 1917; e da Loja Maçônica “Esperança e Porvir”, de 1894. Sem falar nas impressionantes instalações portuárias da ‘Manáos Harbour’ – o velho cais flutuante do ‘Roadway’, conhecido de todos os amazonenses, talvez a maior e mais sólida herança que nos foi legada pelos ingleses, dentre outras relíquias mais.

                      Em suma, trata-se de uma região, em tudo e por tudo, de alta relevância histórica e inegável potencial turístico, sem dúvida nenhuma. Um perímetro que, não fosse a crônica falta de visão de muitos de nossos governantes pretéritos (estaduais e municipais), há muito já deveria ter sido convertido em nosso ‘Casco Antiguo’, em nosso ‘Old District’, como se diz, nos idiomas espanhol e inglês, dos perímetros urbanos especialmente caracterizados administrativamente como locais de especial interesse para o turismo. Vocação essa que, no caso do antigo bairro de São Vicente, tem tudo para se firmar de vez, a partir da entrada em cena do novo complexo à beira-rio. Uma área zoneada e afetada urbanisticamente, totalmente estruturada pelo poder público em termos de acessibilidade e segurança; e, com o apoio indispensável e sustentável da iniciativa privada, devidamente restaurada em sua integralidade, casa por casa, rua por rua. Com foco no turismo urbano de qualidade, no lazer proporcionado por um calendário periódico de feiras e espetáculos de rua, e nos serviços de excelentes bares, restaurantes, casas noturnas e outros estabelecimentos afins. Nada diferente do que qualquer cidade do Brasil ou do mundo que leve a indústria do turismo mais a sério que nós, e que já não tenha fomentado iniciativas semelhantes, em maior ou menor grau. Que o diga a nossa querida “irmã” Belém do Pará (com quem insistimos em alimentar uma pueril rivalidade histórica) e sua lindíssima “Estação das Docas”, ponto obrigatório de dez entre dez turistas que aproveitam as delícias e bem vendidas tipicidades da capital paraense. Já o nosso ‘Roadway’... Sem comentários! Relegado há anos à própria sorte, subutilizado pelos seus concessionários, envolvido em querelas jurídicas sem fim e completamente esquecido pela população. Um “combo” negativo e vicioso, em todos os sentidos, que redunda, ao fim e ao cabo, num total desperdício de história, de cultura, de entretenimento, e, claro, de preciosas divisas.  Simples assim.

 

              A  reabilitação – ou reordenação, ou requalificação, como queiram – do Centro Histórico de Manaus é um sonho antigo, acalentado por muitos manauaras que querem o melhor para sua cidade. Um devaneio cultivado por muitos intelectuais do passado e do presente, como meu saudoso pai, Jefferson Péres, que, desde seus tempos de vereador - tal e qual um pregador bíblico, clamando no deserto para ouvidos moucos - sempre advogou esse ideal, em seus constantes artigos de jornal ou em suas diversas falas públicas acerca do tema Manaus/Urbanismo/Patrimônio Histórico. Uma reivindicação pleiteada por tantos cidadãos viajados, ilustrados e de tirocínio, que não se conformam com o abandono e o desprezo a que tem sido há tempos relegado o nosso Centro, tanto pelo Governo quanto pelos particulares. Uma quimera imaginada por mim, manauara “de raiz” que sou, quando, desde criança, pude perceber as nuances daquele microcosmo tão singular e fascinante, muito curioso que sempre fui, com os olhos bem abertos para as coisas antigas, belas e de real valor. Isto a despeito do permanente receio e pudor sempre incutidos pelos mais velhos, naturalmente preconceituosos em relação àquela área marginalizada pela sociedade, devido ao estigma que sempre a cercou, ao ponto de receber o pejorativo epíteto de “A Zona”, antro de prostitutas, aliciadores, ladrões, bêbados, toxicômanos, tarados e vadios de toda espécie.

                     O projeto esboçado pelas equipes do IMPLURB e da Prefeitura Municipal é ambicioso e bem delineado, e, a priori, vem ao encontro dos anseios de todos aqueles que almejam a efetiva requalificação urbanística do velho bairro de São Vicente. Como se pôde observar por ocasião da inauguração da primeira parte do novo e belo mirante, aproveitou-se de forma inteligente a estrutura de concreto do feioso prédio da antiga empresa estatal CEAM (Centrais Elétricas do Amazonas), no início da Avenida Sete de Setembro, com localização mais que privilegiada, às margens do Rio Negro que, submetido a um total ‘retrofit’ - o jargão arquitetônico usado para se referir à reforma e adequação de velhos edifícios, com vistas a usos contemporâneos - passará a servir a partir de agora como a base de um grande complexo turístico, totalmente aberto à espetacular paisagem natural ao seu redor, dotado de terraços, varandas, bares, restaurantes, quiosques de guloseimas, palco para pequenos eventos musicais; e, como “cereja do bolo”, um novo píer para atracação de barcos de turismo, a ser inaugurado em breve, segundo a promessa feita pelo senhor prefeito.

 

                É, enfim, um grande passo, uma boa semente a ser plantada, que, de coração, como alguém que ama de fato a sua cidade, rogo a Deus para que medre, e, vicejando, floresça e dê seus frutos, como, quem sabe, a restauração da linda torre da antiga Cervejaria Amazonense, no vizinho bairro de Aparecida, outrora um símbolo industrial de Manaus, de propriedade da tradicional família Miranda Corrêa, e hoje injustamente esquecida e apartada da cidade, relegada a uma pálida reminiscência do esplendor que já teve um dia. Outra grande possibilidade que também pode advir de tal projeto é a recuperação antigo arranha-céu do IAPETEC, hoje INSS, o primeiro prédio de apartamentos de Manaus, inaugurado em 1953. Por que não reconvertê-lo à sua primitiva feição, em estilo modernista dos anos 40/50, e torná-lo novamente um imóvel residencial (ou quiçá um apart-hotel), atraindo uma nova leva de moradores ao bairro de São Vicente. “Sonhar não paga imposto”, como se costuma dizer!                  

                 Frutos semelhantes aos que brotaram no projeto do novo Largo de São Sebastião, implantado há quase vinte anos pela Secretaria Estadual de Cultura, sob muitas críticas e a má-vontade de praxe da “turma do contra” e dos “arautos do pessimismo”, mas que hoje está aí, para quem quiser conferir: o entorno do Teatro Amazonas completamente saneado e auto-sustentável, com cinco charmosos hotéis-boutique à sua volta, dois deles de padrão internacional (Villa Amazônia e Juma Ópera), restaurantes, bares, cafés, lojas de artesanato, centros culturais (Banca do Largo, Galeria do Largo, Casa das Artes), e, mais recentemente, a prometida volta da prestigiada Livraria Valer ao seu “ninho” central, a abrir suas portas em breve à Rua José Clemente. Um círculo virtuoso, um bastião de resistência, que teima em se manter sozinho em meio à desolação que, muito antes da pandemia, fez morada no restante do Centro Histórico, repleto de placas de “aluga-se” ou “vende-se”, lojas fechadas nos calçadões da antiga área comercial da Zona Franca, lindos casarões transformados em cortiços ou literalmente caindo aos pedaços e, para nos deprimir ainda mais, todo o entorno do antigo bairro dos Remédios convertido numa “terra de ninguém”, sem lei, sem ordem, sem segurança, sem moradores. Uma “zona cinzenta”, tomada por meliantes, viciados em ‘crack’ e outros entorpecentes, ou simplesmente pessoas desvalidas, sem as mínimas condições de sobrevivência, vivendo ao léu, vagando pelas ruas, deitadas sob as marquises, jogadas pelas gretas e sarjetas da vida, amargando um estado de sub-cidadania que degrada a todos nós enquanto sociedade. Almas perdidas, engolidas pela voracidade da progressista metrópole da Amazônia. Progresso que precisa ser mais democrático, como em todo o Brasil, aliás, para que possa fazer jus ao verdadeiro sentido da palavra. A roda do progresso precisa girar, sim, mas a nosso favor. A favor da Manaus que almejamos e que merecemos.

   

‘Tutti Auguri’ ao novo e belo Mirante de São Vicente! Que venha com muito sucesso, trazendo consigo outras bonanças e benesses...    

 

Crédito da imagem: IMPLURB/Prefeitura Municipal de Manaus. 

Artigo publicado em 28.04.2024.

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