
Exercício de Abaporutação: o esgotamento como insurgência performativa
Assistir à performance Exercício de Abaporutação, apresentada em 8 de junho nas instalações do Sinttel, foi presenciar uma experiência de resistência cênica que desloca o espectador de uma posição contemplativa para uma condição de partícipe de um acontecimento em permanente transformação. Dirigida por Dimas Mendonça e interpretada por Chico Caboclo e Lívia Cruz, e na sonoplastia Luan Moço, a obra inscreve-se no território híbrido entre teatro e performance, onde as fronteiras entre representação e experiência são deliberadamente desestabilizadas.
A noção de "abaporutar", desenvolvida no processo de criação do solo Abaporutação, parte do acúmulo e da repetição exaustiva de referências, imagens e ações até o seu esgotamento. Trata-se de um procedimento que não busca a síntese ou a resolução dramática, mas o desgaste das formas instituídas de sentido. A família, a religião, a arte e os papéis sociais surgem como estruturas submetidas a uma espécie de implosão performativa.
A performance desenvolve-se em cinco momentos distintos. O primeiro apresenta os performers e os exercícios que serão realizados dentro de um espaço delimitado por folhas de papel branco. Esse espaço funciona simultaneamente como cenário, dispositivo e superfície simbólica. O branco sugere um estado de potencialidade, uma página ainda não escrita, mas também uma espécie de laboratório onde os corpos serão testados em seus limites.
Na segunda etapa, os intérpretes realizam exercícios repetitivos e sincronizados sem interrupção. A repetição, longe de representar mera redundância, produz uma alteração perceptiva. Como afirma a filósofa Gilles Deleuze, repetir nunca significa reproduzir o mesmo, pois cada repetição gera diferenças, deslocamentos e novas intensidades. O gesto reiterado deixa de ser funcional e torna-se um acontecimento em si mesmo.
Nesse aspecto, a obra aproxima-se das pesquisas de Márcia Lança, cuja criação artística privilegia a materialidade das ações concretas, o pensamento enquanto ação e as composições coletivas emergentes. Em trabalhos como Dentro da Cabeça e Quase Nada é um Plano, a artista portuguesa investiga precisamente a potência poética que emerge da permanência de uma ação e das relações produzidas entre corpos em situação. Em Exercício de Abaporutação, a repetição também deixa de ser um mecanismo narrativo e transforma-se em condição de presença.
A terceira etapa, na qual os performers explicam os procedimentos da própria performance, introduz um dispositivo metalinguístico que rompe a ilusão cênica e aproxima a obra de estratégias brechtianas. O espectador é constantemente lembrado de que está diante de uma construção. Contudo, essa revelação não reduz a potência estética da obra; pelo contrário, produz uma camada adicional de reflexão sobre o fazer artístico e sobre os mecanismos de produção de sentido.
É na quarta parte que a performance alcança seu momento de maior tensão. Os exercícios repetitivos são abandonados e instaura-se um processo de desconstrução que altera radicalmente a atmosfera do espaço. O público deixa de ser observador e passa a integrar a dinâmica da obra. O que parecia uma estrutura organizada dissolve-se em caos.
Esse deslocamento dialoga com as experiências de Marina Abramović, que frequentemente transforma a presença do espectador em elemento constitutivo da obra, e com Tino Sehgal, cuja produção dissolve os limites entre performer e audiência, convertendo a obra em uma situação relacional. O caos instaurado em Exercício de Abaporutação não representa desordem gratuita; ele funciona como estratégia de suspensão das convenções sociais e teatrais, produzindo uma experiência de vulnerabilidade compartilhada.
A etapa final é marcada pelo apagamento das luzes, pela penumbra, pelo silêncio e pelo acendimento de velas enquanto poemas de Bertolt Brecht são declamados. Depois do excesso de movimento e da saturação física, a obra encontra um instante de suspensão. A palavra poética emerge como resíduo de uma experiência de esgotamento.
A presença de Brecht não parece casual. Sua dramaturgia sempre buscou impedir a passividade do espectador e estimular uma consciência crítica diante das estruturas de poder. Em Exercício de Abaporutação, os poemas, pronunciados em meio à obscuridade, operam como uma espécie de convocação ética e política. O silêncio deixa de ser vazio e converte-se em espaço de reflexão.
A performance evidencia que o esgotamento pode constituir uma forma de insurgência. Ao repetir ações até a exaustão, ao desconstruir a própria representação e ao envolver o público em um processo coletivo de instabilidade, a obra produz aquilo que Márcia Lança identifica como uma composição situada: um acontecimento que se constrói na relação entre corpos, espaço e tempo presente.
Mais do que representar personagens ou narrar uma história, Exercício de Abaporutação investiga as possibilidades de existência que surgem quando as máscaras sociais são repetidas até perderem sua eficácia. O resultado é uma experiência liminar, situada entre o teatro e a performance, entre a ordem e o caos, entre a representação e a vida. O "abaporutar" revela-se, assim, um gesto profundamente político: esgotar as formas conhecidas para imaginar outras maneiras de estar no mundo.
Roberto Suárez Rengifo
Artista Plástico
Publicado:21/06/2026

